DEBOÍSMO E O ESTOICISMO

Num momento em que a insatisfação do povo brasileiro explode através da raiva, marcado por protestos, panelaços e discussões sem fim nas redes sociais, surge na Internet um movimento que prega o “ficar de boas”, ou seja, estar de bem com você, com a vida e com o próximo. É o Deboísmo, cujo símbolo é uma preguiça.

DEBOÍSMO E O ESTOICISMO

11 Sugestões do Deboísmo:

1 – Não tretarás com seu próximo, pois és de boas.
2 – Pequenos problemas não lhe atingirão, se você for de boas.
3 – Ser de boas também significa respeitar opiniões alheias.
4 – Contagie o Deboísmo.
5 – Não importa tua opção sexual, faça amor e fique de boas.
6 – Sua mente vai responder a maioria das perguntas se você aprender a relaxar e ficar de boas.
7 – Um dos meios de se chegar a verdade é por meio de um bom sono.
8 – Ouça boas musicas, elas tem o poder de te deixar de boas.
9 – Para que tudo fique bem, mantenha corpo, mente e alma saudáveis, e assim serás de boas.
10 – Respeite a Mãe Terra, pois ela estava de boas antes de existirmos.
11 – No mais, fique de boas, e seja feliz. 😀

De acordo com Marco Rigobelli, o movimento começou com a Jessica Souza criando uma página no Facebook chamada Feminismo Deboísta porque o feminismo tinha e ainda tem dissidências internas que acabavam levando as mulheres a brigarem entre si. Ela ficou de saco cheio dessas brigas e criou a página porque queria lembrar que, mesmo discordando em detalhes, o objetivo de todas era o mesmo. E que brigar entre si não ajudava a causa e as mulheres precisavam ficar de boa entre elas pra poder lutar contra o machismo.

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A ideia do Deboísmo acabou pegando rápido e ganhando uma página própria. Como quase tudo o que ganha a simpatia das pessoas na internet, isso foi usado e reusado. A Jessica eventualmente se cansou do rumo que tudo tomou e deixou a página dela. A coisa toda adquiriu ares oficiais de religião com uma nova página de Facebook chamada Deboísmo: Igreja dos de boas. Segundo Laryssa, uma das criadoras, a intenção é unir as pessoas em torno de uma ação que propague o respeito à opinião alheia, amor ao próximo e boa convivência. “A gente colocou na página que é uma instituição religiosa, mas deixamos claro que temos muito respeito por todas as religiões. Não importa sua crença, o que importa é a maneira que você se comporta com o outro. Usamos religião porque é uma forma de aplicação prática de uma filosofia. E une as pessoas em torno de uma ação. Não temos pretensão de tornar o Deboísmo em uma instituição. Brincamos que o nosso templo é você, em comunhão, em casa, deitado no sofá, assistindo Sessão Da Tarde. De boas”. Carlos, outro fundador da página, acrescenta: “Algumas pessoas acabam achando que estamos pregando inércia, que a pessoa seja um pastel. Não é isso. O Deboísmo não prega que você não fale, apenas que você procure a melhor forma de falar. Caso você veja uma injustiça, por exemplo, não vá lá e grite, xingue e acabe sendo injusto também. Há uma maneira de falar isso”.

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Embora o objetivo seja o mesmo da página original, a diferença de tom é clara, logo vista na alteração da formulação dos preceitos básicos do Deboísmo:

1 – Não faça aos outros o que não quer que façam com você.
2 – Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal;
3 – Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito;
4 – Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade;
5 – Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento;
6 – Sempre tente aprender algo de novo;
7 – Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles;
8 – Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você;
9 – Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros;
10 – Questione tudo.

Uma coisa permanece clara: o respeito às opiniões alheias. E é exatamente este o problema que o Deboísmo está enfrentando nessa rápida expansão. Pessoas passaram a usar o Deboísmo de forma passivo-agressiva. Jéssica, a fundadora, fez um post pra demonstrar sua insatisfação com os rumos do movimento:

O problema não é espalharem a ideia, o problema não é fazerem canequinhas e camisetinhas sobre isso, o problema é se apropriarem de algo, esvaziarem de significado e usarem isso CONTRA as pessoas, pra silenciar, pra promover submissão e pra chamar as pessoas que lutam de histéricas e derivados. É esse o problema, e quem não vê isso, não vê porque não tá a fim, porque tá bem aí na cara de vocês.

