O POÇO (E o Coronavírus)

Há três tipos de pessoas
As de cima
As de baixo
E as que caem

Essa é a introdução do filme O Poço (atualmente o filme mais assistido no Brasil na Netflix). É um filme pra quem tem estômago forte, mas recomendadíssimo.

Estava falando nos últimos posts sobre os impactos sociais e espirituais do Coronavírus e como ele deve (ou, pelo menos, deveria) servir pra repensar nossa distribuição de renda e benefícios e repensar nossas prioridades, e eis que ontem assisti ao filme espanhol O Poço. E ele tem tudo a ver com o momento pelo qual estamos passando. Estou encantado como as estrelas estão se alinhando para fazer avançar nossas mentes de forma coletiva em tão pouco tempo.

O filme é quase uma obra-prima (quase), um retrato sem filtros de nossa sociedade, o tipo de material que a gente deveria mandar ao espaço pra alertar a outros seres do quão complexa (perigosa, cruel, idealista, abnegada, cínica, complacente, etc) é a raça humana. Óbvio, qualquer ser inteligente que visse isso iria querer evitar contato conosco. Por que será que não somos visitados? 😛

A premissa do filme é simples: Uma prisão vertical, onde ficam 2 pessoas por andar, e uma vez por dia desce uma mesa com um banquete. O primeiro nível recebe um banquete impecável, com as melhores comidas, e ao descer a mesa os outros níveis vão pegando as sobras desse banquete. Aí você pensa: bom, se todo mundo for educado, vai sobrar pros de baixo. Mas é exatamente esse o problema: além das pessoas não terem educação, independente da classe social (algo que sabemos empiricamente), existe no filme um rodízio aleatório de celas, onde a cada mês você pode estar lá embaixo ou mais acima. Então as pessoas que antes estavam embaixo, passando fome e comendo os restos como bichos, quando estão por cima continuam com seus hábitos de sobrevivência e continuam a replicar esse estado de selvageria por todo o ecossistema verticalmente. Galder Gaztelu-Urrutia, o Diretor do filme, explica:

“O filme não é sobre mudar o mundo, mas de entender e colocar o espectador em um dos níveis e ver como eles se comportariam dependendo do nível em que estão. As pessoas são muito parecidas entre si. É muito importante onde você nasceu – em que país e qual família -, mas somos todos muito parecidos. Então, o filme está colocando o espectador na situação para enfrentar os limites de sua própria solidariedade. É fácil ter solidariedade se você estiver no nível 6; se você tem muito, pode desistir de parte disso. Mas você será solidário se não tiver o suficiente para si mesmo? Essa é a questão.”

Galder Gaztelu-Urrutia

Numa análise sócio-econômica, podemos ver claramente uma crítica ao nosso sistema de distribuição de recursos. Uma crítica que está atualíssima nesses tempos de Coronavírus. Enquanto escrevo, o Congresso aprovou uma medida que dá R$600 a cada trabalhador informal e garante um salário mínimo aos trabalhadores formais. É um pensamento muito próximo da utopia do Comunismo (mas que nunca realmente funcionou, porque é imposto de forma artificial na base do saque e da violência) mas que, graças a uma catástrofe como a desse vírus, poderemos experimentar de forma não só voluntária, mas NECESSÁRIA. É também uma medida que países mais avançados socialmente (como a Noruega) já vinham estudando, como a renda mínima mesmo sem trabalhar (algo com o qual vamos nos defrontar por conta da perda de empregos devido a automatização). A coisa toda PODE e DEVE funcionar, porque pela primeira vez se escancaram os recursos, do quanto precisa pra garantir uma renda mínima a cada pessoa, e o quanto o Estado tem. E, também pela primeira vez, temos a noção de que somos todos iguais: o Coronavírus não faz distinção de raça, gênero, classe social, riqueza e (cada vez mais) idade. Ele pode te matar mesmo que você tenha os melhores médicos. E graças a um contágio altíssimo que também não conhece barreiras sociais, criou-se a conscientização em nossa sociedade de que devemos preservar do Coronavírus TODOS, até o (normalmente excluído) morador de rua. E precisamos que ele coma, pois ele “não pode sair por aí no meu bairro vagando atrás de comida e espalhando Coronavírus”, assim como os moradores dos morros precisam de saneamento pra se protegerem “e não contaminar o Leblon”… (Leiam as aspas com a voz do Caco Antibes). Vê agora como o instinto de sobrevivência dos mais abastados está mudando nossa percepção da rede de proteção que a sociedade deve oferecer aos mais pobres?

Podemos e DEVEMOS reduzir os salários do funcionalismo público pra que seja redirecionado pra essa ajuda. Qual o sentido de uma pessoa ganhar mais de 20 mil reais pra ficar em casa de quarentena? Pela primeira vez podemos apontar e dizer: suas necessidades não são assim tão altas quanto as minhas. Nada de terno chique, gastos com maquiagem, carros do ano, deslocamentos em primeira classe… Podemos e DEVEMOS pegar o dinheiro destinado ao fundo partidário para ser usado pra evitar que pessoas passem fome! E o orçamento pro funcionamento dos prédios gigantes dos três poderes, hoje abandonados, também podem ser redirecionados se todo mundo se unir nessa causa. É uma questão moral de prioridades! Absurdamente, o povo nunca foi prioridade, mas devido a uma catástrofe, agora É, e nem mesmo o líder do país mais poderoso do mundo consegue dizer o contrário (embora tenha tentado). Precisamos repudiar toda e qualquer tentativa de seguir como se nada tivesse acontecendo, como se a roda da economia tivesse de continuar girando até deixar atrás de si uma pilha de mortos.

