DALAI LAMA NO BRASIL

O Saindo da Matrix faz a cobertura da visita do Dalai Lama ao Brasil

Dalai significa Oceano em mongoliano e Lama é a palavra tibetana para Mestre, Guru. Dalai Lama (Oceano de Sabedoria) foi o título dado pelo regime mongoliano à Altan Khan (o terceiro Dalai Lama) e agora é aplicado a cada encarnação na sua linhagem. Os Dalai Lamas são mostrados como sendo a manifestação de Avalokiteshvara, o Bodhisattva da Compaixão, cujo o nome é Chenrezig, em tibetano.

O Dalai Lama tinha 25 anos quando o exército chinês invadiu o Tibet e ele fugiu para a Índia cruzando as montanhas do Himalaia. Hoje, o Tibet é uma província da China.

Promover a harmonia entre as religiões se tornou uma de suas missões na vida.

“Uma religião só não é suficiente porque a humanidade tem tradições diferentes. Precisamos de uma variedade de religiões para um povo variado”, falou em entrevista ao Fantástico, para promover sua visita ao Brasil nos dias 27 a 29 de abril, em São Paulo.

ENTREVISTA

Mas é possível ter espiritualidade sem ter religião?

Claro, não só é possível como é necessário. Há tanta gente que não tem religião mas tem compaixão, afetividade, consciência dos direitos dos outros. Por isso defendo uma terceira via de espiritualidade, através da educação. Não da meditação, nem da oração, mas da consciência humana.

E qual seria a resposta para a tão difícil busca da felicidade?

O Dalai Lama começa falando sobre o que impede que ela exista: “Ódio, inveja e orgulho são emoções que transformam as pessoas e até os animais sentem isso”, explica.

Qual é o caminho da felicidade?

Você e eu também fazemos parte da humanidade. Se 6 bilhões de pessoas são felizes, nós dois teremos o máximo de felicidade. Se 6 bilhões sofrem, nós dois sofremos.

Então, para ser feliz, é preciso trabalhar pela felicidade da humanidade inteira?

Sim, e a felicidade é conseguida através da compaixão. A compaixão diminui o medo, sem medo nos comunicamos com mais facilidade, somos mais felizes.

O senhor sente compaixão pelo governo chinês?

Sim, certamente, mas vamos deixar claro uma coisa: muitos acham que ter compaixão é se render ao outro. Temos que separar o agente da ação. O perdão é para a pessoa, não para o que ela faz. Mesmo os que decidem torturar ou matar os nossos irmãos tibetanos, devemos nos opor à ação. Criticar, mostrar que desaprovamos. Mas o agente ainda é um ser humano. E através da compaixão suas atitudes vão mudar”.


Vamos agora à cobertura mais completa da visita do Dalai Lama ao Brasil, apenas no Saindo da Matrix! E lembrem-se sempre dos ensinamentos de Buda:

Não acredite no que você ouviu; não acredite em tradições porque elas existem há muitas gerações; não acredite em algo porque é dito por muitos; não acredite meramente em afirmações escritas de sábios antigos; não acredite em conjecturas; não acredite em algo como verdade por força do hábito; não acredite meramente na autoridade de seus mestres e anciãos. Somente após a observação e análise, quando for de acordo com a razão e condutivo para o bem e benefício de todos, somente então aceite e viva para isso.

Buda

DIA 1

O futuro do Budismo

Na entrevista coletiva realizada ontem, às 15h, o líder máximo da tradição tibetana falou pela primeira vez desde que chegou ao Brasil. Seu discurso foi do elogio à ciência ao desencorajamento do “novo budismo“. “O budismo pode abrir mão de suas próprias tradições caso a ciência demonstre que essas tradições contrariam a lógica, o raciocínio e a experimentação”. O lama também classificou a moda budista no Ocidente como “um erro”: “Sempre digo que é mais seguro manter sua própria tradição em vez de se aventurar e adotar uma nova tradição religiosa, com a qual não se tenha intimidade”. A crítica foi, sobretudo, aos “new age” que “misturam elementos de várias religiões e acabam esquecendo as origens singulares de cada uma”.

