CÃES: GUARDIÕES DO INVISÍVEL

Ao longo da história, diversas civilizações atribuíram aos cães a capacidade de transitar entre o mundo físico e o espiritual, atuando como sentinelas contra forças invisíveis.

No meio da noite, seu cachorro levanta a cabeça, fixa os olhos num corredor vazio e começa a rosnar. Ou acompanha com o olhar alguma coisa que parece se deslocar lentamente pela sala até desaparecer atrás de uma porta. Você olha, não há ninguém ali. A conclusão mais razoável é que ele ouviu um ruído distante, sentiu algum cheiro ou simplesmente resolveu assustar você às três da manhã porque a vida de um cachorro doméstico também precisa de entretenimento. No entanto, para as maiores civilizações da história, esse comportamento era a evidência de uma sentinela metafísica em pleno exercício de sua função. Da Pérsia zoroastrista às encruzilhadas de Hécate na Grécia, das necrópoles egípcias ao caminho para Mictlán no México pré-colombiano, o cão nunca foi apenas um companheiro doméstico, nem só a defesa contra predadores e bandidos; ele foi concebido como o primeiro filtro entre o plano físico e o espiritual.

CÃES: GUARDIÕES DO INVISÍVEL

Hoje o gato acabou tomando para si boa parte do imaginário sobrenatural — bruxas, magia, olhos que brilham no escuro e a tradição milenar de nos desobedecer e derrubar coisas de cima da mesa apenas pra ver o estrago. Divindades felinas como Bastet baniam energias destrutivas, protegiam a ordem cósmica (Maat) e blindavam os lares contra espíritos malignos. Mas o que impressiona no caso do cão é outra coisa. Em culturas que muitas vezes não tinham qualquer contato entre si, ele reaparece sempre como animal de fronteira: fareja o perigo, guarda a porta, acompanha o morto, vigia a passagem e, em alguns casos, aparentemente enxerga aquilo que nós não enxergamos.

Talvez isso tenha começado muito antes das religiões organizadas. Um dos mais fascinantes vestígios da relação entre humanos e cães vem de Bonn-Oberkassel, na Alemanha. Há cerca de 14.300 anos, um jovem canídeo foi enterrado junto a dois seres humanos. Estudos das doenças encontradas no animal indicam que ele sobreviveu durante semanas a uma enfermidade grave e provavelmente precisou de cuidados humanos intensivos para continuar vivo. Não podemos concluir daí que aquelas pessoas acreditassem que o cão as acompanharia para o outro mundo, mas podemos perceber algo talvez mais importante: que no final do Paleolítico, pelo menos alguns seres humanos já mantinham com cães uma relação que ultrapassava claramente a simples utilidade.

O ANIMAL QUE VIVE NA FRONTEIRA

Há uma explicação bastante óbvia para que justamente o cão assumisse esse papel. Antes de possuir câmeras, alarmes, sensores infravermelhos ou porteiros eletrônicos, o ser humano tinha na porta de casa um animal cujo mundo sensorial era muito maior que o seu em determinados aspectos. O olfato é central para a maneira como cães investigam o ambiente, reconhecem indivíduos e detectam mudanças. E sua audição também responde a sinais que podem passar despercebidos para nós.

Quando o cão para e olha para um ponto onde você não vê absolutamente nada, portanto, uma coisa já podemos afirmar com segurança: o fato de você não perceber nada não significa que não haja nada para perceber. A causa pode ser perfeitamente material — um animal dentro de um arbusto, um cheiro trazido pelo vento, um ruído distante, movimentos que nosso cérebro simplesmente descartou. A ciência não demonstrou que cães veem espíritos. Mas demonstrou algo mais incômodo para nossa arrogância perceptiva: nossa experiência consciente está longe de registrar tudo o que existe ao redor.

Para alguém vivendo três mil anos atrás, porém, sem conceitos como ultrassom ou neurobiologia sensorial, essa diferença precisava ser explicada através do universo simbólico disponível. E foi aí que um excelente vigia físico começou a se transformar também em vigia metafísico.

ZOROASTRISMO: O OLHAR QUE EXPULSA O DEMÔNIO

Provavelmente não existe tradição histórica em que essa função apareça de forma tão explícita quanto no Zoroastrismo.

No Vidēvdād — parte do Avesta, o corpus sagrado zoroastrista — o cão é descrito como o ser vivo mais capaz de repelir o Drug Nasu (o demônio da corrupção e da morte) através do ritual Sagdid, que significa literalmente o “olhar do cão”. Quando alguém falecia, um cão sagrado era levado imediatamente até o corpo (muitas vezes antes que seja tocado por qualquer outra pessoa). Acreditava-se que o olhar do animal tinha o poder espiritual de afugentar demônios que tentassem se apoderar da alma ou do cadáver (e também era usado para determinar se o falecido estava realmente morto). O Sagdid também era realizado sobre cães falecidos, em alguns casos.

O texto chega a especificar um cão ideal, descrito como amarelo ou castanho (sim, eles já cultuavam o cão caramelo!) e “de quatro olhos”, ou branco com orelhas amareladas. Entre zoroastristas posteriores, os “quatro olhos” foram entendidos como as duas manchas claras acima dos olhos reais, criando visualmente um segundo par. Na ausência desse cão, qualquer outro tipo de cão podia ser usado.

