O SUJEITO PERVERSO DA POLÍTICA

Por volta de 2010 eu mergulhei no estudo do nazismo pra tentar entender como o povo alemão caiu na lábia de Hitler e não percebeu o que percebemos tão claramente nos dias atuais: que o nazismo era moralmente abominável, perverso, cruel, insano. E como foi isso? Através de técnicas de manipulação de massa, controle da mídia (com demonização de toda a mídia contrária), manter um estado de guerra constante contra a “ameaça judia” (um perigo invisível e que poderia ser qualquer coisa que eles quisessem que seja) e um patriotismo exacerbado, com valores familiares e cristãos retrógrados sendo propagados como o ápice da civilização “contra a barbárie”. Armado desses pressupostos, o “cidadão de bem” alemão podia relevar (ou ignorar) todo o resto. Mas, como se dava esse processo na cabecinha desses cidadãos?

Muita gente culpa o povo alemão até hoje, até hoje eles têm vergonha de terem participado disso, mas será que somos assim tão melhores que eles? HOJE, enquanto escrevo, mais de 30% da população brasileira pensa EXATAMENTE IGUAL A ELES, colocando UM ideal muito particular de país acima de vidas (milhares delas!), UM tipo de núcleo familiar acima de todos os outros na sociedade, privilégios a UM tipo de religião e UM tipo de carreira profissional em específico, e essas pessoas não fazem NENHUMA reflexão sobre como vai ser a vida das OUTRAS pessoas nessa sociedade idealizada deles, mesmo que essas outras pessoas sejam perseguidas ou assassinadas, pois “os fins justificam os meios”, ou “não é problema meu”, já que não vão ser eles que vão fazer o serviço sujo (embora sejam responsáveis, não se sentem como responsáveis).

Mas, e quem vai? Bem, esse é um outro tipo de cidadão, o que está disposto a tudo pelo ideal, até mesmo sujar as mãos. Como conciliar isso com sua formação “cristã e familiar”? Vejamos então o capítulo 7 do livro Como ler Lacan, de Slavoj Zizek.

O sujeito perverso da política: Lacan como leitor de Mohammad Bouyeri

“É propriamente falando um efeito inverso da fantasia. É o sujeito que se determina a si mesmo como objeto, em seu encontro com a divisão da subjetividade… É no que o sujeito se faz objeto de uma vontade outra, que não somente se fecha mas se constitui a pulsão sadomasoquista… O sádico ocupa ele próprio o lugar do objeto, mas sem saber disto, em benefício de um outro, pelo gozo do qual ele exerce sua ação de perverso sádico.”

Jacques Lacan; O Seminário, Livro II

Esta passagem lança uma nova luz sobre o totalitarismo político. Um verdadeiro político stalinista ama a humanidade, mas apesar disso promove horríveis expurgos e execuções – fica com o coração partido quando o faz, mas não pode evitá­-lo, é seu Dever para com o Progresso da Humanidade. Esta é a atitude perversa de adotar a posição de puro instrumento da Vontade do grande Outro: não é minha responsabilidade, não sou realmente eu que estou fazendo isso, sou apenas um instrumento da Necessidade Histórica superior. O gozo obsceno dessa situação vem do fato de que eu me concebo como desculpado pelo que estou fazendo: sou capaz de infligir dor a outros com a plena consciência de que não sou responsável por isso, de que meramente cumpro a Vontade do Outro. À pergunta “Como pode o sujeito ser culpado quando meramente realiza uma necessidade objetiva, externamente imposta?“, o pervertido sádico responde admitindo subjetivamente essa necessidade objetiva, encontrando prazer no que lhe é imposto.

Goebbels, ao descobrir que a pessoa que estava tirando a foto era judeu
Goebbels, ao descobrir que a pessoa que estava tirando a foto era judeu (saiba mais)

Quando confrontado com a tarefa de liquidar os judeus da Europa, Heinrich Himmler, chefe da SS, exibiu uma atitude heróica: “Alguém tem de fazer o trabalho sujo, então vamos fazê-lo!”

É fácil fazer algo de nobre por seu país, até sacrificar a própria vida por ele – é muito mais difícil cometer um crime por seu país. No livro Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt fornece uma descrição precisa desse subterfúgio de que carrascos nazistas lançam mão para serem capazes de suportar os atos horríveis que praticaram. Em sua maioria, eles não eram simplesmente maus – tinham plena consciência de estar fazendo coisas que impunham humilhação, sofrimento e morte às suas vítimas. A saída desse impasse era que “em vez de dizer: ‘Que coisas horríveis fiz para as pessoas!‘, os assassinos seriam capazes de dizer: ‘A que coisas horríveis tive de assistir no cumprimento de meus deveres, como a tarefa pesou sobre os meus ombros!“. Dessa maneira, eram capazes de virar de cabeça para baixo a lógica de resistir à tentação: a tentação à qual era preciso resistir era a própria tentação de sucumbir a uma piedade e compaixão básicas na presença de sofrimento humano; seu esforço “ético” era dirigido para a tarefa de resistir a essa tentação de não humilhar, torturar e assassinar. Minha violação de instintos éticos espontâneos de piedade e compaixão é transformada na prova de minha grandeza ética: para cumprir meu dever, estou pronto a assumir o pesado fardo de infligir dor a outros.

A mesma lógica perversa opera no fundamentalismo religioso de nossos dias.

Para Lacan, um perverso não é definido pelo conteúdo do que está fazendo. A perversão, fundamentalmente, reside na estrutura formal de como o perverso se relaciona com a ver­dade e a fala. O perverso reivindica acesso direto a algumas figuras do grande Outro (que vai de Deus ou da história ao desejo de seu parceiro), de modo que, dissipando todas as ambiguidades da linguagem, ele seja capaz de agir diretamente coma o instrumento da vontade do grande Outro. Nesse sentido, tanto Osama Bin Laden quanto o presidente Bush, embora adversários políticos, partilham as estruturas de um perverso. Ambos agem com base no pressuposto de que seus atos são diretamente ordenados e guiados pela vontade divina.

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