QUEM MATOU JESUS?

Pernambuco é mesmo um estado e tanto. Pioneiro, inovador, ousado! Tudo aqui é superlativo! Não é por menos que Pernambuco tem a capital mais violenta do país, o pior time do mundo (o Íbis), temos a maior agremiação carnavalesca do mundo (Galo da Madrugada), o hino mais bonito do Brasil (vocês conhecem o hino do seu estado? O pernambucano não só conhece como canta o refrão, pelo menos!) e desde 2002 somos recordistas no número de homicídios de mulheres!! Mas um dado costuma passar despercebido da maioria dos pernambucanos: não só temos o maior teatro ao ar livre do mundo, como o MELHOR teatro ao ar livre do mundo.

Nova Jerusalém (Flickr)

Estou me referindo a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém: Um espetáculo grandioso, digno de primeiro mundo, com iluminação soberba, cenários grandiosos (aproveitando muito da “beleza rude” do agreste, parecido em parte com a Jerusalém daquela época), figurino deslumbrante e interpretação correta (aliás, a interpretação é o que menos conta, dadas as dimensões do espetáculo). Este ano, pela primeira vez, eu resolvi ir. Confesso que tinha preconceito em ver um Jesus estereotipado, longe pra caramba (são 3 horas de viagem) e lotado de gente correndo de um palco pra outro como loucos. Pois não é que me enganei redondamente? Na viagem conheci a feira de Caruaru, tomei chocolate quente, conheci uma parte do agreste que não conhecia (cheio de pedras monolíticas); O público, apesar desse ano ter batido um recorde, não se acotovelava, dava até pra sentar no chão e descansar, e a visão era ótima, pois o terreno é em formato stadium (tipo o coliseu romano). E o estereótipo… bem, esse povo todo foi lá pra ver o Jesus da bíblia, e não o de Martin Scorcese.

É justamente sobre isso que eu queria conversar agora, aproveitando o influxo de judeus ou simpatizantes advindos do post sobre Sobel, gostaria de tratar abertamente do espinhoso assunto da “culpa dos judeus” pela morte de Jesus, e o ponto-de-vista judeu seria muito bem-vindo, já que vou me embasar na única fonte de informação que dispomos sobre Jesus, que é o Novo Testamento.

Primeiramente, deve-se estabelecer que Jesus era judeu. Pode parecer redundante, mas esse é um ponto convenientemente omitido pelas igrejas, e reforçado pela mídia, que representa Jesus e seus discípulos com feições mais ocidentalizadas enquanto o Sinédrio tem traços mais árabes, do judeu daquela época. Culpar todos os judeus pela morte de Jesus é igual a culpar todos os gregos pela morte de Sócrates (e no entanto não se vê ódio dos filósofos contra os gregos). Jesus deixa bem claro que veio para Israel.

Ponto 1:

Jesus era judeu e veio em missão para o seu povo (e não “espalhar sua doutrina para o mundo”).

Ele era (ou pelo menos achava que era) o Messias (Mashíach), “O consagrado“; referente à profecia da vinda de um humano descendente do Rei David, que iria reconstruir a nação de Israel e restaurar o reino dos céus, com paz e justiça. Só que, pra maioria do povo judeu daquela época, o Messias só poderia vir como um guerreiro – que viria libertar o povo da subserviência à Roma – nunca um pacifista como Jesus. Ou seja, hoje temos uma visão deturpada de que o Messias era “Deus na Terra”, mas a coisa é mais como um Rei, “o agraciado/ungido por Deus” para libertar novamente seu povo e estabelecer seu poder, nada mais, nada menos. Tanto é que, em 130 d.C, surgiu Shimeon Bar Kochba, esse sim um guerreiro, que liderou uma insurreição sangrenta contra o domínio de Roma e conseguiu expulsar os romanos da judéia. Tanto é que o respeitadíssimo Rabi Akiva o declarou como Rei-Messias. Ou seja, conseguiu apoio tanto do povo quanto dos líderes religiosos (Sinédrio), coisa que Jesus não conseguiu. Bar Kochba, obviamente, não conseguiu vencer o poder esmagador do Império Romano (afinal, quem conseguia?) e acabou cumprindo o dito de Jesus: “quem vive pela espada, morre pela espada”.

Ponto 2:

Jesus se dizia o Messias, e foi este o motivo oficial de sua condenação pelo Sinédrio, que não o apoiava.

Mesmo não tendo apoio do Sinédrio, Jesus conseguiu arregimentar muitas pessoas. Milhares, talvez. A própria bíblia diz que seus discípulos batizavam mais gente que João Batista (João 4:1), e João foi muito, MUITO popular. Ora, Herodes mandou prender e matar João Batista pois temia que ele pudesse liderar uma rebelião, pois João criticava bastante os governantes e acreditava no “Reino dos céus” como uma coisa material. Jesus rompeu com todas as tradições quando veio com uma experiência puramente espiritual. O “Reino dos céus” já veio e não o perceberam; está em toda a parte, dentro e fora de você, acessível mesmo no cárcere, mesmo na humilhação de Roma. Muitas pessoas captaram a essência mística de Jesus, mas a grande maioria (inclusive alguns apóstolos!!) achava que aquilo era um eufemismo para uma revolução armada, no futuro. Outros já tinham aparecido como Messias em potencial, como o próprio João Batista, ou Menahem, o essénio.

