ALTERED CARBON

“Ou você morre como um herói, ou vive o bastante ver você se tornar um vilão”

Harvey Dent
ALTERED CARBON

Esta frase sintetiza bem a série Altered Carbon, uma fusão de Game of Thrones com Blade Runner e que é a mais nova aposta da Netflix. A premissa básica é a de que os seres humanos são imortais, graças a uma tecnologia que armazena a memória e consciência num disco magnético que fica alojado no pescoço. Entretanto se o disco for destruído – e não houver um backup armazenado “na nuvem” – a pessoa sofre a morte definitiva. Novos corpos (e o processo de “encapagem”, como chamam botar o disco dentro de um corpo/”capa”) custam caro, e na prática só os ricos usufruem das delícias de serem realmente imortais (os chamados “Matusaléns”), com backups diários pra garantir que nada aconteça e eles não percam a memória daquele dia. Se uma pessoa rica e poderosa hoje consegue em 30 ou 50 anos uma rede de influências que a torna praticamente blindada pela Justiça e a mídia, imagine essa pessoa vivendo 100, 300 anos?

É aí que mora a verdadeira beleza dessa série: pegar um conceito e explorá-lo pelos MAIS DIVERSOS ÂNGULOS. Você vai ver praticamente tudo o que uma sociedade pode fazer com essa tecnologia, tanto pro bem como pro mal. Quais as implicações religiosas, sociais, legais, éticas, filosóficas de se viver pra sempre?

Um dos aspectos que a série explora é a insensibilidade para com a morte. Se todos podem reviver, a morte é só mais um contratempo, como um acidente de carro no estacionamento. A perversão por ver/fazer mortes e a mistura sexo/dor chegam a novos limites no submundo, e um conceito que ficou famoso em Blackmirror (a cópia da consciência no campo virtual, onde pode-se fazer um boot e recomeçar tudo de novo do ponto em que parou) é explorado massivamente aqui.

Outro aspecto é a sexualidade. Uma pessoa que nasceu homem pode ser reencapada num corpo de mulher, até porque se você não tiver muito dinheiro não pode escolher o corpo. Espiritualistas sabem que somos um espírito aprisionado num corpo e que masculino e feminino pode ser só um conceito, um estado temporário ou uma identificação que resiste até mesmo ao equipamento biológico. É um processo interessante que nos faz ponderar se somos mais a “capa” ou o “chip”.

A série é baseada no livro homônimo de Richard K. Morgan feito em 2002 e que ganhou um “Prêmio Philip K. Dick” de melhor livro em 2003.

Note que até agora não falei nada do roteiro, mas é porque ele é um conto de detetive, com as pistas e personagens sendo jogados pouco a pouco, às vezes fora da ordem cronológica, e não saber nada antes é a delícia de acompanhar a história. Talvez não seja pra todo mundo, pois muita gente vai ter dificuldade em digerir todos os conceitos que são apresentados, outros terão dificuldade pra acompanhar o raciocínio (tudo é muito rápido e se você perder um diálogo pode perder uma informação importante) e nem todo muito gosta do gênero cyberpunk, como o fracasso de Blade Runner (1 e 2) já demonstrou. Por isso que parabenizo e fico impressionado em como a Netflix está anunciando isso pra uma audiência o mais abrangente possível, com outdoors nas ruas e prédios como se fosse um filme sobre Sílvio Santos ou Roberto Carlos.

Altered Carbon traz atuações brilhantes, principalmente do ator principal (Joel Kinnaman, perfeito como alguém que viu muita coisa na vida mas está desorientado por cair de para-quedas num mundo 250 anos no futuro), de Martha Higareda como a detetive badass hispânica Kristin Ortega e do Matusalém Laurens Bancroft (James Purefoy, com caras e bocas evocando o melhor dos vilões dos anos 80 da escola John Saxon e Rutger Hauer de atuação raiz).

