UM POUCO DE (TRISTE) HISTÓRIA

Estou profundamente triste com essa guerra no Oriente Médio entre Israel e o mundo árabe. Guerras sempre são cruéis e estúpidas, mas geralmente encontramos um lado pra apoiar, outro pra chamar de vilão e protestar contra ele em praça pública… Mas não nesse caso. É muito fácil tomar partido do lado mais fraco, como a imprensa vem fazendo, e esse lado é nitidamente o Líbano, que não tinha lá muito a ver com o conflito mas cuja população está pagando o pato pela omissão que permitiu que o grupo terrorista que rima com “Rebolar” usasse a fronteira deles pra atacar Israel. Mal, muito mal, Líbano…

Quem é que gosta de tomar mísseis Katiucha na cabeça sem fazer nada? Aposto que qualquer outro país faria o mesmo… só que destruir indiscriminadamente prédios residenciais e atacar comboios de refugiados não é bem o que qualquer país chamaria de retaliação justa. Mal, muito mal, Israel…

Só que o “Rebolar” não tem uniforme, não tem nacionalidade, não tem cara de bandido. Está inserido no meio da população e usa-a como esconderijo. Mal, muito mal, “Rebolar”…

Mas, ao mesmo tempo que tenta combater os terroristas explodindo os civis junto com eles, Israel está criando toda uma nova geração de combatentes libaneses, civis que outrora eram neutros em relação a Israel, e que agora têm os motivo deles pra sentirem ódio mortal e se alistarem do lado que combate os invasores.

Onde esse ódio todo começou? Provável resposta: Primeira Guerra mundial. Com as humilhações impostas pela Europa Ocidental à Alemanha, por conta dos obscenos pagamentos de guerra aos vencedores (Tratado de Versalhes), a moeda alemã teve de ser brutalmente desvalorizada, até não valer mais nada. Chegou uma época em que o preço era medido pelo PESO das notas! Fome pipocava. Mulheres trocavam seus corpos por comida. Estrangeiros, banqueiros e industriais se esbaldavam com a desvalorização do dinheiro e a economia destroçada. Muitos desses (ou pelo menos os mais visíveis para a população revoltada) eram judeus. Por que judeus? Por que eles são competentes e inteligentes para os negócios, oras. Um povo sem terra, sem posses fixas, precisando fugir ou migrar de um país pra outro por conta das perseguições, obviamente desenvolveu uma cultura baseada no capital e nos negócios, especialmente ouro, que é portável e aceito no mundo todo, todos os dias do ano. Pois os alemães viram no judeu um vilão. Não só o judeu, mas o francês, o inglês, todos os que impuseram as humilhantes e continuadas sansões à Alemanha derrotada. Foi nesse caldeirão de revolta e desgosto que cresceu Adolf Hitler, que representou como ninguém as aspirações do povo alemão daquela época (ou você acha que ele chegou ao poder por acaso?). Como disse antes, todo alemão daquela época tinha uma rusga com judeus, entre OUTROS povos. Mas Adolf tinha um ódio visceral (não muito bem explicado até hoje… desconfia-se que a mãe dele tenha tido um caso com um judeu, mas pouco se sabe do passado familiar de Hitler). E atiçou artificialmente essa rusga do povo até transformá-la em ódio puro, promovendo coisas como o pretenso “documento” O Protocolo dos Sábios do Sião, estudos pseudo-científicos que “provavam” a superioridade da raça ariana (enquanto os judeus eram considerados uma sub-raça propensa a trazer doenças e retardo mental a quem se misturasse com ela) e qualquer coisa que fizesse os judeus parecerem perversos. Usando a máquina de propaganda para fazer uma verdadeira lavagem cerebral no povo, encrustou nos soldados que os judeus eram menos que humanos, e daí toda a atrocidade cometida indiscriminadamente contra eles na 2ª guerra, que já conhecemos muito bem (assistam A Lista de Schindler, que mostra o que aconteceu de verdade, e olhe que ainda deixou de mostrar coisas bem piores!!). Ao desarmar toda a população da Alemanha, Hitler tornou a perseguição aos judeus um trabalho fácil para a máquina de guerra alemã.