Sua Santidade o Dalai Lama começou hoje às 9h30 sua agenda de visitas no Brasil, indo ao templo budista (chinês) Zu Lai, em Cotia (Grande São Paulo), participar de um evento cujo tema era “Natureza e treinamento da mente no budismo tibetano“. Mais um exemplo de que suas diferenças com a China se dão no campo político, não no humano.

O Lama chegou ao local às 9h30 e foi recebido por cerca de 25 estudantes que empunhavam flâmulas do Brasil. Após cumprimentar as crianças, o religioso se dirigiu a uma cerimônia reservada com a monja superiora do monastério. Antes do início da exposição ao público em geral, duas crianças do Colégio Sidarta levaram uma bandeira do Brasil ao Dalai Lama. Sorridente, ele abriu a bandeira e mostrou-a ao público. O colégio participa do projeto “Filhos de Buda“, por meio do qual o Templo Zu Lai atende crianças da favela do Chiclete.

O Supremo pontífice dos refrigerantes

Fatos e fotos

Na exposição pública, o sorridente monge mostrou seu lado mais humano. Envergando o Manto Laranja que o caracteriza entre os jovens como o Avatar do novo milênio, o Divino representante da Fanta na Terra: Dalai Fanta (Oceano de Fanta, em Pali), o guia espiritual e a aspiração suprema dos adoradores deste refrigerante. Explicou aos presentes que a grande meta da humanidade é a Felicidade Suprema, que só poderá ser atingida quando todos experimentarem o estado transcendental conhecido como Bamboocha, um estado de espírito indefinível que é traduzido como “comer a vida com uma colher grande“. Orou pela paz mundial e entoou diversas vezes o poderoso mantra Bamboocha, acompanhado pela multidão.

Momento da luta pela melhor visão do site Paparazzo

Já à noite, durante a coletiva de imprensa, o Lama protagonizou um fato inusitado. Algum jornalista engraçadinho resolveu deixar ligado um laptop aberto no site Paparazzo. Assim, enquanto a comitiva do Dalai Lama passava por ali, toda a atenção do grupo foi subitamente atraída para a tela do computador. Fiel às tradições budistas, o Lama não se deixou tomar pela sensualidade das modelos brasileiras e colocou um óculos escuro, mas não adiantou muito e logo sua Santidade estava disputando aos tapas o melhor local de visão com um velhinho não identificado. Não pôde disfarçar sua cara de surpresa e um sorrisinho de satisfação. No meio da confusão o velhinho teve um princípio de infarto (não se sabe se com a visão do site ou com a emoção de estar apanhando do Dalai Lama) e foi socorrido às pressas para o hospital.

DIA 2

Dalai Lama recusa fama de “milagreiro”

Da Folha Online

“Se vocês vieram aqui com a expectativa de que o Dalai Lama possua algum tipo de poder, bem, isso é uma bobagem”. Foram estas as palavras iniciais de Tenzin Gyatso, 70, o Dalai Lama, líder máximo do budismo, no seminário ministrado nesta sexta-feira (28) em São Paulo, no Palácio das Convenções do Anhembi.

Gyatso falou sobre a relação de sua crença com a ciência e a educação para mais de 2.500 pagantes. A pedido de Gyatso, as luzes da platéia ficaram acesas, para que ele pudesse “olhar nos olhos de cada um” enquanto falava.

Por fim, o mentor do povo tibetano criticou o hedonismo, dizendo ser “impossível pensarmos apenas no prazer a curto prazo”.

Visita do Dalai Lama movimenta comércio no Anhembi

Adaptado da Folha Online

Durante o seminário em São Paulo, principalmente durante os intervalos – e mesmo enquanto a palestra acontecia – dez tendas vendiam souvenir com temas tibetanos e budistas. A lista de itens era extensa: adesivos, imãs, pôsteres, pulseiras, etc.