CÃES: GUARDIÕES DO INVISÍVEL. Cão do Sagdid olhando para o morto.  (feito por IA)

E a participação canina não terminava no cadáver. Segundo a cosmologia zoroastrista, depois da morte a alma precisa atravessar a Ponte Chinvat, a passagem que separa este mundo do outro e cujo cruzamento depende da vida moral da pessoa. E adivinhe quem aparece guardando a ponte? Dois cães. O Vidēvdād menciona explicitamente esses animais guardiões, motivo que possui paralelos antigos também na tradição indo-iraniana.

MESOPOTÂMIA: OS CÃES SOB A PORTA

Na Assíria do primeiro milênio a.C., pequenas figuras de seres protetores eram depositadas sob pisos, cantos e entradas de edifícios. Esses locais não eram escolhidos ao acaso. Portas eram pontos vulneráveis: por elas entram pessoas, ladrões, doenças – e, naquela visão de mundo, também forças malignas. E entre essas figuras de proteção havia cães.

Figura neoassíria de cão de bronze. Reconstrução em corte de uma porta assíria com depósitos protetores sob o piso.

Escavações encontraram pequenas imagens caninas de argila ou bronze colocadas sob construções com função apotropaica, isto é, destinadas a repelir o mal. Alguns exemplares possuíam inscrições que deixavam pouca margem para dúvida sobre o serviço que deveriam executar: “expulsor do mal”, “capturador do inimigo” e, maravilhosamente, algo equivalente a “não pense, morda!”. É praticamente a versão mesopotâmica da plaquinha “Cuidado com o cão”, e ela aparentemente também funcionava contra demônios. 🙂

Gula era a grande deusa mesopotâmica da cura, e ela estava intimamente associada aos cães devido ao efeito curativo da sua saliva. As pessoas repararam que, quando um cão se feria, lambia a si mesmo para sarar; então a saliva do cão passou a ser considerada uma importante substância medicinal e o cão, um presente dos deuses. De fato, o cão tornou-se um símbolo de Gula a partir do Período da Antiga Babilónia (cerca de 2000-1600 a.C.) em diante, e imagens do animal podiam carregar simultaneamente as idéias de cura e proteção contra forças nocivas.

ÍNDIA: É COMPLICADO!

O hinduísmo possui uma relação complexa e fascinante com os cães, alternando entre a restrição e a veneração máxima, dependendo do contexto.

Na mitologia hindu, Yama – o deus da morte – possui dois cães de guarda com quatro olhos (olha aí a semelhança com o Zoroastrismo!). Diz-se que eles vigiam os portões de Naraka (O Inferno Hindu). Essa associação histórica na Índia dos cachorros com cemitério (morte) e com o lixo (impureza) o leva a ser deixado longe de templos e rituais. Animais em geral (com exceção de vacas e elefantes em rituais específicos) são mantidos fora das áreas internas porque fluidos corporais, pêlos e resíduos orgânicos quebram a pureza do ambiente. Se um sacerdote tocar em um cão durante os rituais, ele precisa passar por um banho completo de purificação antes de continuar.

Kala Bhairava e Shvan
Kala Bhairava e Shvan

Por outro lado, o cão Shvan é a montaria sagrada (vahana) do deus hindu Kala Bhairava (uma manifestação de Shiva). Nos templos dedicados a esse Deus os cães de rua não apenas andam livremente pelo pátio, mas são altamente venerados, alimentados e mimados pelos devotos.

A escritura hindu oficial que detalha a jornada da alma após a morte e a anatomia do submundo, o Garuda Purana, afirma que os cães têm a capacidade de ver espíritos e o mundo sutil.

GRÉCIA: HÉCATE, OS CÃES E A ENCRUZILHADA

Na Grécia, encontramos algo parecido em várias partes da Mitologia:

Prato decorativo de Hécate

Hécate acabou se tornando uma das figuras mais reconhecidas da magia grega, especialmente por sua associação com a noite, espíritos, feitiçaria, portas e encruzilhadas. Altares e imagens de Hécate podiam ser colocados em portas e encruzilhadas, lugares em que o espaço organizado da cidade ou da casa se abria para o desconhecido. A associação entre Hécate e as divindades / seres de matriz africana não pode ser ignorada aqui. A deusa grega é como se Nanã, Iansã e as Pombas Giras fossem condensadas numa única divindade feminina. No Idílio II, de Teócrito, os cães começam a uivar quando a presença da deusa é percebida na encruzilhada. Na última noite de cada mês lunar (a lua escura/nova), seus seguidores depositavam o Jantar de Hécate nas encruzilhadas de três caminhos. Entre as oferendas típicas de alimentos (como alho, pão, queijo e peixe), registros indicam que a carne de cachorro também podia fazer parte do banquete ritualístico ofertado à deusa e seus espíritos. O sacrifício de cães era uma grande exceção na religião grega antiga. A esmagadora maioria dos deuses olímpicos (como Zeus, Atena e Apollo) recebia gado, ovelhas ou cabras. Dedicar um cão a Hécate reforçava seu papel como uma deusa ctônica (do submundo) e marginal, lidando com forças que a religião comum considerava assustadoras ou perigosas.

Quando Zeus nasceu, sua mãe, a titânide Reia, precisou escondê-lo na ilha de Creta para evitar que ele fosse devorado por seu pai, Cronos. Para garantir a total segurança do futuro Rei dos Deuses, Reia enviou um cão de pêlos dourados para guardar a caverna sagrada. Depois de grande, Zeus encomendou a Hefesto a construção de um cachorro robô imparável, praticamente o T-800 dos cachorros: Laelaps.

