KATHAKALI, O TEATRO SAGRADO

O Kathakali (katha, estória; kali, jogo) é um estilo de dança teatral originário de Kerala, extremo sul da Índia, onde os artistas, mais do que interpretar, canalizam Deuses, demônios e seres sobrenaturais de uma forma religiosa.

ORIGEM

Segundo lendas hindus, Vishnu reencarnou na terra pela sexta vez na forma de Parasurama, para proteger a supremacia espiritual e social da casta dos Brâmanes. Após inúmeras guerras, ele finalmente resolveu abandonar sua trajetória sangrenta e, em forma simbólica, lançou seu machado ao mar. Com o golpe, a arma caiu no sul da índia e sua violência fez emergir uma faixa de terra a qual Parasurama chamou de Malabar. Para povoar essa terra sagrada, foram levadas famílias de Brâmanes que formaram uma sociedade extremamente religiosa e ritualística. Hoje em dia Malabar é chamada de Kerala (a terra dos templos).

O intenso comércio de especiarias e o ouro negro atraíam viajantes de todo o mundo, misturando assim diferentes culturas à forte religiosidade do lugar e o gosto por grandes rituais com a constante presença de elementos dramáticos, fazendo surgir assim a mais rica forma teatral da Índia : O teatro Kathakali.

https://www.youtube.com/watch?v=SYzAG50gNIQ

Atribui-se a Brahma a paternidade do teatro. “Cedendo aos pedidos dos deuses” – conta o orientalista francês Sylvain Lévi – “o Criador do mundo acrescenta aos quatro Vedas da religião brahmânica um quinto Veda, consagrado ao teatro, que recebe o nome de Nâtya-Veda. A obra divina não foi comunicada aos homens, mas ao santo Bharata Muni, que resumiu a substância do Nâtya-Veda em uma espécie de enciclopédia em versos, o Nâtya-Shâstra. Graças a essa revelação, os poetas terrestres puderam por sua vez compor dramas perfeitos.”

Outras divindades, como Shiva e sua contraparte feminina Pârvati, assumiram uma parte dessa tarefa, o primeiro criando o Tandava, uma dança violenta, e a outra o Lâsya, dança encantatória.

Bharata Muni afirma, além do mais, que Brahma, para compor o Nâtya-Veda, não fez mais do que beber em suas obras precedentes: “Do Rig-Veda, ele toma a dança, do Sâma-Veda, o canto; do Yajus-Veda, a mímica: do Atharva-Veda, as paixões.”

CARACTERÍSTICAS

  • É o estilo de dança-teatral mais popular da Índia.
  • É um espetáculo raro, inclusive na Índia. Lá ela acontece após a época das monções, em celebrações religiosas de agradecimento.
  • É exclusivo para homens.
  • Existe exatamente como visto hoje há pelo menos 400 anos.
  • O teatro-dança de Kathakali recebe inclusive influência das antigas artes marciais de Kerala.

Existem muitas passagens com reflexões morais e de sabedoria que sempre são faladas pelos personagens mais importantes e em sânscrito, uma língua que não é mais comum na Índia desde o ano 300 a.C, mas é considerada nobre e sagrada, falada até hoje pelos brâmanes. Enquanto os deuses, heróis e personagens importantes falam no dialeto aristocrático, as mulheres, escravos e personagens menores falam o dialeto da classe baixa. As peças terminam assim como começam: com uma prece. Como nas peças gregas, há um freqüente contato entre a Terra e o Céu.

Não há valorização de grandes expressões ou ações nas peças hindus. A tristeza é representada por uma leve melancolia, assim como outros sentimentos são passados através de leves expressões. Beijar, comer, dormir ou gritar é considerado indelicado.

Na Índia não existem palavras distintas para dança e teatro, nem em sânscrito ou em qualquer dialeto falado pelo país. Daí percebe-se o quão profundamente ligadas essas duas artes estão neste país que as vê como um só.

https://youtu.be/E1c37mFAKG0

PALCO E MÚSICA

Na Índia acredita-se que todo palco seja sagrado pois é um local escolhido pelos deuses para que se dê a eterna luta entre o bem e o mal. Por o Kathakali ser essencialmente hindu, tudo nele é cheio de significados religiosos e realizado como um ritual. Os espetáculos obedecem a uma seqüência de etapas sagradas, que se inicia pela manhã e transcorre até o final da tarde.

O palco é simples. Á frente usa-se uma lamparina alimentada por óleo de coco. O primeiro som a se ouvir sobre o palco é a batida grave de um tambor, que simboliza o grande som primordial, o OM, produzido pelo tambor do Deus Shiva criando o Universo (o “Big Bang” da mitologia hindu).

Um vocalista inicia uma canção invocatória acompanhado por címbalos e percussão. Durante este ritual de inicialização, um ator permanece por trás das cortinas realizando uma performance.

São apresentadas duas ou três peças por noite, com 2 a 4 horas de duração. A programação da noite se encerra habitualmente com uma peça onde, no final, um demônio é infalivelmente morto numa cena de grande impacto. Ao final do programa, quase sempre sob as primeiras luzes da manhã, Krishna retorna para uma rápida dança de agradecimento aos deuses e à platéia.

MAQUIAGEM E FIGURINO

A maquiagem determina, no Kathakali a natureza dos personagens. Cada personagem têm uma roupa e maquiagem específica. Ambos são altamente elaborados. O ator leva três horas e meia só pra se maquiar e duas horas para se vestir antes de cada apresentação.