Dalai Lama e “Dalaizinho”

A advogada P. Barreto, 29, comprou um quadro com um mantra para proteger sua casa por R$ 25,00. Carioca, ela diz precisar de muita segurança onde mora, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. Já fez viagens religiosas à Itália e ao sul do Brasil, mas afirma “ainda estar buscando o budismo”. Com a vinda para São Paulo, ela conta ter desembolsado pouco mais de R$ 500,00.

O próprio Dalai Lama aproveitou a platéia endinheirada para vender alguns objetos da sua grife. Para as meninas, um boneco de 70cm de um Dalai Lama criança foi vendido por R$ 100,00. O boneco pronuncia frases budistas, como “tudo é impermanente” e “se você quer ser feliz, pratique a compaixão”. Já para os meninos, uma versão mais aventuresca do líder budista em forma de um boneco articulado de 7.5cm, equipado com a metralhadora “Tibetan terror” AK-12 e uma pistola “Automatic Nirvana” Magnum66, que está custando a bagatela de R$ 30,00.

DIA 3

Sobre Jesus e raiva

Adaptado da Folha Online

No sábado, o Lama teve uma agenda intensa na cidade de São Paulo, que iniciou-se com uma palestra para cerca de 6 mil pessoas no ginásio do Ibirapuera (zona sul de São Paulo).

No evento, o Dalai Lama elogiou e disse que Jesus Cristo foi um “grande mestre”. Durante sua fala, o Dalai Lama percorreu temas que iam de compaixão à ética budista. “Não sei se a compaixão é benéfica para quem a recebe, mas tenho certeza que é para quem a pratica”.

No início de sua exposição, Gyatso foi interrompido por gritos de “lindo” e “viva o Dalai Lama”. Uma fã mais exaltada invadiu o palco e testou a impassibilidade e concentração do Lama, ao dar um demorado “banho de língua” no pescoço do líder budista.

A conferência deu espaço para o público fazer perguntas por meio de papéis entregues à organização do evento. Uma delas questionava se aquele que é considerado a reencarnação do Buda da Compaixão também sentia raiva. “Sim, pois sou humano. Quando as coisas dão errado sinto raiva”

Ao ser perguntado sobre sua opinião em relação a Jesus Cristo, o Dalai Lama falou: “Jesus foi um grande mestre, quanto a isso não há dúvida alguma. Alguém que influenciou tantas pessoas por tanto tempo certamente não é ser ordinário. Entendo que ele foi alguma manifestação de um Buda”.

Após o evento, o Lama se dirigiu à praça Túlio Fontoura (zona sul), onde aconteceu a inauguração do Espaço Gandhi, em homenagem ao líder indiano Mahatma Gandhi. A visita do Dalai Lama ao Brasil foi encerrada em um ato ecumênico na Catedral da Sé, em que d. Cláudio Humes, Henry Sobel e outros líderes religiosos celebraram a inter-religiosidade. O evento foi gratuito e quem não conseguiu entrar na catedral viu o ato da Praça da Sé, onde havia um telão. Segundo a PM, cerca de 1.500 pessoas estiveram dentro da catedral e 2.500 na praça.

DIA 4

Último dia

Quando o Dalai Lama se levantou para falar, em seu último pronunciamento, provocou comoção e choro dentro da catedral. Ele fez um discurso pelo “apego à fé” e às tradições religiosas. “Vemos muitas pessoas que se declaram budistas, cristãs, judaicas, mas não são sérias em expressar sua fé nas situações de conflito”, disse.

Após o ato ecumênico, o Lama foi cumprir a última parte de sua visita ao Brasil. Sim, oculto dos jornalistas, e fora da sua programação oficial, o monge budista foi ao encontro de um grupo muito seleto de admiradores: a Ordem da Sagrada Fanta Uva (OSFU). Ao contrário da aparição pública de três dias atrás, em que ele apresentou-se sorridente a uma multidão de jovens como o mítico Dalai Fanta, vestido de laranja, desta vez o monge falou de forma séria e pausada para os membros do grupo, usando um paramento monástico de cor uva, que é a cor do sagrado refrigerante Fanta Uva.

