DEUS É JAPONÊS

…e nós somos o Mario.

Mario como Adão e Miyamoto como Deus. Arte de @tsaoshin.
Arte de @tsaoshin

Que Mario? Aquele… er… não vou ser indelicado com as jovens senhoras que visitam meu blog, mas aviso logo que este é um post para a geração que cresceu jogando Super Mario. Eis que eram altas horas da madrugada e a conversa com meu interlocutor – Mestre em Botânica e Mario Kart – enveredou para o metafísico. Uma velha discussão sobre individualidade depois da Morte se diferenciou das demais pelo nível de metalinguagem alcançado, que pode fazer com que um tema espinhoso como o sentido da Vida se torne mais compreensível para, pelo menos, os gamemaníacos:

Toad:
…você assumir que nós vamos voltar para a Fonte é assumir a perda da sua individualidade, ou seja, uma morte definitiva e o suposto despertar de um Ser Supremo ou de um “braço” deste ser supremo. Mas o que acontece é que: primeiro, o Criador se distingue da criação. Como demonstrar isto? O Criador, por ser onisciente, não pode se auto-obstruir. Além do que não faria sentido se fazer identidade para conhecer o que já é por Ele conhecido. Percebe?

Acid:
Humm… Não estou seguindo esse raciocínio. Acho que o horário não favorece esse tipo de abstração.

Toad:
Heuhehe. Deixa eu ver se consigo escrever algo mais com cara do horário, tipo, simples e direto: Assim, ou somos todos Deus, ou há distinção entre Criador e criatura, certo?

Acid:
Depois de morto?

Toad:
Agora, vivos. Ou depois de morto também, tanto faz. Ou há esta distinção entre Criador e criatura, ou não há.

Acid:
Hum

Toad:
Então, supondo que não haja… Que todos somos Deus, neste caso, cada um de nós teria uma identidade ilusória.

Acid:
Isso. Pegadinha do Mallandro.

Toad:
Hueheuheuheu Isso aí. Mas cada uma dessas identidades ilusórias tem como principais características a liberdade de escolher, e a vontade de conhecer, a sede pelo conhecimento. Bom, mas Deus, em suas características de ato puro, primeiro motor, onisciente, onipresente etc não precisa conhecer, visto que é onipotente e onisciente, e por isso também não precisa escolher, pois todas as suas escolhas estão em ato, já que é ato puro.

Acid:
E se formos apenas um Second Life de Deus?

Toad:
huahauhauhauhauhuahua

Acid:
Com Inteligência Artificial! Aprendemos por nós mesmos.

Toad:
Então, faz mais sentido, mas não com Inteligência Artificial. É um Second Life com seres, digamos, “independentes”. Eles têm a liberdade de escolha por eles mesmos, têm vontade própria e sua sede de conhecimento condiz com o tempo de sua existência, com suas experiências, percebe?

Acid:
Liberdade dentro do confinamento, dentro do jogo.

Toad:
Aí faz mais sentido a distinção entre Criador e criatura. Mas pense que o cara que bolou o jogo o fez do modo mais perfeito possível para que essas criaturas pudessem exercer o seu arbítrio.

Acid:
Shigeru Miyamoto é Deus e Mario é sua criatura.

Toad:
Analogamente. Mas pense em Mario como um ser autônomo, e não como uma projeção de Miyamoto.

Acid:
Então Deus é japonês. Resolvido o mistério.

Gatinho jogando 3DS

Toad:
huahuhhauhauhua

Acid:
E se Mario JURA que é autônomo? Mas na verdade ele só faz o que Miyamoto PERMITIR que ele faça?

Toad:
Miyamoto ama o Mario como filho, só quer o bem dele. Mas Miyamoto permite que Mario escolha.

Acid:
Mario tem uma historia, tem irmão, tem amante, inimigos, trabalho, tem a meta de vida dele. Anda até de kart pra se divertir. Mas ele não conhece Miyamoto.

Toad:
Mas ele intui a presença de Miyamoto.

Acid:
E ainda assim ele é Miyamoto.

Toad:
E Miyamoto se faz conhecer.

Acid:
Isso! E quem sabe até se conheça em Mario.

Toad:
Mario então descobre que pode escolher entre buscar o Pai dele e descobrir o êxtase eterno que existe no sentimento que há na relação dos dois, ou fugir para sempre do Pai. Mas se Miyamoto já conhecer Mario e o cenário do jogo por completo, então não precisa se conhecer do mesmo modo. Se Deus é onisciente, conhece tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será, tudo o que poderia ser e o que jamais poderia ser, então não tem o que conhecer na criação.

Acid:
Você acha que Miyamoto não joga Mario Kart?

Toad:
Não sei se joga. Se Miyamoto conhece todo o jogo, não tem o que conhecer em Mario.

Acid:
Apesar de conhecer tudo ali? É a experiência, Toad!

Toad:
Isso aí. Miyamoto precisa de experiência. Deus é onipresente; experiência leva ao conhecimento.

Acid:
Não, é a experiência de jogar!

Toad:
Miyamoto conhece a configuração, mas precisa da prática para conhecer mais.

Acid:
É o viver! Estar.

Toad:
Deus não precisa da prática para conhecer, pois já conhece.

Acid:
Viver em Jesus deve ter sido uma experiência e tanto.

Toad:
Esse é um baita mistério. É o amor. Não foi uma experiência no sentido de vivenciar algo para conhecer.

Acid:
“Não acredito em um Deus que não joga Mario Kart”.

Toad:
huahuahuahuahua

Acid:
Miyamoto já conhece Mario Kart.

Toad:
A experiência em Cristo foi caridade pura.

Acid:
Até você já conhece Mario Kart! Jogar é uma experiência supraconhecimento. É uma comunhão. Taí: comunhão.

Toad:
Mas algo como Cristo, seria assim: Miyamoto viu que Mario, em vez de salvar a princesa, só queria andar de kart, pular em cima de tartaruga e jogar casco nas outras, e muito menos queria saber de seu Criador. Então Miyamoto encarnou em Yoshi (Yeshua).
Então o Yoshi veio para ajudar Mario a retomar sua linha, assumir seu compromisso com a princesa e assim, quem sabe, decidir, pelo amor por ela, amar verdadeiramente, ir para junto de seu Pai. Para isto, Yoshi levou Mario até o castelo, mas Luigi, que estava se divertindo com Mario, não gostou e sacrificou Yoshi…

Acid:
Aí Miyamoto usou o Continue.

Toad:
(sai cada coisa a essa hora da madruga… hueheuhue)
Isso, e Yoshi ressuscitou…

Acid:
Espero que não estejamos blasfemando.

Yoshi alado

Toad:
Agora com asinhas.

Acid:
HahAHhAHaHHAHA!

Toad:
Eu também.

Acid:
Asinha foi genial!

Toad:
Meu irmão… Precisamos escrever isso.
Mas pô, a analogia foi boa.
Yoshi, Yeshua.
O sacrifício.
Luigi irmão do Mario.
O acusador e aquele que foi salvo.
Foi bem construído.

Acid:
Judas era o Wario.

É isso. Esse é um bom ponto de partida pra debatermos a nossa experiência com Deus, a relação (se é que existe) Criador / criatura, a diferença entre as doutrinas, etc. Tem também um outro post que usa como metáfora a relação George Lucas / Star Wars.

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