E existe, é claro, o cachorro mais famoso de todos os mundos inferiores: Kerberos (Cérbero), guardião da entrada do Hades (o reino dos mortos). Sua função fundamental não era guiar os mortos, mas controlar a fronteira: impedir que as sombras escapassem e que os vivos atravessassem livremente aquilo que deveria permanecer separado.

Ilustração de Cérbero por Gustave Doré (1832–1883)
Ilustração de Cérbero por Gustave Doré (1832–1883)

Mais uma vez: uma porta ou entrada, dois territórios e um cachorro no meio.

Diógenes, cercado por cachorros de rua

A ilustração acima, do pintor acadêmico francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) mostra o filósofo grego Diógenes na companhia de cães de rua (ele mesmo morava num barril, como o Chaves). Diógenes foi apelidado de “o cínico”, cujo nome vem do grego Kynikos (“ser como um cachorro”). O fundador da escola de pensamento cínica, Antístenes, acreditava que as pessoas deveriam “viver como cães” para encontrar a felicidade – sendo leais, corajosas e nobres. Diógenes foi o aluno mais radical dessa escola e viveu literalmente como um cão. Quando Diógenes morreu, os cidadãos de Corinto ergueram em seu túmulo um pilar de mármore com a escultura de um cachorro em cima, homenageando o estilo de vida que ele escolheu e defendeu até o fim.

EGITO: ANÚBIS, O DEUS CHACAL

Anúbis (feito por IA)

Poucas imagens representam melhor a associação entre canídeos e morte do que Anúbis. Sua função na religião egípcia era supervisionar o embalsamento do corpo, garantindo que o ele ficasse preservado para receber a alma (Ka). Ele também protegia as necrópoles e os cemitérios contra ladrões e maus espíritos, além de ser guia e juiz: conduzia o espírito do falecido ao Tribunal de Osiris e pesava o coração do mesmo na balança para saber se ele seria mais leve que a pena de Maat (a deusa da verdade, da justiça e da ordem cósmica). Caso fosse mais leve, o espírito entraria no Aaru, os “Campo de Juncos” que eram o Paraíso Egípcio. Caso contrário, ele era imediatamente jogado para Ammit, uma criatura monstruosa com cabeça de crocodilo, corpo de leão e traseiro de hipopótamo, que devorava o órgão e causava uma segunda morte na pessoa, que então desapareceria para sempre.

Anúbis no Tribunal de Osíris, pesando o coração do morto. Feito por IA a partir de uma imagem num papiro real.
Anúbis (ao centro) no Tribunal de Osíris, pesando o coração do morto. Ammit está à direita da imagem.

É comum chamar Anúbis simplesmente de “deus chacal”, mas a identificação zoológica exata dos canídeos funerários egípcios é mais complicada. A iconografia combina características de chacais e de outros cães do deserto. O ponto importante é que Anúbis já aparece muito cedo associado às necrópoles, à proteção das sepulturas e posteriormente à mumificação e aos ritos funerários. Há uma explicação quase irônica para essa transformação religiosa: cães selvagens podiam circular pelas margens desérticas onde os egípcios enterravam seus mortos. Um animal capaz de profanar uma sepultura torna-se, no plano simbólico, justamente aquele encarregado de protegê-la. O predador da necrópole é domesticado pela religião e colocado de guarda sobre ela.

MÉXICO: O CACHORRO GUIA

Xoloitzcuintli
Xoloitzcuintli

Do outro lado do Atlântico, encontramos um papel um pouco diferente. O cão deixa de ser apenas sentinela e torna-se psicopompo (o ser que acompanha a alma na viagem dos mortos).

Entre povos Nahua do México antigo, o Xoloitzcuintli – um famoso cão mexicano sem pêlos que parece o deus egípcio Anúbis – estava ligado a Xólotl (o deus asteca do sol, do relâmpago e da morte). O cachorro foi criado pelo Deus para reconhecer a alma de seu dono após a morte e ajudá-la a atravessar o rio de águas profundas do submundo.

Na mitologia asteca, a jornada para o Mictlán (o submundo) dura quatro anos e exige superar nove níveis desafiadores. O primeiro é Itzcuintlan (Lugar dos Cães): Uma praia à beira do rio Chiconahuapan. Aqui, o falecido precisa encontrar um Xoloitzcuintli que o reconheça como uma boa pessoa em vida para ajudá-lo a nadar e cruzar as águas profundas. Ou seja, se a pessoa tratasse bem os animais em vida, teria como recompensa uma ajuda rumo ao descanso eterno.

A imagem é belíssima porque leva a fidelidade do animal para o além: o cão guarda o homem em vida e o guia depois da morte.

IRLANDA: O CÃO BRANCO

O Annwn é o “Outro Mundo” galês. Um mundo de eterna juventude, onde não existem doenças e há sempre fartura de comida. Nele, temos a matilha de Cães de Annwn (Cŵn Annwn), cães de caça espectrais de corpos com um branco brilhante e orelhas vermelhas. Eles ficaram associados a guias para levar as almas ao outro mundo. Em certos dias do ano (geralmente associados a datas cristãs, mas também no outono e inverno) eles saem para a “caçada selvagem”, onde perseguem criminosos.

