QUEM VAI, QUEM VEM

Maria Rita – Encontros e Despedidas

Geralmente não fico muito feliz quando um bebê nasce, nem muito triste quando alguém querido se vai. Fico pensativo, introvertido, pensando na continuidade e efemeridade das coisas. “Coisas” que incluem nós mesmos. Quando olho uma criança, dificilmente vejo uma criança, e sim um adulto enclausurado, lutando contra suas limitações (sinapses cerebrais não-formadas, dificuldades motoras e decorrentes do próprio “equipamento” em miniatura). Da mesma forma quando olho um idoso, com todos os problemas advindos de sua condição. E, no final, eles se parecem. E um volta pra onde o outro veio.

Pra onde é esse lugar? Será que tem de ser um “lugar”? Seria então pro nada?

Dr Wright meditando

Mas, o que seria o “nada”? O próprio ato de chamar de “nada” essa condição já cria algo: o Nada. Nem sabemos se o nada existe como imaginamos, ou seja, a ausência de tudo, o vazio, a dissolução. Queremos saber mais sobre o “Nada”, dar um sentido a nossas existências, e então surgem as explicações das religiões. Até o budismo e o islamismo, que em essência não se preocupam (ou não dão valor) com isso, têm a sua. Mas quem garante que uma delas esteja certa? Quem garante que não estejam? Por isso me espanto com o ceticismo “agressive” (também conhecido como Ateísmo Forte), que basicamente acredita que nós, como o Universo, nascemos do nada e vamos pra lugar nenhum. Isso pra mim é acreditar em algo fortemente. Os torna “crentes” em um tipo de ilusão que não é diferente das elaboradas criações das religiões das quais eles riem. Isso é ignorar os meandros e construções da mente humana, que em praticamente todas as civilizações desenvolveu conceitos abstratos para responder a esses enigmas, e muitos deles se parecem em essência (os Arquétipos). É ignorar a intuição, a beleza da conexão não-local entre seres vivos, que ocorre com milhares de pessoas e animais, sem que precisemos pra isso ter uma explicação científica (acontece até com fótons!).

É essa conexão não-local que nos permite estar sempre em um tipo de “contato” com aqueles que se foram. Não é um contato físico, nem algo que possa ser mensurável, sentido ou descrito. No filme Avatar os seres do planeta Pandora se conectam por meio de “antenas”, como um cabo USB. E a sucessão de conexões vai formando uma malha neuronal, uma “internet biológica” que permite a comunicação a nível de pensamentos, sentimentos, até mesmo entre homens e animais. Nós não temos antenas físicas, mas podemos ter um Wi-Fi bem capenga. As capacidades de nosso cérebro ainda nos são um mistério. Quando ligamos pra alguém que não vemos há muito tempo sentimos um elo, uma intimidade, auxiliado pelos estímulos físicos (som) e pelas lembranças, pela saudade. Ativamos as áreas da memória relacionadas àquela pessoa, enfim, estamos trabalhando dentro de um terreno “real” (som), e ao mesmo tempo virtual (mente). Ao desligar, ainda sentimos um bem-estar que se perpetua, a consciência de que aquela pessoa existe e está em um lugar específico, vive sua vida, você vive a sua, e a Vida segue. Pode acontecer pequenas sincronicidades, como você falar de uma pessoa e ela lhe ligar no mesmo dia, ou compartilharem sentimentos na mesma hora, em locais diferentes (só sabendo depois). Mas, quando a possibilidade de contato se rompe definitivamente (seja pela morte ou outras circunstâncias) tendemos a bloquear, pela “lógica”, as áreas da mente que poderiam sustentar essa comunicação. Não estou falando de mediunidade ostensiva, nem de experiências “do além”, mas uma coisa mais sutil, que pode acontecer independente das religiões. É uma sensação de que você SABE que aquela pessoa está apenas longe, mas EXISTE em algum lugar e está bem. Algumas vezes isso acontece com parentes de quem já partiu, mas não imediatamente. A pessoa acorda um dia com essa sensação de que acabou de “ligar” pra outra. O Espiritismo explica que você visitou ou foi visitado pelo parente durante o sono, via “desdobramento” (projeção astral). É algo que tem entre os povos indígenas e até no Islamismo. Segundo o Islã, as formas de comunicação com os planos superiores se dá através de inspiração, dos sonhos e por meio de visões.

Quem vai, quem vem, quem fica, são todos facetas de nós mesmos, neste grande e complexo organismo que é a Vida.

Mais importante do que se comunicar, em algum nível, com os que se foram, é manter os canais de comunicação “Wi-Fi” abertos com quem ainda está aqui. Lembrando que não me refiro a comunicação social, vernacular, mas os sentimentos mais íntimos que emanamos para o outro. Como anda esta comunicação? Aberta e tranquila? Sem ruídos? Confusa? Truncada? Bloqueada? Pra estabelecer uma comunicação perfeita com os seres é preciso desenvolver um nível em que você está em paz com você mesmo, com os outros e com o mundo. É esse o aspecto mais valorizado no Zen Budismo, e o mais esquecido no cristianismo (não por falta de avisos de Jesus). Não é uma paz movida a Lexotan, nem um verniz de tranquilidade, mas um sentimento genuíno que brota espontaneamente, e quando você a tiver saberá, em cada célula do seu corpo.

Claro que, se tem uma coisa que arrasa com a conexão, é a CULPA. Culpa de não ter vivido o melhor possível ao lado de outra pessoa, culpa por coisas ditas ou não ditas. Isso gera um mal-estar que, em grande escala, acaba por provocar um rompimento na comunicação com nossas próprias células, e daí surgem as doenças, como o câncer. Por isso é preciso viver como se este fosse nosso último dia, ou o último dia da pessoa com quem nos relacionamos. É estar Zen, ou seja: Presente, alerta, e em paz, para quando o “Grande Organismo” solicitar aquela pequena célula em outra parte, noutra função, você estar em paz consigo mesmo e com o outro, sem pendências. É por isso que Jesus nos ensina, com uma sabedoria que sobrevive aos tempos:

Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta.

Mat 5:23-24

Olhando o contexto da época, Jesus dá mais uma estocada no cinismo dos religiosos que só são religiosos na FORMA. Jesus reforça o aspecto interno como a coisa principal no cristianismo. Se for analisar a frase direitinho, ele deixa “Deus” (em seu aspecto externo, de adoração a alguma entidade) em segundo plano, e coloca o aspecto “Deus em nós” como a coisa mais importante de sua doutrina.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

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