JUNG: INTROVERSÃO E EXTROVERSÃO

Resumo de um capítulo do livro Tipos psicológicos, de Carl Gustav Jung (1921)

“Platão e Aristóteles! Não são apenas os dois sistemas, mas também os tipos de duas naturezas humanas diferentes que, desde tempos imemoriais e sob as mais diversas aparências, se confrontam de forma mais ou menos hostil. Durante toda a Idade Média houve este confronto que veio até os nossos dias. Aliás esta disputa é o conteúdo essencial da história da Igreja cristã. Sempre se trata de Platão e Aristóteles, ainda que sejam outros os nomes. Naturezas apaixonadas, místicas e platônicas desentranham, do mais profundo de sua índole, as idéias cristãs e os símbolos correspondentes. Naturezas práticas, sistemáticas e aristotélicas constroem a partir dessas idéias e símbolos um sistema sólido, uma dogmática e um culto. A Igreja absorveu, ao final, ambas as naturezas, enraizando-se uma sobretudo no clero e a outra no monacato, havendo entre eles hostilidade sem tréguas.”

H. Heine; Deutschland

Em minha prática médica junto a pacientes nervosos constatei, de longa data, que, a par das muitas diferenças individuais na psicologia humana, há também diferenças de tipos; e chamaram-me a atenção principalmente dois tipos que denominei de introvertido e extrovertido.

Quando observamos o desenrolar de uma vida humana, vemos que o destino de alguns é mais determinado pelos objetos de seu interesse e o de outros mais pelo seu interior, pelo subjetivo. E, como todos nós pendemos mais para este ou aquele lado, estamos naturalmente inclinados a entender tudo sob a ótica de nosso próprio tipo.

O caminho mais simples pra falar dos tipos seria descrever dois casos concretos e colocá-los, dissecados, lado a lado. Mas todo indivíduo possui os dois mecanismos, tanto o da introversão como o da extroversão; e apenas a relativa preponderância de um ou de outro define o tipo. Essa classificação não se trata de uma dedução a priori, como poderia parecer, mas de uma descrição dedutiva de impressões conseguidas empiricamente. A existência de dois tipos diferentes já era fato bem conhecido e que chamou a atenção, de uma forma ou de outra, de peritos no conhecimento das pessoas e da reflexão inquieta dos pensadores, como Goethe, em seu princípio abrangente da sístole e diástole (abertura e fechamento, liberdade e necessidade).

Apesar da diferença de formulações, há em comum nos dois tipos a concepção básica, isto é, num caso é um movimento do interesse para o objeto, e no outro, é um movimento do interesse que sai do objeto e se volta para o sujeito e para seus próprios processos psicológicos. No primeiro caso (introversão), o objeto atua como um ímã sobre as tendências do sujeito; ele as atrai e condiciona em grande parte o sujeito; ele torna o sujeito alheio a si mesmo e modifica suas qualidades no sentido de uma assimilação tão grande com o objeto que se poderia pensar ser este da mais alta e decisiva importância para o sujeito, como se houvesse uma determinação absoluta e o sentido especial da vida e do destino do sujeito fosse abandonar-se completamente ao objeto. Mas isto não é assim. O sujeito é e continua sendo, em última instância, o centro de todos os interesses. Poderíamos dizer que, aparentemente, toda a energia vital procura o sujeito e impede, por isso, que o objeto receba uma influência de certa forma ultra poderosa. Até parece que a energia se esvai do objeto, como se o sujeito fosse o ímã que desejasse atrair para si o objeto. Este enfoque dá, portanto, mais valor ao sujeito do que ao objeto. Consequentemente o objeto está sempre num nível de valor mais baixo, tem importância secundária, e ocasionalmente é considerado como o sinal exterior e objetivo de um conteúdo subjetivo, algo como a materialização de uma idéia, mas onde a idéia continua sendo o essencial; ou a materialização de um sentimento, onde a vivência do sentimento será o mais importante, e não o objeto em sua individualidade real.

Já a atitude extrovertida subordina o sujeito ao objeto; o objeto recebe o valor preponderante. O sujeito tem sempre importância secundária; o processo subjetivo só aparece, às vezes, como apêndice perturbador ou supérfluo de fatos objetivos.

