PAZ (A REGRA DE OURO)

Hoje quero falar de Paz. Paz é uma idéia abstrata que permeia a cultura de todos nós. Está entranhada em nosso inconsciente como uma idéia de bom, de harmonia, de tolerância, mesmo quando está vinculada a Pax Romana ou outra paz provocada pelas armas (a idéia evocativa não deve ser confundida com a realidade que fazem dela). A palavra Paz é derivada do latim Pax = Absentia Belli, que pode ser traduzido como a ausência de violência ou guerra.

Isso pode evoca uma idéia de passividade, mas Paz não é inação, como mostrou Gandhi ao mobilizar um país de forma pacífica, através da filosofia do Ahimsa (não-violência). Gandhi definiu a manifestação do Ahimsa assim:

A não-violência não consiste em renunciar a toda luta real contra o mal. A não-violência, tal como eu a concebo, empreende uma campanha mais ativa contra o mal que a Lei do Talião, cuja natureza mesma traz como resultado o desenvolvimento da perversidade. Eu levanto, frente ao imoral, uma oposição mental e, por conseguinte, moral. Trato de amolecer a espada do tirano, não cruzando-a com um aço mais afiado, mas defraudando sua esperança ao não oferecer resistência física alguma. Ele encontrará em mim uma resistência da alma, que escapará de seu assalto. Essa resistência primeiramente o cegará e em seguida o obrigará a dobrar-se. E o fato de dobrar-se não humilhará o agressor, mas o dignificará…

O Ahimsa não é somente um estado negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem faz o mal. O Ahimsa não é coisa tão fácil. É mais fácil dançar sobre uma corda que sobre o fio da Ahimsa.

Também na cultura judaica, o termo hebraico Shalom, traduzido como Paz, também tem um significado que nos remete a Ação. Shalom deriva de um radical que, conforme sua maneira de ser empregado, pode significar o fato de completar ou concluir um trabalho, por exemplo, completar a construção de uma casa (1Rs 9.25); o ato de restabelecer as coisas em seu antigo estado, em sua integridade, por exemplo, “apaziguar” um credor ao pagar o débito de uma transação comercial (Ex 21.34) ou cumprir os votos a Deus (Sl 50.14).

O rabino Robert Kahn, de Houston, Texas, faz um paralelo entre a Paz “romana” e Shalom “hebraica”:

Pode-se ditar uma paz; Shalom é um acordo mútuo.
A Paz é um pacto temporário; Shalom é um acordo permanente.
Pode-se fazer um tratado de Paz; Shalom é a condição da paz.
A Paz pode ser negativa, a ausência de comoção; Shalom é positivo, a presença de serenidade.
A Paz pode ser parcial; Shalom é inteiro.
A Paz pode ser fragmentada; Shalom está completo.

Se queremos uma cultura de paz, é preciso, antes de tudo, ATITUDE para cultivar a paz em nós mesmos, expandindo assim para nossas ações, para nossa família, para nosso círculo de influência, para nosso trabalho, para nossa comunidade… vocês entenderam, né? Não dá pra pular etapas. De que adianta ler todos os dias coisas esotéricas de qualidade, com mensagens de paz, amor, compreensão, idealismo e filosofia, se quando no dia em que o autor resolve pirar o cabeção você se desestabiliza e exige enraivecido o seu “pão nosso de cada dia”, que o mantém artificialmente “em paz”? Corre o risco de ficar com a ambiguidade da garotinha da foto ao lado, que tem o olhar infantil mais assustador desde a criancinha do filme Cemitério Maldito.

Nunca poderemos implantar com sucesso utopias espiritualistas ou sociais, como a Anarquia, enquanto formos apenas reflexo dos velhos modelos (e bota velho nisso!). A Briba diz “Não se põe vinho novo em jarro velho”. Precisamos primeiro nos tornar o novo, para que haja o Novo! “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, já dizia o Mahatma. Como podemos perceber, não estamos neste mar de incompreensão e turbulência por falta de avisos. As mais diversas religiões dão ênfase a uma certa mensagem que, se aplicada no dia-a-dia, transformaria todas as relações sociais. Uma regra de conduta, que é chamada a “regra de ouro“:

Hinduísmo

Não faças aos demais aquilo que não queres que seja feito a ti; e deseja também para o próximo aquilo que desejas e aspiras para ti mesmo. Esse é todo o Dharma, atenta bem para isso.
(Mahabharata, apud. Rost, p.20; Campbell, p.52)

Judaísmo

Não faças a outrem o que abominas que se faça a ti. Eis toda a Torá. O resto é comentário.
(Talmud, Shabbat 31a-b: Hillel & Shammai)

Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
(Levítico 19:18)

Zoroastrismo

Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria.
(Dadisten-I-Dinik 94:5)

Aquilo que é bom para qualquer um e para todos, para quem quer que seja – isso é bom para mim…
O que julgo bom para mim mesmo, deverei desejar para todos. Só a Lei Universal é a verdadeira Lei.
(Gathas, apud. Rost, p. 56)

Budismo

Não firas os outros de um modo que não gostarias de ser ferido.
(Udana-Varga 5:18)

Todos temem o sofrimento, e todos amam a vida. Recorda que tu também és igual a todos; faze de ti próprio a medida dos demais e, assim, abstém-te de causar-lhes dor.
(Dhammapada, apud. Rost, p.39)

De cinco maneiras um verdadeiro líder deve tratar seus amigos e dependentes: com generosidade, cortesia, benevolência, dando o que deles espera receber e sendo tão fiel quanto à sua própria palavra.
(Digha Nikaya III.185-91, Sigalovada Sutta)