Arte de cães de Annwn andando na planície da Irlanda

A tradição cristã, no entanto, associou o Annwn (às vezes traduzido como submundo) com o Inferno, e rotulou os cães de Annwn como “cães do Inferno”, embora, como vocês verão abaixo, eles não tenham nada a ver com um deles.

INGLATERRA: O CÃO NEGRO

Existe toda uma categoria internacional para a descrição do lado maligno do cachorro, que leva o nome de Hellhound (Cães do Inferno, em inglês). São descritos como um grande cão com uma pelagem preta emaranhada, olhos vermelhos (às vezes flamejantes), super força, velocidade e um odor fétido. Sim, o nosso Lobisomem se encaixa perfeitamente aí. Mas é na Inglaterra onde ele aparece mais, em numerosas tradições regionais, às vezes como presságios terríveis e em outras versões quase como acompanhantes. Na arte, eles apareceram em livros como Sherlock Holmes: O Cão dos Baskervilles, Lupin de Harry Potter, no filme Um Lobisomem Americano em Londres e como o personagem Jon Talbain, do game Darkstalkers.

Hellhound, com olhos vermelhos e garganta de um vermelho brilhante (arte).

Olhando os relatos do link acima, fiquei com uma pulga atrás da orelha, pensando se algo descrito tão fielmente ao redor do mundo não tenha uma criatura real pra se basear: não pude deixar de lembrar do ET de varginha, uma criatura escura de grandes olhos vermelhos, e também do Chupacabras. Sem falar do Rancho Skinwalker, que é conhecido até hoje pelas aparições sobrenaturais: em 1996, o morador Terry Sherman viu um lobo gigante em sua propriedade. Ele pegou a arma e atirou várias vezes no lobo, mas as balas aparentemente não causaram nenhum dano. O lobo fugiu, mas seus rastros desapareceram completamente enquanto Terry o perseguia, como se ele simplesmente tivesse evaporado no ar. Enfim, acho que estamos perto de descobrir a verdade sobre essas lendas…

CÃES NA IDADE MÉDIA

Espanha: Os “cães do Senhor”

Há uma imagem canina muito famosa na tradição medieval cristã: o cachorro com uma tocha na boca, relacionado a São Domingos de Gusmão, o criador da Ordem Dominicana.

Arte de São Domingos de Gusmão orando ao lado de um cachorro com uma tocha acesa na boca.

Segundo a lenda, que se espalhou depois de formada a Ordem, antes do nascimento de Domingos sua mãe sonhou com um cão preto e branco carregando uma tocha na boca e incendiando ou iluminando o mundo. A imagem tornou-se posteriormente um símbolo extremamente eficiente para a Ordem dos Pregadores: a cor do cão reflete diretamente as vestes (o hábito) da Ordem. A tocha na boca simboliza a missão deles de iluminar o mundo espalhando o Evangelho. E o latim ofereceu ainda um trocadilho praticamente irresistível: Domini canes (os cães do Senhor), aproximando-se foneticamente da palavra “Dominicanos”.

França: O cachorro santo

A Idade Média cristã herdou uma relação bastante ambivalente com os cães. Eles podiam representar fidelidade, vigilância e inteligência, mas também sujeira, violência e marginalidade. E talvez nenhum episódio mostre melhor essa confusão entre animal real, símbolo religioso e crença popular que a história de Guinefort. Vocês já devem ter visto essa história no Instagram, pois ela é bem triste.

No século XIII, o dominicano Estêvão de Bourbon registrou uma tradição encontrada na região de Lyon, na França. Segundo o relato, um casal de nobres teve de se ausentar de casa por um tempo e deixou seu bebê no quarto com um cão galgo (Guinefort). Quando uma grande serpente (frequentemente interpretada em sermões da época como uma representação do demônio) entrou na casa, o cão lutou contra ela e salvou o bebê. Quando eles retornaram, encontraram o cômodo todo bagunçado, com marcas de sangue pelo chão e o bebê sumido. O cachorro Guinefort veio ao encontro deles, abanando o rabo. Mas tinha sangue em sua boca. Desesperado, o homem não teve dúvidas: aquele cão havia matado seu filho. Em um segundo, tirou sua espada e decepou o animal. Só depois ele encontrou a criança viva e a serpente morta, sem cabeça.

caes guinefort livro das horas
Ilustração do Livro das Horas

A história já seria suficientemente boa como conto moral sobre a estupidez humana — uma tradição que, convém admitir, jamais ficou sem material para trabalhar. Mas ela não terminou aí.

Profundamente arrependido, o homem mandou providenciar um enterro com honras para Guinefort, com direito a lápide. Aos poucos, a história acabou ganhando contornos de lenda, aumentada e espalhada. E o local da lápide se tornou um ponto de devoção popular. Mulheres levavam crianças doentes até São Guinefort, procurando proteção e cura. Para Estêvão de Bourbon (Considerado um dos primeiros inquisidores da Igreja, e ironicamente um Dominicano), aquilo era superstição intolerável: um cachorro não poderia ser santo. Segundo consta, Estêvão mandou exumar o cão e destruiu o local de peregrinação. Porém, o esforço de repressão não apagou o culto popular até o séc. XX.

Guinefort jamais foi canonizado pela Igreja. Ele era um santo popular, produzido não por Roma, mas pela população. E sua história é fascinante justamente por isso: após milênios colocando cães como guardiões de crianças, casas e mortos, camponeses medievais simplesmente encaixaram o velho arquétipo dentro da nova religião.