Essas atitudes opostas nada mais são do que mecanismos opostos: um voltar-se diastólico para o objeto e uma apreensão do mesmo; e uma concentração sistólica e liberação de energia dos objetos apreendidos. Toda pessoa tem ambos os mecanismos para exprimir seu ritmo natural de vida que Goethe designou, não por acaso, como conceitos fisiológicos da atividade do coração. Uma alternação rítmica de ambas as formas psíquicas de ação talvez corresponda ao fluxo normal de vida. Mas as condições complicadas e externas sob as quais vivemos, bem como as condições talvez mais complicadas ainda de nossa disposição psíquica individual, raramente permitem um fluxo totalmente imperturbável da atividade psíquica. Circunstâncias externas e disposição interna favorecem muitas vezes um dos mecanismos e limitam ou estorvam o outro. Com isso temos, naturalmente, uma predominância de um dos mecanismos. Tornando-se crônica esta situação, surge então um tipo, ou seja, uma atitude habitual onde predominará um dos mecanismos, sem contudo poder suprimir totalmente o outro, pois este faz parte necessária da atividade psíquica. Por isso não pode haver um tipo puro no sentido de possuir apenas um dos mecanismos, ficando o outro completamente atrofiado.

Minha experiência mostrou que os indivíduos não podem ser distinguidos apenas segundo as características universais de extroversão ou introversão, mas também segundo as funções psicológicas básicas de cada um. Na mesma medida em que, por exemplo, as circunstâncias externas, bem como a disposição interna, causam um predomínio da extroversão, favorecem também o predomínio de certa função básica no indivíduo. Segundo minha experiência, as funções básicas, ou seja, as funções que se distinguem genuína e essencialmente de outras funções, são: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Predominando uma dessas funções, surge um tipo correspondente. Cada um desses tipos pode, no entanto, ser introvertido ou extrovertido, dependendo de seu comportamento em relação ao objeto.

TERTULIANO E ORÍGENES

Desde que existe o mundo histórico, sempre houve psicologia; mas a psicologia objetiva é de recente data. Para a ciência dos tempos antigos, vale a afirmação: o teor da psicologia subjetiva aumenta com a falta de psicologia objetiva. As obras dos antigos estão cheias de psicologia, mas pouca coisa pode ser qualificada como psicológico-objetiva. Isto se deve, em grande parte, ao caráter peculiar do relacionamento das pessoas na época antiga e medieval. Os antigos atribuíam ao seu semelhante um valor apenas biológico, por assim dizer; isto transparece de seus costumes e da legislação. A Idade Média – se é que expressou algum julgamento de valor – fazia uma valorização metafísica do ser humano, e isto baseando-se na idéia do valor imperecível da alma. Esta valorização metafísica, que pode ser considerada uma compreensão do enfoque da Antiguidade, é tão desfavorável para a valorização da pessoa – que é o único fundamento de uma psicologia objetiva – quanto a biológica.

