RELIGIOSIDADE LAICA

Apesar de estar em contato, não só estudando como vivendo algumas religiões, nunca fui tocado por nenhuma. A definição de “espiritualista” me cabia bem, até que achei uma explicação de Paulo Dalgalarrondo em seu livro “Religião, psicopatologia e saúde mental“:

A religiosidade laica seria análoga ou comparável a uma profunda admiração pelo mistério, uma atração indefinida pela dimensão poética da vida e do universo, uma percepção clara da insignificância do próprio eu e um desejo obscuro de transcendência, seja lá o que isso signifique. Umberto Eco, nas cartas que trocou com o bispo Carlo Maria Martini, afirmou que:
“Creio poder dizer em que fundamentos se baseia, hoje, minha religiosidade laica – porque acredito firmemente que existem formas de religiosidade, e logo, sentido de sagrado, do limite, da interrogação e da espera, da comunhão com algo que nos supera, mesmo na ausência da fé em uma divindade pessoal e providente.”

Mais adiante, no final dessa carta, Eco faz algo que poderia ser considerado uma “defesa” da “religião laica”:
“Procure… para o bem da discussão e do conforto em que acredita, aceitar, mesmo que por um só instante, a hipótese de que Deus não exista: que o homem, por um erro desajeitado do acaso, tenha surgido na Terra entregue a sua condição de mortal e, como se não bastasse, condenado a ter consciência disso e que seja, portanto, imperfeitíssimo entre os animais.
(…)
Esse homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso, aspirando construir narrativas capazes de fornecer-lhe uma explicação e um modelo, uma imagem exemplar. E entre tantas que consegue imaginar – algumas fulgurantes, outras terríveis, outras ainda pateticamente consoladoras – chegando à plenitude dos tempos, tem, num momento determinado, a força religiosa, moral e poética de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida ofertada em holocausto pela salvação do outro.

Se fosse um viajante proveniente de galáxias distantes e visse-me diante de uma espécie que soube propor-se tal modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogônica e julgaria redimida esta espécie miserável e infame, que tantos horrores cometeu, apenas pelo fato de que conseguiu desejar e acreditar que tal seja a verdade. Abandone agora também a hipótese e deixe-a para os outros: mas admita que, se Cristo fosse realmente apenas o sujeito de um conto, o fato de que esse conto tenha sido imaginado e desejado por bípedes implumes que sabem apenas que não sabem, seria tão milagroso (milagrosamente misterioso) quanto o fato de que o filho de um Deus real tenha realmente encarnado. Este mistério natural e terreno não cessaria de perturbar e adoçar o coração de quem não crê.”

Paulo Dalgalarrondo

(Essa carta pode ser lida no livro Cinco Escritos Morais)

Engraçado que eu tinha feito uma defesa parecida no post Saindo da Matrix: Considerações finais:

“Se a Bíblia está toda deturpada, que maravilhosa deturpação se deu então no Sermão da Montanha, esta dádiva da literatura que nos convida a uma reflexão de todos os nossos atos! Se Jesus não existiu, então que maravilha que ele tenha sido criado, para que pudéssemos ter um modelo de retidão de caráter e amor ao próximo que resiste aos tempos!”

Acid
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