JEAN MICHEL JARRE (Parte 2)

Com o sucesso de Oxygène e Equinoxe, Jean-Michel Jarre era então o grande nome de sucesso da música contemporânea francesa, e por isso mesmo ele foi chamado para a tradicional Festa da Bastilha, em 14 de julho de 1979, o dia mais importante do calendário francês, equivalente ao Ano Novo deles. Quando perguntaram onde ele gostaria de fazer o espetáculo, Jarre disse: Praça da Concórdia! Sim, ele escolheu o ponto onde o Rei Luís XVI e a Rainha Antonieta foram decapitados, o ponto onde os revolucionários se reuniram pra atacar a Bastilha. Um lugar carregado de história para mais uma vez fazer história.

PLACE DE LA CONCORDE

Os Beatles foram os primeiros a fazer um Megaconcerto e, ao invés de usarem um teatro (como todo mundo na época), se apresentaram num estádio de futebol para 55.600 pessoas. O Pink Floyd foi o primeiro a vir com a idéia de concertos em parques e lugares abertos com muita luz e grandes projeções, mas Jarre foi quem levou a idéia a novos patamares com o conceito de “Ville en concert” (Cidade em Concerto), ou seja, mobilizar uma cidade inteira para um show, não apenas um local. Inspirado pelos circos mambembes, que usavam as praças e entornos da cidade como seus palcos, Jarre se utilizou das fachadas dos prédios para projetar imagens da Revolução Francesa; As fontes da praça se iluminavam e sincronizavam seus jatos d’água com a melodia; Altos-falantes espalhados por toda a Avenida Champs-Élisées difundiam a música, e como a arquitetura de Paris é plana e aberta, dava pra apreciar as luzes e o show de fogos bem de longe. Para isso, Jarre teve de vencer toda a burocracia típica da França e conseguir até mesmo trocar os conduítes de água das fontes da Praça da Concórdia, datadas da época do Barão de Haussmann.

Preparação do Concerto

Contrariando todas as expectativas (até mesmo de Jarre), o grande show na Place de la Concorde reuniu mais de 1 milhão de pessoas, colocando o nome dele no Livro dos Recordes como o maior evento em número de pessoas reunidas para um espetáculo ao ar livre. O próprio prefeito da cidade não conseguiu chegar no local de carro, tamanha a concentração de pessoas, e teve de pegar um atalho pelos ESGOTOS DE PARIS pra poder chegar na área VIP.

Equinoxe 4 na Praça da Concórdia

Terminado o Concerto, entre embaixadores de vários países e amigos que vão parabenizá-lo está Mick Jagger, que lhe diz: “Eu nunca tinha visto algo como isso na minha vida!”. Voltando pra casa nas primeiras horas da manhã, Jarre observou por todo o local dezenas de sapatos abandonados, chapéus e outros objetos, como se ali estivesse um campo de batalha!

Os jornais do dia se empolgam: “É o Oxigênio de uma revolução musical”, diz o Quotidien de Paris. O Paris-Match vai mais longe: “Jean-Michel Jarre esmaga os Beatles”. O France Soir é mais evocativo e preciso em definir os sentimentos: “É a Paris Alucinação, a Paris Magia, Paris Poesia. Quem poderia pensar que a história da França pudesse se conjugar a essa música?” Foi o mesmo sentimento que o inglês The Guardian teve, com um trocadilho melhor que o dos franceses: “A french revolution to rock the world” (Uma Revolução francesa para sacudir o mundo). Confira a íntegra do show aqui (as câmeras de TV daquela época não conseguiam captar imagens das pessoas no escuro e por isso ignoraram completamente a multidão).

Promo video, Praça da Concórdia (1979)

MAGNETIC FIELDS

Mais três anos se passam, e em 1981 surge a ode ao elemento terra: Magnetic Fields. Foi um dos primeiros álbuns a usar samples (amostras de som digitais, ao invés das fitas magnéticas em looping que eram usadas até então), obtidos através do sintetizador Fairlight CMI (Ele e Peter Gabriel foram os primeiros a usar esse sintetizador). No original francês o título é um trocadilho: “Chants Magnétiques” (Cantos magnéticos), que tem o mesmo som que Champs Magnétiques (campos magnéticos).