O Dalai Lama iniciou a preleção segurando uma garrafa de Fanta Uva no alto e dizendo:

“Eis o néctar dos Deuses! Mas nem todos estão preparados para a revelação. Apenas os de paladar mais apurado poderão sorver este precioso líquido! É sua missão, ó escolhidos, a de espalhar a Boa Nova, de que a Fanta Uva é o líquido sagrado que libertará a humanidade de sua escravidão à Cola e à Cevada.”

Dalai Lama

E continuou: “Tendo nascido no seio do aprisionador, como Moisés ela cresceu em paz lado a lado com o inimigo. E desse berço onde foi e é desprezada por grande parte da humanidade, ela se erguerá gradualmente até tornar-se a bebida única. Se hoje falo de Fanta Laranja ao povo, é porque ainda não o podem suportar. Mas vocês são as videiras da Terra! Se erguerão do solo e, do alto, poderão contemplar todo o Mundo, e seus frutos darão cachos que alimentarão com o maná espiritual toda essa humanidade sedenta.”

O Dalai fez um alerta aos que ainda estão mergulhados na ignorância da Cola: “Acautelai-vos, homens de visão estreita! Se hoje pensas que estais matando tua sede nas garrafas de Coca-Cola e Pepsi, saibam que estais sendo enganados pelo mundo sensorial! Bebeis sal, e a cada litro ingerido na verdade estarás cada vez mais sedento!”

E finalizou: “Vocês, meus amantes da Uva, serão os arautos dos novos tempos, onde reinará a paz e a saciedade, onde não teremos mais sede, injustiças, disputas por liderança mercadológica e, principalmente, as apelativas propagandas de cerveja!”

O líder da religião budista viajou neste domingo para a Argentina, onde dará continuidade à visita pela América do Sul.

Análise e comentários

Sobre os ensinamentos do Dalai Lama às Sanghas e organizadores de sua visita ao Brasil em 2006. O líder espiritual do budismo dá um bom puxão de orelha nos seguidores, que serve muito bem pra todos os buscadores de qualquer religião:

Por Arnaldo Bassoli

Este é o resumo das notas de tradução tomadas durante um encontro de Sua Santidade o Dalai Lama com as Sanghas budistas e os membros da organização de sua visita ao Brasil, em maio de 2006, após encerradas suas atividades públicas no país. Como notas tomadas rapidamente, têm várias imprecisões e não é um relato completo de sua fala.

Os representantes das Sanghas de São Paulo e de outras cidades do Brasil se reúnem no segundo andar do centro de convenções de um grande hotel na cidade. Há um largo corredor, bem comprido, e os presentes – talvez umas cento e oitenta pessoas ou mais – se reúnem em grupos de 30, para que seja possível fazer caber cada grupo em uma foto com o Dalai Lama. É quase hora de sua chegada, marcada para as 17:45, e várias Sanghas cantam a oração de longa vida por Sua Santidade.

Ele surge pontualmente, com seus seguranças, que o acompanham por todos os países que visita, e também aqueles enviados pela polícia federal e militar. São vários, mais de dez, caminhando em torno dele, que se dirige mais ou menos para o meio do corredor e para perto de uma mesa de bufê, ao meu lado direito. Vou traduzi-lo do inglês, e ocasionalmente ele falará em tibetano. Para esse caso, à minha esquerda há outro tradutor, tibetano-inglês, que falará baixinho, em meu ouvido, o significado a ser traduzido para o português.

A aclamação é geral. Totalmente à vontade, o Dalai Lama apóia-se na mesa, sem se sentar na cadeira reservada a ele, e começa, de pé, a falar para os budistas e não-budistas que trabalharam na organização da sua visita ao país, essas pessoas todas, pertencentes a diversos centros budistas, centros filosóficos, equipes de filmagem, produção e divulgação, assessores de imprensa, etc.