O extermínio sistemático de judeus e a expansão dos territórios ocupados pela Alemanha na Europa fizeram com que os judeus perdessem seus lares e vagassem sem destino pelos outros países. Afinal, não existia um território judeu naquela época (Israel tinha deixado de existir 1.900 anos antes), muito embora houvesse desde 1917 um projeto para assentar o povo judeu na Palestina, que era administrada desde o fim da 1ª guerra pela Inglaterra (que tem a mania de administrar os territórios dos outros… Pergunte aos argentinos).

Mas, como os judeus perderam sua terra? Primeiro, veremos no Velho Testamento (a única fonte de consulta restante) como eles a conseguiram:

O patriarca dos hebreus, Abraão, morava na cidade de Ur, na Caldéia, e recebeu a ordem de Deus: “Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê tu uma bênção!” (Gênesis 12:1-2). Obediente, Abraão foi à Canaã (onde hoje se localizam o Estado de Israel e a Jordânia) e seus filhos e netos constituíram a base do povo judeu, os “filhos de Israel”. O nome Israel (que significa “aquele que luta com Deus“) vem da luta que o neto de Abraão, Jacó, teve com um anjo de Deus. Os 12 filhos de Jacó deram origem às 12 tribos de Israel.

De acordo com a Bíblia, José, um dos filhos de Jacó, foi vendido como escravo pelos irmãos e levado para o Egito, então dominado pelos hicsos. Junto aos hicsos, o escravo José ganhou prestígio e tornou-se figura importante no governo do faraó. Por esta época, uma grande seca obrigou os hebreus a deixarem a Palestina. Liderados por Jacó, eles chegaram ao Egito por volta de 1700 a.C. Só que, com a expulsão dos hicsos, em 1580 a.C., os hebreus perderam seus privilégios e foram escravizados pelos egípcios. O território que era de Israel ficou centenas de anos “sem dono”, e as tribos de Cananeus e Filisteus se fixaram naturalmente por lá.

Liderados por Moisés, os hebreus fugiram do Egito, e (segundo a Bíblia, no livro Êxodo) conduziu a marcha de 40 anos (!) através do deserto para voltar a conquistar a terra prometida (Canaã). Obviamente não encontraram moleza, pois os Cananeus não iriam simplesmente embora só porque o antigo dono (que eles nem conheciam) voltou. Brigas e mais brigas se seguiram, com todas as atrocidades contidas no Velho Testamento “autorizadas” ou mesmo ordenadas por Deus. Tais guerras duraram vários séculos, e o povo hebreu sofreu e fez sofrer pra caramba.

Pra resumir, em 70 d.C. os hebreus foram expulsos de Jerusalém, pois se negaram a render culto ao imperador romano, Tito, e organizaram revoltas. Nesse período Jerusalém foi destruída. Esse acontecimento ficou conhecido como diáspora (dispersão dos judeus pelo mundo). Em 136 da nossa era, os judeus foram definitivamente expulsos da região (segunda diáspora) pelo imperador Adriano. Novamente a terra ficou “sem dono”, e os Palestinos se fixaram naturalmente na região.

E voltamos à Segunda Guerra Mundial. Com o fim da guerra, a pressão para que os judeus tivessem seu próprio lar (iniciada em 1896) atingiu níveis gritantes, que permitiram em 1948 à recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU, cujos poderes do ocidente sobre o oriente eram nitidamente superiores) estabelecer definitivamente os judeus no território palestino, dividindo-o em dois. A título de compensação, os palestinos receberiam mensalmente uma quantia em dinheiro para se manterem (especialmente porque Israel ficou com a maior parte do território e acesso ao mar, enquanto os palestinos ficaram partidos em três pedaços SEM COMUNICAÇÃO, o maior deles banhado pelo Mar Morto… que é literalmente MORTO). Os árabes não gostaram nada disso, e no mesmo ano eclodiu a Guerra da Independência, onde uma liga militar de cinco exércitos de países árabes invadiu a região destinada a Israel, por não concordarem com a partilha de território tal como havia sido delineada pela ONU (e também visando ganhar algum território pra eles).