A Roda da Dor

ZONA DE SPOILERS (não leiam se não viram o filme)

Espiritualmente falando, podemos associar que cada mês na cela é uma reencarnação diferente, e a cada reencarnação estamos num certo nível social onde nossas atitudes nesse nível poderiam fazer a diferença pros de baixo. Mas sempre achamos que devemos aproveitar tudo o que conseguimos de uma só vez, porque se não o fizermos alguém vai. É a famosa frase “Depois de mim o dilúvio”. Todos os que tentam argumentar com os de cima ou os de baixo desistem. Até porque nada é duradouro. As próprias relações sociais são voláteis, afinal os companheiros de nível e os que estão acima ou abaixo estão sempre mudando.

Uma presença, no entanto, é constante: a de uma mulher que desce pela mesa de comida todo mês em busca de sua filha. Ou pelo menos é o que dizem. Essa mulher é o AMOR, a energia maternal, que ampara nosso protagonista no seu momento mais difícil, o nutre, e através do próprio sacrifício alimenta a INOCÊNCIA humana, sua filha. E é essa inocência que é o símbolo que volta ao topo. O símbolo de esperança que é resgatado do fundo do inferno (nível 333 x 2 pessoas por nível = 666). Ela é o Cordeiro. Nem sabemos se ela chegou com vida lá em cima, por causa da velocidade, mas o recado estaria dado de qualquer forma aos administradores de que o sistema é falho, é injusto e quebrado. E que mesmo assim há esperança, como a mãe que se arriscava todos os meses pra trazer (provavelmente dentro da boca) a comida para a filha.

Goreng (o protagonista) era uma pessoa sem mácula. Quis ir pra prisão pra deixar de fumar e ter tempo de ler. Uma maluquice, mas o livro que ele leva é justamente Dom Quixote, o de um maluco idealista. E é esse idealismo/maluquice que ele bota em movimento junto com Baharat, um homem cheio de entusiasmo, força física e fé religiosa. De uma forma um pouco torcida, ecoa a dupla Jesus/Pedro. Goreng é chamado de “O Mensageiro”, e no final ele voluntariamente se sacrifica pela mensagem, ecoando, de forma também torta, a mitologia cristã onde se acredita que Jesus desceu aos Infernos depois de sua morte, “não para ali libertar os condenados nem para destruir o Inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido“:

“Creio em Jesus Cristo, Seu Único Filho, o Nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao Hades (ou desceu a mansão dos mortos)…”

Credo dos Apóstolos

Aqui tem uma crítica abolutamente lúcida e precisa sobre o Poço, cortesia da Natália Kreuser, que fez dois vídeos sobre o assunto:

Minha experiência na França mostrou que o achatamento dos salários que existe lá (artificialmente ou não), onde uma pessoa de classe média-alta não ganha TANTO mais quanto o salário mínimo, cria uma economia onde todo mundo pode consumir coisas BOAS por um preço baixo (pois todo mundo dá valor ao pouco que ganha). Só que a economia deles (que é socialista-capitalista) necessita de muitos impostos pesados pra poder ajudar a população mais necessitada com benefícios, e por isso vive na corda-bamba. Reformas são necessárias, e o presidente Macron (que é de centro-esquerda) estava sofrendo dia após dia com protestos dos coletes amarelos, que são a soma de todas as classes afetadas pelas reformas. Essas classes não são de pobres que serão afetados, mas sim de gente que historicamente recebe benefícios do Estado que ninguém mais da Europa recebe! São benefícios que eles não querem perder. Eu me lembrei exatamente disso na cena em que as pessoas dos níveis 5 a 50 se recusaram a passar 1 dia sem comer pra que as pessoas abaixo deles pudessem receber um pouco de comida! Então não, o filme não é uma crítica exclusiva ao capitalismo, e o próprio diretor confirma isso:

“Certamente achamos que deve haver uma melhor distribuição da riqueza, mas o filme não é estritamente sobre o capitalismo. Pode haver uma crítica ao capitalismo desde o início, mas mostramos que, assim que Goreng e Baharat experimentam o socialismo para convencer os outros prisioneiros a compartilharem de boa vontade sua comida, eles acabam matando metade das pessoas que pretendem ajudar. No final, o problema surge quando você tenta exigir a colaboração de todos, e você vê que não há grandes conquistas até o final.”

Galder Gaztelu-Urrutia

Ele também tem uma idéia formada sobre a criança:

“Para mim, esse nível mais baixo não existe. Goreng está morto antes de ele chegar, e essa é apenas sua interpretação do que ele sentiu que tinha que fazer. No final, eu queria que fosse aberto à interpretação, se o plano funcionou e os superiores se importam com as pessoas no poço. Na verdade, filmamos um final diferente da garota que chega ao primeiro nível, mas eliminamos do filme. Vou deixar o que acontece com a sua imaginação.”

Galder Gaztelu-Urrutia

Felizmente ele deixou em aberto. Em momentos como esse, precisamos de esperança (a pior das desgraças, mas enfim…), afinal filmes são SIGNOS, muito mais do que entretenimento, e podem aos poucos mudar o inconsciente coletivo das pessoas.

A arte existe para que a realidade não nos destrua

Friedrich Nietzsche

O mundo mudou (pra pior) depois do 11 de setembro, e espero que mude (pra melhor) depois do Coronavírus. Eu não sei se vou sobreviver a isso, mas cabe a vocês, jovens, aproveitarem a oportunidade e tornarem essa época um marco de que SIM, é possível repartir o pão. SIM, é possível cuidar da mesa do banquete para que todos possam usufruir.

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