Pensamentos

Aqui no Saindo da Matrix eu já fiquei um pouco revoltado com essa coisa de esquecimento com a reencarnação porque faz a pessoa repetir os mesmos erros e não aprender nada com isso, mas a série mostra bem os perigos de uma pessoa com a mesma mentalidade ao passar dos anos se tornar cada vez pior e mais insensível. IDÉIAS permanecem e são transmitidas de pessoa pra pessoa (a idéia por trás do termo “meme”), imagine quando a pessoa por detrás da idéia TAMBÉM permanece. Será que a psicanálise avançaria se Freud estivesse vivo? Ele aceitaria novas idéias, ou seria uma espécie de guru, ou mesmo um “Avatar” sobre o assunto da mente humana? A série mostra como a devoção do “homem-fantasma” a um certo personagem é uma coisa religiosa. Por outro lado, o quanto a gente ganharia com um Gandhi ou um Carl Jung ainda vivo? Do mesmo jeito que algumas pessoas PARAM no tempo em termos de “cabeça-durice”, outras amadurecem e evoluem.

Spoilers

Dito isto, só não gostei do episódio final. A série vai dando soco atrás de soco no seu estômago durante 8 episódios e depois vai mudando o tom até chegar no final que mais parece o epílogo de um episódio de ScoobyDoo. Não sei se foi alteração do livro ou não. mas achei que um final mais cínico seria o mais apropriado pra tudo o que a gente viu.

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Emanuelly
Emanuelly
21 fevereiro de 2020 1:49 pm

Estranho foi a briga entre o casal de artistas….quem ganhava pega uma capa melhor.
É eles concordavam com isso de boas

Serise.
Serise.
15 abril de 2018 8:05 pm

” Não há placa de saída.”

Um povo que se especializou em roubar a si mesmo, não tem saída.
Não adianta ter um bom nível de ensino se Ética e Moral são sempre motivos de escarnio.

” O futuro é construído pelas nossas decisões diárias, inconstantes e mutáveis, e cada evento influencia todos os outros posteriores.”

Alvin Toffler.

—————–

salve Ikki de volta ao coments.

Anônimo
Anônimo
11 abril de 2018 3:28 pm

Mandou bem limão.

A saída é o ensino. Não tem outra!

Anônimo
Anônimo
9 abril de 2018 8:47 am

“E aí, está bom para vocês?” Ricardo Pessoa Reis, para o movimento comunista (seja ele “nafional” ou internacional), que tá sempre chocando o ovo da serpente por onde passa, está ótimo tudo isso, porque o Lula já virou um bode expiatório dos próprios comunistas (já encontraram uma utilidade pública pro seu cadáver político). O problemma do Brasil não é mais o Lula (ou o Cunha, ou o Renan, ou o Aécio…), mas a CLEPTOCRACIA montada pelo Foro de São Paulo (o mov. comunista em âmbito latino-americano), q SUBVERTEU de vez as funções dos Três Poderes de uma República já em… Read more »

Anônimo
Anônimo
9 abril de 2018 8:50 am

Desculpe, Ricardo, esqueci de me identificar, desacostumei com esse negócio de Rede Social… Eu sou o Ikki; Padawanderson, pros mais íntimos.

LimãoComSal
LimãoComSal
9 abril de 2018 6:18 pm

“Um relatório inédito do Banco Mundial estima que o Brasil vá demorar 260 anos para atingir o nível educacional de países desenvolvidos em Leitura e 75 anos em Matemática. Isso porque o País tem avançado, mas a passos muito lentos. O cálculo foi feito com base no desempenho dos estudantes brasileiros em todas as edições do Pisa, a avaliação internacional aplicada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE).” Há tolos, mal formados, mal informados, mal intencionados e mal amados de todas as classes e ideologias, re-legiões, partidos sem fins políticos por todos os lados desse imenso rincão atrasado. Os… Read more »

Ikki e os penetras, do âmago da rave filosófica revolucionária
Ikki e os penetras, do âmago da rave filosófica revolucionária
10 abril de 2018 11:33 am

LimãoComSal Atente-se pra essa frase, limãocomsal: “[…] Isso porque o País tem avançado, mas a passos muito lentos.[…]” … Na cabeça dessa gente o Brasil está no caminho correto para desenvolver-se educacionalmente. Não há questionamento quanto a isso. E é aí que mora o problema. Cálculo nacional feito com base em Organizações Internacionais com siglas fofas que só querem o melhor pra nós, a gente tem que botar na quarentena da desconfiança, SEMPRE. _____ “Há tolos, mal formados, mal informados, mal intencionados e mal amados de todas as classes e ideologias, re-legiões, partidos sem fins políticos por todos os lados… Read more »