Humilhados e atacados na 2ª guerra, os judeus desta vez estavam determinados a não se deixarem vencer novamente. E, com apoio bélico e financeiro (hoje estimado em $3 bilhões ao ano) dos EUA, foram à luta. Como já devem ter percebido, quando os judeus pegam em armas tendem a exagerar um pouco, e liderados pelo general Ariel Sharon, não só eles venceram os inimigos em 1948 como também em 63, e desta vez tomaram para si pontos estratégicos dos territórios palestinos. “Questão tática de defesa”, devem ter dito. Mas, o que deveria ser temporário e negociável, como uma área isolada e neutra, se tornou – na manobra mais condenável e indesculpável de todo o conflito – áreas de ocupação, com assentamentos judeus (casas com famílias) permanentes em pleno território palestino (especialmente as poucas terras produtivas que eles tinham), numa clara afronta à soberania Palestina acordada pela ONU (vejam o mapa). Como os EUA possuem direito de veto na ONU (ou seja, mandam naquilo lá), Israel nunca sofreu sanções por isso.

O bloqueio das cidades e das aldeias palestinas provoca até hoje um desemprego sem precedentes, que atinge 50% da população! Isso gera mão-de-obra barata, pra quem pode pagar… Ou seja, na prática os palestinos são as empregadas domésticas dos israelenses, humilhados da mesma forma que os alemães foram em 1920 e vivendo em guetos, como os judeus de 1940 (Tsc tsc tsc. As pessoas não aprendem mesmo com a história). Quando o mesmo Ariel Sharon, então primeiro-ministro Israelense, percebeu a M&$%@ que é ter esses assentamentos, tentou remover ALGUNS e fazer um muro dividindo as fronteiras. Os protestos dos colonos israelenses foram tão intensos, a pressão política e social tão grande, que o general “durão” muito convenientemente teve um AVC, entrou em coma e está vegetando até hoje. Bad karma…

Obviamente os países árabes assistem a tudo isso com grande tristeza e revolta, afinal, mais do que uma opressão territorial, eles encaram também como uma opressão religiosa (e é aí que mora o perigo!). Daí para recrutar guerrilheiros nos países árabes doidos pra se juntar a facções como o Hezbollah e o Hamas é um pulo! Eles estao certos? MAS DE FORMA NENHUMA!!!! Mas, quem (como, ou o quê) vai convencê-los do contrário, quando há tanta injustiça acontecendo e o mundo fica calado?

A coisa é tão gritante que Michael Moore, no livro Stupid white man: Uma Nação De Idiotas, deu uma sugestão a Yasser Arafat (então líder palestino) pra acabar com a guerra, e é com ela que eu encerro o post, que procurou ser isento, mas justo (na medida do possível) em um assunto onde não há heróis nem vilões:

Quero propor algo tão revolucionário que vai enlouquecer qualquer direitista israelense e fazer todos os pacifistas daquele país correrem para ficar do seu lado.

Minha proposta não é novidade alguma. Não envolve exércitos, dinheiro ou resoluções da ONU.
É ridiculamente barata. Já foi experimentada várias vezes em muitos países — E NUNCA FALHOU. Não requer ódio ou armas. Na verdade, é toda baseada na inexistência de armas. É a chamada desobediência civil não-violenta em massa.

Funcionou para Martin Luther King Jr. — seu movimento antiviolência provocou um fim abrupto à segregação nos Estados Unidos. Funcionou para Gandhi — ele e seus compatriotas indianos colocaram o Império Britânico de joelhos, sem disparar um tiro sequer. Funcionou para Nelson Mandela — ele e o Congresso Nacional Africano acabaram com o apartheid sem uma revolução violenta.
Se funcionou para eles, acredite em mim, pode funcionar para você.

Claro, você ainda pode vencer por meio da violência. Os vietnamitas provaram que podiam derrotar a nação mais poderosa do mundo. E, olhe para nós — passamos oito anos atirando nos “Redcoats” e emergimos do tiroteio como um grande país! Então parece que a matança realmente funciona. O único problema é que, depois que ela termina, você fica com a cabeça meio confusa e demora um pouco para aprender a depor as armas (225 anos se passaram e nós ainda não aprendemos). Mas, se você quiser tentar a abordagem não-violenta, não só menos pessoas vão morrer — você vai conseguir seu país!

