ANÁLISE DO CD ELVIS 30 #1 HITS

Elvis parou de cantar Ao Vivo quando eu tinha apenas 1 ano e 1 mês, em 1977. Meu pai recorda que estava brincando comigo no tapete quando ouviu a notícia pelo rádio. Graças a meus pais e tios, cresci ouvindo Elvis, Tropicália, Elton John, Carpenters, Beatles, enfim, toda a cultura dos anos 60/70, quisesse eu ou não (foi por osmose mesmo). Com o Napster, redescobri as maravilhas pop/rock dos anos 70 e 60 e acabei indo buscar as raízes do rock nos anos 50. E adivinhem quem foi o “inventor” deste ritmo na cultura pop? Ele mesmo. Elvis não é chamado de O Rei do Rock à toa. Como disse John Lennon: “Antes de Elvis não havia nada!

Elvis gravou tantas músicas que não se sabe ao certo quantas são. Então iniciei meu projeto de tentar coletar TODAS as músicas de Elvis (regravações, takes descartados, etc) e depois de 4 anos estou com umas 700 músicas em MP3. Enquanto colecionava, notava uma característica interessante: as remasterizações novas nem sempre eram melhores que as anteriores. E com as atuais coletâneas 30 #1 Hits e o 2nd to none não foi diferente.

Fiquei chocado com a qualidade de algumas músicas, umas pra melhor, outras pra pior. Então resolvi escutar atentamente minha coleção e assim comparar com as tão faladas novas remasterizações do CD. O resultado é um dossiê sonoro do CD e um guia para achar as melhores remasterizações de cada música contida neste lançamento.

Fiz as comparações usando o DFX, plugin para Winamp (hoje FXSound e que serve pra qualquer tocador) que compensa a perda de qualidade do MP3 e ainda realça todo e qualquer sonzinho que esteja baixo na música, sem com isso distorcer os sons mais altos. Ou seja: a velha técnica de simplesmente aumentar o som e vender a música como remasterizada não vai colar comigo.

ANÁLISE DO CD 30 #1 HITS

Coloquei o CD no carro, atraído pela promessa da remasterização impecável, e qual não foi minha decepção quando as 9 primeiras músicas apresentam aquele chiado característico de música velha… estragaram minha música preferida, ‘Don’t‘, com uma transcrição fiel do mono para o mono. Os puristas devem ter adorado. Principalmente quem ouvia os LPs em seus passadores de disco de 50 rotações…

Mas aí veio ‘Hard headed woman‘, uma das poucas músicas de Elvis que eu não gosto, e ela me chamou a atenção pelo fato de que não tinha chiado, e o som da guitarra estava cortante como se tivesse acabado de ser comprada! Pensei: “Que ótimo! Alguém da gravadora definitivamente adora essa música. Mas esqueceram de fazer o mesmo com todas as outras”. Mas qual não foi a minha surpresa quando começou a tocar ‘His latest flame‘. Minha nossa! Dei pulos da cadeira! Parecia que a música tinha sido gravada no mês passado!!! Ele está vivo, de fato! Ele está vivo!!

Vamos então a uma análise, música por música, e eu direi qual a minha versão preferida dentre todos os remasters:

01 – Heartbreak Hotel (?) Pra mim é uma incógnita. Pessoalmente, eu prefiro a versão do CD Elvis 2000 (Best of the King), que é a mais parecida com todas as outras que ouvi, só que extremamente limpa (sem chiado de fundo), como nenhuma outra. A versão do 30 #1 hits é mais nítida em qualidade e freqüência, tornando a voz de Elvis menos abafada, mas possui um irritante chiado. Só que a música original foi uma tentativa frustrada de imitar o eco da Sun Records, e o charme da música é justamente ouvir aquela voz que parece saída de dentro de uma caixa. Elvis insistiu para que a música saísse assim… Em todo caso, ouça as duas.

02 – Don’t be cruel (30 #1 hits) Um trabalho discreto e profissional. É quase a mesma versão do CD The 50 Greatest Hits, mas está mais stereo, mais bem separado, sem com isso comprometer o som como um todo.

03 – Hound Dog (?) Outra música que fica ao gosto do freguês. Eu gosto quando limpam uma música, mas convenhamos, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Eles praticamente tiraram o Elvis de dentro de uma caixa, e botaram ele cantando na sua frente. Só que eu, que cresci ouvindo o RRRRound dog quase gutural de Elvis, prefiro a versão original. Essa foi a música que mais peguei versões diferentes (até mesmo retiradas de LP). A grande maioria são muito agudas, quebrando o efeito “eu sou mau” que Elvis imprime à música. Eu solucionei o problema pegando a versão remasterizada menos aguda (do CD Rock’n Roll Best) e baixando um pouco a qualidade da música até atingir a freqüência sonora da versão do LP. Ficou ótimo: um som nítido, sem chiados, mas com “cara de antigo”.

