NOSSOS HITLERS (parte 1)

Veja as técnicas de manipulação em massa que Hitler utilizava para arregimentar um povo para a sua loucura.

Hitler foi um gênio do mal. Uma das personalidades com maior magnetismo pessoal que já se viu (assim como diziam que Rasputin o era) e que, mesmo após mais de 60 anos de sua morte, ainda suscita debates apaixonados entre estudiosos da 2ª guerra. Evita-se comentar da personalidade de Hitler como se evita falar do demônio, mas as pessoas esquecem que a melhor maneira de honrar as 50 milhões de vidas que tombaram no mundo todo por causa dele é APRENDER com a história e EVITAR que ela se repita. E pra isso é preciso estudar, especialmente, o Hitler. O Triunfo da vontade (Der Triumph des Willens), título do documentário que ele mesmo mandou fazer, em 1934, bem que poderia ser a frase que melhor define sua trajetória. Vontade era tudo o que este pintor medíocre tinha quando ingressou no partido nazista, e com ela conseguiu arregimentar milhões de pessoas dispostas a dar as suas próprias vidas por um sonho compartilhado com um louco.

O que isto tem a ver com o Saindo da Matrix? Tudo, pois as técnicas de persuasão, propaganda e controle de massa que Hitler e seu Ministro de Propaganda, Josef Goebbels, aperfeiçoaram estão sendo usadas até hoje, de grandes comícios nos EUA até igrejinhas de favelas brasileiras. Você pode se achar imune a essas coisas, mas lembre-se que o inteligentíssimo e culto povo alemão, de todas as classes sociais, caíram nisso. E os estacionamentos de alguns Templos suntuosos aqui no Brasil estão sempre lotados de carros importados…

Foi por isso que selecionei trechos do excelente livro Hitler vol. 1, do respeitado biógrafo Joachim Fest. Parafraseando Sergio Barcellos na orelha do livro, “mostrar como foi possível o surgimento de Hitler numa sociedade civilizada como a alemã é o maior serviço – e um alerta – que o autor presta à história dos povos”.

Nesta obra vemos claramente como Hitler cultivou pacientemente o caos e insuflou (indiretamente, claro) a violência no país, para que ele surgisse como a cura, a ordem e a paz.

Seu talento de domínio psíquico obedecia a um sistema cada vez mais estudado e é justamente essa ampla instrumentação técnica que diferencia os triunfos dessa fase dos sucessos dos anos anteriores. O triunfo de Hitler repousava essencialmente, como antes, no fato de que ele levava sempre as coisas ao extremo limite, mas era mais radical, não só em suas paixões mas também em seus cálculos racionais. Num discurso em agosto de 1920, tinha já definido sua tarefa da seguinte maneira: por uma questão de lucidez objetiva, “despertar, estimular e provocar o instintivo“. Aí já se encontrava uma idéia, uma das noções que constituíam o segredo de seu sucesso junto às massas nessa época.

Mas só as condições infinitamente graves da crise econômica ditariam ao seu estilo de agitador os métodos friamente calculados e postos em prática para obter essa “capitulação” psíquica que constituía a meta de sua propaganda. Na planificação de suas campanhas, cada detalhe, como escreveu Goebbels, era “organizado em detalhe” e nada era deixado ao acaso: a estrada, a acumulação dos comícios, a amplitude das reuniões, a mistura de público dosada com precisão, ou o aparecimento, sempre retardado, do orador, que surge bruscamente sob efeitos de luzes destinados a criar a tensão diante de uma multidão esfomeada, preparada para a vertigem, com cortejos de bandeiras, marchas militares e Heils extasiados. Desde o dia em que Hitler, nos primeiros tempos do partido, organizara um comício matinal e, apesar da sala lotada, tivera “profunda tristeza de não conseguir obter nenhuma ligação nem estabelecer o menor contato” com seus ouvintes, só organizava comícios à noite. Tal como para o horário, ele dava muita importância à sala. “O encanto misterioso” da sombria casa do festival de Bayreuth, ou “o raio crepuscular artificial e no entanto cheio de mistério das igrejas católicas” eram, como ele próprio disse, os modelos quase únicos de salas que muito facilitavam psicologicamente a tarefa do doutrinador, “atentando contra o livre-arbítrio do homem”.