Ponto 3:

O povo judeu não entendeu muito bem sua doutrina. Estavam mais interessandos na liberdade física e Jesus era a “bola da vez” na qual depositar as esperanças.

Por isso é idiotice culpar o “povão” judeu. Entre a humilhação de Roma e um judeu esquisito pregando amar o inimigos mas se dizendo o Messias, pode apostar que eles preferiam o judeu. E o que a bíblia mostra? Uma profusão de gente saudando Jesus na entrada do Templo de Jerusalém!! Caramba, imagine as dimensões grandiosas do Templo de Jerusalém, CHEIO de gente (por causa das festas de Páscoa) e entra um cara que faz aquela “feira” parar e gritar “Hosana ao Filho de Davi! bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” e vários na multidão estendiam os seus mantos pelo caminho; e outros cortavam ramos de árvores, e os espalhavam pelo caminho. Cara, isso é recepção de um REI, uma mobilização em MASSA. Aí vem um cara no Fantástico dizendo que “aquilo de entrar com o burrinho era uma provocação aos romanos” e quis insinuar que Jesus era um agitador contra Roma. Será que ele não leu a bíblia? Uma das coisas que mais Jesus repetia era que tinha de ser assim “pra que se cumprissem as profecias”, ou seja, ele estava cumprindo os passos do Messias, que haviam sido profetizados há muito, muito tempo (coisas que estão no Velho Testamento). O burrinho, por exemplo:

“Ide à aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis uma jumenta presa, e um jumentinho com ela; desprendei-a, e trazei- mos. E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei: O Senhor precisa deles; e logo os enviará. Ora, isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Dizei à filha de Sião: Eis que aí te vem o teu Rei, manso e montado em um jumento, em um jumentinho, cria de animal de carga.

Mateus 21:2-5

E o quebra-quebra no templo?

“Chegaram, pois, a Jerusalém. E entrando ele no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e compravam; e derrubou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam pombas; e não consentia que ninguém atravessasse o templo levando qualquer utensílio; e ensinava, dizendo-lhes: Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, a tendes feito covil de salteadores.”

Marcos 11:15-17

Esse episódio selou o destino de Jesus. Ao dar uma mostra da sua força popular no seio de Jerusalém, Jesus estabeleceu-se primeiro como um alerta pra Roma, e depois um perigo mortal para o Sinédrio. Alerta porque Jesus era declaradamente contra a violência e contra o não-pagamento dos tributos (vide o episódio “Dai a César o que é de César“) mas o povo não pensava assim, e ele podia perder o controle do movimento. Perigo mortal porque Jesus era declaradamente contra os líderes religiosos e (quem diria) os “crentes” da época, e ascendendo ao nível de Rei a primeira coisa que cairia era o domínio religioso deles (que garantia a essa classe diversas regalias materiais, como, por exemplo, ganhar comissão em cima dos animais e bugingangas que eram vendidas nas portas do Templo).

Um detalhe que eu acho estranho é que o Governador da Galiléia Herodes Antipas não deu a mínima pra Jesus. O cara era paranóico o suficiente pra mandar matar João Batista (que era muito famoso, ou seja, ele não tinha medo da revolta do povo) mas desprezou completamente Jesus. Nos filmes vemos Herodes como uma pessoa alheia ao que se passa fora do seu governo, imersa em prazeres, mas o próprio Jesus o chama de “raposa” (Luc 13:32). Ora, uma raposa é tudo menos alheia e inconsequente. Uma pessoa como ele com certeza tinha espiões e era muito bem informada, tanto é que ele já sabia da fama de Jesus e tinha curiosidade em conhecê-lo. Ou seja, ele sabia que Jesus não era um adversário político, e que o campo dele era mais religioso. Não obedecia aos dogmas judaicos da época, nem às tradições, nem aos costumes. Por isso, não guardava o sábado do modo que havia sido imposto. Tinha sua própria idéia de como fazê-lo:

“Naquele tempo passou Jesus pelas searas num dia de sábado; e os seus discípulos, sentindo fome, começaram a colher espigas, e a comer. Os fariseus, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos estão fazendo o que não é lícito fazer no sábado. Ele, porém, lhes disse: Acaso não lestes o que fez Davi, quando teve fome, ele e seus companheiros? Como entrou na casa de Deus, e como eles comeram os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem a seus companheiros, mas somente aos sacerdotes? Ou não lestes na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Digo-vos, porém, que aqui está o que é maior do que o templo.”
(Mat 12:1-6)

“Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é lícito fazer bem nos sábados.”
(Mat 12:12)

“E prosseguiu: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.”
(Mar 2:27)

Quebrava até as convenções sociais:

“Disse-lhe então a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicavam com os samaritanos).”
(João 4:9)

“E nisto vieram os seus discípulos, e se admiravam de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe perguntou: Que é que procuras? ou: Por que falas com ela?”
(João 4:27)

Ponto 4:

Jesus não era um líder político, e sim religioso.