Mas a mensagem será mesmo dirigida principalmente aos budistas– vários deles já ordenados monges, ou sagrados lamas ou mestres… estou ao seu lado e cabe-me traduzir o que ele dirá. Terei que falar bem alto, para que todos possam me ouvir, até o final do corredor numa e outra direção. Sinto uma energia enorme, e apesar do momento exigir atenção e concentração, estou completamente tranquilo, como sempre me sinto quando estou em sua presença. Demora um pouco até que cessem as palmas e mantras com que as pessoas o recebem… Ele pede então aos seguranças que se afastem, abrindo o caminho para que todos possam vê-lo, mesmo os que estão mais longe, e os homens de terno escuro diluem-se entre os presentes.

O Dalai Lama começa agradecendo a todos pelos esforços realizados para que ele esteja ali, conosco. Diz que vários já devem ter alguma familiaridade com o budismo, por estarem fazendo a prece pela sua longa vida. Está com a expressão tranquila, mais para serena do que para sorridente. Está cansado, provavelmente, após um dia em que mal teve tempo de almoçar devido à quantidade de compromissos, entrevistas e palestras agendados para ele.

Entra então rapidamente no primeiro tema de sua fala: “Outro dia, em nosso encontro no templo chinês [uma sessão de ensinamentos para o público budista realizada dois dias antes no Templo Zulai, em Cotia], em nossa sessão sobre o budismo, vi, naquele dia tão bonito, muitas pessoas com uma variedade enorme de roupas. Havia roupas do budismo zen japonês, roupas do budismo tibetano, roupas de monges tibetanos, roupas de monges de outras nacionalidades, roupas que eu nem sei quais eram… talvez roupas de outro planeta!” (risos gerais).

Sua expressão se altera um pouco. Sério, olha para baixo, como se estivesse procurando as palavras certas… os outros presentes estão absolutamente encantados com ele, inclusive os seguranças.

“Sou um pouco crítico quanto aos ocidentais que entram em contato com as tradições orientais, como por exemplo a budista, e começam a mudar seus hábitos exteriores. Primeiro, abandonam suas tradições de origem. Depois, mudam suas roupas, vestindo-se como os orientais se vestem. Em seguida, mudam os móveis de sua casa. Mudam seu comportamento, mudam seus gestos… Vemos ocidentais que abraçam por exemplo o sikkismo, ou tornam-se Hare Krishnas, e de repente saem as ruas com o cabelo raspado, as vestes laranja no estilo oriental… acho que isso não é bom.”

O Dalai Lama diz que o Dharma não está nas roupas, não está no comportamento exterior, nos móveis… “prefiro pessoas que conservem suas tradições de origem e aprendam o que podem aprender com o budismo, aplicando suas novas descobertas dentro de sua maneira cultural própria. O budismo não está nas regras monásticas nem na aparência. Olhem para o nosso mestre, Buda Shakyamuni. Ele criou um conjunto de regras a serem seguidas, mas seu grande ensinamento está em conhecermos a nossa própria mente! Talvez o que faz do budismo um caso quase único é que ele procura usar ao máximo a inteligência humana para transformar as emoções. E essa transformação não acontece através de preces, através de uma meditação unidirecionada. Não adianta fazer preces para os budas (o Dalai Lama faz um gesto unindo suas mãos e olhando para o alto) e ficar esperando que ocorra uma transformação mágica em suas emoções. Você pode fazer cem mil mantras om mani peme hum, fazer todo esse esforço, e achar que com isso já deve estar transformado, mas a mudança nesse caso só vai ocorrer se por acaso acontecer um milagre…

A voz do Dalai Lama é cada vez mais forte, e seus gestos começam a adquirir expressividade. Se antes ele estava cansado, começo agora a sentir nele um vigor e energia extraordinários. Ele parece ter achado algo muito importante a dizer para os seguidores do budismo, e vai dizê-lo sem perder uma palavra sequer.

