O SENHOR DOS ANÉIS

Parábola sobre a humanidade

Escrito por HigherThanEagle, adaptado pelo Saindo da Matrix

A segunda melhor trilogia do cinema, O Senhor dos Anéis é mais do que uma odisséia cinematográfica: é um retrato óbvio da humanidade e parte de nossa realidade maior. Baseado na obra de J.R.R. Tolkien, os três filmes dirigidos por Peter Jackson conseguiram transmitir algo mais do que a maioria dos filmes blockbusters conseguem: uma sinceridade incrível, que acaba não apenas interagindo com os espectadores, mas criando uma empatia profunda. Apesar de haver várias diferenças em relação aos livros originais, Jackson conseguiu absorver a ideia por detrás da obra de Tolkien, além de introduzir um pouco de seus próprios conceitos, enriquecendo ainda mais o filme.

Obviamente você, querido leitor, já deve ter assistido ao filme, então não precisaremos detalhar o enredo. São mais de 9 horas de uma história rica em detalhes, imaginação e coração, que passam voando. Então há muitas e muitas coisas a serem ditas e o faremos na medida do possível. Mesmo assim muitas serão perdidas, mas cada um poderá encontrá-las e tirar suas próprias conclusões, como sempre (detalhe que O Retorno do Rei é o único terceiro filme de trilogias que é considerado o melhor de uma série).

É preciso saber que Tolkien não era apenas alguém com grande imaginação, mas também um grande estudioso e filósofo que usou de seu talento como escritor para contar não apenas uma história fictícia, mas uma parábola da humanidade. O Senhor dos Anéis foi escrito depois de O Hobbit e O Silmarillion, sendo que este último ele não conseguiu publicar em vida. Isso nos faz entender que O Senhor dos Anéis foi muito bem pensado antes de ser escrito, portanto não foi algo à toa. Isso é importante para sabermos que a história é mais do que uma simples fantasia, é algo relacionado com uma realidade maior e mais palpável. Todos os romances são baseados na realidade, em maior ou menor escala, e este não foi diferente. Importante citar que Tolkien era um cristão fervoroso, então podemos identificar várias alegorias ao cristianismo em maior ou menor escala, embora não o façamos nesta análise.

RESUMO

A história todos conhecem. Milhares de anos antes, anéis de poder foram entregues aos líderes de diversas raças por Sauron. Todavia, este criou o Um Anel para controlar todos os outros e seus portadores. E as guerras começaram, com Sauron sendo destruído – apenas seu corpo – quando Isildur lhe corta os dedos, lhe arrancando assim o Um Anel. 2500 anos depois, Bilbo Bolseiro, um Hobbit, o encontra e o anel fica sob sua guarda. Todavia o espírito de Sauron sobrevivera e o anel acorda, querendo voltar para seu mestre. Sauron sai em busca de seu tesouro e Frodo, agora em posse do anel, parte numa jornada até a Montanha da Perdição, em Mordor, para destruí-lo, sendo esta a única maneira de fazê-lo.

Uma sociedade é criada (A Sociedade do Anel), com Homens, Hobbits, Anões e Elfos, liderados por Gandalf, o cinzento, para esta jornada. Todavia, Sauron consegue corromper e controlar Saruman, o branco, até então amigo de Gandalf, e este tem total controle sobre Orcs e bárbaros. Os antigos reis humanos, agora corrompidos e obcecados pelo Um Anel, também são controlados por Sauron. A jornada tem altos e baixos, com comemorações e lamentos, e se torna cada vez mais complicada, especialmente quando a sociedade acaba desfeita. E o filme se desenrola. Veja o trailer da trilogia:

TERRA-MÉDIA

A parte principal da Terra-Média nada mais é que a Europa há muito tempo esquecida. Se fizermos cálculos e comparações geológicas, veremos que ambas se sobrepõem. O próprio Tolkien enfatizou e muito este fato de a Terra-Média fazer parte de nosso passado, exatamente 600 mil anos atrás. Em O Silmarillion temos sua história sendo contada desde o início dos tempos e podemos encontrar coisas interessantes que “coincidem” com nosso passado e com fatos que ocorreram há muito tempo, ou mesmo, nos séculos atuais. Númenor é um exemplo clássico, em que esta ilha acabou afundando, nos levando diretamente à queda de Atlântida.