“Mas na verdade”, observou ele no tom declamatório de suas declarações essenciais, “cada uma dessas reuniões representa uma luta entre duas forças opostas”; e como pregavam idéias belicosas, para o agitador todos os meios de domínio eram lícitos. Cada uma dessas considerações devia servir para “excluir o pensamento”, criar uma “paralisia sugestiva”, provocar “um estado receptivo de devotamento fanático”. Como a sala, o horário, a música marcial e o jogo de luzes, o próprio comício era um instrumento de combate psicotécnico: “quando o indivíduo”, observou Hitler, “saindo de seu local de trabalho ou da grande empresa onde se sente pequeno, vai pela primeira vez a um comício e tem ao seu redor milhares e milhares de pessoas da mesma opinião que ele; quando é levado por três ou quatro mil pessoas, numa embriaguez sugestiva extremamente eficaz; quando o sucesso visível e a aprovação de milhares de pessoas lhe confirmam a exatidão da nova doutrina, e pela primeira vez despertam nele a dúvida quanto à veracidade das convicções que alimentou até então, ele próprio se submete à influência encantatória do que chamamos sugestão coletiva. A vontade, a nostalgia, mas também a energia de milhares de pessoas acumulam-se em cada indivíduo. O homem que entra com dúvidas e hesitações numa reunião desse gênero deixa-a inteiramente convencido; tornou-se um membro de uma comunidade”.

Aqui está um link para um vídeo (demora pra abrir, mas abre) que gostaria que vocês vissem pois é praticamente desconhecido do público, mesmo dos entusiastas de história da 2ª guerra. Nele, Hitler discursa como os políticos de ontem e hoje, dizendo coisas que o público de ontem queriam (e alguns de hoje ainda querem) ouvir. Políticas de socialismo liberal enquanto adula categorias de trabalhadores, política populista de distribuição de renda e críticas mil ao Marxismo enquanto propunha todo um sistema muito parecido, da sua própria maneira, ao Marxismo. Enfim, Freud e Jung explicam. São promessas e mentiras, como todos os políticos. Mas vindas de Hitler possuem um peso maior, pois sabemos o quanto essas mentiras custaram muito, muito caro para todos.

Suas idéias e máximas demagógicas, nas quais se vangloriava de traduzir “a avaliação exata de todas as fraquezas humanas”, pareciam-lhe garantias de um sucesso quase “matemático.” Todas essas reflexões, toda essa paixão psicológica voltavam sem parar aos comícios que “inculcavam no homenzinho miserável a orgulhosa convicção de pertencer, mesmo se nada mais fosse do que um verme, a um imenso dragão cujo sopro queimará um dia o mundo burguês detestado”.

O desenrolar da manifestação obedecia a uma ordem tática e litúrgica imutável pela qual Hitler visava cada vez mais realçar sua personalidade. Enquanto as bandeiras, as marchas militares e os gritos de esperança punham as massas num estado de agitação desenfreada, ele próprio ficava sentado num quarto de hotel, uma central do partido, nervoso, recebendo a curtos intervalos informações sobre a atmosfera da sala. Só se levantava quando a paciência do povo ameaçava esgotar-se, e quando a excitação inteligentemente levada ao máximo corria o risco de baixar. Apreciava os longos corredores que aumentam a tensão e usava em geral a entrada dos fundos nos locais de comício. A Marcha Badenweiler fornecia-lhe uma música pessoal, reservada à sua entrada em cena, e os acordes dessa melodia, anunciando-o de longe, faziam silêncio na sala e determinavam as pessoas a se levantarem, com o braço estendido no vazio – subjugadas duplamente em sua existência manipulada e glorificada. ELE estava, finalmente, lá. Vários filmes da época mostram-no andando sob o feixe de projetores no meio de alas tempestuosas esoluçantes, “uma via triunphalis de corpos humanos vivos”, em geral com mulheres nas primeiras fileiras e, como descreveu Goebbels com ênfase, ele próprio solitário, fechado, tomado por esse desejo de violação psíquica. Proibia as introduções ou as saudações que só faziam desviar a atenção de sua pessoa. Ficava alguns instantes diante do estrado, apertando mecanicamente as mãos, mudo, ausente, o olhar agitado mas prestes a deixar-se encher de energia e a erguer-se pela força contida no grito das multidões.

O Führer em um raro momento de descontração

As primeiras palavras tremiam, amortecidas e tateantes, no silêncio denso. Às vezes esperava vários minutos, num silêncio que beirava o insuportável. O começo ficava monótono, banal. Limitava-se em geral à lenda de sua ascensão: “Quando em 1918, combatente anônimo que eu era no front…” Com esse início formal, prolongava a tensão até o discurso propriamente dito, mas principalmente servia-se dele para sentir o público, colocar-se na mesma frequência. Uma interjeição pode nessa hora inspirar-lhe diretamente uma resposta, uma observação incisiva, até que os primeiros aplausos ressoem ansiosamente esperados, dando-lhe um contato, uma espécie de embriaguez, e “ao cabo de um quarto de hora mais ou menos”, como notou um observador contemporâneo, “começava o que só a velha imagem primitiva pode descrever: o espírito baixava nele“. Com ferozes movimentos explosivos, forçando imprudentemente sua voz agora metálica, projetava as palavras para fora de si. Às vezes, levado pelo furor da exortação, cerrava os punhos diante do rosto crispado e fechava os olhos abandonando-se aos transportes de sua sexualidade deslocada.

