HERÓIS DE CARNE-E-OSSO

Ontem estava ouvindo o podcast do Rapaduracast sobre o filme Kickass, onde o mote desse filme é a pergunta: por que não existem super-heróis de verdade? Por que não existe gente tipo o Batman, sem superpoderes, mas imbuído do sentido de justiça, auto sacrifício e uma boa dose de loucura? Foi quando surgiu um comentário de Thiago Siqueira que sintetiza bem o nosso tempo:

“Se existisse um super-herói em nossa sociedade, essas revistas Contigo, de fofoca, elas iriam atrás de descobrir qualquer podre do cara. Qualquer frase que ele dissesse seria colocada fora de contexto. Qualquer ação seria pervertida. Por que? Porque, por mais interessante que seja pra essa sociedade ver um herói ascender, mais interessante pra essa mesma sociedade é ver o herói falhar. É a cultura da desesperança.”

Thiago Siqueira

E citam exemplos, como Britney Spears e Michael Jackson, que ficaram mais populares quando estavam na decadência do que no auge. Somos uma sociedade kamikaze, onde cultivamos, através de uma cultura IMPLANTADA ao longo das décadas, a destruição dela mesma! É como uma criança que fosse derrubada ou apanhasse a cada tentativa de aprender a andar de pé. Olhando ao redor, ela vê todos os outros andando de 4, e “naturalmente” (não vai ser nada natural, mas ela não vai perceber isso por falta de referências) vai aprender que o “normal” é se arrastar por aí. E isso não é uma metáfora absurda porque, se você olhar cuidadosamente, vai ver como até livre-pensadores, filósofos, pessoas com boa formação e caráter vão – sem refletir – defender essa construção social. Puramente no automático, sem dar ARGUMENTOS coerentes, apenas porque foram criadas nesse meio! Não adianta dizer que nosso esqueleto não está adaptado a andar de 4; não adianta dizer que, com treino, se consegue aprender a andar; não adianta nem mostrar que mesmo pessoas sem pernas podem se locomover em cadeira de rodas. Vão dizer que o padrão é se arrastar, vão repetir o discurso no qual foram treinados, NÃO irão refletir sobre seus argumentos, e darão uma resposta vazia, imitando seus líderes / ídolos.

Vemos isso em sociedades regidas por ditadores. Déspotas, que fingem ser democratas, benevolentes, patriotas (o que seja!). Constroem uma argumentação qualquer, encontram inimigos pra “destruir” e jogam o povo contra eles, desviando o foco da verdadeira ameaça, que já está instalada no poder.

Mais uma vez vou usar como exemplo o Nazismo, por ser o mais temível e fascinante movimento a conquistar corpos e mentes para seu projeto de conquista desmedida de poder. Outros regimes conseguiram ser mais cruéis (como Stalin) ou influenciar mais mentes (como os EUA), mas ninguém conseguiu ser mais explícito, mais didático em suas manipulações e ter o processo mais bem documentado de alienação do que o Nazismo. Em um discurso de Goebbels (Ministro da Propaganda do Reich) em 10 de fevereiro de 1933, ele ataca a Imprensa, que ele chama de “Marxista” e diz que ela é controlada pelos judeus. Criando inimigos invisíveis para que possam depois calar a imprensa livre. O vídeo foi removido da internet por conta das ofensas aos judeus, mas Reinaldo Azevedo fez uma tradução e uma comparação, caso estejam interessados.

Hitler

Muitos irão encontrar paralelos com as argumentações que estão sendo desferidas contra a Imprensa brasileira por quem hoje detém o poder no Brasil. É isso que criminosos fazem quando se sentem acuados: atacam, fazem troça e ameaçam.