O envolvimento é entre os presentes é ainda maior, e o silêncio é absoluto. “A transformação demora para acontecer. Demanda muito esforço. O próprio Buda Shakyamuni demorou três eras inteiras para transformar suas emoções. Não vai ser fazendo alguns mantras que você acha que sua vida vai mudar totalmente! Eu tenho mais de setenta anos, quase setenta e um. Comecei a interessar-me realmente pelo BuddhaDharma quando tinha dezesseis anos, e só agora, talvez, minha mente esteja se tornando um pouco mais estável…

De nada adianta você fazer um retiro tradicional de três anos, três meses e três dias. Pode ser até que a sua mente, ao longo desse tempo, em vez de melhorar, piore… a única coisa certa que se pode dizer é que, depois desse tempo todo, seu cabelo vai crescer!” (risos gerais, mas um pouco contidos, porque a audiência percebe que o assunto é sério, e o puxão de orelha só começou…).

“O desenvolvimento e a transformação da mente requer muito esforço. Mas perceba aqui também que o esforço cego de nada adianta: ele tem que ser acompanhado pela sabedoria. Novamente, podemos orar para Buda, para Tara, Avalokiteshvara, fazer uma Sadana… mas só há uma chance em um milhão de que isso baste para a sua transformação: se ocorrer um milagre. De outra forma, será realmente difícil atingir a mudança desejada.

Uma vez um aluno perguntou a um grande mestre tibetano do início do século vinte se deveria fazer um retiro de Manjushri de um mês, para melhorar a acuidade de suas percepções mentais. Esse mestre respondeu ao aluno que se ele fizesse o retiro, talvez houvesse alguma mudança; mas que se ele ocupasse esse mês estudando seriamente, era certo que sua mente iria mudar. Isto é MUITO importante.

Estudar é crucial. Já estamos trabalhando para que mais livros sobre o budismo tibetano sejam publicados na língua de vocês. Minha recomendação é: ESTUDEM! Estudem muito. Estudem e produzam textos, pequenos panfletos; não para venda, não para comércio, mas para fazer circular entre vocês.

Leiam, discutam em pequenos grupos, escrevam e façam suas idéias circular entre todos do grupo maior. Estudar e discutir é essencial. É irreal ficar esperando que venha um lama, uma vez por ano, fazer um workshop com ele e um monte de iniciações, e depois nada mais, e esperar alguma transformação em sua mente. Isso não é suficiente. É necessário estudar regularmente. Ocasionalmente, se você se encontra com algum bom professor, e passa com ele uma ou duas semanas fazendo workshops, é ótimo, mas depois volte ao seu estudo regular e sistemático.” Os presentes estão completamente atentos. O Dalai Lama chama a atenção de seus irmãos budistas: menos automatismo, mais reflexão, mais consciência! É um momento grave, e a mensagem é passada de maneira clara e inequívoca. Não há como fugir. “Mas há um pequeno problema. No mundo de hoje, há vários “businessmen” que, visando obter dinheiro, dão ensinamentos religiosos. Isso acontece cada vez mais frequentemente; ocorre muito na China, que importa “mestres” tibetanos, mas também no resto do mundo. Esses não são mestres genuínos. Apresentam-se como grandes mestres, mas não são. Seu propósito é unicamente o de obter dinheiro. Uma vez, um senhor chinês se aproximou de mim e colocou-me esse problema. “Dalai Lama, faça algo por favor para conter esse fenômeno, esses falsos mestres”. Eu lhe disse que não há nada que eu possa fazer! A única coisa que pode funcionar é que, do lado do aluno, haja consciência de quais são as qualificações de um mestre verdadeiro, de um professor autêntico, e ele examine se a pessoa em questão as possui ou não possui.

Isso é MUITO importante. Eu, por exemplo. Examinem-me, se como professor, eu tenho as qualidades necessárias! Eu também tenho que ser submetido a um exame!”

O Dalai Lama está completamente cheio de energia e vigor em suas palavras. Percebe-se que o assunto é de total importância, e ele realmente quer que todos entendam a importância do estudo e do empenho individual em transformar a mente, não de um modo mecânico, mas através da reflexão consciente. Antes que eu acabasse de traduzir sua última fala, a mais longa, ele gentilmente me interrompe, mudando o rumo do seu pronunciamento.