Há muitas pessoas que ainda acreditam na possibilidade de se escrever uma psicologia ex cathedra, mas a maioria de nós está convencida de que uma psicologia objetiva deve fundamentar-se sobretudo na observação e na experiência. Devemos ter em mente também as diferenças de tipos quando recordamos a longa e perigosa luta que a Igreja travou contra o gnosticismo logo nos inícios de sua história. Devido à orientação sobretudo prática do cristianismo primitivo, o intelectual pouco valor tinha, a não ser que desse vazão a seus instintos belicosos numa apologética polêmica. A “norma da fé” (regula fidei) era muito rígida e não permitia liberdade de movimentos. Além disso era pobre em conteúdo intelectual positivo. Constava de poucas idéias e estas, apesar de serem de grande valor prático, eram um obstáculo decisivo para o pensamento. O tipo intelectual era mais atingido negativamente pelo “sacrifício do intelecto” (sacrificium intellectus) do que o tipo sentimento. Por isso é compreensível que o conteúdo intelectual bem superior da gnose – que, à luz de nosso desenvolvimento mental moderno não perdeu, mas ganhou muito em valor – fizesse o maior apelo possível ao intelectual dentro da Igreja. A gnose apresentava para ele todas as tentações do mundo. Sobretudo o Docetismo deu grande trabalho à Igreja com sua afirmação de que Cristo possuía apenas um corpo aparente e que toda a sua existência terrena e sua paixão haviam sido mera aparência. Nesta afirmação predomina o elemento puramente intelectual sobre o sentimento humano. Talvez a luta com a gnose seja melhor compreendida se tomarmos os dois grandes expoentes que se impuseram não só por serem Padres da Igreja, mas também por sua personalidade: Tertuliano e Orígenes, que foram contemporâneos ao final do século II. Schultz escreve sobre eles: “Um organismo é capaz de ingerir alimento e assimilá-lo quase totalmente à sua natureza; outro o elimina, de igual modo, com sinais de resistência apaixonada. Assim, Orígenes, por um lado, e Tertuliano, por outro, reagiram de forma diametralmente oposta. Sua reação à gnose não é característica apenas das duas personalidades e de sua visão do mundo, mas é de fundamental importância também para a posição da gnose na vida espiritual e nas correntes religiosas daquela época”.

Tertuliano

Tertuliano nasceu em Cartago, por volta de 160 dC. Era pagão e levou vida dissoluta em sua cidade natal até aos trinta e cinco anos, quando se converteu ao cristianismo. É autor de numerosos escritos onde transparece bem seu caráter – que nos interessa em especial. Com nítida clareza aparece seu zelo nobre e sem par, seu fogo, seu temperamento apaixonado e a profundeza de sua concepção religiosa. É fanático e de uma tendenciosidade genial quando se trata de verdade reconhecida, intolerante e de natureza belicosa sem igual, um lutador implacável que só admite a vitória após ver aniquilado completamente o adversário; sua linguagem era espada flamejante, manejada com terrível maestria. Foi o criador do latim eclesiástico que perdurou por mil anos. Cunhou a terminologia da jovem Igreja. “Tendo assumido um ponto de vista, levava-o às últimas consequências, como que aguilhoado por uma legião de demônios, mesmo que a razão já não estivesse a seu lado e todo ordenamento racional se lhe apresentasse em farrapos”. A paixão de seu pensamento era tão inexorável que se afastava sempre de novo daquilo por que havia dado o sangue de seu coração. Por isso, sua ética era de uma austeridade rude. Mandava procurar o martírio em vez de fugir dele, não permitia segundas núpcias e exigia que as pessoas do sexo feminino se cobrissem completamente. Combatia com desconsideração fanática a gnose que era exatamente uma paixão do pensamento e do conhecimento e, com ela, a ciência e filosofia que pouco diferiam dela. Atribuiu-se a ele a grandiosa confissão: “Creio porque é absurdo” (credo quia absurdum est). Parece que isto não corresponde bem à verdade histórica e que só teria dito: “E morreu o Filho de Deus, isto é perfeitamente crível porque é absurdo. E sepultado ressuscitou; isto é certo porque é impossível“.

Graças à agudeza de seu espírito, percebeu o lado vulnerável do saber filosófico e gnóstico e o repudiou com desprezo. Apoiou-se, então, no testemunho de seu próprio mundo interior, nos fatos de sua própria intimidade que se identificavam com sua fé. Estruturou estes fatos, tornando-se assim o criador das conexões conceituais que ainda hoje constituem a base do sistema católico. O fato íntimo irracional que para ele era de natureza essencialmente dinâmica foi o princípio e fundamento perante o mundo e perante a ciência e filosofia racionais ou de validade geral. Transcrevo suas palavras:

