TORNA-TE O QUE ÉS

Por Rosemiro A. Sefstrom

Ao trabalhar o tema “identidade” com meus alunos do ensino fundamental, deparei-me, no material didático, com a citação de Maria Helena Pires Martins, a qual afirma que o ser humano é o único ser que precisa aprender a ser humano.

TORNA-TE O QUE ÉS (Borboleta)

De acordo com a autora, o ser humano é o único ser que vem ao mundo indeterminado e precisa determinar a si próprio. Ainda sobre a identidade há um aspecto interessante a se trabalhar, ou seja, quem você pensa que é e quem você é na realidade. Dois filósofos usaram uma frase interessante mostrando, desde muito tempo, o entendimento de que o ser humano é movimento e que falar em natureza humana é um erro. Píndaro, filósofo do século V a.C. e Nietzsche, filósofo do século XIX disseram: “Torna-te o que és“. Esta pequena frase reflete uma realidade muitas vezes constatada em consultório, de pessoas que passaram sua história acreditando ser pessoas que não são. E algumas vezes são tão diferentes que se tornam irreconhecíveis a si mesmas dependendo do espelho que usam para se ver.

O que você acha de você mesmo é uma ideia, uma abstração que se forma ao longo de sua história de vida. Essa ideia dependerá de muitos fatores, como o tempo histórico, lugar, as circunstâncias, relações e tantos outros fatores. O ser de cada um enquanto ideia é considerado em si mesmo como verdadeiro, uma vez que é apenas uma ideia, ou um conceito a respeito de si mesmo. Neste conceito estão contidos o que penso, sinto, intuo, elaboro a respeito de quem fui, sou ou serei. Este conceito é singular, uma vez que é ou está somente comigo, não há como ser compartilhado de forma prática por ser apenas uma ideia.

O que acontece é que muitas vezes a ideia de quem você é não coincide com a ideia que os outros têm de você. Assim, enquanto abstração, os conceitos que você tem de você mesmo não tem impactos sociais, mas quando a prática diária acontece e entra em contato com os outros, aí sim, os outros estão formando uma ideia de quem você é. Sensorialmente, ou seja, sua presença física e prática com os outros é que dá a estes a oportunidade de saber quem você é. E isso se dará não pelo discurso, mas pela prática e é neste momento que podem começar os problemas, angustias, chateações. Pois, na sua ideia você é uma pessoa e na prática outra, como isso acontece?

Isso acontece porque muitas vezes as abstrações, ou seja, tudo aquilo que tem em suas ideias vai para a realidade de forma diferente. Um bom exemplo destes casos é a vez em que se apaixonou por aquela menina da escola, pensou centenas de vezes no que ia dizer para ela e quando tentou fazê-lo na prática…

É bem claro que o pensamento tem um rompimento com a prática, algumas pessoas percebem e tentam trabalhar esta questão, mas muitas pessoas não veem que suas ideias não coincidem com sua prática.

Essa não-coincidência é chamada em filosofia clínica de equivocidade; o termo equícoco é todo termo que tem mais de uma interpretação ou não é compreendido. Quando o que a pessoa acha dela mesma é diferente do que ela é, pode ser o caso de a pessoa ter uma equivocidade ligada ao que ela acha de si mesma. Você pode se achar burro, feio, fraco, pobre, solitário e isso não ser verdade, outras pessoas ao seu redor acusarem isso e mesmo assim não mudar a sua opinião.

Torna-te o que és” é o anúncio de Píndaro e Nietzsche de que em muitas vezes o que proclamamos a respeito de nós mesmos está muito longe do que somos, tanto para o bem quanto para o mal. Assim como isso é muito importante para algumas pessoas, motivo de terapia inclusive, para outras é algo insignificante.

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