BANALIZAÇÃO DO MAL

ALEMANHA

Após ter alcançado o poder criticando os comunistas e garantindo a proteção da Europa contra a “invasão vermelha”, Hitler fez um inesperado acordo de não-agressão com a URSS que previa até a troca de matérias-primas e alimentos. Isso pegou o mundo de surpresa, e permitiu que a Alemanha invadisse os outros países da Europa sem se preocupar com o flanco leste. Todos sabiam que era um acordo de interesses, mas como a Alemanha estava em guerra contra a Inglaterra em 1941, ninguém (ninguém mesmo, nem o paranóico do Stalin) pensou que Hitler atacaria a URSS, fazendo uma guerra de duas frentes. E foi assim que em 22 de junho de 1941, os exércitos do Eixo lançam-se à conquista do território soviético com a chamada Operação Barbarossa.

Às 5h30, duas horas depois que os canhões alemães abriram fogo em toda a fronteira, as novas fanfarras soaram nas rádios alemãs. Goebbels leu no ar a proclamação de Hitler. Ela equivalia a uma longa justificação pseudo-histórica para a ação preventiva alemã. Os dirigentes judaico-bolcheviques de Moscou haviam procurado durante duas décadas destruir não somente a Alemanha, mas toda a Europa. Hitler fora forçado, alegava ele, pela politica de cerco britânica, a tomar a medida amarga de entrar no pacto de 1939. Mas, desde então, a ameaça soviética aumentara. No momento, havia 160 divisões russas concentradas nas fronteiras alemãs.
“Portanto, chegou a hora de contra-atacar essa conspiração dos pregadores judaico-anglo-saxões da guerra e os igualmente judeus senhores do quartel-general bolchevique em Moscou”.

Havia muito tempo que ele se convencera do que a propaganda alemã alardeava: Era ele que queria a paz.

Churchill, apoiado pela “plutocracia judaica”, era quem pregava a guerra, o obstáculo ao triunfo. Enquanto estava em Bayreuth, encontrou seu amigo de juventude, August Kubizek, pela última vez. Disse a ele, crédulo como sempre, que a guerra havia atrapalhado todos os seus grandes planos para a reconstrução da Alemanha. “Não me tornei chanceler do Grande Reich Alemão para fazer guerra.” Kubizek acreditou nele. É provável que o próprio Hitler acreditasse nele mesmo também.

Trechos do livro Hitler, de Ian Kershaw

RÚSSIA

O crítico ao Kremlin Boris Nemtsov foi morto a tiros enquanto andava com sua namorada na noite de sexta-feira, nos arredores da Praça Vermelha. Ele se tornou a figura da oposição mais proeminente a ser morta na Rússia durante os 15 anos do governo de Putin. O Kremlin negou qualquer envolvimento, dizendo que o assassinato foi uma “provocação” arquitetada para atingir Putin e dar força aos opositores.
Seria uma tese interessante, se Nemtsov não fosse seguido, noite e dia, pelos agentes do FSB – o novo nome do KGB –, e o crime não fosse cometido no pequeno perímetro urbano mais controlado e vigiado do país, o cartão-postal da Rússia: a Praça Vermelha.
Não foi o primeiro e nem será o último crítico ao regime assassinado. A Rússia alardeia que está sendo oprimida pelo Imperialismo Norte-Americano e se apega ao nacionalismo ao criar a idéia de um “Mundo Russo” que precisa ser protegido, e que justificou a rebelião dos cidadãos de origem russa na Ucrânia e a invasão da Criméia.

Sobre a Criméia, a anexação foi um episódio interessantíssimo:
O Parlamento de Crimeia, região ucraniana pró-Rússia, foi ocupado por 50 homens armados e com máscaras que se apresentaram como “defensores dos cidadãos russos” da localidade. Após a invasão, a assembleia desta península do mar Negro votou a favor de um referendo sobre a reunificação da Crimeia com a Rússia. O primeiro-ministro abdicou (ou foi convencido a abdicar) do cargo, e quem assumiu foi Serguéi Axiónov, o líder da Unidade Russa (um dos pequenos partidos que defendem os interesses dos russos locais). Serguei pediu ajuda a Putin para garantir “a paz e a tranquilidade” no território da península. A resposta do Kremlin não demorou, e um responsável pela administração presidencial russa declarou que a “Rússia não vai ignorar este pedido” de ajuda da região, povoada maioritariamente por russos e inclinada a Moscou. Logo depois 6.000 soldados russos marchavam por dentro do território que, tecnicamente, pertencia à Ucrânia.
Moscou declarou a região oficialmente anexada dois dias após a realização do referendo, com 98% de votos a favor da reunificação. A anexação, porém, nunca foi reconhecida nem por Kiev nem pelos países ocidentais.
“Realmente usamos nossas Forças Armadas, mas só para dar às pessoas que vivem neste território a possibilidade de expressar sua opinião sobre seu futuro”, disse Putin em agosto de 2014.