Obviamente, apesar de Tolkien dizer que o mundo em O Senhor dos Anéis é o nosso, as datas são postas de maneira a parecerem distantes demais para podermos simplesmente cogitar identificá-las em nossa história verdadeira. Isso nos serve especialmente para não focarmos apenas no nosso passado, mas nas alegorias que nos são mostradas também sobre o nosso presente. E elas são muitas. O fato de Tolkien ter se inspirado também em diversos contos (alguns mais reais do que se pode admitir) antigos nos auxilia a pôr mais veracidade em nossos entendimentos pessoais.

HUMANOS

Podemos encontrar a descrição da humanidade em duas raças, a primeira a própria raça que é chamada no livro de “dos Homens”. Em completa decadência e sem nenhuma esperança, os Homens são tidos como degenerados, corrompíveis e sem futuro, fadados à sua própria destruição. Seus reinos, Gondor e Rohan são apenas resquícios do que um dia foi grandeza e podemos notar isso pelos seus próprios regentes. Em Rohan encontramos Théoden, agora um ancião sob a manipulação de Saruman e Gríma Língua-de-Cobra. Aqui nos é mostrada a fraqueza de nossos governantes, totalmente influenciáveis e fantoches nas mãos de terceiros. E apenas Gandalf consegue libertá-lo, todavia sua consciência ainda guardando resquícios do pessimismo de sempre em encarar o mundo.

Quando vamos para Gondor, encontramos as Minas Tirith, a cidade branca, uma das maravilhas do mundo. Todavia, as aparências enganam e a queda do Homem aqui é compreendida quando encontramos seu regente atual: Denethor, com seus problemas familiares e total usurpação do trono. Vemos então a complexidade de suas relações quando Faramir, filho caçula, é renegado em favor de Boromir, seu primogênito. A falta de união da humanidade é sentida quando Denethor não aceita a ajuda de Rohan. E embora Gandalf insista que todas as esperanças devem ser depositadas nos Homens, todos têm completa convicção de que eles são fracos, dispersos e sem um líder de verdade.

É o que temos hoje em dia, querido leitor, uma humanidade sem sentido, dispersada, cada um por si. Sem grandes líderes, sem grandes ideais, sem grandes esperanças. Foi-se o tempo em que havia algum propósito nesta vida. A humanidade enfrenta sua queda, caindo em sua involução. As belezas do mundo não são o bastante para trazer alguma luz aos Homens, apenas uma falsa sensação de equilíbrio.

NAZGÛL

Os cavaleiros negros já tinham sido reis dos Homens. Sempre em busca de poder, acabaram sendo corrompidos pelos 9 anéis que lhes foram concedidos, ficando então obcecados por mais e mais poder. Sua busca pelo Um Anel é tão intensa que não dormem, não comem, não pensam em nada a não ser em sua busca. Vemos neles a nossa elite mundial. Homens e mulheres em busca do poder, do controle e da supremacia, não medindo esforços para alcançarem seus objetivos, fazendo acordos para adquirir tecnologias, conhecimento e, por conseguinte, mais poder.

A nossa elite sempre deteve o conhecimento. No século passado conseguiram a tecnologia. Ambos vindos de fora e em troca de nossas almas. Tanto conhecimento quanto tecnologia são os 9 anéis do poder. Ambos corromperam nossos líderes e os tornaram pessoas sem coração, frios e automáticos, não dando valia à vida e ao mundo ao redor. Os Nazgûl não se cansam jamais. Nossa elite tampouco. Eles representam simplesmente a corrupção do nossos “líderes”, depois mostrada com Boromir, sucessor de Denethor.

