GUERRA DOS MUNDOS

Antes de mais nada, é preciso lembrar que o filme Guerra dos Mundos é uma adaptação do extremamente famoso livro homônimo de 1898 do inglês H. G. Wells, portanto o final poderá não agradar (mas não é culpa de Spielberg). O livro foi alçado a condição de cult quando o jovem ator de rádio (e futuro gênio do cinema) Orson Welles aproveitou a noite de Halloween de 1938 para pregar a maior peça já feita nos EUA (e talvez no mundo): adaptou a história do livro para os dias atuais, usando cidades dos EUA, e inseriu-a no meio da programação como se fossem boletins de emergência. Numa época em que o rádio era a maior fonte de informação, a história causou pânico generalizado e levou muita gente a se abrigar nas igrejas, fugir de casa gritando ou se esconder no porão (mais detalhes do acontecimento aqui).

Mas voltemos ao filme de Spielberg. Sabe Sinais, do diretor Night Shyamalan? Tem uma cena no porão em que ele faz uma homenagem (ou cópia descarada) ao ritmo de suspense e direção de Spielberg. E não é que Spielberg resolveu fazer um filme de alienígenas que usa intensamente esses elementos “spielberguianos”? Nirvana para os cinéfilos por 2 horas! Spielberg tem o dom de segurar a platéia pelo estômago, e qualquer bobagem parece emocionante, como uma cena em que os personagens discutem no carro enquanto correm na auto-estrada. Outra coisa que se sobressai são os ângulos de câmera inusitados ao retratar os Tripods, como no reflexo do vidro de um carro, através do visor de uma câmera de vídeo ou da janela de um porão. Imagens só possíveis (e críveis) graças aos efeitos visuais irretocáveis e que – algo inovador em um blockbuster de ficção – estão sempre em segundo plano (volto a repetir: desde o filme Cruzada que estamos diante de um novo marco técnico em efeitos visuais… o veterano Dennis Murren se candidata para mais um Oscar).

O tema principal (invasão de alienígenas) é bem fraco, até porque a história original é simplória. Mas algo muito legal que acrescentaram foi a dimensão humana da história, enfocando em COMO as pessoas reagem à invasão. Não é preciso ser bem informado pra ver como Spielberg tirou partido dessa premissa pra fazer um paralelo com o 11 de setembro, no quanto as pessoas estão despreparadas pra encarar um ataque externo em sua própria terra (algo que nunca tinha acontecido em grande escala até 11/09/01), e como a natureza humana se revela na busca pela sobrevivência (o personagem de Tom Cruise está perfeito como alguém humano, arrogante e egoísta, e não como um herói que se espera de um filme de ação). Tim Robbins está excelente como o norte-americano médio, do tipo paranóico, que transpira guerra, andando com uma arma na mão o tempo todo; tão envolvido fica em suas elucubrações que esquece da sua real situação.

Este é um filme de Spielberg, portanto temos a relação pai / filhos acentuada, e vemos muitas coisas pelos olhos de uma criança (um adolescente e uma garotinha que, por sinal, têm as melhores e mais dramáticas cenas do filme). Os aliens são apenas figurantes.

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