RESGATANDO O PAPAI NOEL

Elvis Presley – Here comes Santa Claus

No Natal supostamente comemoramos o nascimento de Jesus Cristo. Nem sempre foi assim, é verdade, pois em outros países se comemoravam outras coisas por volta dessa data, mas pro nosso mundo ocidental a desculpa é essa pra ter o feriado. Só que, a cada geração, vamos esquecendo mais e mais este detalhe, e eu não duvido que pra muitas crianças seja apenas o “dia do Papai Noel”.

Uma pena. Não por perceber o quanto a religião está “fora” de nossa sociedade, pois eu detestaria viver num Estado teocrático onde seria lembrado a cada quinze minutos que “Jesus morreu por mim”, mas por perceber que a mídia, tão prestativa em nos “informar” sobre o que quer que seja (ou melhor, o que eles queiram) não nos recorda, em momento algum, do sentido original desta data. Pode-se fazer isso sem nem mesmo falar de Jesus. Quer ver?

Peguemos o Papai Noel. Ele é o símbolo máximo do Natal, queiram os cristãos ou não. E é o símbolo do capitalismo que infectou essa data, onde temos a obrigação moral de dar e receber presentes. Mas sua origem está em São Nicolau (Santa Claus, o nome em inglês do Papai Noel, é derivado do alemão Sinter Klaas, que é literalmente São Nicolau). E quem foi esse cara?

São Nicolau

São Nicolau de Mira (também conhecido como São Nicolau de Bari) foi bispo de Mira (sul da Turquia), no século IV. Conta-se que ele era tido como acolhedor com os pobres e principalmente com as crianças carentes, sendo o primeiro santo da igreja a se preocupar com a educação e a moral tanto das crianças como de suas mães. A mais famosa destas lendas conta que uma família muito pobre não tinha como custear o “dote” para casar as suas 3 filhas. Isso significava que elas não iriam se casar nem conseguir trabalhar, e provavelmente teriam de virar prostitutas. Então no dia do aniversário de cada filha, o bispo Nicolau, à noite, jogava pela janela um saco de moedas de ouro e prata, para ajudar a pagar o referido “dote” de cada uma. Uma versão da lenda diz que na terceira vez o pai ficou escondido esperando descobrir quem era o benfeitor, mas Nicolau, já sabendo, jogou o saco de longe, vindo a cair dentro da meia que a mulher havia estendido pra secar (e daí o costume norte-americano de se colocar meia na janela, pra o Papai Noel colocar o presente).

Nicolau possui várias histórias sobre suas supostas aparições post mortem; a mais famosa foi no Natal de 1583, na Espanha, quando atendendo às orações de algumas senhoras, teria auxiliado para que nenhum pobre deixasse de receber o seu pão nessa data. Os pobres, ao serem perguntados sobre a quem lhes teria dado alimento em meio a um “tão pesado inverno”, estes teriam dito que foram socorridos por “um senhor de feições muito serenas e mãos firmes”. Ele é o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, e padroeiro dos estudantes, marinheiros, mercadores, crianças e arqueiros (?).

Então toda essa história de desprendimento e bondade humana (que poderia inspirar muitas pessoas mundo afora) foi substituída por uma linha de produção onde elfos são escravizados no Pólo Norte (de onde não podem fugir) pra fazer presentes pra crianças de todo o mundo… mas só as que estiverem em sua lista de “boazinhas” (o que pode incluir aí favores sexuais).

Me pergunto: como seria o Natal se ele fosse comemorado por Jesus em pessoa?

Só posso imaginar, mas há uma dica de Jesus sobre celebrações no Evangelho:

Dizia mais ainda ao que o tinha convidado: “Quando deres algum jantar ou alguma ceia, não chames nem teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos que forem ricos, para que não aconteça que também eles te convidem à sua vez, e te paguem com isso; mas quando deres algum banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, porque esses não tem com que te retribuir, mas ser-te-á isso retribuído na ressurreição dos justos”. Tendo ouvido estas coisas, um dos que estavam à mesa disse para Jesus: “Bem-aventurado o que comer o pão no Reino de Deus”.

Lucas, 14:12-15

E Allan Kardec comenta, no livro O Evangelho segundo o Espiritismo:

Quando fizeres um banquete, disse Jesus, não convides os teus amigos, mas os pobres e os estropiados“. Essas palavras, absurdas, se as tomarmos ao pé da letra, são sublimes, quando procuramos entender-lhes o espírito. Jesus não poderia ter querido dizer que, em lugar dos amigos, fosse necessário reunir à mesa os mendigos da rua. Sua linguagem era quase sempre figurada, e para os homens incapazes de compreender os tons mais delicados do pensamento, precisava usar de imagem fortes, que produzissem o efeito de cores berrantes. O fundo de seu pensamento se revela por estas palavras: “E serás bem-aventurado, porque esses não têm com o que te retribuir”. O que vale dizer que não se deve fazer o bem com vistas à retribuição, mas pelo simples prazer de fazê-lo. Para tornar clara a comparação, disse: convida os pobres para o teu banquete, pois sabes que eles não podem te retribuir. E por banquete é necessário entender, não propriamente a refeição, mas a participação na abundância de que desfrutas.

Essas palavras podem também ser aplicadas em sentido mais literal. Quantos só convidam para a sua mesa os que podem, como dizem, honrá-los ou retribuir-lhes o convite? Outros, pelo contrário, ficam satisfeitos de receber parentes ou amigos menos afortunados, que todos possuem. Essa é por vezes a maneira de ajudá-los disfarçadamente. Esses, sem ir buscar os cegos e os estropiados, praticam a máxima de Jesus, se o fazem por benevolência, sem ostentação, e se sabem disfarçar o benefício com sincera cordialidade.

E quando os benefícios são pagos com a ingratidão ou o esquecimento? Será motivo para deixar de fazer o bem? Evidentemente, não; o bem deve ser sempre desinteressado. Esperar reconhecimento revela mais egoísmo que caridade. E comprazer-se na humildade do beneficiado que manifesta seu reconhecimento é prova de orgulho. Aquele que procura na Terra a recompensa do bem que fez não a receberá no céu; mas Deus levará em consideração aquele que perseverar no bem apesar da ingratidão e do esquecimento.

Allan Kardec; O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XIII

Em resumo, se o Natal fosse realmente uma homenagem a Jesus, dificilmente seria baseado no contrato social, ou seja, nas tradições que estabelecemos pra essa data, de dar e receber presentes dentro de um núcleo fechado (família, colegas de trabalho, escola, etc). Jesus nos mostra nessa quase parábola mais uma subversão dos costumes: se você está acostumado a dar pra receber presentes, dar festas pra permanecer no seio da sociedade, você já tem sua recompensa masturbatória, nesse círculo vicioso onde o cachorro persegue o próprio rabo (às vezes por caminhos tortuosos). Com a popularização do amigo secreto já nem nos preocupamos mais com QUEM vamos dar presentes. Descaracterizamos cada vez mais as coisas, apenas automatizamos o que nos diz a mídia: compre, compre, compre…

São Nicolau é uma fonte de inspiração por fazer o bem sem esperar reconhecimento. E isso baseado nos ensinamentos de Jesus. É esse o espírito do Papai Noel, que se deve resgatar (e resguardar) das garras do dragão do egoísmo, motivado pela mídia, pago pela indústria, que insere na mente das pessoas que você só é alguém querido e amado se puder dar e receber presentes. É o espírito do Natal que foi deturpado e deve ser resgatado.

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