ELFOS

Galadriel

Os Elfos podem ser considerados nossos vizinhos de fora ou seres mais evoluídos, daqui ou não. Guias elevados e iluminados nos auxiliando em nossas jornadas. Vemos isso claramente nas figuras de Elrond e Galadriel: Ambos estão sempre presentes para trazer alguma luz aos Homens e Hobbits, todavia não pertencem mais à Terra-Média, que já não consegue mais abrigar suas luzes. Isso é muito importante, querido leitor, pois os Elfos representam mestres ascensos. Sua beleza, calma, sabedoria nos olhares e completa integração com suas próprias luzes. Podemos ver isso, por exemplo, quando a Sociedade do Anel chega à Lothlórien e encontra Galadriel. Perceba a luminosidade de seus corpos (Também notem que se comunicam por telepatia).

Sendo então essa representação de mestres ascensos que já transcenderam seus corpos, os Elfos acabam partindo das praias cinzentas rumo ao oeste para terras imortais. Este é um caminho inevitável, pois a Terra-Média já não pode mais suportar seus corpos, por isso devem partir. É o mesmo que acontece quando uma pessoa chega a um nível vibratório, ou quando o planeta estanca, e o ser fica mais elevado que o mundo onde habita; assim, é necessário partir para abrigar sua luz. Obviamente aqui esta representação é limitada e na forma puramente material de sua existência. Mas de qualquer forma é evidente. Isso também nos serve para visualizar que, mesmo na elevação, ainda não há total perfeição. A perfeição mesmo só existe na Fonte de tudo o que É. E os Elfos nos mostram isso. Note o momento em que Galadriel se vê tentada pelo anel, mas consegue manter-se firme. Isso, querido leitor, é para nos mostrar que as Trevas não rodeiam somente a nós, neste mundo pesado e distorcido, mas também pode chegar a lugares mais elevados. A diferença é a forma como lidamos com ela. Mantendo-se na luz, completamente entregues a ela, as sombras não nos atingem. Esse é o ponto. A dualidade não é exclusiva deste mundo. Não se pode cair nesta limitação.

ANÕES

Os Anões podem ser compreendidos como os elementais da terra. São geralmente ferreiros ou mineradores, inigualáveis até mesmo pelos Elfos em algumas de suas artes. Portanto, detém sabedoria em lidar com seu elemento, a terra. Sua fraqueza é justamente o apego material, a atração quase irracional pela terra, pelas posses. Através de Gimli podemos ver que os anões são orgulhosos e desconfiados, mas por detrás da casca grossa há um bom coração.

HOBBITS

Quem são os Hobbits? Somos nós mesmos, querido leitor. Ou melhor, como deveríamos ser. Os Hobbits são uma raça sem preocupações, vivendo isolada, mas totalmente independente, bastando-se a si mesma. Festejam, divertem-se, bebem e compartilham. Vivem descalços, uma forma de mostrar desapego. Há certa inocência primordial em seus olhos e risos. O Hobbits são a esperança do mundo, mesmo não tendo qualquer tipo de pensamento direcionado a isso. Os quatro pequeninos da Sociedade só têm como único objetivo terminar suas missões e voltar para casa. O Condado, tão discreto, é sua paixão e eles respeitam seu lar.

Também representam o poder latente em cada um, independente de seu tamanho ou limitações. São eles, pequeninos e frágeis, quem salvam o mundo. São eles, desconhecidos da maior parte da Terra-Média, que realmente conseguem chegar a Mordor. São eles que seguem em frente, sempre, em busca de concluir o que estão destinados a fazer. São a raça humana que deveria existir. O companheirismo presente entre Frodo, Sam, Merry e Pippin mostra que a ligação entre eles é forte e pode sobreviver a todas as adversidades. Ao nos transmitir como referência a fragilidade que seu tamanho nos passa, Tolkien está dando um cutucão na nossa humanidade: “Eles são pequeninos e salvaram o mundo. Qual a sua desculpa?”

ORCS

A origem dos Orcs nunca foi totalmente definida por Tolkien, mas sugere-se que seja a distorção de Elfos e Homens, introduzindo características animalescas e brutais. Podemos também considerá-los uma espécie de involução da humanidade. Muitas pessoas vêem neles uma alegoria dos reptilianos, mas como os Orcs não são muito inteligentes, podemos então descartar esta possibilidade, embora ainda seja interessante. Se usarmos da involução para identificá-los, podemos tirar algumas conclusões, a começar por seu fascínio por carne, inclusive sendo adeptos do canibalismo. À medida que o respeito à Vida vai perdendo força, o ser acaba não se restringindo a mais nada, isso valendo ao consumo de carne de seres pensantes. Isso também pode ser entendido como sendo nossa involução, já que temos cérebros reptilianos. Sendo assim, quanto mais perdemos nossa humanidade, mais atitudes reptilianas nos afloram, independente do nosso grau de inteligência.