A Igreja dizia: cachorro não é santo. O povo olhava para a tumba e aparentemente respondia: esse aqui é.

Itália: São Roque

São Roque e o cachorro, vigiados por um anjo. Estilo pintura renascentista. Feito por IA.

No século XIV, ao contrair a peste bubônica após dedicar sua vida a cuidar de doentes na Itália, São Roque isolou-se em uma cabana na floresta para não infectar ninguém. Foi salvo pela lealdade de um cachorro que pertencia a um nobre local. O animal visitava o santo todos os dias para levar-lhe um pedaço de pão roubado da mesa de seu dono e lamber suas feridas, ajudando-o em sua recuperação (olha aí a Deusa Gula da Mesopotâmia!), até que o proprietário do cão seguiu o rastro do bicho, descobriu o enfermo e passou a alimentá-lo também. É por essa profunda ligação e milagrosa sobrevivência que São Roque é historicamente retratado ao lado de um cão com um pão na boca e consagrado como o santo padroeiro dos cachorros e protetor contra as epidemias.

Rússia: São Cristóvão

Arte bizantina de São Cristóvão com cabeça de cachorro (Museu Bizantino de Atenas).
Ícone bizantino de São Cristóvão com cabeça de cachorro (Museu Bizantino de Atenas).

Por algum motivo desconhecido dos historiadores, nos Balcãs (Rússia, Romênia, Ásia menor) São Cristóvão é retratado como um cinocéfalo, ou seja, um monstro gigante com corpo humano e cabeça de cachorro, retratado primeiramente por antigos gregos e romanos.

ÁSIA

Foo Lions na China e no Japão

O budismo chinês trouxe à China o conceito artístico / espiritual dos Foo Lions (Leões da prosperidade ou Leões de Buda) ou Shishi (Leões de Pedra, em Chinês). Eles ficam na porta dos templos, em pares (geralmente um macho – Yang – com uma bola que representa o imperador, domínio dos elementos materiais, e uma fêmea – Yin – com um filhote, que representa o elemento espiritual, maternidade). Na China, acredita-se que o Leão (que veio até eles da Pérsia, por isso é meio diferente) é que protege de influências e energias negativas. Hoje eles usam esses leões na frente de bancos, fábricas, hotéis, etc. O costume foi parar na Coréia e depois no Japão (século VIII), onde primeiro transformaram um dos leões em cachorro (Komainu, literalmente Cachorro coreano) e depois os dois viraram cachorros, com a diferença de que um está com a boca aberta (Agyo, como se estivesse pronunciando o som “Ah”, a primeira letra do alfabeto sânscrito, simbolizando o nascimento ou o início de todas as coisas) e o outro está de boca fechada (Ungyo, pronunciando o som “Un” – a última letra – simbolizando a morte ou o fim de tudo). É o alfa e o ômega da Bíblia. O Aum indiano.

JAPÃO

Cães de papel

O Japão ainda oferece um exemplo menos ameaçador e mais bonito: o inu-hariko.

Esses cães de papel machê ganharam grande popularidade no período Edo. Exemplares eram colocados próximos ao travesseiro de bebês e crianças como uma espécie de guardião. Relatos de folcloristas dizem que o latido do cão era considerado um som purificador, capaz de afugentar o mononoke (espírito vingativo), expulsar jakkis (energias malignas, mau olhado) e yōkais (demônios). Cães também estavam ligados à ideia de parto seguro, provavelmente porque dão à luz ninhadas com relativa facilidade, e apareceram em ritos relacionados ao nascimento e ao crescimento infantil.

Mais uma vez encontramos uma criança dormindo e um cachorro protegendo o limite de seu espaço. É impossível não lembrar de Guinefort, não porque japoneses do período Edo tivessem acesso à história de um galgo francês medieval, mas porque a mesma observação básica pode produzir símbolos semelhantes: o cachorro vive dentro do nosso grupo, vigia enquanto dormimos e reage ao perigo antes de nós.

Cães divinos

Em regiões montanhosas do Japão, a figura do cão protetor se mistura com a do lobo. No Santuário Mitsumine, em Chichibu, os animais guardiões são lobos, cujo nome é Okuchi-no-Magami (literalmente “Deus Verdadeiro de Boca Grande”), mais conhecidos como O-inu-sama – expressão na qual inu, (cão, em japonês), ajuda justamente a mostrar como as fronteiras simbólicas entre cão e lobo podiam se tornar fluidas (no Japão antigo, a distinção linguística e biológica estrita entre cães e lobos era tênue nas comunidades rurais. Como os lobos ajudavam os agricultores protegendo as plantações contra javalis e veados, as pessoas os chamavam respeitosamente de O-inu-sama (honorável cão) ou Gokensoku-sama (divino membro da família).

Talismãs ligados a esses lobos (Ofudas) foram procurados historicamente como proteção para casas e comunidades. Registros do próprio santuário mostram uma extraordinária circulação desses talismãs no século 19; durante uma epidemia de cólera em 1858, milhares foram distribuídos a devotos que buscavam a proteção sobrenatural do O-inu-sama. Vários outros templos do Japão também celebram esse cão-lobo, que é basicamente branco com detalhes vermelhos, seja ele um babador vermelho (Yodarekake) no pescoço ou possuindo orelhas vermelhas (igual ao cão de Annwn). Às vezes o cão é substituído por uma raposa (Inari), com a mesma descrição. Na tradição japonesa, o vermelho é a cor que os demônios da varíola e da doença temem.