Embora seus discursos fossem cuidadosamente preparados e seguissem estritamente as notas que sempre tinha diante de si, eles verdadeiramente tomavam corpo numa comunhão estreita com a massa. Parecia a um de seus partidários da época que ele respirava as sensações de seus ouvintes, e que essa sensibilidade pouco comum, que lhe era própria e difundia em torno dele uma aura feminina indiscutível, permitia essas fusões orgíacas com o seu público, que “se reconhecia nele”, no sentido bíblico da palavra. Nem a intuição psicológica, nem a habilidade de sua representação lhe teriam conferido tal poder mágico se ele não tivesse compartilhado as emoções mais secretas da multidão e reunido em sua pessoa, de modo exemplar, as psicoses dessa massa. Diante de sua tribuna de orador, era a própria massa que ele encontrava, celebrava e idolatrava; era uma troca de patologias, a reunião de complexos de crise individuais e coletivos, na festa da repressão.

É pois verdadeiro, como se afirma frequentemente, que Hitler só dizia em cada comício o que o público queria ouvir. Certamente não era o falador oportunista dirigindo-se à multidão, mas deixava-se impregnar de todos os sentimentos supersticiosos, de dominação, de angústia, de ódio, e integrava-os para transformá-los imediatamente em dinâmica política. O jornalista americano H.R. Knickerbocker observou, depois de um comício em Munique: “Hitler falou no circo. Era um evangelista falando num comício, o Billy Sunday da política alemã. Seus convertidos marchavam com ele, riam com ele, sentiam com ele. Com ele, riam dos franceses. Com ele, vaiavam a república”. Nessas fusões, Hitler chegava a “viver sua própria neurose como uma verdade geral e a fazer da neurose coletiva a caixa de ressonância de sua própria obsessão”. Era unicamente por esse motivo que dava tanta importância a seus efeitos. Tinha necessidade dos aplausos para desenvolver plenamente sua força retórica. Uma atmosfera de resistência na sala irritava-o. Contam que muitas vezes, ante um público hostil, Hitler perdia imediatamente o fio, interrompia o discurso e deixava a sala de mau humor.

O entusiasmo das massas era-lhe necessário também no plano puramente físico, porque esse entusiasmo que vislumbrara um dia mantinha-o agora em estado de tensão e o levava para frente. Ele mesmo disse que no meio da embriaguez tornava-se “outro homem”. Mas esse gênio indomável que o fazia sair de todas as depressões só o atingia nos comícios, quando elevava seus lugares-comuns ao nível de axiomas de profeta e parecia verdadeiramente transformar-se nesse Führer ao qual procurava assemelhar-se, não sem dificuldade, na vida cotidiana. O fundo de sua natureza era a apatia. Vivia às voltas com lassidões “austríacas”, e parecia constantemente tentado a contentar-se com idas ao cinema, com os Mestres Cantores, docinhos do salão de chá do Carlton, ou conversas intermináveis sobre arquitetura. A confusão enfática em volta dele dava-lhe o impulso necessário a esse ato de violência permanente, que lhe inculcava vontade de agir e perseverança, ao mesmo tempo que agressividade arrogante e também uma incomum resistência psíquica durante as campanhas e viagens exaustivas pela Alemanha. Era a droga de que precisava constantemente sua existência feita de esforços e de solicitações extremas.

Observem como Hitler usa do silêncio para criar tensão antes do seu discurso (Third Reich – The Rise 2/6)

Quando de sua segunda viagem através da Alemanha, depois de um discurso em Görlitz, Hitler descobriu o efeito mágico produzido pelo avião iluminado no céu noturno, rodando acima de milhares de indivíduos hipnotizados. Utilizou então esse expediente várias vezes para criar essa atmosfera de devotamento e submissão na qual se colocava como um ídolo e um deus. Hitler descia como um salvador sobre a multidão em ebulição que esperava pacientemente horas e horas, e a arrancava desse entorpecimento e desse desespero, para levá-la ao que ele próprio chamava uma “histeria motriz”. Goebbels chamou essas manifestações de “serviços religiosos de nosso trabalho político”, e uma professora de Hamburgo falou, em abril de 1932, depois de um comício eleitoral ao qual tinham assistido 120 mil pessoas, de imagens de uma “credibilidade arrebatadora” que mostravam Hitler “como o salvador, o libertador, o redentor que nos tiraria de uma miséria imensa“; Elisabeth Förster-Nietzsche, irmã do filósofo, exprimiu a mesma idéia após uma visita de Hitler a Weimar: “Ele dava a impressão de ser um homem mais importante no sentido religioso do que no sentido político.”