“Invoco um novo testemunho, ou melhor, um testemunho mais conhecido do que qualquer monumento escrito, mais discutido do que qualquer sistema doutrinário, mais difundido do que qualquer publicação, maior do que o homem todo, isto é, aquilo que constitui o todo do homem. Venha, então, alma minha, quer você seja algo divino e eterno, como acreditam muitos filósofos – tanto menos, portanto, você mentirá – ou não divino, porque mortal, como só Epicuro afirma – tanto menos, portanto você ousará mentir – quer você venha do céu ou seja nascida na terra; quer seja composta de números ou átomos; quer você tenha seu começo com o corpo ou a este seja agregada mais tarde; não importa donde você provenha ou como faz para que o homem seja o que ele é, um ser racional, capaz de percepção e conhecimento. Mas eu não a invoco, ó alma, treinada nas escolas, familiarizada com bibliotecas, alimentada e saciada nas academias e nos salões cheios de colunas de Atenas, propagadora de sabedoria. Não! Eu gostaria de falar com você, ó alma, como admiravelmente simples e inculta, inábil e inexperiente, exatamente como você é para aqueles que nada mais possuem do que a você, exatamente como você surge das alamedas, das esquinas e das oficinas. É precisamente de sua ignorância que eu preciso”.
Tertuliano

A automutilação realizada por Tertuliano no sacrificium intellectus levou-o a um reconhecimento sem reservas da realidade irracional interior, o verdadeiro fundamento de sua fé. A necessidade do processo religioso que sentia em si, ele a sintetizou na fórmula incomparável “alma naturalmente cristã” (anima naturaliter christiana). Com o sacrificium intellectus sucumbem para ele também a filosofia e a ciência, consequentemente também a Gnose.

No decorrer de sua vida, as qualidades acima descritas foram se exacerbando. Quando a Igreja foi levada a um compromisso sempre maior com as massas, revoltou-se contra isso e tornou-se adepto do profeta Montano, um extático, que seguia o princípio da negação absoluta do mundo e da espiritualização total. Em panfletos violentos começou a atacar a política do papa Calixto I. Isto e mais o montanismo o levaram mais ou menos para fora da Igreja. Segundo um informe de Agostinho, desentendeu-se depois também com o montanismo e fundou sua própria seita.

Tertuliano é exemplo clássico de pensador introvertido. Sua inteligência brilhante, altamente desenvolvida, tinha o flanco aberto para uma inegável sensualidade. O processo psicológico de desenvolvimento, que designamos como sendo o cristão, levou-o ao sacrifício, à amputação da função mais valiosa, cuja idéia mítica está contida no grande e exemplar símbolo do sacrifício do Filho de Deus. Seu órgão mais valioso era precisamente o intelecto e o conhecimento nítido que dele se originava. Devido ao sacrificium intellectus fechava-se para ele o caminho para um desenvolvimento puramente intelectual e viu-se, assim, forçado a reconhecer o dinamismo irracional de sua alma como fundamento de seu ser. A intelectualidade da gnose, o caráter especificamente racional que ela imprimia nos fenômenos dinâmicos da alma devem ter sido odiosos para ele, pois foi este o caminho que teve de abandonar para reconhecer o princípio do sentimento.

