JEAN MICHEL JARRE (Parte 3)

MUSIC FOR SUPERMARKETS

Em 1983 Jarre faz uma ação musical e de marketing inusitada: Ele compõe um álbum que vai ter uma única cópia e ela será vendida para apenas uma pessoa. O álbum é Music for Supermarkets (Música para supermercados) e ele foi tocado uma única vez na rádio, com Jarre incentivando: “Me pirateiem!”, e que depois foi leiloado por 70.000 francos (em torno de 10.500 Euros hoje), comprado por uma pessoa cujo primeiro nome era “Gerard”. Diz-se que ele comprou a obra pois havia sofrido um acidente de carro anteriormente e havia acordado após uma experiência de quase morte escutando Souvenir of China no rádio.

A fita magnética original do álbum foi queimada na frente do comprador, pra garantir que aquele LP fosse único. A idéia era ser um protesto pelo modo como a música estava sendo marqueteada, segundo ele sendo vendida como “pasta de dente ou iogurte”. A intenção era, então, que esse álbum fosse disseminado apenas com cópias piratas. Irônico, pois anos depois Jarre foi um adversário da cultura do “grátis pra todos” da Internet e do MP3.

ZOOLOOK

Em 1984 ele lança Zoolook, um álbum mais influenciado por seu Mestre Pierre Schaeffer e sua música concreta, pegando samples de atividades diárias e vozes humanas, com 25 linguagens sendo usadas. Nunca um álbum havia utilizado tantos samples como esse. Zoolook ganhou o prêmio de melhor álbum de música instrumental desse ano na França.

A melhor faixa do álbum pra mim, sem dúvida é Zoolookologie, que além de ter uma melodia marcante (e grudenta), tem um dos clipes mais “Design anos 80” já feitos:

Zoolookologie
Entrevista de 1984

RENDEZ-VOUS

Houston, 5 de abril de 1986. Jean-Michel Jarre inscreve seu nome (novamente) no Livro dos Recordes como o maior show já feito na AMÉRICA. 1,5 milhão de pessoas pra ver Rendez-Vous (Encontro, em francês), o mais novo álbum que viria a ser a apoteose musical de Jean-Michel Jarre: Mais um Megaconcerto gratuito que fechou mais uma cidade por um dia pra um evento inesquecível, com luzes instaladas nos topos dos arranha-céus, projeções nos edifícios, tudo o que ele fez em Paris, mas numa escala jamais vista!

Video comemorando e relembrando o Concerto de 1986

Lembro que vi o Concerto pela TV Globo e aquilo deve ter sido o maior estímulo visual e musical de minha vida até então, com todo tipo de camadas sonoras, tecnologia e fogos, coral e luzes, a coisa toda!!!! Não foi meu primeiro contato com música eletrônica (chamada New Age, na época), mas foi o meu primeiro contato audio-visual, em que ali eu tive certeza de estar REALMENTE entrando no século 21! (hohoho)

Equinoxe 5 (Com cenas das apresentações em Houston e Lyon)

O cara tocar um teclado que se ilumina quando toca fazia todo o sentido pra mim, num nível sensorial, e ainda mais quando ele toca uma harpa DE LUZ!! Foi minha lição de como a música podia funcionar num nível espacial:

Rendez-Vous 3, ao vivo em Houston

Rendez-vous 2 foi a música que mais me marcou. É a música mais Wagneriana de Jarre, com o peso dos trombones e o estardalhar dos pratos dialogando com os corais e sintetizadores. Evoca, tanto no som quanto nas imagens, a lembrança do diálogo musical do filme Contatos Imediatos do 3º grau (e pensar que ela surgiu de uma música boba que ele fez com Gérard Lenorman). Eu tinha 10 anos de idade, morava no Acre (no meio da mata) e fiquei perturbando minha mãe por meses pra ela conseguir a fita cassete do álbum (que ela comprou apenas quando foi à Rondônia, único lugar que tinha), e eu lembro que ouvia esta fita sem parar, enquanto ficava balançando na rede do terraço. Por duas vezes a fita magnética partiu de tanto tocar, e por duas vezes consegui colar com fita, mas da terceira vez não deu mais.