VENEZUELA

Altos índices de violência, falta de gêneros básicos, inflação galopante, grave crise econômica e política assolam o país, mesmo ele sentado em cima de grandes reservas de Petróleo, mesmo com mais de 10 anos de poderes ilimitados ao herói nacional Hugo Chávez, mesmo com apoio (e financiamento) do Brasil e com os benefícios do MercoSul. Segundo o presidente, a culpa é toda do Imperialismo Norte-Americano, embora o maior comprador do petróleo venezuelano sejam os EUA.

Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou uma ordem executiva onde instaura sanções contra sete integrantes do governo do presidente Nicolás Maduro, entre eles González López, diretor do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional). Segundo os EUA, esses sete membros do governo estão envolvidos em atos de “repressão e uso da violência em resposta a protestos contra o governo” e “pela erosão das garantias dos direitos humanos, pela perseguição de opositores políticos e pela restrição à liberdade de imprensa”.

A resposta de Maduro foi pedir ao Congresso poderes pra governar por decreto, através da “Lei habilitante”. “Uma lei anti-imperialista para preparar-nos em todos os cenários e em todos ganhar e em todos triunfar com a paz”. “Obama decidiu se meter em um beco sem saída, um beco do fracasso. O povo da Venezuela é um povo de paz e o senhor não tem direito a agredi­lo nem a declarar que o povo venezuelano é uma ameaça para os Estados Unidos”.
Ainda como reação à medida dos EUA, Maduro nomeou como ministro do Interior Gustavo González López, ex­diretor do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) e um dos alvos das sanções americanas. “Decidi nomear González López como ministro do Interior, Justiça e Paz para que vá, com sua condecoração do império americano, garantir a paz do país, a segurança cidadã e nacional. É uma honra estar na lista de sanções dos EUA”.

Marino Alvarado, assessor do Provea (Programa Venezuelano em Educação e Direitos Humanos) alerta para a “construção de uma estrutura jurídica que é usada para oprimir todo aquele que pensa diferente”. Esta estrutura está formada, entre outras iniciativas, pela reforma da Lei de Segurança, que criou os chamados “Comandos Populares para a Paz“. Sua missão é “enfrentar o inimigo externo e interno”.
— O governo obriga pessoas a fazer trabalho de polícia. Na prática, devem dedurar qualquer pessoa que considerem inimigo da revolução — diz Alvarado.
Na sexta-feira, a morte de Rodolfo González, de 64 anos, que estava preso sob acusação de ter promovido protestos contra Maduro em fevereiro de 2014, reavivou o debate sobre os polêmicos comandos para a paz do presidente. Segundo jornalistas locais, González, que era pai de uma professora da Universidade Católica e não pertencia a partido algum, foi denunciado por um membro do comando, por telefone, e estava detido há quase um ano, sem ter sido julgado.
— Estamos vivendo numa democracia militarizada e autoritária. Qualquer dissidência é vista como traição à pátria — enfatizou o assessor.



Há um outros países que poderiam estar na lista acima, com exemplos de incoerência e desprezo pelas leis ou noções de “certo” e “errado” tão didáticos quantos esses, mas vou deixar pra vocês mesmos imaginarem quais são. O importante aqui é observar a mentalidade e como ela consegue o apoio de nações inteiras.

Em 1961 a filósofa alemã naturalizada americana Hannah Arendt acompanhou — enviada pela revista The New Yorker — o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel, acusado de genocídio e crimes contra a Humanidade durante a guerra. Dois anos depois ela lançou um livro baseado em suas observações, “Eichmann em Jerusalém”. Nele, ela descreve não somente o desenrolar das sessões, mas faz uma análise do “indivíduo Eichmann”. Segundo ela, Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar.
É aí que surge a expressão Banalidade do mal. Segundo Arendt, o mal, quando atinge grupos sociais, é político e ocorre onde encontra espaço institucional. A banalidade do mal se instala no vácuo do pensamento, trivializando a violência.

O povo alemão não percebia o mal como mal porque foram programados a não questionar, a não acreditar no que diziam em outros países (graças a uma campanha de vitimização e da teoria de “todos contra nós”) e a ver como inimigo qualquer um que pensasse o contrário. E mais: a finalidade do mal era sempre o bem. Uma incoerência, sem dúvida, mas se você ler o livro 1984, de George Orwell, vai perceber que a contradição é a chave para a reprogramação mental. Podemos ver a mesma coisa na defesa da Russia de Putin, na Venezuela de Maduro/Chavez e nos outros países onde impera o “duplipensar“.

Já passou o tempo de acordar pra esse tipo de manipulação.

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