O EVANGELHO DE TOMÉ (parte 3)

Evangelho de Tomé

Continuamos com a última parte dos trechos do Evangelho Apócrifo de Tomé, comentados pelo maravilhoso filósofo Huberto Rohden em seu livro “O quinto Evangelho”. Desta vez vamos enfocar o aspecto do “Reino de Deus”, ou “Reino de meu Pai”, que Jesus disse que veio instaurar aqui na Terra. Uma leitura atenta da Bíblia já demonstra que o “Reino” é metafísico, e que sua execução não depende só da vontade de Jesus ou de Deus, mas da transformação interior da alma de cada um para que o “Reino” possa nela fazer morada. Não tem nada a ver com “aceitar Jesus” ou batizar-se. Aliás, poderíamos trocar a palavra “Reino” (um tanto em desuso, já que a monarquia acabou) por “Força” que dá no mesmo!

Eu, como a maioria das pessoas, tinha a impressão de que apreender os ensinamentos de Jesus era menos relevante do que aceitar Jesus (seja lá o que isso fosse). E eu não ia aceitar nada por imposição. Graças a milhares de anos de dogmas, acreditava, como a maioria, que Jesus era a salvação e quem o seguisse estava salvo. Só que eu não aceitava essa “salvação in a box”, e nunca realmente atentei para o fato de que Jesus em nenhum momento fala que se pode comprar ou adquirir a salvação por intermédio de alguém, seja através da religião, ou dele mesmo. Não atentei que essa imagem foi construída por Paulo de Tarso.

A mudança em mim ocorreu repentinamente, como um raio. Bastou eu botar os olhos na seguinte frase do Evangelho de Tomé:

“Jesus disse: Se vossos guias vos disserem: o Reino está no céu, então as aves vos precederão; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederão. Pois bem, o Reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se conseguirdes conhecer a vós mesmos, então sereis conhecidos e compreendereis que sois filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza.”
(Evangelho de Tomé v. 3)

evangelho aquariano cartaz armario

O choque foi tão profundo que eu a imprimi e coloquei-a na porta do armário, pra vê-la todo dia. Era algo que estava no meu íntimo há muito tempo, mas que não tinha ainda encontrado o “fermento” pra crescer. E ali estava o detonador… Talvez isso não signifique muito pra vocês, que têm hoje acesso a tantos escritos esotéricos, mas em 1999 isso me pegou de surpresa. Eu estava tão revoltado (ou, às vezes, sedado) pela mediocridade ao meu redor que não atentava para o fato de que eu (querendo ou não) convivia com ela e (assim) fazia parte dela. Percebi que eu podia SIM me livrar dessa “pobreza” seu EU mudasse, se EU crescesse. Então adotei o lema “por uma vida menos ordinária” e passei a investir mais em mim e, como resultado direto, surgiu esse blog (como já falei antes: o aprendizado é mais pra mim do que pra vocês). Eu ganho, todos ganham, e juntos conseguiremos crescer, evoluir, mesmo estando no país dos Big Brothers.

“Jesus viu crianças de peito a mamarem. E ele disse a seus discípulos: Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino?
Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, e o exterior como o interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes UM o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino – então entrareis no Reino.”

(Evangelho de Tomé v. 22)

Huberto Rohden: O Mestre não espera que seus discípulos sejam crianças, mas que sejam como crianças. O que a criança faz por primitiva ignorância, deve o homem espiritual fazer por avançada sapiência. A criança ignorante age por vacuidade, o homem sapiente age por plenitude. Vistos por fora, a criança e o sapiente são muito parecidos, mas por motivos diametralmente opostos, pois os extremos se tocam.
O homem unilateralmente erudito é, quase sempre, um homem cheio de complexos e complexidades, artificialismo e arrevezamentos curvilíneos. Por outro lado, o homem de sabedoria onilateral, de experiência profunda e vasta, é sempre um homem simples e benévolo, um homem de atitude lhana e retilínea.
No Universo e na humanidade tudo é bipolarizado; mas no homem-ego essa bipolaridade tem caráter de contrariedade, ao passo que no homem-Eu essa bipolaridade se transforma numa harmoniosa complementaridade. De maneira que o dois, sem deixar de ser dois, aparece como um perfeitamente unificado.

“Disse Jesus: Eu vos escolherei, um entre mil, e dois entre dez mil. E eles aparecerão como um só.”
(Evangelho de Tomé v. 23)

Huberto Rohden: O homem sensorial é pluralista.
O homem mental é dualista.
O homem espiritual é unista ou monista.

Pelos sentidos o homem percebe o Universo como uma imensa diversidade sem a menor unidade.
Pela inteligência, o homem analisa o Universo como uma dualidade entre causa e efeito.
Pela razão espiritual o homem intui o Universo como uma Essência Una e Única que se manifesta em existências múltiplas.

“Disse Maria a Jesus: Com quem se parecem os teus discípulos?
Respondeu Jesus: Parecem-se com garotos que vivem num campo que não lhes pertence. Quando aparecem os donos do campo, dirão estes: Deixai-nos o nosso campo. E eles desnudam-se diante deles e lhes deixam o campo.”