Rendez-Vous 2, ao vivo em Houston

Como disse, Rendez-Vous significa “encontro” em francês, mas foi um termo muito usado na corrida espacial pela NASA, quando os astronautas tiveram de aprender a fazer o encontro (e acoplamento) de duas naves no espaço (e isso é mostrado no filme O primeiro homem) pra poder ir à Lua, e o nome que deram a essa manobra ficou sendo “Rendez-Vous“, em francês mesmo. O Concerto de Houston deveria ser uma celebração do Espaço, dos 25 anos da NASA e da Missão Challenger, que deveria ter levado pela primeira vez um civil ao espaço (a professora Christa McAuliffe). Acabou sendo um pouco celebração e um pouco tributo, já que a Challenger explodiu no ar algumas semanas antes, durante o lançamento e na frente de todos os que assistiam (inclusive os alunos da professora do primário), o que traumatizou o mundo e, especialmente, o povo norte-americano.

Rendez-Vous 4

O clímax do evento de Jarre seria a participação AO VIVO do astronauta Ron McNair tocando uma música que Jarre fez especialmente para ele tocar seu saxofone lá do espaço, enquanto o francês o acompanhava aqui embaixo nos teclados. Seria novamente um marco pra Jarre, ser o primeiro artista a ter sua música gravada do espaço. A esposa de Ron conta que ele ensaiava a parte dele toda noite, e muitas vezes ficava no telefone com Jarre tocando pra ele ouvir seu progresso. Uma hora antes do embarque, Ron liga uma última vez para Jarre, para dizer “Tudo ok, estou pronto para o concerto!”. Com a explosão, a América ganhou um herói e Jarre perdeu um amigo. O então presidente dos EUA, Ronald Reagan, escreveu: “Nós nunca esqueceremos seu saxofone”.

Kirk Whalum, amigo de Ron, tocou a parte dele no Concerto, e a música originalmente entitulada “Rendez-Vous 6” ganhou o nome de “Last Rendez-vous: Ron’s piece” (Último encontro: trecho do Ron):

Ron’s Piece (Houston Concert)

Jarre sempre faz seus álbuns conceituais, temáticos, mas aqui ele se aproxima ainda mais de uma Ópera, contando uma história de proporções gregas, similar à Odisséia, como colocou um crítico:

  • O 1º Rendez-Vous (faixa 1) simboliza os deuses descendo ao nosso mundo em um raio de luz, de uma forma suave e uma tristeza empática com a condição humana.
  • Um diálogo dramático se segue no 2º Rendez-Vous, os deuses como juri e julgadores lançam Ulisses e seus companheiros no mar do Cosmos.
  • O 3º Rendez-Vous é um lamento pelos que se perderam na terrível tempestade.
  • A celebração no 4º Rendez-Vous representa a mudança dos ventos, a sorte a sorrir.
  • Segue-se a valsa do 5º Rendez-Vous, que mais parece um intervalo (intermission) de Ópera, um sumário da aventura do Homem pelo espaço. Alguns trechos de músicas anteriores de Jarre aparecem aqui e ali, como frequências de rádio perdidas na vastidão do Cosmos, até que a música fica agitada, misteriosa, parece que a Humanidade encontrou com algo, talvez algum planeta, alguma outra civilização.
  • O fechamento vem com Last Rendez-Vous, um posfácio triste e romântico, acompanhado pela batida do coração, até terminar com uma última batida.
Show inteiro de Houston, como exibido na TV

LYON E O SHOW PARA O PAPA

Em outubro do mesmo 1986, Jarre faz um novo Megaespetáculo, dessa vez na sua cidade-Natal, Lyon. E a ocasião para a festa é a visita do Papa João Paulo II.

O clima era de tensão. Lyon foi o lugar onde o célebre terrorista Ibrahim Abdallah foi preso, a prisão de Lyon também abriga o antigo chefe da Gestapo Klaus Barbie, que vai ser julgado daí a alguns dias, e uma interpretação de uma quadra de Nostradamus dizia que o Papa seria assassinado em uma cidade francesa onde dois rios se cruzam (o que é o caso de Lyon). Era tudo o que a imprensa precisava pras suas matérias.

