DOUTOR ESTRANHO REVISITADO

Dois anos desde que o primeiro trailer de Doutor Estranho foi lançado e “estourou minha cabeça”.

Prometia muito, e entregou. Fiquei deslumbrado pelo visual, atuações e um final realmente convincente saindo da fórmula batida de derrotar de forma previsível um vilão sem graça, muito embora tenhamos um vilão secundário sem graça (o Kaecillius), mas a real ameaça era mesmo o misterioso Dormammu. Vi duas vezes no IMAX, pois sabia que dificilmente veria outro filme tão deslumbrante na tela grande quanto esse, e até agora, 1 ano e meio depois, ainda não surgiu realmente. Depois de Capitão América: Soldado Invernal este é, empatado com Pantera Negra, o melhor filme da Marvel. Ele representa o primeiro produto de uma Marvel Studios renovada, pois desde então Kevin Feige (produtor e presidente da Marvel) não responderia mais ao CEO da Marvel Ike Perlmutter, uma pessoa notoriamente inconstante e adversa à diversidade, e nem a Marvel Studios estaria sujeita ao Comitê Criativo da Marvel, cujo processo infernal de notas de estúdio era uma fonte de discórdia nos bastidores. Em vez disso, Feige começou a responder diretamente ao Presidente do Conselho de Administração da Disney, Alan Horn, mais amigável com cineastas. Não muito tempo depois, a Marvel anunciou filmes como Pantera Negra e Capitã Marvel e diretores como Ryan Coogler (Creed) e Taika Waititi (O que fazemos nas sombras) depois de apenas homens brancos terem sido o foco principal em ambos os lados da câmera.

Doutor Estranho acabou sendo o primeiro filme da Marvel a mudar seu foco cultural na hora de contar sua história. E para explicar isso detalhadamente escolhi traduzir partes desse artigo do Slashfilm.com, escrito por Siddhant Adlakha, que está fazendo matérias de cunho mais psicológico e espiritual de cada filme da Marvel em antecipação ao tão aguardado Vingadores: Guerra Infinita. Segundo próprio diretor de Doutor Estranho, Scott Derrickson, é o artigo favorito de todos os já publicados sobre o seu filme:

DOUTOR ESTRANHO REVISITADO

Stephen Strange tem uma relação complicada com o paradigma tipicamente ocidental de contar histórias de super-heróis/ação. Por um lado, ele faz parte de uma onda de décadas de apagamento orientalista que centra personagens brancos em narrativas asiáticas, onde os locais e os personagens de cor servem apenas como alimento pra autodescoberta de um homem branco. Por outro lado, essa encarnação particular de Strange trabalha dentro dessa estrutura problemática e tradicional para preencher uma lacuna na abordagem narrativa. As razões iniciais de Dr. Strange para viajar ao Nepal envolvem o desejo de dominar o físico. Neste caso, uma cura corporal, embora seja comparável ao domínio sobre o combate físico visto em Batman Begins, Punho de Ferro, Arrow, O Último Samurai e incontáveis outros exemplos de homens brancos viajando para o leste e se tornando figuras “escolhidas”.

Em Doutor Estranho, no entanto, Stephen Strange é imediatamente colocado pra desaprender seus preconceitos narrativos, e empurrado para uma forma de harmonia espiritual que existe para além do físico.

As histórias de super heróis/ação ocidentais, no que se refere a esses contos orientais, podem ser rastreadas até a Doutrina do Destino Manifesto – através de décadas de absorção cultural, se não de intenção direta. Seja qual for a forma que essas ideias sócio-políticas do individualismo ocidental e do excepcionalismo americano adotem no mundo real, em um contexto narrativo, elas são frequentemente externalizadas mais como poder pessoal do que como liberdade pessoal. Uma forma de dominação nascida da autodeterminação, e não da harmonia através da auto-realização. Robert J. Miller lista os princípios do Destino Manifesto (no que se refere à conquista histórica dos nativos norte-americanos) como a crença dos americanos brancos em “virtudes especiais do povo americano e suas instituições”, sua missão de “refazer o mundo à imagem da América” e, mais importante ainda, “um destino divino sob a direção de Deus”.

E enquanto poucas histórias de ação ocidentais aderem especificamente a esses princípios em um contexto histórico, a idéia de Destino Manifesto penetrou e tem influenciado o storytelling americano por séculos, enraizada a ponto de ser um padrão subconsciente. Mesmo em Capitão América: Soldado Invernal, sem dúvida o melhor filme da Marvel até agora, é o homem branco envolto em uma bandeira americana que derrota um Império do mal através da força física.

