KAPPAROT

KAPPAROT

Esta é minha mudança, este é meu substituto, esta é minha expiação“, murmuram os fiéis, enquanto dão três voltas por cima de suas cabeças com um animal que, minutos depois, é morto como forma de expiar os pecados.

Não, esse não é um retrato de um terreiro de Camdomblé, e sim de uma tradição judaica que remonta aos judeus da Babilônia, em 853 d.C.

As Kapparot acontecem nos dias anteriores ao Yom Kippur, a data mais solene do judaísmo, destinada ao arrependimento e ao pedido de perdão. A palavra Kapparot (assim como Kipur) significa julgamento, e é usada para se referir ao animal sacrificado, mas as Kapparot em si não são fonte de julgamento. Na verdade, elas servem como um meio para conscientizar a pessoa que ela pode estar merecendo ser castigada por seus pecados, e que portanto, deve estar motivada a repensar suas atitudes, e pedir misericórdia a Deus.

“Neste momento do ano, que é nosso Ano Novo Judaico (Rosh Hashana), uma das coisas que fazemos é começar uma vida nova e refletir sobre o que fizemos no passado”, explica o judeu de origem americana Menachen Persoff antes de fazer suas Kapparot. “Pegamos uma galinha e dizemos: ‘Em vez de que eu seja castigado e destruído neste mundo, deixe que seja esta galinha’. E então temos que pensar que, quando essa galinha morre, poderíamos ter morrido em seu lugar”, acrescenta. Para Persoff, as Kapparot são uma oportunidade para “ser uma pessoa melhor, pensar nas coisas que fizemos de errado e fazer as coisas de um jeito melhor no futuro”.

O homem usa um galo; a mulher uma galinha; uma mulher grávida usa dois pássaros domésticos – um galo e uma galinha. A ave – que deve ser branca, para simbolizar a purificação do pecado – é girada sobre a cabeça e depois é degolada com um rápido e certeiro movimento de uma faca afiada, cuja lâmina não pode ter a menor fenda, seguindo os preceitos judeus do Kashrut.

É costumeiro substituir as aves por dinheiro, que é posteriormente doado aos pobres. Alguns doam as próprias aves aos pobres. O animal pode ser consumido. De preferência, é doado aos pobres – se eles aceitarem, uma vez que alguns acham que a ave fica “suja” pelo ritual (não se pode culpá-los por isso, pois essa é a idéia inicial!).

Há controvérsias sobre o uso do ritual, pois ele parece contradizer as proibições de sacrifício fora do Templo. Os defensores dizem que não é um sacrifício, e sim um julgamento, e usam galos e galinhas (ou até mesmo peixes), animais que não faziam parte do sacrifício no Templo (por isso pombos não podem ser usados no Kaparot). Cabalistas são alguns dos que advogam a favor do ritual, mas é amplamente utilizado entre os judeus Ashkenazi (muito chegados numa magia) e Chassídicos do leste da Europa.

Sobre esse ritual devo dizer que tenho verdadeiro horror a qualquer coisa que envolva morte e sangue (o fato de não suportar ver sangue ajuda). Mas isso não me impede de analisá-lo friamente e à luz da história. Rituais de sangue eram parte de quase todas as culturas que vieram de antes de Cristo (e até mesmo depois, como o Islã) e, embora não sejam algo popular (quem vai publicar foto de animal degolado na Internet?) continuam sendo praticados em nome da tradição. Então por que o Candomblé carrega todo o estigma e perseguição? É uma religião milenar como as outras, de origem africana, em que se mata o animal com um corte certeiro e onde não é permitido que ele sofra (ou a oferenda não será aceita) e a carne é comida pelos participantes ou doada à comunidade, como no judaísmo. De fato, eu tive a oportunidade de presenciar um Pai de Santo fazer esse mesmo ritual em uma senhora que estava catatônica há meses após um AVC e um dia depois disso ela melhorou 50%. Não tenho como ficar cético diante disso, e acredito que o pensamento (a Vontade) deva ser potencializada quando se executa um ritual com sangue, mas a grande pergunta que deveria ficar para os que se interessam pelos estudos espirituais é: a que preço?

Tudo tem um preço.

Não é porque uma coisa funciona que devamos continuar com ela indefinidamente. A escravidão funcionava muito bem pra muita gente. Felizmente ela contrariou interesses econômicos, mais que morais, e só por isso foi abolida. Mas estamos no século 21 e ainda continuamos fazendo coisas moralmente condenáveis em nome da “tradição”. Ainda comemos carne, mais por costume que por necessidade (eu como carne!); nos EUA, novas gerações de velhos dinossauros se apegam a um bandeira que, junto com a tradição, representa a submissão de uma raça a outra. Na religião, nos debatemos com o problema da condenação ao homossexual, enquanto comemos camarão de boa. Então, mais do que seguir cegamente tradições (ou condená-las todas), deveríamos primeiro repensar internamente a validade delas e sermos a mudança que queremos (ou não) pro mundo. A partir daí poderemos discutir a validade dessas tradições na sociedade, incluindo os limites da tolerância e o respeito ao próximo, e tudo isso tem a ver com LEIS e cultura local (cada vez menos local, com a Internet). Hoje, os animais podem ser abatidos pra comer e por questões religiosas. No futuro, talvez não.

O fato é que tudo evolui, tudo se adapta. A Umbanda mesmo é uma forma de reverenciar a religião de origem africana sem ter a parte de sacrifícios de animais. O próprio Kapparot não é algo popular e se flexibilizou pra incluir um objeto (no caso, dinheiro) no lugar de sangue. O Cristianismo acabou rompendo com as obrigações de sacrifícios e restrições alimentares dos judeus da época, e “pegou” entre parte da população. Isso nos faz pensar que tradições que encaramos como “definitivas” não precisam ser tão definitivas assim.

Referência:
Terra – Judeus usam galinhas para expiar pecados antes de Yom Kippur;
WebJudaica – Festas Judaicas (Chaguim) Iom Kipur;
Wikipedia – Kapparot

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