ENTS

Aqui Tolkien vai fundo e nos mostra que a natureza toda está cheia de vida, inclusive as vegetações. Ao transformar árvores em seres pensantes, Tolkien apenas nos mostra de forma indireta que a própria Terra é uma consciência viva, e que o respeito pela natureza precisa ser exercido corretamente, pois depois de muita degradação ela, cansada, vai se levantar. Vemos isso quando os Ents se deparam com o desmatamento causado por Saruman, partindo então para a vingança. Uma hora, querido leitor, a natureza vai dizer basta. Nosso planeta está ascendendo e vai chacoalhar.

GANDALF

Gandalf tem um papel fundamental em toda a história, pois ele é o farol da Comitiva do Anel. Ele é um espírito angelical, um Istari, escolhido para ser um conselheiro dos Homens. Sua missão era a de guiar e trazer esclarecimento sobre a verdade no mundo.

Durante a terceira Era da Terra-Média foi realizada uma reunião entre os Valar (espíritos superiores – outra representação de mestres ascensionados, aqui todavia mais literalmente) sobre o que fazer com relação à Terra-Média, pois os Valar ainda se preocupavam com o destino de Arda (Terra). A conclusão da reunião foi enviar seres de sua elevada ordem para combater na Terra-Média. Só que estes não poderiam se apresentar na sua forma de poder e esplendor que apresentavam em Valinor (terra imortal), então teriam que ir em corpos mortais.

Gandalf e Saruman são representações das sementes estelares, querido leitor. Espíritos mais evoluídos e antigos de outros mundos que encarnaram em corpos humanos para realizarem suas missões. E, como acontece em nosso mundo, alguns acabam se perdendo, como Saruman, por exemplo. Já Gandalf – que por sinal é meu personagem favorito da série – mantém-se fiel do começo ao fim ao seu propósito. Ainda em corpo humano, no começo está limitado. Ele é o cinzento. Quando desperta de vez, tornar-se Gandalf, o branco e finalmente descobre quem é. Percebemos isso quando ele reaparece depois do confronto com o Balrog e é chamado de Gandalf:
“Gandalf? Costumavam me chamar assim…”.
Isso é porque ele descobriu que não era Gandalf, mas um espírito evoluído e aquele era apenas um corpo e um nome.

O Mago é o conselheiro, aquele que esclarece e discerne sobre os principais assuntos e verdades do mundo. Essa é sua missão, a de trazer um pouco de luz aos corações dos Homens, aqui representados também pelos Hobbits. Ele entende a importância de cada um naquele processo, sabendo que todos têm o mesmo peso na balança. Sabe do potencial dos Hobbits e sabe da liderança de Aragorn. É o Sábio.

Frodo: É uma pena que Bilbo não tenha se livrado dele (Sméagol) quando teve a chance.
Gandalf: Pena? Foi a pena que segurou a mão de Bilbo. Muitos que vivem merecem morrer e alguns que morrem merecem viver. Pode resolver essa situação, Frodo? Não seja tão apressado em julgar os outros. Nem os mais sábios conseguem ver o quadro todo. Meu coração diz que Gollum ainda tem um papel a cumprir para o bem e para o mal. A piedade de Bilbo pode governar o destino de muitos.
Frodo: Queria que o anel nunca tivesse sido dado a mim. E que nada disso tivesse acontecido.
Gandalf: Assim como todos que testemunham tempos como este, mas não cabe a eles decidir. O que nos cabe é decidir o que fazer com o tempo que nos é dado. Há outras forças em andamento neste mundo além das forças do mal. Bilbo estava destinado a encontrar o anel, e assim você estava destiná-lo a tê-lo. E este é um pensamento encorajador.