Cristianismo

Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, porque isto é a Lei e os Profetas.
(Mateus 7:12)

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
(João 15:12)

Islamismo

Nenhum de vós é um verdadeiro crente a menos que deseje para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo.
(Hadith de an-Nawawi)

Fé Bahá’í

Não desejar para os outros o que não deseja para si próprio, nem prometer aquilo que não pode cumprir.
(Gleanings)

Ó Filho do Homem! …se teus olhos estiverem virados para Justiça, escolhe tu para teu próximo o que para ti próprio escolhes. Bem-aventurado quem prefere seu irmão a si próprio… tal homem figura entre o povo de Bahá’í.
(Palavras do Paraíso; “Terceira” e “Décima” folhas do Paraíso)

Wicca

Tudo o que você faz, seja positivo ou negativo, retorna para você três vezes mais.
(Lei trina)

Confucionismo

Tzu-kung perguntou, “Há alguma palavra que possa servir como princípio guia para a conduta de toda uma vida?”
Confúcio disse, “É a palavra altruísmo (Shu). O que não deseje para você próprio, não o aplique a outros.
(Analetos 15:23)

O homem superior deve apiedar-se das tendências malignas dos outros; olhar os ganhos deles como se fossem seus próprios, e suas perdas do mesmo modo.
(Thai-Shang)

Jainismo

Na felicidade e no sofrimento, na alegria e na tristeza, respeite todas as criaturas assim como respeita a si mesmo.
(Lord Mahavir 24º Tirthankara)

Índios Norte-Americanos

Respeito por toda a vida é a fundação.
(A grande lei da paz)

Sikhismo

Não esteja alienado dos outros, pois Deus mora em todos os corações.
(Sri Guru Granth Sahib)

Julga aos outros como a ti mesmo julgas. Então participarás do Céu.


O problema é que nem sempre sabemos nos colocar no lugar do outro. Quando muito, achamos que o outro tem de pensar e agir como a gente, e não como um ser autônomo que teve suas próprias experiências e visão de mundo. Então interpretam mal a regra de ouro, achando que devem EMPURRAR aos outros aquilo que “funcionou” com você. Até mesmo remédios que salvam a vida de um podem matar outro! Há ainda outras máxima, presente também em diversas religiões, que nos exorta a retribuir o mal com o bem:

Hinduísmo

Mesmo quando fordes ofendidos devereis falar amavelmente, e quando fordes insultados, respondeis com uma benção.

Zoroastrismo

Responde sempre à maldade com a gentileza, e à perversidade com bondade.

Judaísmo

Se aquele que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer, e se tiver sede, dá-lhe água para beber.

Budismo

O homem vence o ódio pelo amor; triunfa sobre o mal por meio do bem; subjuga o avaro por meio da generosidade e o mentiroso por meio da verdade.

Cristianismo

Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam.

Islamismo

Afastai o mal com o bem e, eis!, aquele que te era inimigo converter-se-á em amigo amoroso.

Fé bahá’í

Deveis mostrar ternura e amor a todo ser humano, mesmo vossos inimigos, e a todos dar acolhida com sincera amizade, com alegria e benevolência.


Fazendo assim, você permanece em equilíbrio consigo mesmo e com o Cosmo/Deus, e é essa união com algo maior que faz a Força.

Islamismo

Alá soprou na alma humana o seu próprio espírito (…) dando vida a esse corpo e conferindo um lugar privilegiado na criação. Só que a alma humana esqueceu da sua origem. Compreendemos que a grande carência humana, esse vazio que permeia todo ser humano que sai em busca de um sentido para sua vida, é fruto da desconexão com essa origem divina
(Muhammad Ragip, representante da ordem sufi Halveti Al-Jerrahi)

Budismo

Então, Buda fala sobre a vida – a vida de todos nós – usando o exemplo da carroça que tem seu eixo fora de alinhamento.
Ele diz que nossas vidas estão fora de equilíbrio.
E é esse desequilíbrio que leva ao sofrimento
(Rodney Downey, representante do Zen coreano)

Cristianismo

Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim
(João 15:4)


No jogo Actraiser há uma cena que representa a descoberta da música. Composta em homenagem a um desconhecido encontrado morto no deserto, os aldeões entregaram a música como uma oferenda (Sasagemono, em japonês) a Deus, citando que ela possui misteriosos poderes, como acalmar o coração dos homens e suavizar suas dores. Fiquei imaginando o compositor do jogo, Yuzo Koshiro, com a incumbência de criar A música primordial, que represente não só UMA música, mas A descoberta da música.

Num súbito momento de inspiração, o compositor sonha com uma singela melodia, cujas notas simples vão sendo trabalhadas em um violão.

Logo, o piano possibilita a ele expandir no campo musical, desenvolvendo uma base sólida por onde as notas primárias possam desfilar, aliada a beleza de uma flauta:

Posteriomente, a música é transferida para uma nova mídia, a eletrônica, onde novas possibilidades passam a ser exploradas, como a inserção de um coro angelical:

Então, o que era uma simples melodia oculta numa só mente passa a ser o guia de toda uma orquestra, quando mais de 50 pessoas se juntam para realizar cada uma seu trabalho (Shalom) – diferente dos demais e ainda assim em harmonia – para alcançar um resultado de pura beleza que é, de fato, uma oferenda (Sasagemono) de paz.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
Gandhi e o Ahimsa;
Cristo, A Perfeita Paz (Shalom);
Preâmbulo da Carta das Nações Unidas;
O Evangelho à Luz do Cosmos; por Ramatis

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