THERE AND BACK AGAIN

É estranho ver seus sentimentos e comportamentos escritos num livro de um estranho. Foi mais ou menos o que aconteceu ao ler trechos de O caminho Zen. Não que eu me considere um monge. Antes de ler o livro sabia muito pouco sobre o Zen, mas me identifiquei com o caminho e técnicas do buscador. O fato é que nos últimos meses havia atingido um ponto onde não estava mais “pisando no chão”. As coisas sensoriais não me atraíam, e não ficou claro pra mim o que eu faria com esse estado de espírito aqui na Terra. Havia decidido seguir o conselho de Oráculo, de botar os pés no chão, mas não sabia como (A coisa ficou ainda mais feia durante a viagem de férias, onde o ônibus não conseguiu frear no chão molhado e eu, em vez de me alarmar, serenamente esperei a morte – que, obviamente, não veio – e acabei ficando levemente frustrado. Foi aí que percebi que precisava mudar). A resposta surgiu nessas férias, na sequência de livros que lia e que se encaixavam perfeitamente com o que eu estava passando.

Então li esta frase de Buda:

Ah! Vivamos felizes, sem odiar os que nos odeiam! Habitemos entre os homens cheios de ódio, sem odiá-los!
Ah! Vivamos felizes sem ser enfermos, no meio dos que o são! Habitemos entre os enfermos sem o ser!
Ah! Vivamos felizes, sem cansaço, no meio de homens quebrados de cansaço! Habitemos entre os homens cansados, sem o ser!
Ah! Vivamos felizes, nós que nada possuímos! Seja a alegria o nosso alimento, como é a luz para os deuses resplandecentes!

Resolvi fazer disso minha meta da evolução. Sair para depois voltar, em movimentos pendulares. Assim como a Mônada faz, em suas rondas, adquirindo experiência para depois retornar para o TODO. E também como fazemos (em escala menor) em cada encarnação, que é pegar a bagagem do alto e usá-la aqui embaixo. Resolvi tomar o caminho de volta, mesmo sem estar realmente preparado (afinal, não dei mais do que alguns passos pra longe da Matrix). A mudança se fez sentir logo, nas pessoas do trabalho e alguns familiares. Estou mais comunicativo, brincalhão, e já consigo sentir prazer em comer um belo jantar (nham nham). Em contrapartida, o meu lado negro (Acid) tem estado muito mais ativo, como alguns tiveram o desprazer de conhecer (percebo agora que ele nunca foi de fato embora…). O problema com o movimento pendular é não poder dosar a força e a direção. É aí que devo concentrar meu esforço. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

“Após experimentar o Satori, o discípulo Zen precisa adaptar-se novamente à vida. Aparecem, então, novas metas a alcançar, novas vivências e uma certa consciência na conduta da sua alma. Assim também fica claro que o mero êxtase místico leva à sua liberação individual, quando o discípulo não propõe a questão a respeito de uma vida fecunda.

Justamente por isso, o adepto tem de voltar aos trabalhos práticos, ligados a realidades palpáveis. Arranca-se, desse modo, o discípulo de suas reflexões, pois agora, em primeiro lugar, é preciso adapta-lo às coisas e aos homens, fazer com que ele reconheça as suas peculiaridades – coisas simples, enquanto ele “deixa tudo acontecer”. Ele deve manter-se aberto a tudo e a todos, ser paciente e humilde com todos os que se aproximarem dele.

O adepto percebe logo o quanto lhe falta em equilíbrio espiritual e quanto sua vontade e obstinação se intrometem e importunam. Descobre sempre mais como, de modo diferente do das plantas e dos animais, ele perde a “natureza búdica”, pela obstinação. Pode surgir uma estranha propensão para fugir de tudo e refugiar-se na solidão. É importante que sejam então firmadas as relações com o mundo material, sem esquecer que o progresso interior não deve ser descuidado, pois é a fonte da qual flui toda a força.”

Eugen Herrigel; O caminho Zen

Todos nós precisamos nos defrontar com nossas sombras. Alguns conseguem matá-la. Outros viram escravo dela. Outros ainda conseguem transmutá-la ou mantê-la sob controle. Há os que resolvem ignorá-la, mas ela vai estar sempre por perto, esperando uma chance de voltar. No filme O Império Contra-Ataca Luke Skywalker faz a sua iniciação entrando numa caverna onde encontrará seu Lado Negro. O diálogo com o Mestre Yoda é inspirado:

– O poder de um Jedi emana da Força. Mas tenha cuidado com o Lado Negro. Raiva… medo… agressão. São eles o Lado Negro da Força. Facilmente eles fluem, para encontrar você em um combate. Uma vez iniciado no caminho negro, para sempre dominará ele o seu destino, consumir você ele vai, como fez com o aprendiz de Obi-Wan.
– Vader. É mais poderoso o Lado Negro?
– Não… não… não. Mais rápido, mais fácil, mais sedutor.
– Mas como vou saber distinguir o lado bom do lado mau?
– Você saberá. Quando estiver calmo, em paz. Passivo.

Antes dele entrar, Yoda diz:
– Apague as perguntas da sua mente.
– Existe algo que não está bem por aqui. Eu sinto frio, morte.
– Aquele lugar… é poderoso com o Lado Negro da Força.
– Um domínio do mal ele é. Você deve ir.
– O que existe lá?
– Apenas o que você levar consigo. Suas armas… você não precisará delas.

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