É assim que funciona:
1. Apenas acomodem seus traseiros. Simples assim. Vocês deitam seus corpos — em geral uns poucos de milhares deles estendidos na estrada já são suficientes — e não se mexem nem revidam quando tentarem removê-los. Em vez de deixar Israel fechar as fronteiras de Gaza e da Cisjordânia, vocês as fecham. Marcham pacificamente até o ponto de encontro e ficam lá. Nenhum israelense vai poder chegar aos assentamentos. Nenhum israelense vai poder transportar bens e recursos naturais da sua terra para Israel. Não há veículo israelense que eu saiba que seja capaz de atravessar montanhas de pessoas (nem mesmo pneus para neve funcionam!). Claro, eles podem tentar, e uma parte de seu povo ficará ferida ou morrerá. Ainda assim, não se movam. Apenas sentem-se. O mundo estará observando — especialmente se vocês abraçarem o maravilhoso mundo das relações-públicas e avisarem a mídia sobre seus planos. (Confie em mim, a CNN vai atender ao seu chamado) E no final haverá muito menos palestinos mortos do que se você continuar com a sua estratégia.

2. Convoquem uma greve geral. Recusem-se a trabalhar para os israelenses. A economia deles é baseada no trabalho semi-escravo oferecido por vocês. Acabem com isso. Quem vai fazer todo o trabalho de merda se não forem os palestinos? Outros israelenses? Duvido! Eles precisam de vocês e da sua disposição em se matar por salários irrisórios. Reparem como os acordos serão fechados rapidamente quando todos os árabes se recusarem a trabalhar. Claro, eles vão tentar acabar com vocês. Vão cortar sua água e sua comida, fechar suas estradas — mas vocês precisam ficar firmes. Estoquem matérias-primas, ataquem de forma não-violenta e nunca desistam. Eles desistirão. Há alguns anos, mais de um milhão de israelenses compareceram a uma manifestação do “Paz Agora” em Tel Aviv. Foi uma visão surpreendente. E significa que vocês palestinos têm um milhão de aliados — um terço do país — na nação que consideram sua inimiga. Um milhão de “inimigos” virão em sua ajuda se vocês protestarem de forma não-violenta. Tentem! Entre o seu povo e o deles, vocês superarão o número de israelenses que querer jogar os palestinos no mar.

Infelizmente, sei que sua inclinação é continuar a derramar sangue. Acha que isso vai trazer sua libertação. Não vai. Vai transformá-lo naqueles que agora matam seu povo. E, se você ainda não percebeu uma coisa sobre Israel, vou dar uma pista mais clara: eles não irão a lugar algum. Pelo amor de Deus, homem. Seis milhões de judeus foram massacrados pela civilização mais avançada do mundo. Você acha que eles vão deixar um punhado de pedras e carros-bomba impedirem sua sobrevivência? Eles vivem num mundo em que estão isolados e sozinhos. Não desistirão até que você ou o resto da Terra aniquile seu último cidadão. É o que você quer? Que o último judeu desapareça do planeta? Se for isso, você precisa de ajuda especializada — e terá de passar por cima de mim antes de tocar em mais uma criança israelense.

Mas se, como eu suspeito, você preferir a paz e a quietude em lugar da guerra e do exílio, então deve depor as armas, deitar-se no meio da estrada e… esperar. Sim, os israelenses espancarão muitos dos seus. Arrastarão suas mulheres pelos cabelos, atiçarão os cães para cima de vocês, e poderão até queimar suas casas (além de outros truques que aprenderam conosco, norte-americanos). VOCÊS NAO DEVEM REVIDAR! Acredite em mim: quando as fotos de seu sofrimento nas mãos desses brutos espalharem-se pelo mundo, haverá tal clamor que o governo israelense não terá mais como continuar com a opressão.

Bem, ai está. Se você quiser, eu me juntarei ao seu protesto não-violento. É o mínimo que posso fazer depois de ajudar a financiar as balas e bombas que vêm assassinando seu povo.

Sinceramente,

Michael Moore

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