APRECIE O SILÊNCIO

Por Rodolfo Katz e Acid

Depeche Mode – Enjoy The Silence

Palavras, como violência
Rompem o silêncio
Chegam destruindo
O meu mundinho
Doloroso para mim
Me atravessam

Promessas são feitas
Para serem quebradas
Sentimentos são intensos
Palavras são insignificantes
Os prazeres ficam
A dor também
Palavras não têm significado
E são esquecíveis

Tudo o que eu sempre quis
Tudo de que sempre precisei
Está aqui nos meus braços
Palavras são muito
Desnecessárias
Elas apenas causam feridas

Aprecie o silêncio

Essa é a base literária da música Enjoy the Silence, do Depeche Mode. Devo começar dizendo que eu amo essa música. Muitas vezes, quando estava pra baixo, eu costumava ouvir esta música e sorver a letra. Especialmente quando eu achava que não havia nada mais a dizer. No fim das contas é isso que a música quer que você acredite: que as palavras não têm significado e apenas causam feridas.

Mas eu tenho de discordar! Por que? Porque o ponto central da música não é sobre a destruição causada pelas palavras (embora seja só o que ele fala) mas sim o refúgio / consolo no silêncio, como uma forma de escapismo (“chegam destruindo o meu mundinho”, reforçado pelo clipe de um Rei em seu próprio mundo deserto).

Minha crença é a de que devemos dizer o que sentimos, o que queremos e o que necessitamos. Ao mesmo tempo, nós precisamos do silêncio para descobrir essas coisas. Precisamos do silêncio assim como precisamos de palavras. A falta de palavras (não sendo literal aqui, não estou excluindo os mudos, mas sim “palavras” como forma de expressão) também causa feridas. O silêncio presunçoso pode agredir tanto quando palavras de ódio. O silêncio como omissão também pode causar o mal. “Nenhum Homem é uma Ilha”, como dizia o poeta John Donne. Como os outros vão saber como você está se sentindo se você não conta a eles?

É mais fácil de falar do que de fazer. Normalmente desprezamos o silêncio como algo socialmente não-aceitável. O silêncio entre duas pessoas é visto como embaraçante, e assim nos entretemos com conversa fiada, falando do tempo, do Big Brother, da mulher que passa mal vestida, etc. A monja Coen escreve a respeito:

Apenas quando a mente silencia podemos entrar em contato com a essência do Ser.
Mas temos por hábito falar e comentar, nos entreter com sons e imagens, fugindo do encontro profundo com a realidade.
Criamos realidades falsas sobre a realidade verdadeira. Queremos acreditar em nossas fantasias e nos incomoda o silêncio que permite penetrar no real e cancelar o falso. São armadilhas da mente humana. Buda dizia que “a mente humana deve ser mais temida que cobras venenosas e assaltantes vingadores.” Por isso é necessário conhecê-la. Conhecer a própria mente. Para isso há o caminho do silêncio. O caminho de aquietar as oscilações mentais.

Monja Coen

Ficar em silêncio e aprender a ouvir são tão importantes quanto saber se expressar. Há um provérbio árabe que diz “O silêncio é às vezes mais eloquente que os discursos“.

Houve um peregrino que, descontente com o que ouvira sobre os ensinamentos de Buda, resolveu questioná-lo publicamente: “Se os seus ensinamentos são da Lei da Causalidade, de que tudo que existe está conectado a tudo o mais e que há causas e condições para que algo se manifeste ou deixe de se manifestar, então me responda agora, qual a causa primeira?

E Buda silenciou. Assim como quando pediram a Jesus para provar se ele era filho de Deus, ele ficou em silêncio.

“Silêncio é a linguagem de Deus; todo o resto é má tradução”.

Rumi

Há um antigo provérbio em sânscrito que diz “Distorção é a base do discurso“. No momento em que você começa a falar, você distorceu. Palavras não podem capturar a existência, mas o silêncio pode.

Então, como conciliar o silêncio com as palavras? A necessidade de se expressar com a necessidade de refletir e absorver? Talvez como gerenciamos o respirar e expirar. Somos tão treinados que o fazemos sem perceber, até o momento em que nos falta o ar e aí saboreamos quando o processo volta ao normal. Precisamos treinar e incorporar tanto a expressão correta quanto o silêncio correto em nossas vidas, de forma que se torne tão normal quanto respirar. Há um conto que ilustra bem a dinâmica entre as palavras e o silêncio:

Quando Buda se tornou esclarecido no dia de Lua Cheia no mês de maio, ele manteve silêncio. Por uma semana inteira ele não disse uma só palavra. A mitologia diz que todos os anjos no céu ficaram assustados e disseram: “Uma vez por milênio alguém floresce tão inteiramente como Buda. Agora ele está em silêncio, não está dizendo uma palavra!”. Dizem que todos os anjos abordaram Buda e pediram-lhe que dissesse algo, por favor diga algo. Buda disse: “Aqueles que sabem, sabem, mesmo sem minhas palavras, e aqueles que não sabem, não saberão por minhas palavras. Qualquer descrição da vida para um homem cego é sem utilidade. Aquele que não provou o gosto da ambrósia da existência, da vida, não há por que falar sobre isso com eles. Por isso estou em silêncio”, ele disse. Como você pode transmitir algo tão íntimo, tão pessoal? Palavras não podem.

Mas os anjos disseram: “Sim, nós concordamos, o que diz é verdade. Mas, Buda, considere aqueles que estão no limite. Há alguns poucos que estão no meio, nem completamente esclarecidos nem totalmente ignorantes. Para eles, algumas palavras darão um empurrão. Pelo bem deles, diga algo. E todas as suas palavras criarão aquele silêncio. O propósito das palavras é criar o silêncio. Se as palavras criam mais barulho, então elas não atingiram seu propósito.”

Podemos ter uma idéia mais ocidental dessa dinâmica na Bíblia, onde o Verbo é usado para a Criação (FIAT LUX): “Deus fala no silêncio, mas é preciso sabê-lo escutar”, frisou o Papa Bento 16. Em sua catequese “O silêncio de Deus” o Papa nos fala:

A dinâmica de palavra e silêncio, que marca a oração de Jesus em toda a sua existência terrena, sobretudo na cruz, tem a ver também com a nossa vida de oração em duas direções. A primeira é aquela em relação ao acolhimento da Palavra de Deus. É necessário o silêncio interior e exterior para que a palavra possa ser ouvida.
(…)
Os Evangelhos apresentam frequentemente, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que se retira sozinho em um lugar longe das multidões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver o seu relacionamento filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior de nós mesmos, para fazer habitar Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, para o amor por Ele se enraíze na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: reaprender o silêncio, a abertura para a escuta, que nos abre para o alto, à Palavra de Deus.

Papa Bento 16

E aí temos a segunda parte da dinâmica: após o silêncio, a Oração. Orar é manifestar um desejo, é exprimir, é materializar, mesmo que seja em pensamento, uma sequência de palavras dando a elas um significado.
Jesus ensina aos discípulos: “Orando, não useis muitas palavras como os pagãos: estes acreditam que serão ouvidos com a força das palavras. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que precisais antes mesmo de vós o pedirdes” (Mat 6:7-8).

Note que o conselho de Jesus é pra não utilizar as palavras ao léu, em excesso, mas não pra não se exprimir, ao contrário. Em Lucas 11, por exemplo, ele diz: “pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. (…) Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o que é bom aos que o pedirem!”

Referência:
Tao: A sabedoria do poder interno;
Papa Bento XVI pede silêncio;
A rotina dos Monges do silêncio no Brasil

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