Então, quem tinha mais motivos pra matá-lo, Roma ou os religiosos judeus? Tudo aponta para os fariseus, claro. Mas, por que então Jesus não foi morto de acordo com a lei judaica?! Aí está a questão mais espinhosa e mal-contada, e gostaria da colaboração de vocês.

Na Bíblia consta que os sacerdotes não tinham autoridade pra matar ninguém sem autorização de Roma. Mas isso não é de todo verdade. Herodes não mandou matar João Batista? E a mulher que ia ser apedrejada por adultério? E quando os judeus pegaram em pedras (João 8:59) para jogar em Jesus? Vocês acham que era só pra machucar? Para a lei Judaica, a morte por apedrejamento era a sentença apropriada para a blasfêmia. O povo Judeu não crucificava e esse método de executar a pena de morte era de origem Grega ou Romana. Os Judeus executavam os condenados por apedrejamento, decapitação ou estrangulamento, de acordo com a natureza do crime.

Só que a bíblia – pra todo mundo que não seja bitolado – toda ela, desde o Velho até o Novo Testamento é um relato escrito por homens, de uma história oral e unilateral, escrita MUITO tempo depois do fato ocorrido; Então, deturpações (intencionais ou não) existem que podem favorecer um lado em detrimento de outro. É evidente que Jesus morreu por um método de tortura Romano (reservado aos maiores criminosos), e o fato do cristianismo ter se estabelecido justamente em Roma atenta muito contra a imparcialidade do texto bíblico (basta ver que foi Constantino, Imperador Romano, que escolheu quais livros comporiam o Novo Testamento e quais seriam jogados fora, ou seja, haviam várias versões na época).

Será que entre os judeus só Herodes tinha poder pra matar? E, mesmo que fosse, por que o Sinédrio insistiu tanto com Pilatos e não com Herodes, já que pro último tanto fazia ter Jesus vivo ou morto?! Será que o Sinédrio temia que, Jesus sendo morto por Herodes (ou pelo Sinédrio) haveria uma revolta popular que os destronaria? Então, por que não houve com João Batista? Esse negócio tá muito mal contado.

Ainda segundo a Bíblia, “Seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quais o pranteavam e lamentavam.” (Lucas 23:27). Não tinha uma multidão gritando “Crucifica!” ainda há pouco? Que povo inconstante, esses judeus… E a tabuleta que Pilatos colocou: “Jesus, rei dos Judeus” em várias línguas? Seria só pra irritar os religiosos, ou é um claro sinal de humilhação e intimidação a quem mais tentar se declarar Messias (não esqueçam do significado dessa palavra naquele tempo)?

Ponto 5:

Jesus sabia exatamente o seu papel nisso tudo, não queria estabelecer um Reino terreno, e sabia tudo o que ia lhe acontecer.

Esse ponto corre o risco de ser convenientemente colocado de lado por quem se interessa mais pelo Jesus histórico, pois é muito metafísico e fantasioso. Mas simplesmente não dá pra ignorá-lo. Caso o faça, então o Jesus histórico é OUTRA pessoa totalmente dissociada do personagem da Bíblia, que só compartilha a fama e o nome. Teríamos de achar que até mesmo o Sermão da Montanha é fantasioso, as parábolas, tudo o mais, pois mesmo a forma da morte dele é associada às profecias:

Em verdade o Filho do Homem vai, conforme está escrito a seu respeito; mas ai daquele por quem o Filho do Homem é traído! bom seria para esse homem se não houvera nascido.
(Mat 26:24)

Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis de mim; pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão.
(Mat 26:31)

Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.
(Luc 24:44)

Então, depois de o crucificarem, repartiram as vestes dele, lançando sortes, [para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Repartiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica deitaram sortes.]
(Mat 27:35)

Também, com ele, crucificaram dois salteadores, um à sua direita, e outro à esquerda. [E cumpriu-se a escritura que diz: E com os malfeitores foi contado.]
(Mar 15:27-28)

No final das contas, não tem sentido nem mesmo culpar os Fariseus pela morte de Jesus, pois era assim que tinha de ser. Afinal, como o próprio disse pra Pilatos:

Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fora dado.

João 19:11

Referência:
Saindo da Matrix – Jesus Gibson de Nazaré;
Saindo da Matrix – A Paixão de Cristo (O filme);
Saindo da Matrix – Jesus de Nazaré

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