ARAGORN

Ele é a esperança viva, o líder prometido dos Homens. Aquele que vai reinstalar a ordem no mundo. Ao longo da história muitos líderes surgiram e agora o mundo dos Homens carecia de algum. Isso é exatamente o que acontece em nossa época, querido leitor. Como grande parte dos grandes líderes, Aragorn a princípio se recusa a desempenhar o papel que nasceu para fazê-lo. Mas seu espírito o move para essa direção. Aos poucos ele, mesmo sem perceber, começa a agir como um verdadeiro comandante, um verdadeiro Rei. A esperança depositada nele por Gandalf, que, por ser um Sábio, consegue enxergar a verdade em Aragorn, nunca foi à toa.

Suas motivações são a restauração de Gondor e seu amor por Arwen, embora tenha desistido dela por sua natureza imortal. Mesmo diante das piores circunstâncias, porém, ainda assim consegue manter a mente fria e o coração firme para enfrentar todas as dificuldades. Ainda que não se esforçando para tanto, acaba recebendo o reconhecimento de todos ao redor por suas habilidades de comando. Ao liderar os exércitos da aliança, prova não apenas sua capacidade de liderança, mas também sua atitude de um verdadeiro Rei, ao ser o primeiro na linha de ataque.

Em nosso mundo já não há mais líderes como outrora. E aqueles com potencial para tanto não são guiados corretamente. Isso é complicado, querido leitor, mas nós estamos aqui justamente para isso, para mostrarmos o caminho aos que vierem. Tudo o que aprendemos e vivenciamos nesta transição planetária não é em vão. Viemos para trazermos o vento da mudança. Assim como Aragorn, que não se sentia um líder, muitos estão estancados por falta de uma luz no caminho.

“Sempre há esperança”

Aragorn

FRODO E SAM

Tolkien e Jackson tiveram um cuidado especial na representação dos dois. Frodo é aquele que carrega o fardo, cuja missão é ir até as últimas consequências. Ele representa a pureza sendo corrompida. Ao longo da jornada o Anel exerce influência aguda em seu coração, mudando sua personalidade e comportamento, tirando suas forças e seu alento de viver. Na Montanha da Perdição, ele fraqueja e sucumbe ao poder do Anel. Ele é a humanidade perdendo a inocência e caindo das trevas do Ego: “O Anel é Meu!“.

Sam, ao contrário, é a pureza e inocência da humanidade mantendo-se firme mesmo diante das trevas. É o poder de nunca desistir, de nunca perder o foco, de seguir mesmo diante de nossos piores monstros. Sam representa o fio da esperança que os Homens não têm. A amizade de ambos, que para os mais limitados cabeçudinhos soou como “colorida”, é na verdade a prova de que a união supera qualquer barreira e que sustenta nossas pernas, nos mantendo em pé. A humanidade dissipada não tem forças. Frodo e Sam representam a humanidade unida, os seres humanos apoiando-se mutualmente e confrontando seus demônios sem nunca fraquejarem. É uma lição muito forte que nos é dada no filme, e que poucos conseguiram assimilar.

Eu fiz uma promessa, sr. Frodo. Uma promessa. ‘Não o deixe, Samwise Gamgee‘. E não vou deixá-lo. Nunca pensei nisso.

Sam

Enquanto Frodo fica mais fraco à medida que se aproximam de Mordor, Sam fica cada vez mais forte, servindo de apoio, de muleta e de ar para seu amigo. Aqui vemos então que, quando a união se estabelece, sempre há alguém para cobrir as lacunas que porventura surjam. Sempre há alguém para terminar o que não se conseguiu. Na união há um equilíbrio que mantém a vida em ordem.

Sam: É como nas grandes histórias sr. Frodo. As realmente importantes. Eram cheias de perigo e escuridão. E às vezes nem se queria saber o final. Por que como o fim poderia ser feliz? Como o mundo poderia voltar a ser o que sempre foi quando tanta coisa ruim acontecia? Mas no final é algo que passará, essa sombra, até mesmo a escuridão acabará. Um novo dia virá. E quando o sol nascer ele brilhará ainda mais. Essas eram as histórias que ficavam com a gente, que significavam alguma coisa, mesmo quando eu era pequeno demais para entender por quê. Mas eu acho, sr. Frodo, que eu entendo. Agora eu já sei. As pessoas daquelas histórias tiveram muitas chances para desistir, mas não desistiram. Elas foram em frente porque estavam se agarrando a alguma coisa.
Frodo: A que estamos nos agarrando, Sam?
Sam: Que há algo de bom neste mundo, sr. Frodo. Algo pelo qual vale a pena lutar.