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Esquerda: Uma estátua do O-inu-sama na frente de um templo. Direita: um par de Inu-hariko originais do período Edo (Kyoto National Museum).

Cães demoníacos

Há, entretanto, um lado muito mais sombrio na tradição japonesa: O Inugami (literalmente “deus-cão”), que é um Yokai (espírito monstro), mais especificamente um Tsukimono (espírito de possessão) pertencente a crenças registradas no oeste do Japão. Determinadas famílias eram consideradas portadoras dessas entidades, que podiam agir para beneficiar seus proprietários, seja atraindo riqueza, seja protegendo a casa ou lançando maldições e vingança contra seus inimigos. A possessão podia ser hereditária e gerar inclusive estigma social contra famílias acusadas de possuir um Inugami.

CHINA: O CACHORRO COM MÚLTIPLAS FUNÇÕES

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Tiangou devorando o Sol. Arte de Robin Robinson

A premissa de que os chineses nunca reconheceram o cão como protetor ou amigo é, na verdade, um mito histórico. Na China Antiga, os cães eram amplamente vistos como guardiões espirituais, protetores do lar e companheiros de caça. Arqueólogos encontraram milhares de estátuas de terracota de cães (chamadas Mingqi) guardando tumbas da Dinastia Han. Os chineses de então acreditavam que os cães tinham a capacidade de ver espíritos e afastar demônios, protegendo a alma dos mortos e lhes fazendo companhia. No manuscrito Shan Hai Jing (Clássico das Montanhas e Mares) temos o Tiangou (Cão Celestial), que é descrito como um ser dual, com uma forma protetora (como uma raposa de cabeça branca) e outra má (um cachorro preto). Nessa última forma ele engole a Lua e o Sol (causando Eclipses) mas no final da história a própria Rainha Mãe do Ocidente o colocou pra guardar as portas do Céu. Antigamente, os chineses acreditavam que o Tiangou e outros espíritos malignos rondavam a Terra para roubar ou adoecer crianças bonitas e saudáveis, mas ironicamente começaram a “domesticar” o Tiangou com oferendas em certas regiões da antiga China – como Taiwan – no intuito de transformar o monstro devorador em um cão de guarda protetor para afastar outros demônios que ameaçavam os leitos das crianças.

O que diferencia a China do Ocidente é que a cultura chinesa tradicional encarava os animais sob uma ótica estritamente utilitária e pragmática, dividindo os cães em categorias funcionais:
Cães de guarda: Destinados a vigiar casas e propriedades.
Cães de caça: Usados para rastrear animais nas florestas.
Cães de corte: Criados especificamente em fazendas para o consumo de carne e sacrifícios rituais.

A percepção ocidental do cão como “o melhor amigo do homem” foi moldada por sociedades pastoris e caçadoras (como os antigos celtas, germânicos e gregos). Nelas, os cães de pastoreio e caça eram cruciais para a sobrevivência diária. Já a China Antiga tornou-se rapidamente uma sociedade intensamente agrícola e baseada no cultivo de grãos (como o arroz e milho). O animal sagrado era o Boi: Como o boi era essencial para arar a terra, matar ou comer bois era um crime grave punível com prisão ou morte na China imperial. O cão era secundário na produção: Sem grandes rebanhos de ovelhas para pastorear nas planícies centrais, ele não tinha o mesmo peso na economia agrícola que possuía na Europa. Era mantido apenas como vigia de quintal ou como fonte reserva de proteína em tempos de escassez e fome.

Vale ressaltar que o consumo de carne de cachorro na China não é um hábito nacional generalizado. Historicamente, religiões como o Budismo e o Taoísmo reduziram drasticamente esse consumo a partir da Dinastia Tang, tornando-o um tabu para as elites. Hoje, a prática é restrita a pouquíssimas regiões no sul e no nordeste da China. Nas grandes cidades modernas, a cultura dos animais de estimação explodiu e a imensa maioria da população jovem chinesa rejeita o consumo e trata os cães exatamente como no Ocidente: como amigos e membros da família.

No Feng Shui, o cão é visto como um poderoso catalisador de energia Yang. Essa energia está diretamente associada ao movimento, à luz, ao calor e à vida. Diferente de ambientes estáticos ou excessivamente silenciosos (que acumulam energia Yin), a presença de um cão traz barulho, brincadeiras e calor corporal. Esse dinamismo constante atua como um motor que “chacoalha” as energias estagnadas da casa, convertendo o ambiente em um espaço vibrante e energizado.

NOS TEMPOS MODERNOS

O imaginário moderno não abandonou o cão que percebe aquilo que nós não percebemos. Apenas mudou o cenário.

No jogo de videogame Ōkami, da Capcom, jogamos com Amaterasu, a deusa solar japonesa manifestada na forma de uma loba branca. Em Haunting Ground, também da Capcom, o cachorro Hewie acompanha Fiona e funciona quase como uma extensão dos sentidos da protagonista. Ele pode investigar áreas e reagir a ameaças que o jogador ainda não percebeu claramente. É a velha sentinela transformada em mecânica de survival horror: antes que você veja o perigo, observe o cachorro.