Doutor Estranho, por outro lado, contorna a narrativa do “chamado para um poder físico maior” ao ter em si a história sobre a compreensão do eu. Stephen Strange vê as habilidades mágicas como um meio para de curar suas mãos, ao invés de usá-las para a batalha (Embora até mesmo este objetivo seja puramente físico, e esteja ligado de maneira direta ao seu individualismo egoísta). Mas quando o vilão Kaecillius apresenta a Strange a história de Dormammu – uma força maligna que promete a vida eterna – isso não interfere na jornada de Strange em termos de apresentá-lo a um novo caminho.

Após 1 hora de filme Strange aprendeu a não buscar força, mas conhecimento. Seu treinamento em Katmandu envolveu a retirada das paredes mentais colocadas pelas estruturas ocidentais, permitindo-lhe uma compreensão mais abrangente dos pontos de vista espirituais, mesmo que esses pontos de vista sejam uma colagem de variadas espiritualidades orientais. O momento de dúvida de Strange não vem da tentação de um grande poder, mas do reconhecimento do poder que ele já tem. Depois de ter fisicamente derrotado um dos discípulos de Kaecillius, embora em um reino espiritual paralelo ao nosso, Strange imediatamente verifica o pulso do discípulo. O oponente está morto e Strange não parece estar satisfeito com suas ações. Quando perguntado por Mordo (Chiwetel Ejiofor) e pela Anciã (Tilda Swinton) se ele quer se juntar a eles na proteção do multiverso, Strange recusa. Um cirurgião em sua vida anterior, embora alimentado pelo ego, o núcleo de Strange é o de um curador, não um lutador. Mesmo esta única morte começa a pesar na alma de Strange, colocando uma importância na vida humana de uma forma que nenhum outro filme da Marvel jamais fez.

Stephen Strange coleciona relógios da mesma forma que Tony Stark coleciona armaduras, como em Homem de Ferro 3. Mas quando confrontado com uma cirurgia especialmente perigosa, ele pede a seu colega cirurgião Nicodemus West para cobrir seu relógio de pulso. Seu tique-taque é um lembrete do potencial para o fracasso, e é esse mesmo potencial de falha que faz com que o Strange abandone casos médicos que parecem sem esperança ou sem atrativos. Ele quer curar as pessoas, mas apenas em seus próprios termos. Ele pode ser um médico, com duas das mãos mais firmes do mundo ocidental, mas ele está nisso principalmente pela glória. Ele não tem tempo para o fracasso, e como ele gasta seu tempo e dinheiro estão voltados para um único fim: ele mesmo.

O tempo é um fator chave em Doutor Estranho. Não só é o primeiro filme da Marvel a colocar uma Jóia do Infinito tão entranhada em sua história (O Olho de Agamotto é revelado como a “Pedra do Tempo”), seus heróis e vilões estão lutando batalhas com o tempo de uma forma ou de outra. Quando o acidente de Strange o deixa sem o pleno uso de suas mãos, outras pessoas se tornam um meio para um fim – um fim que ele lentamente percebe que não pode mais alcançar. Quanto menos eles puderem ajudá-lo a se curar fisicamente, mais descartáveis eles se tornarão. Ele não tem tempo para seus sentimentos, não tem tempo para sua pena e nenhum cuidado para quem não pode ajudá-lo a lutar contra seu impedimento físico. Quanto mais eles não conseguem ajudá-lo, mais ele se afunda em seu próprio fracasso, o próprio fracasso que ele passou toda a sua carreira evitando.

A Anciã (a professora mística de Strange) tem seus próprios problemas lidando com o tempo e o fracasso. Ela passou toda a sua vida – vários séculos, na verdade – tentando mudar o futuro, a fim de evitar um resultado que ela foi capaz de prever. Não importa que catástrofes ela evite, todo futuro que ela prevê termina da mesma maneira: no momento de sua morte. Ela, como seu ex-aluno Kaecillius – um homem atormentado pela morte de sua família – procura um caminho para a vida eterna. E enquanto a Anciã eventualmente se reconcilia com a idéia de sua mortalidade (apesar de sua vida estranhamente estendida), Kaecillius procura trazer a “Dimensão negra” de Dormammu ao nosso mundo para eliminar completamente o conceito de tempo. Kaecillius espera assim vencer a morte da mesma forma que a Anciã, e não muito diferente de Strange, o cirurgião.

O EGOÍSTA SENHOR DOUTOR

Enquanto a Anciã dá seu último suspiro, ela estica o momento de sua morte indefinidamente para que ela possa ver a chuva cair. Sua projeção astral deixa o egoísta Strange com uma última lição antes de deixá-lo à sua própria sorte: “Não é sobre você”.