SMÉAGOL / GOLLUM

Se por um lado os Nazgûl representam a Elite global, nossos “líderes” corrompendo-se pelo poder, e os Orcs a involução, a animalidade, Sméagol representa a fase incompleta da distorção, em que os sentimentos humanos e a dualidade ainda estão presentes em certo equilíbrio de forma explícita. Gollum é o lado negativo, preso aos vícios sentimentais da raiva e do rancor, e obcecado pelo Anel. Sméagol, ao contrário, apesar de ainda estar ligado à presença do anel, mantém um pouco de sua humanidade, demonstrando até certa amizade e bondade. Sméagol / Gollum representa o conflito interior humano. O altruísmo e o egoísmo.

De fato, é uma batalha dura que Sméagol trava consigo mesmo. É a batalha dos egos. Gollum pode ser considerado o Ego de Sméagol. Ele incita, sussurra no ouvido e engana sua mente. Todavia, aqui também é mostrado que, quando confrontado, o Ego pode ser expulso. Por algum tempo, quando o exterior não o influenciava negativamente, Sméagol conseguiu se controlar. Mas sua fraqueza em relação ao externo acaba fazendo com que Gollum acordasse e tomasse novamente controle. Ele é a humanidade moderna, cheia de conflitos egóicos e dependência do exterior.

A nossa busca por nós mesmos sempre acaba infrutífera quando damos mais atenção ao que vem de fora do que ao que vem de dentro. O Ego só existe quando nosso foco é o exterior, pois é para isso que ele serve, para servir de intérprete do que o externo nos envia. Sméagol se rende a Gollum quando pensa ter sido traído por Frodo ao ser capturado por Faramir. Veja, querido leitor, que Sméagol está presente em toda a humanidade, em todos os seus confrontos interiores, em todas as suas dúvidas. Sua complexidade se ajusta perfeitamente à nossa.

“Meu precioso…”

Gollum

SAURON

O Senhor do Escuro obviamente representa o Mal puro, o outro lado da Dualidade. Ao forjar os Anéis de Poder, sua intenção sempre fora a de controlar todas as raças por meio deles, criando para si mesmo o Um Anel. Após ter perdido o corpo, seu espírito continuou vivo e se fortalecendo, instalando-se novamente em Mordor. Sauron representa o controle absoluto na matéria, responsável por segurar os cordões e manusear seus fantoches em seu jogo de poder. E ele é representado como, querido leitor? O Olho Que Tudo Vê.

“Eu vejo você”

Sauron

Não é coincidência, querido leitor. Já falamos que Tolkien sabia muito bem o que estava fazendo. O fato de o olho ser reptiliano também é bastante sugestivo. E sem querer insinuar nada, mais dê uma olhada: Sauron – Saurós – Sauro – Lagarto – Réptil. Curioso, não? Mas o fato é que o olho representa o poder, advindo da visão ilimitada do terceiro olho. Isto é, a visão é o conhecimento. Conhecimento é poder. Desta forma, quem usa apenas o terceiro olho e se esquece do coração, acaba se viciando. A visão é o poder, o coração é o amor.

Três Anéis para os Reis – Elfos sob este céu, Sete para os Senhores – Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

J. R. R. Tolkien

FINALIZANDO…

Poderíamos citar várias outras coisas, como Éowyn quebrando barreiras ao ser a primeira mulher num exército, a citação de Saruman: “uma Nova Ordem irá nascer“, a árvore branca em Minas Tirith (referência à Árvore do Conhecimento e mais um monte de coisas), mas cada um consegue encontrar algo de interessante. A trilogia O Senhor dos Anéis é uma grande viagem para um mundo que conseguimos nos identificar facilmente. E, assim como o livro, nos remete à nossa própria história. Merece ser assistido várias e várias vezes, pois em cada assistida se descobre algo novo.

Referência:
O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

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