04 – Love me tender (Heart & Soul) Foi a melhor versão que encontrei até agora. A do 30 #1 hits tem a voz mais alta e nítida, mas perde nas nuances de harmônicos. A voz fica chapada, quadrada. A gravação do Heart… é quase idêntica, mas a voz é muito mais doce, embora um tanto “embaçada”.

05 – Too much (The Complete 50’s Masters) No CD 30 #1 hits pegaram a música e aumentaram a fonte de som. Dá-se a impressão de que tem mais instrumentos, que é uma versão mais poderosa, e tal. Eu quase caí nisso, mas escutei com cautela a versão do 50 Masters e o som, apesar de mais baixo, é extremamente límpido, realçando a voz de Elvis dos demais instrumentos. A batida dos pratos também é mais forte aqui. No 30 hits a voz está “embaçada”, misturada aos outros intrumentos que competem para ver quem toca mais alto.

06 – All shook up (30 #1 hits) Realçaram todos os agudos da gravação, tornando a entonação da voz de Elvis bem diferente da original, e deixando a música menos abafada. Pena que descaracterizou um pouco a música, quase como se os três patinhos estivessem cantando.

07 – Teddy bear (The Complete Elvis Presley Masters) No 30 #1 hits realçaram a voz de Elvis, tirando-a de dentro da música. Ficou menos abafado que nos outros CDs, até a chegada do box The Complete Elvis Presley Masters, lançado em 2010.

08 – Jailhouse rock (The Complete Elvis Presley Masters) No 30 #1 hits bastou eu ouvir os primeiros acordes pra saber o quanto a remasterização estava boa. O eco da guitarra se espalha. Os pratos da bateria estão mais presentes. Infelizmente anda tem o chiado do comecinho da música, que estava presente em todas as versões até a chegada do box The Complete Elvis Presley Masters.

09 – Don’t (The 50 Greatest Love Songs). Ao contrário do 30 #1 hits, que valorizou o ambiente em torno da música (inclusive o chiado), neste CD foi realçado o aspecto grave da voz de Elvis e do coral Jordanaires, parecendo às vezes que eles cantam sem acompanhamento. O resultado é poder perceber cada sussurro, cada tomada de ar, tornando essa música a mais carregada de sentimentos que já ouvi em toda a vida (Fiquei feliz em descobrir que essa também era uma das músicas preferidas de Elvis). Imperdível!

10 – Hard headed woman (30 #1 hits) Como falei antes, a guitarra ficou cortante, como se tivesse acabado de ser comprada!

11- One night with you (30 #1 hits) Muito boa. Realçaram a voz de Elvis, que nas outras versões ficava abafada pelo baixo. Foi uma grata surpresa ouvir que esta versão soou idêntica à versão que eu re-equalizei anteriormente pra mim usando o CoolEdit (tinha adicionado mais ar à música pra ficar mais “encorpada” e com “cara de Elvis”).

12 – A fool such as I (The 50 Greatest Love Songs) O 30 #1 hits perdeu FEIO nesta música, pra o CD que foi lançado anteriormente. Mesmo sendo um pouco mais abafado, o som aqui é de alta qualidade, realçando os graves,e não é “chapado” como no 30 #1 hits. Um problema que não retiraram das duas versões é o chiado que aparece nos primeiros segundos e dura até o 42º segundo da música.

13 – A big hunk o’ love (Elvis’ Gold Records, Vol. 2) No CD 30 #1 hits ele trouxe a música pra um ambiente anos 80, com valorização dos graves. Quem está acostumado com músicas dos anos 50 vai preferir a voz cortante, chapada e a falta de ‘punch’ da gravação original. Mas, justiça seja feita: no 30 #1 hits realçaram bem o ambiente, tanto que aos 0:51s dá pra ouvir alguém cantando o refrão bem baixinho.

14 – Stuck on you (Lilo and Stitch Soundtrack) Por algum motivo esta versão, que saiu pouco antes da 30 #1 hits, é completamente diferente. Possui os agudos mais ativados, o que deixa os pratos com certa predominância, mas valoriza cada nuance da voz de Elvis. No 30 #1 hits temos equilíbrio de sons, mas a voz está tão diluída que perde metade da vida da música.

15 – It’s now or never (The 50 Greatest Love Songs) A versão do 30 #1 hits é um LIXO comparada a esta!!

16 – Are you lonesome tonight? (The Essential Elvis Presley) A versão do 30 #1 hits é FRACA comparada a esta!!

17 – Wooden heart (The Essential 60’s Masters 2) Essa é a versão mais fiel,com o acompanhamento num canal, e a voz nos dois, com todas as nuances intactas (e um efeito de eco que reverbera num canal, o que dá uma sobrevida fantástica a música!). No 30 #1 hits a voz está mais predominante, mas abafada, e o acompanhamento mais abafado ainda!

18 – Surrender (Love, Elvis) Tivemos quase um empate técnico com o 30 #1 hits, mas essa versão ganhou por ter o acompanhamento um pouco mais nítido.

