A JANELA DE OVERTON

O termo “Janela de Overton” foi dado em homenagem a Joseph P. Overton, que era vice-presidente do Centro Mackinac para políticas públicas nos anos 90 e criou um modelo que mostra como as opiniões públicas podem ser mudadas intencionalmente e de forma gradual por um pequeno grupo de pensadores (Think tank). Ou seja, idéias que antes pareciam impossíveis são plantadas na sociedade e, com o tempo, se transformam até mesmo no oposto do que era antes. Imaginemos qualquer causa politico / social (educação, aborto, descriminalização de drogas, não interessa): Para cada causa há um espectro de idéias que vai de um extremo a outro (do pensamento mais radical ao mais liberal). A Janela de Overton é o leque de idéias “aceitáveis” na sociedade, ou seja, a posição da sociedade num dado espectro.

Exemplo de Janela de Overton
Exemplo de Janela de Overton quando o assunto é aborto

Quando um Think tank tem de promover uma idéia que está fora do que a opinião pública considera razoável, ela “puxa” a janela na sua direção. Assim, através da sua ação na mídia, vai introduzindo no discurso público idéias a princípio consideradas radicais, impossíveis de implementar, mas que, com a exposição do público a essas ideias, o que era inaceitável passa a ser tolerável, e o que era aceito pode até passar a ser rejeitado.

Coisas assim podem ser usadas para propósitos nobres: Por exemplo, a homossexualidade. Um tabu até pouco tempo, nos anos 80 e 90 vimos uma massificação da aparição de personagens gays nas novelas e filmes, primeiro de forma estereotipada, caricata mas intencionalmente simpáticos e carismáticos, até que personagens mais humanizados, tridimensionais, com seus medos, problemas e anseios trouxeram a discussão do homossexualismo pra dentro das casas, facilitando assim a aceitação de muitas pessoas estigmatizadas dentro das famílias.

Existem tantos outros tantos exemplos dessa manipulação da opinião pública, a maioria voltada pro marketing, mas os mais dramáticos são os que levam um país inteiro a uma guerra.

Todo mundo sabe que a guerra do Iraque foi baseada numa mentira (as tais “armas de destruição em massa”) mas o que poucos sabem é que tudo seguiu um script de um relações-públicas de guerra contratado pelo governo dos EUA para controlar todas as informações que apareceriam na mídia (e controlar, assim, a percepção das pessoas). Esse homem é John Rendon. Suas ações foram além de plantar notícias: ele também criou, a pedido da CIA, forças dissidentes DENTRO do Iraque a fim de que depusessem o governo desse país na base da violência. Então se você acha que o enforcamento de Saddam Hussein foi planejado e executado “soberanamente” por iraquianos… bem, se você é um cara que acredita em tudo o que vê na TV, provavelmente deve achar que o David Copperfield é Deus!

Rendon também participou do 11 de setembro, trabalhando para o Pentágono no Office of Strategic Influence, cuja missão era plantar notícias falsas e esconder suas origens. Outra missão era monitorar e participar de fóruns e chats em lingua árabe (lembrem que a única “confirmação” de que Osama Bin Laden foi morto foi feita num desses fóruns em que a Al Quaeda supostamente participa. A mensagem poderia ter sido escrita por qualquer um, mas a mídia comprou essa informação como verídica, assim como tem comprado tudo o que o governo americano diz que é pra ser).

Abro um parênteses pra lembrar que este ano Obama se reuniu para um jantar com os principais executivos da internet (Google, Apple, Facebook, Twitter, Yahoo, entre outros). Supostamente o jantar era pra falar sobre a geração de empregos, mas diante dos fatos descritos acima fica difícil acreditar que o presidente dos EUA se encontraria com os principais outsiders da mídia controlada pra falar de algo tão prosaico.

Jantar de líderes do mundo tecnológico com Obama.
Essa é a engrenagem que move a Janela de Overton
“Ei, garoto! Sabe aquele recurso de identificar as pessoas nas fotos do Facebook? Eu vejo aí o início de uma grande amizade!”

O “pai” das relações-públicas foi Edward Bernays. Ele cuidou da propaganda por detrás do golpe de estado na Guatemala, em 1954, onde a CIA tirou do poder um regime democraticamente eleito, e ele também ajudou a criar um sentimento de guerra contra a Alemanha na 1ª guerra (1917). Sua fama foi feita no final dos anos 1920, quando ele conseguiu inverter uma percepção negativa da sociedade (mulheres fumarem era algo grosseiro e masculino) para algo positivo (glamour, elegância) com a campanha dos cigarros Chesterfield. Ele também é o responsável pela percepção de que a cerveja é uma “bebida leve e moderada”. Em 1928 ele lançou o livro Propaganda, que se tornou a bíblia da indústria da publicidade e dos governos ocultos. Não por acaso foi o livro de cabeceira de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista (apesar de Edward ser judeu).