AS CORES

As cores, que assumem funções específicas, correspondem à natureza de cada entidade, caracterizada especialmente pela pintura facial:

  • Verde: heróis.
  • Bigode, protuberância no nariz ou no centro da testa (Chuttippu): demônio-guerreiro.
  • Bigode branco (Veluppu-tadi): personagem Hanuman, do épico Ramayana, que possui boa natureza.
  • Bigode preto (Karuppu-tadi): selvagem com características heróicas.
  • Bigode Vermelho (Chokanna-Tadi): seres terríveis e destrutivos.
  • Maquiagem preta: moradores das florestas, caçadores e demônios femininos.


PERSONAGENS

Existem 3 tipos de personalidades, em geral:

  • Sattvik (denominados Pacha) – Nobre, heróico, generoso e refinado (ex: Rama e Krishna).
  • Rajasik (denominados Kathi) – Não só heróis, mas sim pertencentes a classe dos demônios guerreiros (ex: Kamsa e Ravana).
  • Tamasik (denominados Kari) – caçadores, moradores da floresta e demônios femininos.

O ATOR

A formação física destes atores obedece ainda a antiga tradição de guerreiros e artistas marciais de Kerala. Em nenhuma outra forma teatral do mundo pode-se encontrar tamanha complexidade e precisão na formação técnica do ator quanto no Kathakali.

Para ser ator de Kathakali os pretendentes passam por rigoroso treinamento com dedicação exclusiva, durante anos, quase sob um regime militar que começa aos 8 anos. Tudo isso serve para desenvolver uma cadeia muscular antinatural e rigorosamente definida com a finalidade de permitir o intenso fluxo de energia, assim como ter um corpo que suporte essa carga. Há a remodelagem da estrutura corporal do ator com um dia que começa às 4h da manhã, com massagens, exercícios físicos (especialmente o dos olhos), treinamento de passos, coreografias e memorização dos textos clássicos e prática de ritmos. As intermináveis repetições, associadas à severidade com que os erros são punidos, moldam e disciplinam a concentração e a mente. O descanso é quinzenal, porque é obvio que os hindus não têm motivos para guardar o Domingo. Todo o processo é supervisionado por um Guru (que significa aquele que dispersa a sombra).

O indiano Nanda Kumaran levou 17 anos estudando a arte sagrada Kathakali. “Deixei de ser estudante aos 31 anos. Só depois do meu casamento é que o guru me deu permissão para deixar de ser aluno”.

No Kathakali o ator deve unir as características do Bailarino e ainda as características do Guerreiro. Devido a influencia religiosa, o ator é também um Sacerdote e, por isso, deve ser capaz de responder por cada aspecto da sua vida num equilíbrio constante de sua arte, que é sempre regida harmoniosamente pelos elementos.

“Se o bailarino é aquele que busca o ar, que anseia pelo espaço, pelo etéreo, o ator vai de encontro a terra, que castiga sob seus pés para retirar dela sua energia. Suas mãos buscam o céu e seus pés agarram e excitam aterra. Se a ação do guerreiro é como a do fogo, que destrói enquanto queima, nem bom nem mau, consumindo a si mesmo sem hesitar, o sacerdote se relaciona coma água, com a qual purifica e santifica. Enquanto o fogo guerreiro se move impetuosamente e age buscando cumprir seu papel sem apegos, a água sacerdotal busca a serenidade e, ainda que seja perturbada, sua natureza a guia na direção da paz.”

The Mirror of Gesture: Abhinaya Darpana of Nandikesvara

Segundo o historiador e indológo francês Alain Daniélou, o ator de Kathakali, uma vez maquiado, já não é ele mesmo. “Tampouco nos dirigimos mais a ele, mas sim ao personagem que encarna, e o veneramos como tal.”

“Por ser o Kathakali uma dança sagrada e ritual para os hindus, ela se torna uma ambigüidade por demais complexa para os ocidentais. O ocidente não entende uma arte espiritual. É um povo adiantado materialmente, mas muito atrasado espiritualmente. O Teatro é uma manifestação da alma e por isso requer devoção e fervor, pois é necessário sempre mergulhar profundamente nas coisas às quais nos dedicamos. O ocidente nos pede minerais, água, gases. Mas devemos escavar em busca de petróleo. Porque gases, minerais e água devem ser simplesmente a conseqüência dessa busca. É sempre na intenção do petróleo que devemos escavar o que almejamos. Se eu decidisse doar um milhão de rúpias a alguém, em notas de uma rúpia, eu precisaria de um milhão de notas. Mas se preferisse doar essa quantia em ouro, bastaria um pequeno pedaço e ele teria o mesmo milhão.”

Agandanadam, velho sábio hindu

Comentários

Interessante frisar que esse texto começou como um trabalho pro curso de Design, que eu e minha colega Ivy compilamos de textos na web e que englobava todo o teatro Oriental. Mas a parte que a gente mais gostou de pesquisar foi o Kathakali, daí que estou disponibilizando-o aqui no blog. É fascinante, pois na Índia o ator, depois que bota a roupa e maquiagem do personagem, não é mais um ator, e sim O personagem (se ele estiver como Krishna, ele será tratado como um Deus por todos da equipe). É como na mediunidade, e como no Carnaval do interior de Pernambuco, onde o Caboclo de lança fica “atuado”, ou seja, uma entidade (geralmente alguém próximo ao nível elemental, como os Orixás, que não falam e têm força sobre-humana) incorpora nele e por isso ele fica com os olhos injetados e fixos num ponto qualquer (daí o motivo de usarem óculos escuros).

Atuado… ator… interessante, não?

Referência:
Obvious – O teatro Kathakali;
Kathakali e a música (inglês)

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