Lyon é a terra dos primeiros mártires cristãos jogados às feras. Terra também das sociedades secretas, pronta para a fusão da música eletrônica com o cristianismo. Jarre diz: “Para mim, um concerto tem algo de barroco… uma mistura de artesanato e de high-tech, de velho e de novo, de passado e futuro, de sensual e sagrado”. O papa, já chamado pela imprensa de “O Papa dos sintetizadores”, encontra Jarre na véspera, lhe aperta a mão e deseja: “Boa sorte para amanhã à noite”.

Entre 800 mil e 1 milhão de pessoas se reuniram nas ruas de Lyon para o espetáculo Rendez-Vous Lyon. As projeções nos edifícios dessa vez eram de Gandhi, Lech Walesa e Madre Teresa, além do Papa, numa celebração aos direitos humanos.

O Papa olha fascinado para o show. Um Prelado se aproxima e lhe diz: “Sua Santidade, o Sr. deveria lhe encomendar uma Missa”…

Rendez-Vous 4 (Lyon)
Íntegra do show de Lyon

REVOLUTIONS

Final dos anos 80. O sucesso do álbum Graceland, de Paul Simon, abriu as portas do mundo da música pop para todo tipo de fusões experimentais com outras culturas (Como Michael Jackson e o Olodum, por exemplo), e Jarre rapidamente capitalizou nessa nova inclusão internacional, misturando a música árabe e o jazz étnico com batidas de industrial. Acrescente a isso um vocoder (do tipo usado pelo Kraftwerk) falando “Revolução” de quando em quando e teremos Revolution, faixa de 1988 que soa como se tivesse sido escrita expressamente para a trilha sonora da primavera árabe, mais de duas décadas depois:

Revolution (Original)

Mas Jarre foi processado por ter usado (sem autorização) na abertura da música a flauta do turco Kudsi Erguner, gravação que ele havia adquirido do etnomusicólogo Xavier Bellenger; Erguner ganhou um modesto pagamento, e Jarre criou uma nova seção de abertura e renomeou a faixa Revolution, Revolutions, quando o álbum foi remasterizado em 1991.

Em 30 de junho de 1988 Jarre foi entrevistado pelo jornalista Roberto D’Ávila no programa “Conexão Internacional”, da finada Rede Manchete:

Entrevista para o Conexão Internacional (1988)

WAITING FOR COUSTEAU

Ainda na mesma pegada multicultural Jarre lança em 1990 o álbum En attendant Cousteau (Waiting for Cousteau em inglês, que significa “Esperando por Cousteau”). O título é uma paródia à obra de Samuel Beckett “Esperando Godot“, e também uma homenagem ao grande oceanógrafo francês Jacques-Yves Cousteau.

Propaganda do álbum “Waiting for Cousteau” – Rede Globo (1990)

LA DÉFENSE

Introdução do concerto de La Defense na Globo, pelo ator Miguel Falabella (30 de dezembro de 1990)

Em 14 de julho de 1990 comemorou-se os 200 anos da Revolução Francesa, e Jarre fez mais um Megaconcerto em Paris, desta vez na praça de La Défense, reunindo mais de 2,5 milhões de pessoas e inscrevendo PELA TERCEIRA VEZ seu nome no Livro Guinness dos recordes como o maior show já feito. Lá ele toca Calypso, do álbum Waiting for Cousteau, que tem uma pegada e um suingue fascinantes, baseado nos ritmos caribenhos. É Jarre na sua melhor forma, e o show é apoteótico, com bonecos do Carnaval de Trindade e Tobago!

Calypso (essa é uma das minhas preferidas!)

“Paris La Défense: Eu lembro da Pirâmide… dos jatos no céu… todas as pessoas em todos os lugares.. A Steel Band perdida no metrô de Londres algumas horas antes… Música por toda a cidade e um dos momentos mais fortes da minha vida”.