THE CONCERTS IN CHINA

Ainda em 1979 o governo da China flerta com a idéia de abrir sua “muralha”, que a separou do resto do mundo após a Revolução Cultural (que incluiu assassinato em massa de professores, artistas e detentores de conhecimentos que não o do Livro Vermelho de Mao) dos anos 60. Estávamos no meio da Guerra Fria e a tensão do mundo contra a ameaça comunista Sino-soviética. Mao Tse Tung tinha morrido em 1976, e depois disso estava havendo o julgamento da “Gangue dos Quatro”: a esposa de Mao e outros 3 que ficaram como bode expiatórios de todos os excessos cometidos pela Revolução. Relógios e carros de fora foram admitidos no país, e pela primeira vez a China resolveu abrir uma pequena porta para o ocidente, através da música. Pode parecer pouco, mas durante todo esse tempo a própria música tradicional chinesa havia sido banida, e a música ocidental bloqueada, exceto a música clássica e as russas, que eram traduzidas para o chinês. Se um pianista fosse surpreendido em flagrante delito de “subversão de sons” (o que quer que isso signifique) a pena era ele ter os dedos quebrados. Um instrumento que tocasse “improvisações desenfreadas” deveria ser quebrado em pedaços.

É neste espírito que o novo líder Deng Xiaoping tem a missão de escolher quem será o artista de fora que vai ser a vitrine da nova música. Rolling Stones, Elton John e Pink Floyd são apresentados ao Líder, mas recusados por serem a cara da decadência burguesa do ocidente. Foi então que um Conselheiro Cultural sugeriu o nome de um jovem francês que estava fazendo sucesso no momento. Deng Xiaoping escuta Equinoxe e gosta: parece moderno, suave, celeste. Vem à memória do Líder chinês um trecho de Sun Tzu (escritor de A Arte da Guerra), onde diz “Acalma a vontade de guerrear dos inimigos com canções e músicas sensuais”.
– “Está decidido” Diz Xiaoping – “Que venha o Sr. Jarre. Ele é um dos nossos. Tem os olhos amendoados e negros”.

Jean-Michel Jarre se tornaria o primeiro ocidental a tocar na China em décadas. Mas não sem antes ter feito várias visitas ao país para falar com as autoridades e conhecer a cultura musical. Tornou-se membro honorário do Conservatório de música Chinês, não só para aprender sobre a música chinesa como para ensinar os chineses sobre o sintetizador. A primeira reação deles foi de estupefação: não só tocava de forma estranha como capturava sons de outros instrumentos! Pra vocês terem uma idéia, só dois pianos na capital haviam sobrevivido à Revolução. Imagine então as pessoas ouvindo a um sintetizador pela primeira vez!

Jarre mostrando aos chineses um sintetizador (Foto de Charlotte Rampling, esposa de Jarre em 1979)

De volta a Paris, ainda sem ter autorização para o Concerto, Jarre recebeu uma carta do Conservatório Chinês, endereçada ao “Grão-Mestre da Eletricidade”: Ela dizia que os chineses adorariam conhecer a receita que permitiria construir os famosos “sintetizadores”. Jarre lhes envia os planos de construção de um sintetizador japonês. Então, na próxima viagem de Jarre à China, o Ministro da Indústria orgulhosamente lhe apresenta o primeiro sintetizador “Made in China“. Além disso, o Conservatório de Música já estava dando aulas de como usar o sintetizador. E, além disso, Jarre estava autorizado a fazer os históricos Concertos na China, que ocorreriam em 1981.

O Concerto incluiu algumas músicas de Equinoxe, algumas originais e várias do seu último álbum, Magnetic Fields. Logo de início temos uma música de pura genialidade, que é a primeira faixa, intitulada muito apropriadamente de “L’Ouverture” (“A Abertura”, que tanto pode indicar ser a abertura do Concerto como a abertura da China). Ela é em realidade a música Magnetic Fields 1, mas apresentada aqui de forma desacelerada. Essa foi a primeira vez que o público chinês ouviu um sintetizador NA VIDA, e funciona como um professor ensinando uma nova linguagem: inicia-se suavemente com 3 notas que se repetem ritmadamente, a Santíssima Trindade, a base musical, como que dizendo “esse sou Eu”, e depois vão se sobrepondo novos sons, um calmo som que parece deslizar sobre as águas (como o espírito de Deus em Gênesis 1:2), para então o tom da Trindade descer uma oitava, materializando-se; somos apresentados aos graves e aos agudos, e aos primeiros sons mais complexos, guturais, como que introduzindo vogais e consoantes nessa linguagem, e daí evoluímos para as primeiras frases, agudas, cada vez mais longas e complexas, subindo para o alto até se perder no infinito…

Se um dia uma raça alienígena chegar à Terra e precisar nos conhecer, eu sugiro essa música para quebrar o gelo e mostrar que nós, humanos, possuímos uma linguagem em comum:

Ouverture (Ouçam também este cover, pra ver como ela é tocada)

Além do sintetizador ser uma novidade para a maioria esmagadora dos chineses, ele estreou pela PRIMEIRA VEZ NUM SHOW uma HARPA LASER, que emitia sons quando se tocava num facho de luz!

