JUNG: O REAL E OS SONHOS

Imagem do Instituto de Astrofísica das ilhas Canárias exibe restos de antigas galáxias que desapareceram há mais de 5 bilhões de anos.

Estranho como uma coisa tão “real” pra nós, aqui na Terra, já não exista mais. Você aponta o telescópio e vê aquilo lá, e continuará vendo até o fim da sua vida, mas o que vê é apenas a luz de algo que já se apagou há 5 bilhões de anos. O que é real? A luz que chega às nossas retinas, ou a informação científica? Para um índio, as estrelas que vemos no céu são reais, tão reais quanto a crença de que são os espíritos dos seus ancestrais. Mas essa “realidade” é despedaçada quando nos esclarecemos, através de preceitos científicos e comprováveis, como a velocidade da luz. Aí então abandonamos nossas crenças de outrora, herdadas de nossa cultura imediata, para abranger uma cultura global, impessoal, e com isso passamos a ser mais racionais e críticos, com o risco de nos tornarmos a ser bidimensionais, padronizados, pasteurizados pelo novo saber-comum que não dominamos inteiramente, mas que aceitamos por ser o “certo”.

Isso me lembra o conceito de Inconsciente Coletivo, brilhantemente intuído por Carl Jung. Um “compartimento” comum a todos os seres humanos, onde o espaço / tempo é relativo, e que era chamado na antiguidade de “simpatia de todas as coisas”. Do Inconsciente Coletivo pegamos “emprestados” nossas máscaras (personas), que compõem nossa personalidade. De lá também vêm os Arquétipos, instintos que parecem “dirigir” a história da raça humana em maior ou menor intensidade, através dos mitos.

“A alma primitiva do homem confina com a vida da alma animal, da mesma forma que as grutas dos tempos primitivos foram frequentemente habitadas por animais antes que os homens se apoderassem delas.”

Carl Jung

O perigo é quando tais imagens se apoderam do consciente:

No fundo, não descobrimos no doente mental nada de novo ou desconhecido: encontramos nele as bases de nossa própria natureza.

Carl Jung

O mais fantástico disso tudo é que, por ter caráter coletivo, ao olhar para o inconsciente dos “outros”, estamos também lidando com a matéria-prima do nosso próprio inconsciente:

A alma é muito mais complexa e inacessível do que o corpo. Poder-se-ia dizer que é essa metade do mundo não existente senão na medida em que dela se toma consciência. Assim, pois, a alma não é só um problema pessoal, mas um problema do mundo inteiro, e é a esse mundo inteiro que a psiquiatria deve se referir.

Carl Jung
Matrix: Conhece a ti mesmo
Conhece a ti mesmo

O psicoterapeuta não deve contentar-se em compreender o doente; é importante que ele também se compreenda a si mesmo.

Carl Jung

EROS X INSTINTO DE PODER

No livro Memórias, sonhos e reflexões, Jung nos fala um pouco de duas forças em oposição que, ao meu ver, são centrais em nossas vidas:

“Surgiu-me a idéia de que Eros e o instinto de poder eram como que irmãos inimigos, filhos de um só pai, filhos de uma força psíquica que os motivava e – como a carga elétrica positiva e negativa – se manifestava na experiência sob a forma de oposição; o Eros, como patiens, e o instinto de poder como um agens, e vice-versa. O Eros recorre tantas vezes ao instinto de poder como o instinto de poder ao Eros. O que seria um destes instintos sem o outro? O homem, por um lado, sucumbe ao instinto e, por outro, procura dominá-lo. Freud mostra como o objeto sucumbe ao instinto. Já Alfred Adler, como o homem utiliza o instinto para violentar o objeto. Nietzsche, entregue a seu destino e sucumbindo a ele, precisou criar um “Super-Homem”. Freud – tal era minha conclusão – deve ter sido de tal forma subjugado pelo poder do Eros que procurou levá-lo, como um numen religioso, ao nível de dogma aere perennius (Eterno). Isto não é um segredo para ninguém: Zaratustra é o anunciador de um Evangelho e Freud chega a competir com a Igreja através de sua intenção de canonizar doutrinas e preceitos.

Se Freud tivesse apreciado melhor a verdade psicológica que faz da sexualidade algo de numinoso – ela é um Deus e um Diabo – não teria ficado prisioneiro de uma noção biológica mesquinha. E Nietzsche, com sua exuberância, talvez não tivesse caído fora do mundo se tivesse permanecido nos fundamentos da existência humana.

Cada vez que um acontecimento numinoso faz vibrar fortemente a alma, há perigo que se rompa o fio em que estamos suspensos. Então o ser humano pode cair num “sim” absoluto ou num “não” que também o é! Nirdvandva, diz o Oriente. O pêndulo do espírito oscila entre sentido e não-sentido, e não entre verdadeiro e falso. O perigo do numinoso é que ele impele aos extremos e então uma verdade modesta é tomada pela Verdade e um erro mínimo por uma aberração fatal. Tudo passa: o que ontem era verdade, hoje é erro, e o que antes de ontem era considerado um erro será talvez uma revelação amanhã… e isto é ainda mais válido na dimensão psicológica, acerca da qual, na realidade, sabemos pouquíssimo. Muitas vezes negligenciamos isto e estamos longe de levá-lo em conta: que nada, absolutamente nada existe, enquanto uma consciência, por restrita que seja – luz efêmera –, não o advirta.”

Carl Jung; Memórias, sonhos e reflexões

Luz efêmera… E assim retornamos ao começo do post: luz. Folheando um antigo caderno de desenhos meus, de quando eu tinha 5 anos, achei uma frase minha desta época, que meu pai achou por bem copiar: “Quando a gente abre os olhos, o sonho se fecha“. Deve ter sido meu primeiro insight quanto a realidade das coisas. Décadas depois retomo a linha de raciocínio amparado por Jung, que nos legou uma visão de sonho muito diversa da (corajosa e pioneira, diga-se de passagem) idéia de Freud: Enquanto para este o sonho é uma fachada atrás do qual seu significado se dissimula, se ocultando maliciosamente à consciência, para Jung os sonhos são natureza, e dizem o que podem dizer tão bem quanto os nosso olhos ou ouvidos, sem procurar nos enganar, e que talvez sejamos nós (consciência) que nos enganamos, por sermos míopes ou um pouco surdos pra captar a informação da forma adequada.

Será que o que por vezes conseguimos enxergar (“trazer à luz” da nossa consciência) não é apenas a luz débil de algo que brilhou intensamente e que já não existe mais?

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