Pokémon também está cheio de ecos dessa iconografia: Growlithe/ Arcanine, que possuem uma aparência na sua forma final que lembra os grandes guardiões Foo / Komaino da Ásia oriental, e deixou um bocado de fãs que não sabem dessa tradição se questionando do porque dele ser classificado como Pokemon lendário; Lucario, com sua aparência de chacal (Anúbis) e capacidade ficcional de perceber “aura”, atualiza de forma bastante conveniente a fantasia do animal capaz de ler algo invisível nos seres vivos.

caes mononoke hime
Mononoke Hime e a loba Moro.

No anime Mononoke Hime (Princesa Mononoke) a deusa loba Moro é a evolução direta do O-inu-sama (o lobo de Mitsumine). Ela protege a floresta contra a corrupção humana, sendo uma força da natureza que percebe a podridão espiritual antes mesmo dela se manifestar fisicamente.

Em Naruto, O clã Inuzuka utiliza cães (como o Akamaru) que possuem sentidos aguçados não apenas para o faro físico, mas para detectar o Chakra (pontos de energia vital) de inimigos ocultos ou transformados.

No anime Cowboy Bebop, o cão Ein é apresentado não como um cão mágico, mas como um data dog, um animal cuja inteligência foi artificialmente ampliada. Essa mudança é quase perfeita, pois durante milhares de anos o cão sabia alguma coisa porque tinha contato com o mundo dos deuses. Agora ele sabe alguma coisa porque foi modificado em laboratório. Mudam os tempos, mudam a explicação, mas mantemos o cachorro.

Talvez a pergunta mais interessante não seja se cães realmente enxergam o mundo espiritual. Mas o por que tantas culturas imaginaram que eles enxergavam?

Parte da resposta provavelmente está no próprio animal. Cães foram nossos parceiros de caça, guardas, companheiros e sistemas de alarme vivos durante milhares de anos. Dormíamos enquanto eles continuavam ouvindo. Entrávamos em uma floresta enquanto eles farejavam o que estava adiante. Olhávamos para a escuridão e não víamos nada; eles olhavam para a mesma escuridão e reagiam. A partir daí, a transformação simbólica parece quase inevitável. Se o cachorro percebe o invasor antes de mim, talvez perceba também o espírito. Se protege a porta da casa, talvez possa proteger a entrada do templo. Se me acompanha durante a vida, talvez possa me acompanhar depois da morte. Se encontra caminhos que eu não encontro, talvez conheça o caminho para o Outro Mundo.

E assim encontramos cães diante da Ponte Chinvat, enterrados sob as portas da Assíria, acompanhando Hécate nas encruzilhadas, guardando o Hades com Cérbero, fundidos à paisagem funerária egípcia em Anúbis, atravessando Mictlán com os mortos, correndo pelas florestas de Annwn, protegendo crianças francesas ou japonesas e, finalmente, farejando monstros e anomalias nas telas de videogames.

As religiões mudaram. Os impérios desapareceram. Os deuses trocaram de nome. A tecnologia inventou sensores capazes de perceber ondas e partículas cuja existência nossos ancestrais jamais poderiam imaginar. Mas em algum lugar, neste exato momento, há provavelmente alguém olhando assustado para seu cachorro, enquanto o animal encara fixamente alguma coisa lá fora. Talvez seja um ruído. Talvez seja um cheiro. Talvez seja simplesmente um cachorro sendo um cachorro. Mas, depois dessa história toda, confesso que, se ele começar a rosnar para o corredor vazio às três da manhã, eu não serei o primeiro a ir lá conferir.

POST-SCRIPTUM 1: O ESTRANHO CASO DO ISLÃ

Há uma exceção curiosa em toda essa viagem pelas religiões: o Islã. Seria exagero dizer simplesmente que “todos os muçulmanos abominam cachorros”, porque a tradição islâmica não é tão uniforme assim. Mas é inegável que uma forte aversão ritual ao cão se desenvolveu em boa parte do Islã, sobretudo a partir dos hadiths. E um dos relatos que ajudam a entender isso é particularmente interessante diante de tudo o que acabamos de ver. Segundo um hadith considerado autêntico (Sahih Muslim 2104a), o anjo Gabriel marcou uma hora para visitar Muhammad, mas não apareceu. Muhammad estranhou, pois acreditava que os mensageiros de Deus não quebravam suas promessas, até perceber que havia um filhote de cachorro escondido debaixo de sua cama. Perguntou a sua esposa Aisha quando o cachorro entrara e ela respondeu que não sabia. O animal foi retirado e só então Gabriel apareceu, explicando que o cachorro havia impedido sua entrada: “Nós não entramos numa casa em que haja um cão ou uma imagem.” Outra versão do Sahih Muslim acrescenta que, depois do episódio, Muhammad mandou matar cães, preservando ao menos alguns daqueles utilizados na proteção de grandes propriedades; outras tradições posteriores mantêm exceções para caça, rebanhos e agricultura. Também encontramos a ordem de lavar sete vezes o recipiente lambido por um cão e a afirmação de que manter um cachorro sem uma dessas finalidades legítimas reduz diariamente a recompensa espiritual do proprietário.