Olim
Olim
6 abril de 2018 6:08 am

Hoje é um excelente dia…
O molusco Lula da Silva enfim vai para o xilindró. 🙂

Ricardo Pessoa Reis
Ricardo Pessoa Reis
2 abril de 2018 9:10 pm

Faz anos que não entrava aqui. Deixei de ler esse blog porque havia identifiquei o germe do mal que chocava o ovo da serpente. Destilavam ódio ao então presidente Lula. A ele atiravam petardos pontiagudos enquanto criticavam o seu governo.
Resolvi dar o ar da graça para saber se vocês estão gostando da pocilga em que transformaram o meu País.
E aí, está bom para vocês?

Livia A.
Livia A.
4 abril de 2018 3:09 pm

Contato… Como fazemos?

Carlos eduardo
Carlos eduardo
1 março de 2018 12:28 am

Oq vc acha sobre sapiens e homo Deus do Noah hariri? Aguardo contato

Anônimo
Anônimo
4 março de 2018 2:54 pm

Eu ainda acho o conceito do esquecimento do espiritismo uma furada. Como vamos aprender se esquecemos TUDO?????

Libano
Libano
23 fevereiro de 2018 8:02 am

Ótima série! Como dito, explora muito bem o ponto de como seriam os interesses/desejos do ser humano se ele fosse imortal, se o corpo fosse só um objeto.

pkrmr
pkrmr
23 fevereiro de 2018 9:04 am

Tem algumas coisas de Ghost in the Shell nesta série também. Não só na premissa da transferência de consciência, até mesmo para um corpo sintético, mas no protagonista, que veio de um grupo militar e foi um super soldado. Assim como foi a Motoko.

Anônimo
Anônimo
26 fevereiro de 2018 4:07 pm

“Ou você morre como um herói, ou vive o bastante ver você se tornar um vilão”
(Harvey Dent)

lembrei do Merovingian

https://www.youtube.com/watch?v=_UO9VIObsA0

Anônimo
Anônimo
26 fevereiro de 2018 4:09 pm

comment image

Rogério
Rogério
16 março de 2018 9:48 am

Bom dia! Assisti toda a temporada e adorei todos os episódios. É uma trama envolvente e levanta questões sobre espiritualidade, imortalidade, conflitos pessoais. De fato, a principal pergunta que faço: e se ao reencarnarmos, não existisse a tela búdica? E se as regras fossem outras para a reencarnação?
Notei que o personagem Kovacs fica num “limbo” de 250 anos, o que seria mais ou menos o que acontece conosco ao desencarnarmos, ficando no mundo espiritual um bom tempo (ou não, dependendo de alguns fatores). Achei interessante.
Só estou na dúvida se haverá uma segunda temporada. Está confirmada?

Fernando_o
Fernando_o
6 março de 2018 7:38 am

E se não esquecêssemos?

…Acho que esse é o ponto explorado por esta série.

Ao meu ver, seria IMPOSSÍVEL um “recomeço” sem o ESQUECIMENTO.

Pensa num caso bem material, bem mundano mesmo: o dos ex-presidiários.

Olha a situação deles!

Ficam MARCADOS pelo resto de seus dias terrenos!

Fora os sentimentos de culpa, de remorso, que ficam vívidos na consciência da pessoa.

Enfim… Mais uma vez, como a série está tentando explorar: sem esquecer, não dá para avançar.

Serise
Serise
17 abril de 2018 3:45 pm

Ensino sem regras morais vai criar facinoras totalitarios altamente qualificados.
Tipo coreia do norte. So isso.

Serise
Serise
17 abril de 2018 3:40 pm

Foi o que eu ja disse: quando se fala em moral e etica a tropa comunista surta.
Eles nem sabem o que significa MORAL.

LimãoComSal
LimãoComSal
16 abril de 2018 1:53 pm

Na bandeira cristã há uma encruzilhada pintada, escrita, erguida e adorada com sangue.

O sacrifício, o pagamento, o dízimo, o ofertório a troco de sangue.

A fé, o sangue, o sacrifício dos desvalidos em troca do acúmulo de riquezas prometidas de um paraíso pálido.

