HUMANO x DIVINO

Humano x Divino

Nas últimas semanas o caso da menina estuprada – cujos médicos fizeram um aborto, dentro da lei – ganhou as manchetes, por conta da excomunhão sensacionalista feita pelo bispo de Recife e Olinda (que não era nenhum Dom Hélder). Mais do que o aspecto laico do país x religiosidade da maioria católica, o que se tem discutido (e escandalizado as pessoas) é a falta de noção na aplicação das leis canônicas, a distância cada vez maior da Igreja para com a sociedade. Não que ela precise acompanhar modismos (como fazer shows e ter representantes “entrosados”), mas também não precisa estar distante da sensibilidade humana (com a idéia de “maiores são os desígnios de Deus” como se fosse um machado caindo sobre o pescoço).

Por isso, em vez de descascar a Igreja Católica (como está fazendo a imprensa) resolvi abordar a questão de forma um pouco mais distanciada, tratando de RELIGIÕES como um todo. Todas as religiões são, de certa forma, reveladas por um ser superior, ou pelo próprio Deus “em pessoa”. Assim, a tradição fica sendo Divina, intocável. Apenas uma casta (a casta sacerdotal) pode se arvorar o direito de interpretá-las, em caso de dúvida ou de lacunas. São os “procuradores” de Deus, os advogados. Eles absolvem, eles condenam.

Abaixo temos um trecho do livro Três portais para a meditação, onde o autor recebe a notícia da morte de sua mãe:

Logo após receber a má notícia de meu irmão, liguei para um rabino a fim de perguntar sobre as leis e os procedimentos no que diz respeito à morte dos pais. Cometi o erro de dizer a ele que minha mãe pediu pra ser cremada, apesar de eu saber que isso era inaceitável para o judaísmo. Após alguns momentos de um embaraçoso silêncio do outro lado da linha telefônica, o rabino me disse: “Você não tem permissão para tomar parte nesse funeral”.

Fiquei estarrecido. A questão para mim não era que minha mãe tivesse confrontado a lei judaica – eu teria preferido que ela não tivesse decidido pela cremação -, mas era a decisão dela e não deveria afetar de maneira alguma minha capacidade de honrar sua memória e prestar-lhe uma homenagem. Nem por um momento sequer considerei a possibilidade de deixar de ir ao funeral, mas, por curiosidade, liguei para outro rabino para uma segunda opinião. Ele ligou para alguns outros rabinos e, por muitas horas, a questão foi apaixonadamente debatida pela hierarquia religiosa de Jerusalém. Finalmente, um alto rabino deu sua permissão, tomando por base que minha mãe não tinha conhecimento das conseqüências de seu pedido e, neste caso, a ignorância mitigava a lei religiosa. Apesar de tudo, eu deveria observar nos dias seguintes algumas restrições sugeridas quanto ao ritual.

Se eu não estivesse triste e traumatizado pelas notícias que havia acabado de receber sobre minha mãe, provavelmente teria achado graça desses debates talmúdicos. Mas não havia graça alguma nisso; na verdade, eu estava arrasado e consternado pela limitações auto-impostas de interpretações puramente legalistas. Isto era sintomático de boa parte da razão pela qual eu tinha problemas com o mundo ortodoxo.

David A. Cooper

O distanciamento do sentimento humano para com o rigor da “Lei Divina” não é privilégio do Catolicismo, Judaísmo ou Islamismo. Na verdade, nem é privilégio das religiões. É sim um conflito que pode ser visto na filosofia, pois é algo da alma humana, essa disparidade entre seu lado divino e seu lado humano (mundano). Todos nós carregamos esse conflito, que se manifesta de muitas formas. Quando projetamos nosso lado divino num papel que alguém escreveu há milhares de anos atrás, quando há uma reciprocidade de idéias, nós tendemos a focar somente no exterior, ou seja, passar a procuração do seu lado divino (interno) pra algo externo que, de alguma forma, “mexeu” com você. Mas quem garante que o externo “mexeu” exatamente com o seu divino, já que não somos totalmente divinos nem totalmente humanos? A luz mais clara cega, então é preciso um pouco de trevas para dar o contraste que nos permite reconhecer os contornos… e os contornos são uma ilusão… uma idéia captada e expressa por uma mente humana.

É aí que reside o perigo das religiões, que tentam nos incutir culpa e submissão, para que nós apaguemos de nossa existência a relação com nosso próprio lado Divino e nos submetamos sem questionar ao “lado divino dos outros”, afinal somos uns meros pecadores, uns vermes, um nada ante a imensidão do ensinamento que tenho pra você… ipsis literis.

Há uma história sobre Buda, onde uma manhã um homem perguntou a ele: “Existe um Deus?”

Buda olhou para o homem, olhou dentro e seus olhos e disse:
“Sim, existe um Deus.”

Neste mesmo dia, à tarde, outro homem perguntou: “O que você acha de Deus? Existe um Deus?”
Novamente ele olhou para o homem e para dentro de seus olhos disse: “Não, não existe nenhum Deus.”

