JOKER

Uma análise de Joker, o novo filme do Coringa

Notice Me Senpai

Tendo terminado de assistir ao filme, saí do cinema zonzo, como se tivesse levado uma surra. O fato do volume do cinema estar no topo só ajudou nessa experiência, onde a trilha sonora começa torpe, desafinada e desacelerada, para aos poucos ir ganhando corpo e ritmo. Foi assim o nascimento do personagem Coringa nas telas: de um farrapo humano mole, inseguro a um showman imprevisível, assistimos a todo esse desenvolvimento interpretado com maestria por Joaquin Phoenix (a melhor peça do filme). O Diretor de fotografia conta que houve até um problema do diretor Todd Phillips com o ator por ele estar tão imerso no personagem, pois quando ele fez um take para as primeiras cenas do filme ela ficou tão boa que o diretor exclamou “Fu-king great!” (Bom pra caramba!), e Joaquin simplesmente saiu do set, e depois se desculpou por conta de suas “estranhezas” dizendo que com o passar das filmagens ele iria ficar mais “solto e arrogante” na transição de Arthur (nome do personagem) para o Coringa.

Os roteiristas (o diretor é um dos roteiristas) conseguiram o grande mérito de explorar a relação simbólica do personagem com a figura do palhaço, o riso e o sorriso (além da arma e da violência) com maestria, através de sucessivas experiências traumáticas que perturbam não só ele como a plateia. E aí entra o mérito do diretor ao trazer essa história sem freios, do ponto de vista DELE, um doente mental. Isso não é algo novo: já foi feito melhor pelo Mestre Stanley Kubrick, em Laranja Mecânica, e que, apesar do sucesso, sofreu toda a polêmica que estamos vendo hoje, com a crítica e a mídia metendo o pau no filme por “glorificar” as ações do vilão. O caso de Kubrick foi ainda mais grave, pois advogados de defesa usaram como justificativa nos tribunais que seus clientes estavam influenciados pelo filme, e isso perturbou Kubrick de tal forma que ele pediu a Warner pra BANIR DOS CINEMAS da Inglaterra seu próprio filme, no que foi atendido até sua morte.
Em 1981 um cara obcecado pelo filme Taxi Driver tentou matar o presidente dos EUA exatamente como o personagem.

Será que veremos algo parecido com Joker? Ao menos esta é a esperança da Imprensa, que está empenhada a todo custo em conseguir essa manchete, implantando na cabeça de quem lê as críticas de que VAI acontecer um massacre causado pelas ações do Coringa no filme, da mesma forma que associam jogos violentos a tiroteios. Curioso, já que no filme Joker a imprensa é uma das maiores criadoras da histeria que levou ao caos e, com isso, à criação da persona do Coringa.

Achei genial a coisa da risada ser uma condição médica. Ela torna tudo mais trágico, e a risada adquire um ar de terror e tragédia ao mesmo tempo, pois não sabemos ao certo o que está se passando por detrás daquilo. O filme termina com o Coringa dizendo: “Você não entenderia”, e dando uma risada que, segundo o próprio diretor, seria a única genuína do filme inteiro. 

Como experiência cinematográfica o filme ia quase perfeito – com talvez algumas cenas se alongando um pouco demais – até chegar nos 15 minutos finais. Achei sinceramente que faltou uma mão amiga de um editor que dissesse ao diretor: menos é mais. Todd Phillips (mesmo diretor do ótimo “Se beber, não case”) claramente se afeiçoou a certas cenas e decidiu colocar todas em seus múltiplos “finais” (no melhor estilo Peter Jackson com “O Retorno do Rei”).

(spoilers abaixo)

Eu particularmente terminaria com a cena onde ele vê o quebra-quebra do carro de polícia e ri. Um corte seco, tela preta, e voilà, o resto a plateia completaria na cabeça, já tendo toda a personalidade complexa do Coringa formada, e eu aplaudiria de pé. Mas todo o resto que se segue (uma versão mixuruca do assassinato dos pais de Bruce Wayne, que todos nós já vimos à exaustão e melhor filmado), a aclamação do Coringa nas ruas (que pode ser só uma coisa da cabeça dele, como muitas outras no filme) e ele correndo pelo Arkhan (que é uma cena deliciosa mas deveria ser pós-créditos) me tiraram da experiência que o próprio diretor construiu por quase duas horas. A dancinha Tai Chi do Coringa me causava vergonha alheia mas está dentro do modo de ser do personagem, que dança com a Vicky Vale (Batman; 1989) e Rachel (The Dark Knight; 2008). Filmes que incomodam o espectador são corajosos, já que toda a regra da indústria é nos manter numa zona de conforto pra CONSUMIR o produto (vide os novos Star Wars), e nisso a Warner/DC foi bem corajosa. As críticas que eles estão tomando não são poucas, mas a aposta rendeu uma grande bilheteria. Cada pessoa tem seu perfil do Coringa traçado pra apontar o dedo no mundo real para o seu espantalho preferido: “Coringa é INCEL“, “Coringa é militante esquerdista”, “Coringa é incentivo às armas”. Ora, se a pessoa é incentivada por um psicopata fictício com sérios problemas mentais ela precisa antes de tudo rever seus conceitos urgentemente, ou seja, precisa rever NO QUE ela está propensa a acreditar. E isso é verdadeiramente um problema em nossa sociedade.