19 – His latest flame (30 #1 hits) A melhor (não exatamente a tecnicamente mais perfeita) restauração de uma música de Elvis que eu já ouvi. Não só deixaram o som como novo, como os engenheiros de som remixaram o balanço dos instrumentos e voz, pra tornar a música ainda mais animada! Fico emocionado só de ouvir, parece que foi gravada ontem!

20 – Can’t help falling in love (Can’t Help Falling In Love (Remastered)) A versão do 30 #1 hits é um LIXO!! Comparem as duas, e veja que a versão do Can’t help… foi praticamente reconstruída em camadas, enquanto a do 30 #1 hits parece ter sido extraída diretamente do LP!!

21 – Good luck charm (The Complete Elvis Presley Masters) No 30 #1 hits finalmente efetuaram uma limpeza no chiado de fundo da música. Mas esta versão comete o mesmo erro das outras 99%: não valoriza a guitarra de fundo, que compõe e muito o ambiente da música. A única versão que fez isso foi a do The Complete Elvis Presley Masters. Compare.

22 – She’s not you (30 #1 hits) Impecável.

23 – Return to sender (CD Elvis 2000) A versão do 30 #1 hits é NOJENTA comparada a esta!! Sem comentários…

24 – Devil in disguise (?) No 30 #1 hits aumentaram um pouco o acompanhamento das guitarras, o que até melhorou a música. Mas a voz perdeu um pouco do eco do local. Eu ainda prefiro a versão do CD Elvis 2000 (Best of the King).

25 – Crying in the chapel (30 #1 hits) Eu levei dias pra eliminar o ruído de fundo da versão do CD Amazing Grace. Foi com pesar no coração que tive de deletar meu trabalho! Esta versão está muito melhor….

26 – In the ghetto (30 #1 hits) Confesso que estranhei quando a música começou com chiado de fundo, mas, comparando-a a outra que não tinha chiado nenhum, percebi que no 30 #1 hits eles aumentaram E MUITO o ambiente, facilitando ao ouvinte perceber todas as nuances da orquestra, da voz de Elvis se dissipando no ar, etc. Praticamente dá pra sentir a garganta de Elvis se movendo enquanto ele canta. É um pequeno preço a pagar por esse privilégio. Perfeito!

27 – Suspicious minds (Elvis 2000 (Best of the King)) No 30 #1 Hits finalmente resolveram o problema da voz de Elvis, que estava totalmente misturada a do backing vocal. Trouxeram a voz mais pra frente, o que parecia mais ser uma deficiência da gravação do que uma decisão do produtor. Mas diminuíram o volume do coral quando ele canta junto com Elvis, o que tira o impacto de passagens importantes da música, como o refrão. Particularmente eu prefiro a versão do Elvis 2000 (Best of the King), mas é bom comparar as duas.

28 – The wonder of you (On Stage / February 1970) Pra começo de conversa, eles escolheram uma versão fraca da música pra o 30 #1 hits. Elvis até mesmo erra a letra no primeiro parágrafo! E os violinos, que compõem o clima da música, ficaram muito fracos. Fique com a versão do On Stage.

29 – Burning love (30 #1 hits) Até mesmo quem não curte Elvis sabe que ele tem uma voz poderosa. Mas na imensa maioria das versões dessa música a voz dele fica em segundo plano, e só restava ao fã imaginar como seria ao vivo. Finalmente esta versão restaura o poder da voz de Elvis, e dá ainda mais vida a essa música que incendeia o coração de qualquer fã de Elvis. Em 2007 foi lançado o álbum The Essential Elvis Presley, que tem essa música um pouco melhor pra quem gosta de separação de som e curtir o instrumental.

30 – Way down (30 #1 hits) Fizeram um ótimo trabalho realçando os sons.

31 – Elvis vs JXL – A little less conversation (remix) Sem querer ser chato, mas há na internet uma versão extendida de 6 minutos que é muito melhor – por algum motivo – até mesmo na qualidade sonora.

CONCLUSÃO: Pelo número de vezes em que aparece como a melhor remasterização,pode-se notar que fizeram um bom trabalho no CD 30 #1 hits, mas, considerando-se que foram empregados vários remasterizadores, não houve uma uniformidade no trabalho, resultando em algumas versões com qualidade sofrível. Parece que usaram novamente a velha estratégia de vendas do Coronel: faça os fãs comprarem duas vezes a mesma música! Claro, pois já estão estudando relançar todos os CDs do Elvis remasterizados, e com certeza vão melhorar as versões fraquíssimas do 30 #1 hits e seremos obrigados a adquirir um novo CD se quisermos ter a melhor qualidade.

ATUALIZAÇÃO (2020): De fato, o que eu previa aconteceu: Lançaram álbuns e boxes remasterizados, e as músicas fraquíssimas foram devidamente retrabalhadas. Eu atualizei a lista com essas novas versões, mas é um testamento da qualidade desse álbum que várias músicas dele permanecem até hoje na minha “Biblioteca Elvis”.

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