Jean-Michel Jarre
Vídeo completo do show em La Défense (1990)

IMAGES

Em 1991 Jarre lança uma coletânea intitulada Images – The Best of Jean Michel Jarre. Ela é imperdível pra quem curte Jarre por trazer o melhor do melhor, remasterizado (ou retrabalhado, como a música Orient Express, que era do disco The Concerts in China mas que aqui foi acelerada e ganhou um novo arranjo):

Orient Express (Images)

Ou Rendez-Vous 2, que ganhou sua versão mais poderosa ao utilizar vocais humanos na parte do coral (antes era sintetizado):

Rendez-Vous 2 (Images)

Images foi o primeiro e único LP que eu tive de Jean-Michel Jarre, aos 15 anos, logo após eu voltar à “civilização”. Ao contrário da fita do Rendez-Vous, o LP não se desgastava com as sucessivas repetições e acho que esses dois foram os álbuns que eu mais ouvi na vida. Só que em 1 ano surgiria o Super Nintendo e eu deixaria de lado Jean-Michel Jarre (e praticamente qualquer outra coisa) pra cair de cabeça nos videogames (e nas músicas de videogame).

Entrevista para o João Dória no programa “Sucesso”, na Band (11 de janeiro de 1991)

CHRONOLOGIE

Em 1993 Jarre lança um dos melhores álbuns da sua carreira: Chronologie. Como o próprio nome sugere (Cronologia), é uma aventura nostálgica passeando pelos diversos elementos que fizeram Jarre ser o músico admirado que é: uma coleção de músicas agitadas, outras melódicas, todas com arranjos maravilhosos. Em Chronologie 6 ele homenageia a velha música francesa com a emocionante inclusão de um acordeão. A coisa fica ainda mais nostálgica e triste quando a gente pensa que este pode ter sido o último grande álbum de Jean-Michel Jarre (pelo menos pra mim até agora é).

Chronologie 6 (veja também esta versão com um show de luzes)

Em 2017 Jarre ganhou a Medalha Stephen Hawking de Comunicação Científica, Música e Arte. Ele agradece dizendo que “é uma grande honra, pois meu trabalho foi fortemente influenciado pelo de Stephen Hawking no campo do Espaço-Tempo. Eu gravei Chronologie em 1993, um álbum dedicado a ele”. Por isso mesmo eu não duvidaria que as vozes sintetizadas que aparecem na metade da música Chronologie part 2 podem ser as da voz sintética de Stephen Hawking, passando por um Vocaloid:

Chronologie 2
Chronologie 4

Também em 93 Jarre se torna o Embaixador da Boa-Vontade da UNESCO, por sua contribuição às artes em valorizar as tradições locais nos lugares por onde se apresenta.

CONCERT FOR TOLERANCE

Em 1995, novamente durante a festa de 14 de julho, Jarre reuniu 1,25 milhão de pessoas em Paris, no Champ de Mars, aos pés da Torre Eiffel celebrando o “Concerto pela Tolerância” (e comemorando também os 50 anos da UNESCO). Aqui mais uma vez Jean-Michel Jarre cria um paradigma que vai mudar a arte ao seu redor: A Torre Eiffel foi lindamente iluminada para este Concerto, e o Governo Francês gostou tanto que instaurou a iluminação artística da Torre de forma permanente, até hoje. Enfim, um show inesquecível pra quem viu. Como eu gostaria de ter estado lá…

Íntegra do Concert for Tolerance

Nesse show ele toca ao lado do Khaled. Sim, AQUELE Khaled:

Revolution, Revolutions

OXYGEN IN MOSCOW

Em 6 de setembro de 1997 Jarre quebrou um novo recorde de público, desta vez em Moscou – para a celebração dos 850 anos da cidade – com a reunião de 3,5 milhões de pessoas para o Concerto Oxygen in Moscow, o que o levou a entrar no Livro dos Recordes pela QUARTA vez. Além disso, teve uma surpresa para todos, que foi a comunicação ao vivo de Jarre com a Estação espacial MIR:

Astronautas da MIR saúdam Jarre – Oxygen In Moscou (Part 2 of 7)

Mas um momento realmente tocante foi a harmonização entre um coral gigante, no melhor estilo russo, e o sintetizador:

Oxygene, Pt. 13 (Moscow)

Durante essas duas décadas Jean-Michel Jarre fez mais concertos do que os que estão aqui, mas os que citei foram os mais icônicos e que moveram o mundo das artes e da cultura adiante, derrubando barreiras e mudando mentes.

Referência:
Jarrefan – Jarre fala sobre ciência, Inteligência Artificial e a amizade com Arthur Clarke

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