O DEMIURGO

O sistema metafísico de Platão centraliza-se no mundo das idéias: Divino, Perfeito e Imanifesto. A ele contrapõe-se a matéria: uma cópia grosseira, imperfeita, falível e impermanente. Entre a idéia e a matéria está o Demiurgo, o Creador.

Desta personalidade e atividade creadora – ou, melhor, ordenadora – é dotado o Demiurgo, o qual, embora superior à matéria, é inferior às idéias, de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. Se fizéssemos a comparação com o Hinduísmo, o Demiurgo seria Brahma (O Criador), mas não Brahman (O Incriado).

O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos, as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas, introduzindo no caos a alma, princípio de movimento e de ordem. O mundo, pois, está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria), e é o devir ordenado, como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber, e é a opinião verdadeira. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica, haveria, antes de tudo, uma alma do mundo e, depois, partes da alma, dependentes e inferiores, a saber, as almas dos astros, dos homens, etc.

O conceito platônico do Demiurgo foi retomado pelo Gnosticismo, onde adquiriu um caráter ruim por conta da associação matéria (Humano) x idéia (Divino). No caso, o Demiurgo funcionaria como o personagem Arquiteto, de Matrix Reloaded, criando um mundo para aprisionar as nossas almas. Para a Gnose, a única parte Divina em nós é a alma, que constantemente batalha com o corpo e com as paixões materiais, e por isso o planeta Terra seria o verdadeiro Inferno (Hades), e o Demiurgo, o verdadeiro Lúcifer.

Oráculo mencionou certa vez que Moisés foi quem se comunicou com a maior potência, com a energia mais próxima de Deus possível aqui na Terra. Confesso que na hora fiquei desconcertado, pois achava que teria sido Jesus… até que alguns conceitos que estão espalhados sutilmente na Bíblia foram se encaixando, como o fato de, no Livro de Jó, Satã (o adversário) ter total controle sobre a matéria a ponto de infernizar a vida de Jó, mas não mudar a sua essência (alma). Vemos também em Mateus 4:8 Jesus ser tentado pelo mesmo Satã, que lhe oferece “todos os reinos do mundo, e a glória deles” se, prostrado, ele o adorasse. Sem falar no famoso “Meu Reino não é desse mundo…“, que me fez pensar “quem é que manda nessa porcaria aqui?”. Fica meio saber onde termina YHVH e começa Satã, se estivermos imbuídos dos nossos filtros religiosos, que separam distintamente o bem e o mal, mas se formos nos aprofundar na Kabalah e no Hermetismo, veremos apenas dois aspectos da Energia Divina, adaptada a uma certa época, a uma certa maneira de contar a história.

Há um texto de Lázaro Freire, na lista Malkuth (só para assinantes), que trata da questão de forma interessante:

…Pois bem, Mitratron é o PRIMEIRO regente dos sete deste mundo dos EL, ou seja, do MUNDO ASTROLÓGICO. Compararíamos ao plano astral (a muito GROSSO modo, porque aí não são lugares de manifestação, e sim quase atributos, formas divinas que há em nós ou nos anjos). Ou seja, ele está no ponto mais alto dos arcanjos, na comparação, no limiar do astral, quase passando para o mental. Eu recomendo não confundi-lo com o conceito cristão de Satanás, nem exorcizá-lo (risos), pois o “cara” (se fosse um cara) é, se não notaram, a primeira grandeza abaixo do mundo angelical. Ou seja, sua missão é introduzir aqueles que devem “comparecer perante a face de Deus”. Em nossa linguagem, sabemos que, para você se iluminar, vai ter de se livrar do jugo do karma. Não vai poder dever nadinha, certo? Então, ADIVINHA QUEM você vai encontrar no seu caminho de ascensão, para só passar quanto tiver realmente o coração leve como a pluma?

Ah, lembram do Deus mal humoradinho do velho testamento? Não, não era DEUS, ou melhor era, pois todos o somos. Mas o ASPECTO ou força divina que acompanhava aquele estágio do planeta, e que se manifestava, e que podia destruir Sodoma e Gomorra, testar Jó e Tobias, falar GROSSO para dar as Leis, etc. Adivinha quem era? Quem? Quem?

Ah, mais detalhes para ter boas relações com este aspecto… É claro que é por meio dele que todas as potências inferiores podem receber as virtudes de Deus. O “cara” é uma espécie de chakrão celeste, um elo divino, um transformador energético, um filtro de passagem. É bom pensar antes de chamá-lo, em ignorância religiosa, de “o capeta”.

Quando nos adaptamos à idéia oriental de que não existe bem ou mal (apenas o uso que fazemos das coisas), nos parece mais lógica a idéia de que “cada povo tem o Deus que merece ou necessita” e, por isso, encerro com mais essa pérola de Aïvanhov:

Como é que se podia falar de Deus – o Ser que supera toda compreensão – aos povos primitivos que não tinham nenhuma noção da vida interior?
Devia se utilizar uma linguagem que eles pudessem compreender, então, foi preciso atribuir a esse Deus alguns traços de caráter humano, insistindo, certamente, na Sua força e na Sua grandeza.
Foi assim que as religiões fizeram dEle um rei, com traços característicos dos reis que reinavam na terra, como: a autoridade, a cólera, o ciúme, a vingança nos confrontos daqueles que não se inclinavam diante dEle, e distribuidor de recompensas aos seus cortesãos. Verdadeiramente um belo exemplo!
Na terra existem reis que ocupam o seu tempo de modo mais razoável e útil. Nos nossos dias, os seres humanos, pelo menos alguns entre eles, adquiriram um conhecimento da vida psíquica e uma consciência moral, dos quais não se tinha a menor idéia nos séculos anteriores.
Então, não se deveria apresentar uma outra imagem de Deus?

Omraam Mikhaël Aïvanhov

Referência:
A Metafísica em Platão

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