“Este show poderia ter sido considerado futurista em Londres, Paris ou Nova York, mas na China foi como se um alienígena tivesse pousado”.

Jean-Michel Jarre

No primeiro show Jarre percebeu que só haviam militares na platéia, então pro segundo dia ele saiu nas ruas distribuindo tickets pra população. Foi então seu primeiro contato com o público, uma experiência que ele descreve como “um forte momento da minha vida”. Jarre lembrou: “As pessoas estavam apenas penduradas nas paredes, pela necessidade de contato com o exterior. Conheci pessoas cujas mãos haviam sido quebradas durante o tempo maoista, porque eles estavam tocando Ravel ou Debussy. [Estes foram] momentos muito duros e tristes, mas as pessoas queriam criar um novo link, uma ligação com o mundo exterior”.

Mas a curiosidade veio dos dois lados: se os chineses se maravilhavam com os sintetizadores, Jarre se encantou com os velhos instrumentos chineses que iam sendo desenterrados do esquecimento, e algo de inesquecível aconteceu nestes Concertos: o casamento de dois mundos, duas culturas, duas épocas, conjugadas numa mesma música, que viria a ser Fishing junks at the sunset (em inglês), ou no francês Jonques de pêcheurs au crépuscule (Juncos de pesca ao crepúsculo); uma antiga música chinesa cuja origem se perdeu no tempo e foi adaptada por Lou Shuhua. O título é baseado no poema “Teng Wang Ge Xu“, escrito por Wang Bo durante a dinastia Tang (618 – 906 d.C.) e que fala do pescador que volta pra casa ao anoitecer em seu barco feito de junco. Ela começa tocada no tradicional instrumento Guzheng, uma espécie de cítara chinesa que data de 237 antes de Cristo, e sua melodia é de rara beleza. Quando o tema principal da música termina de ser tocado no estilo tradicional, entra então Jean-Michel Jarre com seus sintetizadores, emulando respeitosamente o som do Guzheng:

Fishing junks at the sunset (Veja também a versão ao vivo em Hong Kong, de 1994, com direito a Dança do Dragão)

Além do público que esteve nos Concertos, mais 500 milhões de chineses puderam escutar as músicas de Jean-Michel Jarre via rádio nacional de Pequim, que até então só tocava música clássica. Uma espécie de videoclip/documentário foi feito com o show inteiro para registrar esse momento histórico.

Ao todo foram 5 shows, 3 em Shangai e 2 em Pequim. Todos em 1981. “E então a China fechou as portas de novo após isso. Ficou aberta por um ano e depois fechou. Então isso criou algo muito especial entre muitos chineses e eu”, diz Jarre. Ele lembra que músicos do conservatório riam com lágrimas nos olhos ao conversarem sobre música com uma pessoa de fora como ele, após todos esses anos de repressão. Mas os chineses nunca esqueceram de Jean-Michel Jarre, tanto que o chamaram de novo, em 2004, pra tocar na Cidade Proibida.

Uma música em especial teve um efeito especial em mim. Lembro que minha diversão na casa da minha tia era ficar ouvindo a coleção de LPs dela, e esse era um dos meus preferidos. Creio eu que por ser justamente o tipo de som que estimulou em mim a minha sinestesia, muito antes dos sons de videogames (1985, por aí), e a música Magnetic fields 4 pra mim é especialíssima, por ir num crescendo de sons e ritmos até chegar numa apoteose com diferentes camadas de melodias, uma se entrelaçando com a outra e criando padrões de luzes e formas que “aparecem” em diferentes profundidades na minha mente.

Magnetic Fields 4

Em 2004 Jarre deu um depoimento em um documentário sueco intitulado Conquering China, onde fala de sua experiência neste país:

Referência:
Jarrefan Brazil – Jarre pensa em retornar à China em 2017

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