Este mundo de guerreiros não é a narrativa de Strange. Sua história não é a de ter sucesso em dominar o combate, ou mesmo de dominar a morte, mas de aceitar a dor e o fracasso. É durante a aceitação da morte da Anciã que ela deixa duas escolhas ante ele: De um lado, Strange pode se tornar como Jonathan Pangborn, um paraplégico que usa seus dons mágicos para andar como antes, e assim voltar a ser cirurgião e retomar suas tentativas fúteis de controlar a morte em prol da glória pessoal. Ou, ele pode permanecer em seu novo caminho e continuar aprendendo, aceitando a morte e o fracasso como parte da vida – talvez até mesmo experiências que dão sentido à vida – à medida que ele expande sua visão de mundo além do que ele achava que conhecia. Como Siddhartha Gautama, o primeiro Buda, ele pode renunciar ao ganho material e achar novas maneiras de ajudar pessoas.

Strange passou a vida inteira adquirindo conhecimento. Sua memória fotográfica ajuda tanto com diagnósticos médicos quanto com informações sobre cultura pop, que ele usa para perturbar seus colegas. Ele continua sua busca pelo conhecimento, mesmo em Kamar Taj, dormindo enquanto seu Eu astral permanece acordado para ler, mas não é até a morte da Anciã que ele adquire uma nova sabedoria. O medo dela de morrer e o medo dele do fracasso estão intrinsecamente ligados, forças ligadas pelo Tempo, que nenhum dos personagens pode controlar. E é na aceitação dessas forças naturais que Strange é capaz de se tornar um salvador.

EU VIM PARA BARGANHAR

Quando Dormammu faz seu caminho para a Terra Strange só aparece depois que o obrigatório caos do terceiro ato da Marvel devasta uma cidade. A destruição de Hong Kong, no entanto, ocorre inteiramente fora da tela. Strange usa então a Jóia do Tempo para desfazer a batalha. Todos os danos às propriedades e todas as perdas de vida fluindo ao contrário, como se atuassem em oposição direta aos modernos blockbusters de ação de Hollywood. Pouco a pouco estruturas caídas começam a se levantar e as feridas das pessoas começam a cicatrizar. Strange, embora se intrometendo na lei natural, tornou-se um curador numa escala grande e mística. Depois disso, ele viaja diretamente para a Dimensão Negra, um mundo onde Dormammu transcendeu o Tempo e alcançou a imortalidade. Strange introduz a entidade demoníaca ao próprio tempo. O tempo, outrora inimigo de Strange e o inimigo de todos esses feiticeiros que buscavam a Vida Eterna, agora se tornou seu aliado, apesar do sofrimento que traz. Strange usa a Jóia para criar um loop temporal, começando com seu desafio de “Dormammu, eu venho para barganhar” e terminando com sua morte.

Strange aparece para barganhar. Ele desafia Dormammu. Ele é morto, dolorosamente e violentamente, antes que o loop comece de novo.

Aparece para barganhar. Desafia Dormammu. Morte dolorosa e violenta.

Aparece. Desafios, dor e morte.

Nós só vemos esse looping talvez uma dúzia de vezes, mas é algo que Strange provavelmente viveu centenas, se não milhares de vezes, prendendo Dormammu em um ciclo perpétuo onde o próprio Strange experimenta dor e fracasso ad infinitum. Se Dormammu deseja continuar vivendo sem estar preso pelo tempo, ele tem que aceitar a barganha de Strange de levar Kaecillius com ele e deixar a Terra para sempre. Através de sua sabedoria e aceitação da dor, Strange atinge uma forma de Moksha ou Nirvana, o conceito hindu, budista e jainista da libertação de ciclos perpétuos de morte e renascimento, um processo alcançado através da iluminação. Não só Strange encontrou uma maneira de curar a serviço dos outros sem o uso físico de suas mãos, mas ele superou seu medo do fracasso. Não por encontrar sucesso perpétuo – o tipo de sucesso centrado em torno de si mesmo e em torno de ganhar adoração – mas por não ter medo de falhar por toda a eternidade, a serviço de proteger os outros.

No final, Strange aceita suas mãos quebradas e seu relógio quebrado, um lembrete de que ele não pode controlar nem o tempo nem a dor, mas apenas aceitá-los como inevitáveis. Ao longo do filme, Strange atinge todos os três pilares do Taoísmo: Frugalidade, consertando a destruição inútil, Compaixão, trabalhando à serviço dos outros e Humildade, aceitando o fracasso pessoal em favor da glória. Sua jornada é a de abrir-se a novas idéias, seja ao aceitar visões filosóficas orientais que o ajudem a se relacionar consigo mesmo espiritualmente (ao invés de materialmente), ou aceitar dimensões espelhadas caleidoscópicas, que tornam as cenas de ação do filme uma festa visual única.

O design do filme baseia-se fortemente nos desenhos dos quadrinhos de Steve Ditko, apresentando novos mundos paralelos e possibilidades visuais, mas a narrativa do filme é a primeira incursão da Marvel em aceitar novas abordagens filosóficas para contar histórias. Os tipos de abordagens que estão fora do paradigma ocidental estabelecido, e os tipos que começamos a ver mais da Marvel nesta Jornada para Vingadores: Guerra Infinita.

0 0 vote
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
18 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.