A coisa fica mais estranha quando percebemos que o próprio Corão não parece ter essa aversão tão marcada. Na história dos Companheiros da Caverna, um cachorro permanece deitado justamente na entrada de uma caverna (que de fato existe na Jordânia) enquanto os jovens escolhidos por Deus dormiram milagrosamente durante 300 anos, incluindo o cachorro – ocupando, por uma curiosa coincidência, exatamente o posto de guardião do limiar que vimos em tantas outras culturas. O Corão também permite comer a caça capturada por animais treinados, incluindo cães. E há até um hadith em que uma prostituta é perdoada por Deus depois de tirar água de um poço para salvar um cachorro morrendo de sede. Portanto, não estamos diante de uma simples declaração islâmica de que “cães são maus”. Existe uma tensão dentro da própria tradição: o animal pode ser útil, digno de compaixão e até aparecer ao lado de homens protegidos por Deus, mas sua presença dentro de uma residência é apresentada em hadiths importantes como incompatível com a entrada dos anjos. Essa idéia acabou tendo enorme peso na jurisprudência e na cultura de muitas sociedades muçulmanas, embora as escolas jurídicas discordem até sobre a impureza do próprio animal – a escola Maliki, por exemplo, tradicionalmente não considera o cão impuro.

Procurei algum paralelo antigo realmente próximo disso – um cachorro em alguma cultura cuja simples presença afaste um mensageiro de Deus ou uma divindade benevolente – e não encontrei nada tão explícito quanto o relato islâmico. O mais curioso é que encontramos quase o contrário. No Talmude Babilônico, os cães seriam capazes de perceber a chegada do Anjo da Morte e começariam a chorar; se brincassem alegremente, seria sinal da chegada do profeta Elias. Eles detectam seres sobrenaturais, portanto, mas não os expulsam. No Mahabharata hindu ocorre uma inversão ainda mais deliciosa: quando Yudhishthira chega ao céu acompanhado de um cachorro, Indra se recusa a deixar o animal entrar. Yudhishthira prefere então abrir mão do próprio Paraíso a abandonar aquele que lhe permaneceu fiel; no fim, descobre-se que o cachorro era o próprio deus Dharma disfarçado, e que tudo não passava de um teste.

É difícil não notar a inversão: em uma enorme quantidade de tradições o cão percebe, acompanha ou repele o mal que vem do outro mundo; no famoso relato islâmico, porém, ele continua funcionando como uma barreira entre os mundos – só que, dessa vez, quem fica do lado de fora é o anjo.

POST-SCRIPTUM 2: XINGAMENTOS COM CÃES

O uso da palavra “cão” ou “cachorro” como um insulto grave é um fenômeno quase universal na história da linguagem humana. Historicamente, esse xingamento não foca no cachorro de estimação ou de caça, mas sim no animal de rua: carniceiro, submisso, sujo e sem controle moral. O grande motivo pelo qual isso acontece é o paradoxo da domesticação. O cão é o animal mais próximo do homem, mas essa mesma proximidade faz com que ele testemunhe nossas fraquezas. Então o ser humano projeta no cachorro aquilo que ele mais teme em si mesmo: a submissão cega a um mestre (falta de dignidade), o ato de comer restos (pobreza e falta de higiene) e o comportamento instintivo sem regras sociais. As principais culturas que compartilham esse mesmo hábito linguístico são:

Oriente Médio (Árabe e Islâmico): No mundo árabe, chamar alguém de “Kalb” (كلب – cão) é considerado um dos insultos mais pesados e ofensivos possíveis, pelos motivos que vimos acima.

Judaísmo bíblico: Tanto na Bíblia Hebraica quanto no Talmude, a palavra “Kelev(cão) era frequentemente usada como sinônimo de insignificância, impureza ou perversão moral. No Antigo Testamento, figuras expressavam profunda humilhação dizendo “Quem é teu servo, que não passa de um cão morto, para que faças tamanha coisa?” (2 Reis 8:13). No Novo Testamento, Jesus também usa a analogia (“Não deis aos cães o que é santo”, Mateus 7:6).

Europa Medieval e o Inglês Antigo: Até o final da Idade Média, a palavra “dog” em inglês não era o termo padrão carinhoso que é hoje (as pessoas usavam hound). A palavra “dog” surgiu originalmente na Inglaterra como um termo puramente depreciativo. O inglês ainda guarda marcas pesadas desse passado, como o insulto misógino “bitch” (que significa literalmente cadela) ou chamar um homem sem valor de “you dirty dog(seu cachorro sujo).

Culturas Europeias de Língua Latina (Incluindo o Português): Nas culturas ibéricas e românicas, o termo foi amplamente absorvido como xingamento. Tanto no Brasil quanto em Portugal, chamar alguém de “cachorro” ou “cadela” aponta para a falta de caráter, infidelidade amorosa ou comportamento sem vergonha. No catolicismo popular mais antigo, o próprio Diabo era muitas chamado de “O Cão”, para evitar pronunciar o nome do Sete Pele, do Mochila de criança.

China antiga: No Confucionismo, a lealdade cega e sem questionamentos (característica do cão) não era vista com bons olhos se comparada à lealdade moral humana. Com o tempo, a literatura e os provérbios chineses começaram a usar a palavra “cão” como insulto para designar pessoas submissas ou de baixo caráter (“um cão que serve a um mestre tirano”). Isso gerou um distanciamento cultural e linguístico em relação ao animal.

Sudeste Asiático: Na Indonésia e na Malásia, por exemplo, gritar “Anjing!(Cachorro!) para alguém é um insulto extremamente vulgar e agressivo, frequentemente usado em brigas de trânsito ou discussões pesadas.

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