LUTERO

Assisti ao filme Lutero, infelizmente na única sessão do dia, às 9h da noite (ou seja, não interessa passar um filme contra os abusos da Igreja Católica no país com o maior número de católicos do mundo). Um filmaço que faz jus ao esforço de Martinho Lutero, um homem que, por amor aos ensinamentos de Jesus, foi contra a máquina de lucrar (e matar) da Igreja Católica (equivalente hoje a um homem ir contra os interesses diplomáticos dos EUA). Mas ele não foi contra a instituição da Igreja (afinal, ele era padre!) mas contra os abusos dela, particularmente quanto à venda de indulgências e a manipulação pelo terror.

Muitos dirão: “Ok, essa época passou, os tempos são outros, vamos virar essa página da história”. Mas será que Lutero, se vivesse hoje, ainda teria o que reformar? O que ele diria se visse o protestantismo, que cobra 10% de tudo o que a pessoa ganha (bruto!) como dízimo? E os evangélicos, então, com suas “ofertas” dominicais que podem ser até em cheques ou jóias? E a Igreja Católica que, de dentro da sua Basílica de São Pedro continua (como sempre esteve) mais interessada em questões políticas e econômicas do que com questões religiosas? Vamos cair na real: Quantas vezes vocês viram a Igreja Católica colocar os ensinamentos de Jesus em prática? Ou botar a filosofia de Jesus pra trabalhar? Eu só vi UMA vez, na época da invasão do Iraque, quando o Papa deu o maior fora em Bush (e eu aplaudi o Papa por isso), mas depois disso o clima foi conciliatório, não há pronunciamentos contra, não há um rompimento da igreja contra esse monstro, não há nem mesmo um comprometimento contra os abusos dos padres pedófilos dos EUA (ao contrário, foi divulgado um documento do Vaticano instruindo os padres a abafar o caso!!!). Será que isso não dá nojo naquelas velhinhas que vão à Igreja? Talvez elas argumentem “quando vou na Igreja, é entre eu e Deus, não tem nada com a instituição católica”. E por que raios precisam ir a uma Igreja? Fiquem em casa, orem a Deus, e Deus com certeza as ouvirá. Foi exatamente isso que Jesus falou, caramba!!!

E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Mat 6:5-6

Alguns pontos de Lutero, expostos nas 95 teses que ele afixou na porta da Igreja, em 1517:

• A única coisa que salva o homem é a fé. Sem ela, de nada valem as obras de piedade, os preceitos e as regras. O homem está só diante de Deus, sem intermediários: Deus estende ao homem sua graça e salvação; o homem estende para Deus sua fé.
• O Papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones, nem pode redimir culpa alguma.
• A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.
• Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos. Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
• Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando (do purgatório para o céu). Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
• Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
• Deve-se ensinar aos cristãos que, se o Papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de São Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
• Deve-se ensinar aos cristãos que o Papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de São Pedro.

Por isso a Igreja não tem função, o Papa é um impostor, a hierarquia eclesiástica, uma inutilidade. Outra idéia de Lutero era o livre-exame. A Igreja era considerada incompetente para salvar o homem; por isso sua interpretação das Sagradas Escrituras não era válida: Lutero queria que todos os homens tivessem acesso à Bíblia (por isso a traduziu do latim para o alemão, uma coisa tão revolucionária e pioneira que a bíblia se tornou um padrão para a língua alemã). Todo homem poderia interpretar a Bíblia segundo sua própria consciência, emancipando-se no plano da ideologia religiosa.

Graças ao pioneirismo de Lutero vocês hoje podem ler a Bíblia em seu próprio idioma, porque não era (e acredito que ainda não seja) interesse da Igreja (nenhuma delas) que as pessoas APREENDAM os ensinamentos de Jesus, porque Jesus não pregava numa Igreja, não fundou uma religião, falava a linguagem simples do povo, tratava a todos da mesma forma, com muito amor, sem hierarquias, sem “dar uma de gostoso”, sem isso de ser melhor que ninguém, de ser dono da verdade, sem pedir dinheiro e ainda criticando quem associava dinheiro à fé das pessoas (ei, isso me lembra algumas Igrejas ou Templos…).

Certo, eles não podem mais esconder a Bíblia por trás de uma língua difícil como o Latim ou o Grego, mas o fazem com péssimas traduções, como a tradicional João Ferreira de Almeida. Traduções que não ajudam a captar o sentido transcendental, metafísico e filosófico dos ensinamentos de Jesus, a começar pela tradução de como Jesus chamava a Deus: trocaram “papai” (Abba) por Pai, em maiúscula… um Deus distante e temeroso, muito diferente do papai que é só amor e ao qual devemos nos entregar com inteira confiança, como quando o papai nos embala no colo, quando crianças…

Máscara mortuária de Lutero

Sim, Lutero não era santo. A nobreza alemã viu nele uma forma de manter-se longe das garras da Igreja Católica (lembram-se das suas aulas sobre Feudalismo?) e os camponeses viram nessa reforma a chance de romper as barreiras sociais, onde todos os homens seriam iguais não só perante a Deus mas também aos outros homens. Só que não foi dessa vez, e o próprio Lutero repudiou este levante de forma dúbia, sempre contra o uso da força, mas virando as costas para os camponeses que buscavam seu apoio. Mais de 100 mil camponeses foram mortos. Devemos sempre repudiar o erro, de onde quer que eles venham, mas devemos ver que a situação de Lutero não era das mais fáceis: havia pressão da Igreja Católica, que queria sua cabeça, pressão dos nobres, que o defendiam da Igreja, e pressão dos camponeses, que queriam pôr em prática a reforma em toda a sua extensão, física e metafísica. Sem falar que declarações anti-semitas de Lutero foram combustível para promover o ódio dos nazistas aos judeus.

Em ótimo artigo do arcebispo emérito de Maceió, Dom Edvaldo G. Amaral, encontramos:

Disse alguém, com um pouco de acrimônia, que Lutero foi o adubo que a Providência Divina escolheu para fazer a árvore da Igreja tornar-se outra vez viçosa e cheia de vigor. Por dois séculos, ouviu-se na cristandade o clamor: “Reforma na cabeça e nos membros!”
(…)
Foi graças à provocação, aos erros doutrinais e desmandos morais do agostiniano da Saxônia, que a Igreja de Jesus, no início da Idade Moderna, encontrou finalmente o caminho de sua purificação e santificação. A personalidade complexa de Martinho foi assim traçada por um historiador sério e isento: extraordinária força de imaginação – veemente paixão em todas as suas ações e empreendimentos – ternura de afetos – praticidade de organização – linguagem virulenta e vulgar, sobretudo em seus escritos da mocidade – sensibilidade poética e musical, que o acompanhou desde a infância em Eisleben – arroubos místicos e ódio implacável ao Papa e a tudo que fosse romano – sugestionabilidade e teimosia – exaltações e depressões – pavor doentio do diabo e da condenação eterna, de que se julgava merecedor, como chegou a confessar à esposa. Contemplando as estrelas do firmamento, confidenciava-lhe Catarina Bora: “Veja, Martinho, como o céu é bonito” – Ao que ele respondeu: “Sim, mas não é para nós!…”

Referência:
DW – Quem foi Martinho Lutero?;
O Sonho de Lutero;
Site “oficial” de Lutero (inglês)

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