Foram mais esses atributos metafísicos do que todos os elementos ideológicos que lhe deram o favor da multidão e os triunfos dessa fase; o sucesso de Hitler junto às massas foi sobretudo um fenômeno psico-religioso; ele exprimia menos as convicções políticas do que os estados psíquicos. Por certo, Hitler podia ligar-se a um amplo sistema de maneiras tradicionais de pensamentos e reações; à disposição alemã para as situações autoritárias, para as idéias irreais; à profunda necessidade de submissão, ou às relações peculiares com a política. Mas em geral o acordo cessava logo após esses pontos de contato bem gerais. Não foi um anti-semitismo alemão particularmente desenfreado que fez ressoar as palavras coléricas de Hitler, mas seu recurso eficaz à velha carta demagógica do inimigo visível; e não foi o espírito guerreiro peculiar aos alemães que ele mobilizou, mas os sentimentos de amor-próprio e de orgulho nacional por muito tempo ignorados. Se as massas o seguiram também não foi por ter ele excitado a cobiça imperialista desenfreada da nação brandindo as imagens da planície ucraniana, mas porque inculcou-lhes o orgulho de participar de novo da história. Apesar de todos os recordes de tiragem, o Mein Kampf teve um público espantosamente reduzido, e isso mostra já a indolência ideológica persistente que o programa concreto de Hitler sempre encontrou.

A ascensão do Partido Nazi também não foi, como muitas vezes se pensou retrospectivamente, a grande conjuração dos alemães contra o mundo sob o signo de objetivos imperialistas e anti-semitas. Os discursos de Hitler, nos anos de sua grande popularidade, só contêm curiosamente um número reduzido de intenções concretas e negligenciam até suas obsessões ideológicas, o anti-semitismo e o espaço vital. Alguns meses antes da 2ª guerra mundial, Hitler falou abertamente da tática pacifista que adotara durante anos, e assegurou que as circunstâncias o haviam forçado a fingir uma vontade de paz.

Seu sucesso persistente mostrava quanto o nacional-socialismo era um movimento místico e pouco ideológico, que não estava baseado num programa, mas num Führer. E só graças a esse Führer é que esse magma de idéias confusas tomava um relevo e saía de seu estado quimérico e vago. Sua tática de agitador consistia sobretudo em difamação e prognósticos visionários: acusar o presente com ódio e prometer um futuro poderoso. A gente estava tão desesperada na Alemanha – observou Harold Nicolson, no início de 1932, em seu diário – que estava pronta a “aceitar qualquer coisa que tivesse o aspecto de uma alternativa”.

Hitler escreve no Mein Kampf, com espantosa sinceridade: “A alma da massas só se mostra acessível senão a tudo o que é integral e forte. Da mesma maneira que a mulher é pouco atraída por raciocínios abstratos, experimentando indefinível atração sentimental por uma atitude cabal e se submetendo ao forte enquanto domina o fraco, também a massa prefere o mestre ao suplicante, e sente-se mais segura graças a uma doutrina que não admite constestações, do que outra que emprega uma tolerância liberal. A tolerância provoca-lhe um sentimento de abandono: não tem o que fazer com ela. Mas desde que se exerça sobre essa massa um impudente terrorismo intelectual, que se disponha da sua liberdade humana, isso lhe passa despercebido, e ela não pressente nada de errado na doutrina. Não vê senão as manifestações exteriores, fruto de uma força deliberada e de uma brutalidade a que essa mesma massa se submete sempre…”


A técnica de colocar a culpa de todo o mal que a pessoa faz nos outros é antiga, mas foi levada ao estado da arte da cara-de-pau com Hitler:

Hitler Responds to Churchill – Aqui Hitler critica Churchill por bombardear civis (algo que a Alemanha já fazia desde Guernica).

Adolf Hitler Explains His Reasons For Invading The Soviet Union – Essa é fantástica: Hitler coloca a Rússia como culpada pela Alemanha quebrar o pacto de não-agressão e invadi-la na covardia, algo que vinha sendo planejado por Hitler a mais de 6 meses!

De lá pra cá os políticos brasileiros não só aprenderam a técnica como mantiveram o patamar elevadíssimo.

O mais interessante disso tudo é notar que, nas religiões, seitas, cultos e esoterismo / esquizoterismo o culto ao Führer (o ser aglutinador, infalível, o Messias que vem nos salvar da nossa mediocridade e em quem deve-se depositar toda a nossa confiança sem questionamento) assume as mais diversas faces, mas está sempre presente, de forma tão eficaz quanto nos anos 30, especialmente na política e religião.

Continua

0 0 votes
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
42 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.