A NATUREZA É SÁBIA

Mais um ótimo post do Franco-Atirador, desta vez enfocando o livre-arbítrio, o que definimos por “natural” ou “correto”, e o desafio que o ser humano tem de enfrentar contra si mesmo por ser dotado de consciência:

Não existe melhor antídoto para as idealizações bicho-grílicas da natureza do que estudar o comportamento animal de perto. Vistos no plano geral ou numa bela panorâmica, o mundo animal pode parecer a própria imagem do paraíso perdido, um reino de harmonia e tranquilidade, sem os medos e a agressividade que costumamos associar à civilização. Basta aproximar a câmera, no entanto, e encontraremos diversos exemplos de como a vida natural está longe de ser esse oásis de paz com que sonham os que cantam a sabedoria dos instintos e atribuem todas as mazelas do ser humano à perda de contato com os ciclos do comportamento natural.

O meu exemplo favorito sempre foram as vespas da família pompilidae. Diferentes das vespas sociais, que vivem em comunidade, as pompilidae são predadores solitários, que se alimentam de insetos e aranhas. Quando chega a época da reprodução, essas vespas adotam um comportamento bastante peculiar. Já fecundada pelo macho, a fêmea da vespa ataca uma aranha com seu ferrão – normalmente, a vítima é uma caranguejeira ou tarântula, ou seja, também não é flor que se cheire. Mas dificilmente alguma criatura mereceria o destino do pobre aracnídeo atacado: a aranha é imobilizada pelo veneno da vespa, que então deposita os ovos em suas costas. Passado o efeito do veneno, a aranha segue sua vida normalmente, sem saber que o interior do seu corpo carrega dezenas de larvas que se alimentam de seu sangue até atingir o estado de pulpa. A partir desse momento, a aranha é literalmente devorada viva por seus parasitas.

Se ocorresse num ser dotado de autoconsciência – como se diz que é o caso dos seres humanos – esse comportamento predatório seria visto como o supra-sumo da crueldade. Mas, como é praticado por um robô biológico sobre outro robô biológico, a maldade inerente ao ato passa batido.

Essa já seria uma ilustração suficientemente didática para todos os que defendem a sabedoria da natureza. Em 2000, entretanto, o entomologista William Ebehard descobriu uma espécie de vespa que eleva esse comportamento a um requinte inimaginável, digno dos melhores pesadelos de filme-B sobre parasitas alienígenas. Ao contrário da maioria das pompilidae, o alvo dessa vespa são aranhas da família Plesiometa argyra, fazedora de teias. Como de praxe, a aranha é temporariamente paralisada pela vespa e infectada por suas larvas. Durante uma ou duas semanas, a aranha continua tecendo sua teia normalmente, enquanto é vampirizada pelas futuras vespinhas.

Passado esse prazo, porém, os parasitas assumem o controle da aranha e a obrigam a tecer o casulo que os abrigará durante a metamorfose de larva a vespa adulta, no decorrer da qual, obviamente, elas devoram a aranha.

Parasitas que escravizam o hospedeiro, obrigam-no a trabalhar para eles e depois o sacrificam para seu próprio benefício? Não é assim que age a classe dominante nas sociedades humanas? Alguém pode me explicar por que é que a mesma atitude que é vista na civilização como um crime abominável e uma exploração cruel torna-se aceitável quando ocorre entre os animais? O fato de, no caso destes últimos, a crueldade ser fruto de uma programação biológica inexorável não deveria torná-lo ainda mais assustador, em vez de desculpá-lo?

É esse o tipo de sabedoria dos instintos que nos dizem que perdemos e temos que recuperar? Os ecologicamente corretos que me desculpem, mas esse tipo de harmonia com a natureza, na boa, eu tô dispensando…

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