Ananda, que estava com ele nas duas ocasiões, ficou muito confuso, mas ele sempre era muito cuidadoso para não interferir em nada. Ele tinha o seu tempo quando todo mundo partia à noite e Buda estava indo dormir; se ele tinha que perguntar alguma coisa, ele poderia perguntar neste momento. Mas, à noite, enquanto o sol estava se pondo, um terceiro homem veio com quase a mesma questão, formulada diferentemente. Ele disse: “Você pode dizer algo sobre Deus?”

Ananda estava agora escutando muito concentradamente o que Buda diria. Ele deu duas respostas absolutamente contraditórias no mesmo dia e agora uma terceira oportunidade surgiu – e não existe uma terceira resposta. Mas Buda deu uma terceira resposta. Ele não falou, ele fechou os seus olhos. Era uma linda noite. Os pássaros tinham se acomodado em suas árvores – Buda estava em baixo de uma mangueira – o sol se pôs, uma brisa fresca estava começando a soprar. O homem, vendo Buda sentando com os olhos fechados, pensou que talvez esta é a resposta, assim ele também se sentou com os olhos fechados.

Uma hora se passou, o homem abriu os olhos, tocou os pés de Buda e disse: “Obrigado pela resposta.” E foi embora.

Ananda não podia acreditar, porque Buda não falou uma simples palavra. E quando o homem foi embora, perfeitamente satisfeito e contente, Ananda perguntou a Buda: “Isto é demais! Você poderia pensar em mim – você me deixa louco. Eu estou à beira de um colapso nervoso. Para um homem você diz que existe Deus, para outro homem você diz que não existe Deus e para um terceiro você não responde. E este estranho seguidor diz que ele recebeu a resposta e, grato, ainda toca os seus pés! O que está acontecendo?”

Buda disse: “Ananda, a primeira coisa que você tem que se lembrar é que estas perguntas não eram as suas, e aquelas respostas não foram dadas para você. Por que você deveria se preocupar com elas? Elas não são da sua conta, mas algo entre mim e aquelas três pessoas”.

Ananda disse: “Isto é verdade, estas não eram minhas perguntas e as respostas não foram dadas para mim. Mas o que eu posso fazer? Eu tenho ouvidos e escuto e eu escutei e vi e agora todo o meu ser está confuso – o que é certo?”

Buda disse: “Você pensa na vida em termos absolutos, é esse o seu problema. A vida é relativa. Para o primeiro homem a resposta foi sim e era relativa a ele, estava relacionada com as implicações de sua questão, de seu ser, de sua vida. O homem a quem eu disse sim era um ateu; ele não acredita em Deus e não quero dar suporte a seu ateísmo estúpido; ele fica a proclamar que Deus não existe. Mesmo se um pequeno espaço for deixado inexplorado… talvez Deus exista naquele espaço. Só quando você investigou toda a existência pode dizer com absoluta certeza que Deus não existe. Isso é possível somente no final, e aquele homem estava simplesmente acreditando que Deus não existe, mas não tinha experiência existencial de que Deus não existe. Precisei estilhaçá-lo, precisei trazê-lo de volta à terra, precisei bater duro em sua cabeça. Meu sim foi relativo àquela pessoa, a toda a sua personalidade. Sua pergunta não era apenas palavras. A mesma palavra vinda de outra pessoa poderia ter recebido uma outra resposta.

E foi isso que aconteceu quando respondi “não” ao outro homem. Ele era um idiota tal qual o primeiro, mas no pólo oposto. Ele queria o meu apoio – ele já acreditava em Deus. Ele veio com a resposta pronta, apenas para solicitar o meu apoio de modo que ele pudesse ir e dizer: “Eu estou certo, o próprio Buda pensa assim“. Eu tinha que dizer não para ele, apenas para perturbar a sua crença, porque crença não é sabedoria.

E o terceiro homem veio sem crenças. Ele não me perguntou se Deus existe. Não, ele veio com o coração aberto, sem a mente, sem crenças, sem ideologias. Ele era realmente uma pessoa sã e inteligente. Ele me pediu: “Você pode dizer algo sobre Deus?

Pude perceber que aquele homem não tinha crença dessa ou daquela natureza; ele é inocente. Com uma pessoa tão inocente, a linguagem não tem sentido. Não posso dizer sim nem não; apenas o silêncio é a resposta. Então fechei os olhos e permaneci em silêncio.

E minha impressão sobre o homem provou ser correta. Ele fechou os olhos também. Ele entendeu minha resposta: fique em silêncio, vá para dentro. Ele então recebeu a resposta de que Deus não é uma teoria, uma crença que você deve estar contra ou a favor. Foi por isso que ele agradeceu pela resposta.

Deus não é uma coisa muito distante de você; ou você é uma mente ou você é um deus. Em silêncio e consciência a mente desaparece e revela a sua divindade para você. Apesar de eu não ter falado nada para ele, ele recebeu a resposta e recebeu-a da maneira correta.”

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
CONHECE A TI MESMO: A essência dos grandes ensinamentos

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