Tudo isso ilustra que vilões de história em quadrinho nós temos aos montes. Mas, e os heróis? Eles estão por aí, só que nossa sociedade (que presta mais atenção às notícias ruins do que às boas) não os nota. Na Alemanha de Hitler havia uma voz solitária, alertando para os perigos do partido nazista: Fritz Gerlich, um jornalista que não hesitou em desmascarar essa corja, mesmo com a absurda popularidade do Partido Nazista junto ao povo. Ele pagou com a própria vida por tentar abrir os olhos do seu país: foi preso em 09 de março de 1933 (menos de um mês depois do discurso de Goebbels) e mandado ao campo de concentração de Dachau, onde foi morto em 1934. Ele não ficou famoso como Hitler e seus asseclas, mas entrou para a história e foi retratado com destaque na minissérie Hitler – A Ascensão do Mal. No Irã, onde a tirania já chegou ao ápice com a reeleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad, acompanhamos o caso da mulher iraniana condenada ao apedrejamento (Sakineh Mohammadi Ashtiani). Evitando entrar no mérito da questão, o que quero ressaltar é a corajosa atuação do advogado da mulher, Mohammad Mostafaei, que vinha conseguindo até agora evitar a condenação e alertando dessa prática medieval aos órgãos internacionais de Direitos Humanos. Ele comprou briga com o judiciário, com o núcleo religioso e com o Ditador / Presidente do seu país sendo tão-somente um simples advogado. E assim ele defendeu vários presos políticos do regime e pessoas condenadas ao apedrejamento. Numa luta de David contra um Golias, Mostafaei conseguiu evitar a pena de apedrejamento (mas não a condenação à morte), e ganhou atenção internacional para o caso. Mas sua luta não resistiu às pressões internas: sabendo que seria preso, Mostafaei fugiu para a Turquia, e hoje vive sob proteção diplomática da União Européia (UE). Segundo ele, em entrevista ao Brasil:

“Eu deveria ajudar minha cliente no Irã. No entanto, fui forçado a vir. O governo sequestrou minha mulher e prendeu meu sogro e meu cunhado. E afirmou que eu deveria ir à prisão para que eles fossem libertados. Eu não pude aceitar esse pedido. A polícia secreta iraniana espancou a mim e à minha família, invadiu minha casa, fechou meu escritório e me forçou a sair do Irã. Eu tenho certeza de que eles vão libertar meu sogro e meu cunhado, como fizeram com minha mulher.”

Mohammad Mostafaei

É esse governo que o nosso presidente Lula legitima como democrático.

Chico Mendes
“Você não quer derrubar esta árvore”

Me pergunto: Quantos de nós teriam chegado a esse ponto por uma cliente? Aliás, não só por uma cliente, mas por uma CAUSA. Por isso, mesmo com a aparente “derrota” do Mostafaei, o considero como um Herói de verdade. Mas há gente que vai ainda mais longe, ao dar sua própria vida pela causa. Gente como Chico Mendes que, mesmo ameaçado de morte por fazendeiros poderosos, resolveu ficar no seu estado e lutar pela conscientização da importância da Floresta Amazônica, numa época em que isso era no máximo considerado um “papo de vagabundo” (aqui no Brasil, porque lá fora Chico já era reconhecido e premiado). Ele, assim como Obi-Wan, sabia que seria mais forte morto do que vivo.

E há também heróis invisíveis, como as centenas de anônimos que realizam trabalhos sociais nos recônditos mais esquecidos pela sociedade, de forma desinteressada. Doando seu tempo, dinheiro ou conhecimento em prol de algo melhor, de um mundo melhor. Porque acreditam que, quando os outros “crescem” como Ser Humano, você TAMBÉM cresce. O MUNDO INTEIRO cresce.

Eu escrevi a primeira metade desse post há mais de um mês, quando não havia nenhum sinal de heróis fantasiados na vida real. Mas eis que li essa semana a notícia de que eles existem! E o melhor: agem fazendo caridade, como alimentar moradores de rua. Temos até um herói brasileiro, o Ciclista Prateado (muito style)! Após ser contaminado com mercúrio aos 20 anos, o nosso herói desenvolveu em seu organismo uma malária e a habilidade de fazer contrabandos no Paraguai. Brincadeirinha, apesar de ser verdade. Mas hoje ele faz shows e reúne multidões em passeios ciclísticos para arrecadar alimentos para fundos sociais.

O herói Ciclista Prateado e sua inseparável AG 47
O herói Ciclista Prateado e sua inseparável AG 47

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