O filme faz uma crítica de quanto o governo, o povo/Sociedade e a Imprensa estão despreparados (ou pouco se lixando) pra lidar com doentes mentais. O Arthur foi destratado por praticamente TODOS os espectros da sociedade, menos pelo anão (o que proporcionou uma das melhores cenas dos últimos anos no cinema), e tudo no filme nos leva àquele final trágico na plateia onde ele ia se matar mas ligou o f*dase e resolveu aloprar de vez. E antes de fazer isso o Coringa faz um discurso tosco, que dá mais pena do que incômodo, por vir de um personagem cuja história de vida a gente a essa altura conhece, mas temos de concordar com o apresentador de que é de fato uma autocomiseração (mimimi) desnecessária que não justificaria em nada o que ele faria em seguida. Eu até estranhei porque uma característica do Coringa é nunca precisar se justificar, e o filme começou a me perder aí. Só que, analisando friamente, o personagem só fala sobre o que sente em dois momentos: esse e no que a gente TEM CERTEZA de que é um delírio, que é quando ele participa do show na platéia. Então isso também pode ter acontecido apenas na cabeça dele.

O tal discurso ressoa tanto no filme como fora dele (na mídia) porque não se encaixa na autoimagem que o norte-americano quer exibir ou ver na TV (que é sempre de vitorioso, 1º lugar), mas que reverbera tanto entre os excluídos (que a esquerda diz representar) como nos INCELs , e talvez por isso esse filme esteja dando o que falar, pois vivemos cada vez mais em bolhas de percepção de mundo que podem muito bem serem comparadas aos delírios que tanto o personagem quanto sua mãe têm (e no caso da mãe nunca saberemos de fato a verdade sobre o Arthur ser ou não filho de Thomas Wayne). E nós, como sociedade, estamos falhando mais e mais em se comunicar com essas pessoas (assim como a ciência tem falhado em se comunicar com o povão e o reflexo disso está na falta de vacinação e na teoria da Terra Plana).

Um momento fantástico do filme é quando Arthur está no palco e começamos a ouvir bem no fundo umas vaias, que vão abaixando e sobem então os risos e aplausos e já estamos no delírio do Coringa, sem cortes e sem nenhum alerta visual. É literalmente um filme DO CORINGA, olhos e mente. Isso posto, quantas cenas desse filme não são na verdade um delírio? Os caras no trem realmente o espancaram? Como um jovem banqueiro sabia a letra da música “Send in the Clowns“, cantada por Frank Sinatra, especialmente quando é o próprio Arthur que tem essa cultura musical através dos programas que sua mãe assiste na TV?

Explicando o final ambíguo de Joker, o diretor Todd Phillips revelou que “Você pode enxergar o filme de diversas maneiras. Você pode vê-lo e dizer: ‘Esta é apenas uma de suas histórias de múltipla escolha. Nada disso aconteceu’.”

“Não quero dizer exatamente o que é”, ele continuou. “Mas muitas pessoas com quem eu conversei disseram: ‘Ah, entendi – ele acabou de inventar uma história. É tudo uma piada. É uma coisa que esse cara do Arkham Asylum inventou. Ele pode nem ser o Coringa’.”

O diretor também respondeu as críticas ao filme. Ele disse: “A ideia não foi ‘Queremos glorificar esse comportamento’. Apenas queríamos fazer o filme do Coringa”. Ele colocou a culpa da polêmica no politicamente correto, dizendo: “Acho que isso aconteceu porque ultraje é uma commodity, acho que é uma commodity há tempos. O que mais se destaca pra mim nesse discurso é o quão fácil a extrema-esquerda pode soar como a extrema-direita quando isso se adequa à sua agenda. Isso realmente abriu meus olhos”.

Justamente por não saber lidar com as doenças mentais (uma constante que vai aumentando dia após dia com as pressões da sociedade e do mercado de trabalho) é que vemos todas essas discussões e cada um atirando o louco pra um lado e jogando a culpa no outro, enquanto outros preferem banir o assunto com medo de “incentivar pessoas” e jogá-lo pra debaixo do tapete, como faziam com os leprosos/deformados/loucos de antigamente…

Antigamente?

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