Orígenes

Em Orígenes temos exatamente o oposto de Tertuliano. Nasceu em Alexandria, por volta de 185 dC. Seu pai foi um mártir cristão. Ele, porém, nasceu naquela atmosfera mental ímpar onde se misturavam as idéias do Oriente e do Ocidente. Com verdadeira ânsia de saber, absorvia avidamente tudo o que fosse digno de conhecer e aceitava tudo o que o riquíssimo mundo intelectual de Alexandria podia oferecer: cristão, judeu, helênico ou egípcio. O filósofo pagão Porfírio, discípulo de Plotino, dizia dele que sua vida externa era a de um cristão e contra a lei; em suas opiniões sobre as coisas e a divindade helenizou e introduziu idéias gregas nos mitos estrangeiros. Já antes de 211 dC ocorreu sua autocastração, cujos motivos podemos adivinhar, mas, historicamente, permanecem desconhecidos. Exercia grande influência pessoal e tinha um discurso cativante. Estava sempre cercado de discípulos e de grande número de estenógrafos que recolhiam as preciosas palavras que saíam da boca do venerado mestre. Foi autor muito prolífico e tornou-se grande professor. Em Antioquia deu aulas de teologia, inclusive para a mãe do imperador, de nome Maméia. Em Cesaréia foi o diretor de uma escola. Sua atividade professoral era frequentes vezes interrompida por longas viagens. Tinha uma erudição extraordinária e uma capacidade impressionante de pesquisa. Andava à procura de manuscritos bíblicos antigos e obteve grandes méritos como crítico de textos. “Era um grande sábio, aliás o único verdadeiro sábio que a Igreja primitiva teve”, disse Harnack. Em total contraste com Tertuliano, Orígenes não se fechou à influência do gnosticismo; ao contrário, até mesmo o canalizou, de forma atenuada, para o seio da Igreja; ao menos foi esta a sua intenção. Na verdade, a julgar por seu pensamento e pontos de vista fundamentais, foi quase um gnóstico cristão. Sua posição perante a fé e o conhecimento foi descrita por Harnack com as seguintes palavras, psicologicamente significativas: “A Bíblia é igualmente necessária para ambos: os crentes recebem dela os fatos e mandamentos de que precisam, enquanto os gnósticos decifram a partir dela pensamentos e reúnem forças que os levam à contemplação e ao amor de Deus – e assim todas as coisas materiais parecem amalgamadas pela interpretação espiritual (exegese alegórica, hermenêutica, etc), num cosmos de idéias, até que tudo, finalmente, seja superado e abandonado como simples degrau, só permanecendo isto: a relação abençoada e duradoura da alma criada por Deus e para Deus (amor et visio).”

Sua teologia, em contraste com a de Tertuliano, era essencialmente filosófica; inseria-se perfeitamente no âmbito da filosofia neoplatônica. Em Orígenes se interpenetram num todo pacífico e harmonioso os dois mundos: a filosofia grega e a gnose, por um lado, e as idéias cristãs, por outro. Mas esta tolerância ousada e perspicaz, sua imparcialidade, levaram-no também a ser condenado pela Igreja. Na verdade, a condenação final só ocorreu postumamente, após, já idoso, haver sofrido torturas na perseguição de Décio e ter falecido em consequência delas. Em 399, o papa Anastácio I pronunciou a condenação e, em 543, foram anatematizados seus ensinamentos por um sínodo convocado por Justiniano, e este anátema foi confirmado por concílios ulteriores.

Orígenes é exemplo clássico do tipo extrovertido. Sua orientação básica era o objeto; isto se mostrava em sua preocupação escrupulosa por fatos objetivos e suas condições, bem como na formulação daquele princípio supremo: “amor e visão de Deus” (amor et visio Dei). O processo cristão de desenvolvimento encontrou em Orígenes um tipo cujo fundamento último era a relação com o objeto – uma relação que sempre se expressou simbolicamente na sexualidade e explica o fato de haver certas teorias hoje que também reduzem todas as funções psíquicas essenciais à sexualidade. A castração foi, portanto, expressão adequada do sacrifício da função mais valiosa. É bem característico que Tertuliano quisesse realizar o sacrificium intellectus e Orígenes fosse levado ao sacrificium phalli (sacrifício do falo), porque o processo cristão exigia completa abolição do vínculo sensual com o objeto. Em outras palavras, exigia o sacrifício da função mais valiosa, da possessão mais amada, do instinto mais forte. Biologicamente considerado, o sacrifício serve aos interesses da domesticação. Mas, psicologicamente, abre uma porta para novas possibilidades de desenvolvimento espiritual, mediante a dissolução de laços antigos. Tertuliano sacrificou o intelecto porque este o amarrava fortemente ao mundano. Lutou contra a gnose porque representava para ele um desvio para a intelectualidade que envolvia, ao mesmo tempo, sensualidade. Examinado este fato, vemos que o gnosticismo estava, na verdade, dividido em duas escolas: uma, que lutava por uma espiritualidade que excedia todos os limites; outra, que se perdia num anarquismo ético, num libertinismo absoluto que não se detinha diante de nenhuma luxúria ou devassidão, por mais atroz e perversa. Pela automutilação, Orígenes sacrificou seu vínculo sensual com o mundo. Para ele, evidentemente, o perigo específico não era o intelecto, mas o sentimento e a sensação que o ligavam ao objeto. Pela castração, livrou-se da sensualidade que estava acoplada ao gnosticismo e pôde entregar-se, sem medo, à riqueza do pensamento gnóstico, ao passo que Tertuliano, pelo sacrifício do intelecto, afastou-se da gnose, mas alcançou uma profundidade de sentimento religioso que falta em Orígenes. Diz Schultz: “Supera Orígenes porque vivia, no mais profundo de seu espírito, cada uma de suas palavras e porque não era, como acontecia com Orígenes, o entendimento que o arrastava, mas o coração. Por outro lado, fica atrás de Orígenes porque, sendo o mais apaixonado dos pensadores, esteve a ponto de recusar o saber como tal e converter sua luta contra a gnose em luta contra o pensar humano pura e simplesmente”.