Não quero reconhecimento, não quero dinheiro (nunca quis), só quero que essa porcaria de piada caia no esquecimento o mais rápido possível e que vocês parem de levar isso a sério, porque eu não aguento mais grandes corporações e o governo tirando todo o significado de uma coisa que era importante pra mim (e pras minhas amigas).

Agora eu sei bem como Dr. Frankenstein se sentia. (Isso não é pros criadores da página Deboísmo, que já vieram conversar comigo antes, isso é pra todo mundo que tá na pira de falar pro mundo inteiro como é lindo ser de boas, mas não sabe reconhecer que nem todo mundo tem esse privilégio na vida de não ter que lutar pelas coisas.

Jéssica Souza
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Apesar de terem conseguido criar uma treta dentro de um movimento que prega a não-tretação (coisas da Internet!), o Deboísmo tem raízes em um outro movimento filosófico que surgiu na Grécia, no início do século III a.C: o Estoicismo.

O estoicismo afirma que todo o Universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estoicos tomam de Heráclito de Éfeso e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino como parte de um Todo, ao qual pertence. Este Logos (ou Razão Universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um Kosmos (termo grego que significa Harmonia). O homem sábio obedece à lei natural, reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo, assim, manter a serenidade ou indiferença (Apathea, e daí surge o termo “Apatia”) perante tanto as tragédias quanto as coisas boas.

O estoicismo ensina o desenvolvimento do autocontrole e da firmeza como um meio de superar emoções destrutivas. Um aspecto fundamental do estoicismo envolve a melhoria da ética do indivíduo e de seu bem-estar moral: “A virtude consiste em um desejo que está de acordo com a natureza”. Este princípio também se aplica ao contexto das relações interpessoais; “libertar-se da raiva, da inveja e do ciúme” e aceitar até mesmo os escravos como “iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza”.

Exemplo de uma filósofa Estóica-Deboísta (“Repórter entrevista garota depois de fumar um cachimbo da paz”)

Com relação àqueles que não têm a virtude estoica, Cleanto uma vez opinou que o homem ímpio é “como um cão amarrado a uma carroça, obrigado a ir para onde ela vai”. Já um estoico de virtude alteraria a sua vontade para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epiteto, “doente e ainda feliz, em perigo e ainda assim feliz, morrendo e ainda assim feliz, no exílio e feliz, na desgraça e feliz”.

O estoicismo tornou-se a filosofia mais popular entre as elites educadas do mundo helenístico e do Império Romano, a ponto de, nas palavras de Gilbert Murray, “quase todos os sucessores de Alexandre declararem-se estoicos”.

Uma característica distintiva do estoicismo é o seu cosmopolitismo: todas as pessoas seriam manifestações do espírito universal único e deveriam, de acordo com os estoicos, em amor fraternal, ajudarem-se uns ao outros de maneira eficaz. Nos Discursos, Epiteto comenta sobre a relação do ser humano com o mundo: “cada ser humano é, primeiro, um cidadão da sua comunidade; mas também é membro da grande cidade dos homens e deuses…” Este sentimento ecoa o de Diógenes de Sínope, que disse “Eu não sou nem ateniense nem coríntio, mas um cidadão do mundo.”

diogenes estoicismo
O filósofo grego Diógenes morava em um barril de vinho, como o Chaves, e era conhecido por ser zoeiro. Ao observar um arqueiro falhando em acertar seu alvo, Diógenes foi e sentou-se ao lado dele, dizendo que era o lugar mais seguro. Quando viu o filho de uma prostituta jogando pedras em uma multidão, ele disse: “Cuidado, filho. Não acerte o seu pai”.

E para celebrar este momento em que uma antiga filosofia volta à vida através da Internet, compartilho um cântico de louvor Deboísta:

Suede – Everything Will Flow

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