É esta sabedoria que os move: o sangue nas encruzilhadas adornadas de ouro e estorinhas coloridas.

Há mais sabedoria numa criança que mantém uma pipa no ar do que naquelas que se guiam por estorinhas coloridas.

Matt
Matt
17 abril de 2019 1:16 pm

Precisamos falar de The OA

Muito… hahahaha… ansioso pelas suas análises.

Abç

Serise
Serise
25 abril de 2018 4:49 pm

Ignorancia ou psicopatia coletiva?
Eis a questão.

Anônimo
Anônimo
25 abril de 2018 5:38 pm

O Brasil é um caso muito complicado…

Serise
Serise
25 abril de 2018 4:47 pm

Ou desconhece totalmente os conceitos de moralidade e Etica.

Serise
Serise
25 abril de 2018 4:45 pm

Quando liderancas politicas indecentes controlam por decadas uma nacao que ostenta ser uma democracia, ha algo errado com a sociedade.
Um terco do eleitorado demonstra claramente nao ter esse equipamento cerebral.

Anônimo
Anônimo
25 abril de 2018 2:18 am

Tem gente que não não tem equipamento cerebral para entender e exercer a moralidade. já pensou nisso?

Serise
Serise
25 abril de 2018 10:26 am

Ah sim.Por isso existem cadeias.tribunais e leis.

Anônimo
Anônimo
23 abril de 2018 2:13 am

Ensinar moral na escola é que é fantasia! É quem é que ensina? na prática muitas vezes o professor tem menos ética que o aluno… Os padres cheios de ética e moral têm ensinado muito a crianças desfavorecidas lol acorda sérise!

VC se engana pois a experiência ( universidade da vida) é que nos mostra a validade das regras éticas e morais.

Anônimo
Anônimo
23 abril de 2018 12:40 pm

A “mensalidade” na “escola da vida” é muito cara… E dá muita “repetência” também! 🙂

Melhor ter PAI e MÃE ensinando como é…

Na falta de um desses, alguém tem que substituir!

FAMÍLIA! …Não importa se é um casal, dois homens, duas mulheres, e combinações “infinitas”, etc, e seus respectivos filhos!

A teoria, como sempre, é simples… Já a PRÁTICA… 🙂

Serise
Serise
23 abril de 2018 4:21 pm

Anonimo,
Procure saber do ensino na Noruega,na finlandia, na suecia. Ou na coreia do sul,no japao.
Bons exemplos nao faltam.

Serise
Serise
23 abril de 2018 4:22 pm

Cont,

Nova zelandia tambem.

Serise
Serise
24 abril de 2018 6:37 am

A Universidade da vida nao ensinou nada para a turma que caiu na lava jato.
Alguns ja bastante vividos.roubaram o pais,e nao se arrependem.
Enquanto isso uma nacao inteira paga a conta.

Serise
Serise
22 abril de 2018 5:36 pm

Anonimo,
Por acaso ja oviu falar em Educacao moral e civica?
Claro que a familia e a base e por isso mesmo merece respeito. mas a sua
Universidade da vida e uma fantasia.
Nao funciona.

Abrcs.

Neo-Cortex
Neo-Cortex
17 abril de 2018 3:53 pm

Parece que vão se limitar a uma temporada mesmo, a série foi muito intensa em todos os sentidos, muitos artistas não querem mais participar, outros estão fora pelo próprio desenrolar da trama.

Anônimo
Anônimo
18 abril de 2018 5:53 pm

Onde tem regras morais no ensino?
Na escola não se ensina moral isso aprende.se em casa e na universidade da vida…

Serise
Serise
16 abril de 2018 8:18 am
Anônimo
Anônimo
16 abril de 2018 1:11 pm

Vai necessitar muita gente nova. O ensino ajuda a saber aprender é só isso basta…
A saída não será feita pelos velhos crentelhos pseudo éticos e morais nem por seus amigos imaginários.

Olimpio Augusto
Olimpio Augusto
6 outubro de 2018 9:41 pm

Sobre as possibilidades distópicas para o futuro, alguém leu Yuval Harari? Jogando todas as cartas na mesa, em relação as perspectivas, o sinal amarelo acende nesta literatura, também.

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