ENTREVISTA ONÍRICA COM RUI BARBOSA

Migalhas – Caríssimo Rui Barbosa, como acha que o governo entrou nessa história de Mensalão?

Rui Barbosa – “Pela entrada furtiva. Pelo esconso que não se vê. Pelo caminho do ladrão sorrateiro. Entra-se pela valia, de que falava o grande pregador, isto é, pelos empenhos, pelas intercessões, pelos compadrios. Uns são os parentes. Outros, os amigos. Outros, os sócios. Outros, os apadrinhadores. Outros, os mercantes. Todos, pelo negócio.”

Migalhas – Pelo negócio ! Mas Conselheiro, por qual negócio?

Rui Barbosa – “Pelo negócio dos sufrágios na eleição. Pelo negócio dos votos nas assembléias. Pelo negócio das apologias, ou dos silêncios, na imprensa. Pelo negócio das sentenças no pretório. Pelo negócio das batotas nos ministérios, secretarias e corredores parlamentares. Pelo negócio do dinheiro nos bancos. Negociam-se maiorias. Negociam-se chefados. Negociam-se deposições de governos, golpes de estado, e canhoneios de cidades. A moeda, quando não é a moeda mesma, são as concessões e empresas, os mandatos e as curuis, os cargos e as togas.”

Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.

Machado de Assis
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