Vemos aqui como, no processo cristão, o tipo original se inverteu completamente: Tertuliano, o aguçado pensador, torna-se o homem do sentimento, enquanto Orígenes se transforma no sábio e se perde na intelectualidade. Naturalmente é fácil inverter, também logicamente, a coisa e dizer que Tertuliano foi sempre o homem do sentimento e Orígenes, o intelectual. Abstraindo do fato de que a diferença de tipo não foi, com isso, eliminada, mas persiste, antes como depois, a concepção inversa porém não explica por que Tertuliano via no intelecto seu pior inimigo e Orígenes, na sexualidade.

Na virada de nossa era uma necessidade espantosa e extraordinária de salvação tomou conta da humanidade, e fez surgir um florescimento inaudito de todos os cultos possíveis e impossíveis na antiga Roma. Também não faltaram adeptos da teoria do gozar a vida que, ao invés da “biologia”, usavam argumentos da ciência daquela época. Também não era possível satisfazer-se com especulações sobre o porquê de a humanidade ir tão mal. Por conta do causalismo daquela época não ser tão restrito como o de nossa ciência, não se retrocedia apenas até a infância, mas até a cosmogonia, e vários sistemas foram inventados provando que tudo o que havia acontecido no passado mais remoto era a causa das consequências insuportáveis para a humanidade. O sacrifício que Tertuliano e Orígenes fizeram é drástico, drástico demais para o nosso gosto, mas correspondeu ao espírito da época que era muito concretista. Foi desse espírito que a gnose derivou a presunção de que suas visões eram simplesmente reais ou, ao menos, diretamente ligadas à realidade. E Tertuliano colocou o fato de seu sentimento como algo válido objetivamente. O gnosticismo projetou a percepção subjetiva interna do processo de mudança de atitude como um sistema cosmogônico e acreditava na realidade de suas figuras psicológicas.

Em meu livro Símbolos da Transformação deixei em aberto a questão sobre a proveniência do rumo peculiar da libido no processo cristão. Falei aí de uma separação do rumo da libido em duas metades, voltadas uma contra a outra. A explicação disso surge da unilateralidade da atitude psicológica que se tomou tão unilateral que se impôs a compensação a partir do inconsciente. É exatamente o movimento gnóstico nos primeiros séculos que melhor demonstra a irrupção de conteúdos inconscientes no momento da compensação. O próprio cristianismo significou a destruição e sacrifício de valores culturais antigos, isto é, da atitude antiga. No tempo atual é quase supérfluo dizer que tanto faz se falamos de hoje ou de dois mil anos atrás.

Não é improvável encontrarmos a oposição de tipos também na história dos cismas e heresias da Igreja primitiva, tão rica em disputas. Os Ebionitas ou Judeu-cristãos, que se identificavam talvez com os cristãos primitivos em geral, acreditavam apenas na humanidade de Cristo; ele era o filho de Maria e José que recebeu mais tarde sua unção do Espírito Santo. Os Ebionitas são, neste aspecto, o extremo oposto dos Docetas. Esta oposição durou muito tempo. Em 320, surgiu novamente, algo modificada, na heresia de Ario…

Se quiserem continuar o interessante assunto adquiram o livro “Tipos psicológicos“, já que isso foge do escopo do post.

Referência:
Sobre as doutrinas do séc. I que a Igreja combateu

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