TIBET

“Mais uma coisa. Como eu já disse, meu terceiro compromisso é para com a causa tibetana, a nação tibetana. [O primeiro é com os valores humanos, e o segundo com a harmonia inter-religiosa.] O Tibet tem uma história muito longa, uma herança cultural viva e muito rica, e tem também sua própria escrita. Tudo isso tem mais de mil anos, tempo em que a tradição NALANDA do budismo foi mantida viva, nas regiões geladas das montanhas – como congelada num freezer. As tradições indianas sofreram muitos danos, mas a tibetana foi mantida intacta esse tempo todo. Há achados arqueológicos que atestam quanto tempo tem a cultura tibetana ancestral: mais de trinta mil anos!

Mas este cenário belíssimo, com as montanhas elevadas, traz também o quadro trágico: o de uma nação que está morrendo. Ainda não somos como o povo inca, que morreu totalmente, mas estamos morrendo. Ainda lutamos para sobreviver, mas se a situação presente se mantiver, a cultura tibetana e a nação tibetana perecerão, como aconteceu no caso dos incas. Neste momento, já está claro para todos que a cultura tibetana em sua forma pura já não existe no território tibetano – só existe na Índia, entre as comunidades no exílio. O Tibet luta pela sua sobrevivência, buscando uma liberdade limitada; não apenas política, mas cultural.

Se a luta pelo Tibet fosse unicamente uma questão política, eu, que no fundo sou um monge budista, não a teria abraçado. Se o fiz, é porque envolve a sobrevivência de nossa cultura, de nossa tradição, de nossa língua.

Portanto, essa luta pela liberdade limitada, uma luta democrática pela preservação da cultura ancestral tibetana, de sua rica tradição – se ela é assim, considero que minha atuação nesse sentido é parte da minha prática espiritual. É claro que nossa cultura ancestral, se comparada com o desenvolvimento das culturas contemporâneas, podia ser considerada atrasada em muitos aspectos. Assim, o Tibet pode beneficiar-se de estar sob a China, se houver modernização e progresso material.

A constituição chinesa prevê direitos próprios às diferentes etnias. Mas desde a ocupação, houve apenas um acordo entre o Governo Tibetano e o Governo Central da China envolvendo a preservação desses direitos; era um acordo para a liberação pacífica do Tibet, assinado na década de 50, e que nunca foi cumprido.

Ainda nessa década, a própria ONU emitiu várias resoluções em que considerava o Tibet um caso especial; o governo chinês reconheceu esses acordos, na ocasião, mas também nunca os cumpriu. Fui a vários encontros com o “Camarada Mao”, mas isso não deu em nada…”

O Dalai Lama parece encher-se de lembranças, e sorri um pouco. “Fiz muitos encontros, naquela época… provavelmente, em 1957, muitos de vocês não tinham nem nascido! Você, já era nascido? E você? Pois bem… naquele tempo eu era jovem, e fiquei enormemente atraído pelo “movimento revolucionário”. Acho que eu era, como dizer, um sujeito considerado… como dizer… perigoso: meio marxista, meio budista! (risos gerais).

O que acho do marxismo? acho que ele não é nem bom nem ruim. Minha impressão é de que o marxismo original tinha uma série de pontos muito interessantes, muito bons.

Mas depois, quando se tornou apenas parte de um poder político e nacionalista, tudo isso se perdeu. Hoje, para mim, a China não tem mais qualquer conteúdo: não é mais ideológica. É apenas autoritária.

Assim, faço a todos meu pedido: a nação tibetana está morrendo – ajudem-nos, de todas as maneiras que puderem… Meus amigos, meus irmãos e irmãs: agradeço enormemente seu interesse e seu envolvimento de coração com a cultura tibetana. Muito obrigado a todos!!!

O Dalai Lama é longamente ovacionado. Enquanto traduzo sua fala final, vai a cada um dos grupos, e senta-se no meio das pessoas enquanto os fotógrafos, vários, procuram registrar o momento. Depois, acenando para todos, caminha até o fim do corredor, desaparecendo em direção aos seus aposentos…

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