Barack Obama é o maior exemplo de um produto de sucesso das relações públicas. Ele saiu do nada para a presidência dos EUA através puramente da imagem e do discurso, uma imagem – e discurso – vendidos não só para os EUA mas para todo o mundo, e que nem sempre condiz com suas atitudes (A base de Guantânamo continua lá pra provar). Quem produziu Barack Obama? A resposta visível é o marketeiro dele, Ben Self (que por sinal trabalhou na campanha da Dilma). Mas não responde a QUEM interessa fazer Barack Obama. Esse é um mistério que só pode ser entendido quando acrescentamos um elemento atualmente invisível à nossa sociedade: aqueles que controlam a sociedade.

“Se entendermos os mecanismos e as motivações da mente de grupo, é agora possível controlar e reger as massas de acordo com nossa vontade, sem seu conhecimento.”

Edward Bernays; Propaganda

Em um livro posterior, Edward cunhou o termo “engenharia do consentimento” para descrever sua técnica de controle de massas:

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática (…) Aqueles que manipulam este mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder do nosso país (…) Em quase todo ato de nossa vida diária, seja na esfera da política ou dos negócios, na nossa conduta social ou no nosso pensamento ético, nós somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas (…) que compreendem os processos mentais e padrões sociais das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público.”

Edward Bernays

Quem controla a mídia controla o poder. É por isso que nosso querido governo nunca desistiu da idéia de controle total da imprensa, mas nisso têm enfrentado violenta oposição da Band e da Globo. Se a história nos ensinou alguma coisa, é que vai ser preciso criar um factóide (algo dramático, de apelo popular) pra se criar, no calor dos eventos, uma censura que não pareça uma censura. Ou seguir o caminho que já está tomando, de ir aumentando o controle do judiciário e ir estrangulando, por meio de processos e proibições (como a do Estadão) o jornalismo inquisitivo, de denúncia. Por outro lado, engana-se quem pensa que a mídia está contra o governo. Porque, ironicamente, a mídia só se torna relevante em seu poder de convencimento quando está aliada ao poder, e o poder está representado pelo governo, que está repre$entado / sustentado na mídia. Essa simbiose pode ser observada na relação estreita da Globo com todos os governantes brasileiros, independente de ideologia.

Um belo exemplo de Janela de Overton no Brasil (com inversão completa do espectro) está na manipulação em massa da esquerda brasileira, que apenas 15 anos antes era intolerante ao extremo com corrupção e falta de ética DA DIREITA, e prometiam fazer diferente, mas uma vez no poder conseguiram implantar em seus eleitores / apoiadores a idéia de que conchavos, propinas e corrupção fazem parte do jogo político, e que é a única forma de se manter a governabilidade neste país. Isso não foi construído do dia para a noite, e sim ao longo do gerenciamento da mídia dos VÁRIOS escândalos em que eles se meteram. Algo que nunca conseguiriam sem o poder e carisma de seu relações-públicas Luís Inácio Lula da Silva, “o cara” que, quando quer fazer publicidade ou apagar algum incêndio, dá entrevistas exclusivas à Rede Globo, que outrora criticava.

Atualização (01/09/2020):

Já a Direita brasileira parece empenhada em forçar essa janela em direção ao esgoto ou ao Inferno, reforçando o PIOR da natureza humana, com exemplos quase que diários de desumanidade, ignorância, egoísmo, exploração, favorecimentos ilícitos e corrupção (que eles antes criticavam na Esquerda, ÓBVIO). O último episódio que me chocou (e olhe, tá cada vez mais difícil se chocar com tantos absurdos que este governo trouxe e traz) foi o deputado (alinhado ao Bolsonarismo, claro) que recebeu o agressor da Maria da Penha pra “ouvir sua versão“. Considerando que muitos desse núcleo apóiam um golpe armado, e observando quais características estão sendo “valorizadas” por essa turma, não é difícil imaginar que tipo de ser humano estão treinando e pra qual objetivo, não é mesmo?

Referência:
Designorado: a importância dos extremos;
The Father of Spin: Edward L. Bernays and the Birth of PR

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