(Evangelho de Tomé v. 21 – parte 1)

Rohden: Maria – a mãe de Jesus, ou alguma das outras Marias do Evangelho – quis saber com quem se pareciam os discípulos de Jesus, e o Mestre deu a maravilhosa resposta acima: O verdadeiro discípulo do Cristo se parece com alguém que vive num campo alheio, exatamente como a alma humana que não vive em sua pátria, mas num campo de imigração terrestre, onde tem de passar alguns decênios para colher experiências através do corpo material, que lhe foi emprestado por seus pais. Este mundo é de outro dono, como afirma o próprio dono quando diz: “Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória, porque são meus e eu os dou a quem eu quero”; e Jesus confirma as palavras do anticristo dizendo; “O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. A alma humana, que veio de outras regiões foi enviada temporariamente para o campo alheio desta terra, não por punição, mas para ulterior evolução.
Ultimamente, um grupo de cientistas atômicos da Universidade de Princeton, publicaram a sua Cosmo-visão, ou “Gnose”, em que declaram que sem uma “resistência” entre espírito e matéria não é possível a evolução do espírito, que, em forma individual se chama alma. Resistência é dificuldade, sofrimento, fator indispensável para a evolução.
Depois de certo tempo, os donos do campo Terra expulsam da sua propriedade o imigrante alma, e ela deixa o campo do mundo, sem levar nada, totalmente desnuda no seu Eu espiritual; devolve aos donos do campo até o material do seu corpo, que da terra recebera.

Se Didymos Thomas, o autor deste Evangelho, não tivesse escrito nada senão estas palavras, seria suficiente para incluí-lo entre os grandes iniciados cósmicos da humanidade.
Todo o verdadeiro discípulo do Cristo se considera um emigrante do Além e imigrante do Aquém; não se apega fanaticamente ao campo alheio do mundo material, nem o rejeita acerbamente; mas serve-se dele benevolamente para sua evolução ascensional, como um meio para colher experiências na longa jornada através das muitas estâncias que há em casa do Pai celeste. Graças a ti, Maria, que deste oportunidade a Jesus para dizer tão maravilhosas palavras a seu discípulo Tomé.

“Por isto vos digo eu: Se o dono da casa sabe quando vem o ladrão, vigia antes da sua chegada e não o deixará penetrar na casa do seu reino para lhe roubar os haveres. Vós, porém, vigiai em face do mundo; cingi os vossos quadris com força para que os ladrões não encontrem caminho até vós. E possuireis o tesouro que desejais. Sede como um homem de experiência, que conhece o tempo da colheita, e, de foice na mão, ceifará o trigo. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
(Evangelho de Tomé v. 21 – parte 2)

Rohden: Estas palavras são a continuação da parábola precedente sobre a criança inocente em campo alheio. Os donos do campo terra são ladrões profissionais e procuram sempre roubar-vos os tesouros do reino da alma. Por isto, deveis estar sempre alerta, para que o mundo profano não penetre no santuário do vosso espírito.
Estar de quadris cingidos é estar prontos para a viagem, dispostos para partir a qualquer momento para regressar do exílio terrestre à pátria celeste, com rica colheita de experiências. Então tereis seguro o tesouro que adquiristes durante a vossa estada no campo alheio da terra.
Tende a visão da vossa maturidade, e não queirais permanecer em terra alheia quando é chegada a hora da vossa partida para regressar à querência do Além.

Morrer é tão natural como nascer e viver.

“Jesus disse: O Reino do Pai é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo. De noite, porém, veio seu inimigo e semeou erva má no meio da semente boa. O senhor do campo não permitiu que se arrancasse a erva má, para evitar que, arrancando esta, também fosse arrancada a erva boa. No dia da colheita se manifestará a erva má. Então será ela arrancada e queimada.”
(Evangelho de Tomé v. 67)

Rohden: É esta a conhecida parábola do joio no meio do trigo, no Evangelho de Mateus. Advertência é sempre esta: Deus não quer que os maus sejam separados dos bons durante o período evolutivo dos dois. Os maus têm o mesmo direito de serem maus como os bons têm o direito de serem bons. As leis cósmicas não exterminam os maus por amor aos bons, mas deixam crescer os dois um ao lado do outro, até a total maturação deles.

Por que?
Porque a separação entre bons e maus não deve ser feita por interferência alheia; ela é feita por eles mesmos como conseqüência da sua evolução interna, positiva ou negativa. São os próprios bons e os próprios maus que fazem a separação definitiva; não há nenhum fator externo que intervenha; nenhum Deus externo manda os bons para o céu, nem manda os maus para o inferno; céu e inferno são o produto automático da própria evolução humana. Tanto o bem como o mal culminam no Infinito, seja no Infinito positivo do Todo, seja no Infinito negativo do Nada. Os bons se integram no Eterno Existir; os maus se desintegram no eterno Inexistir.
As leis cósmicas agem com absoluta matematicidade. É o próprio homem que, por seu livre arbítrio, se integra ou se desintegra, se realiza ou se desrealiza. Nenhum suposto Deus externo é necessário para isto, como ensinam certas teologias. O Deus interno, ou o anti-Deus interno do homem é o autor do céu ou do inferno, da vida ou da morte.

Esta parábola como se vê, não identifica a sorte final dos bons e dos maus; esta sorte final é diametralmente oposta uma à outra. O que a parábola afirma claramente é que a decisão final depende do homem e não de Deus. Aqui poderíamos repetir as palavras do poeta-filósofo inglês: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o comandante da minha vida”.

“Disse Jesus: Felizes sois vós, os solitários e os eleitos, porque achareis o Reino. Sendo que vós saístes dele, a ele voltareis.”
(Evangelho de Tomé v. 49)

Rohden: O mundo proclama felizes os homens sociais e ruidosos. O homem ego detesta o silêncio e a solidão, porque é para ele ausência e vacuidade – ao passo que a sociedade ruidosa é, para o profano, presença e plenitude. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos e muitos são os vocados, poucos os evocados.
As eternas leis cósmicas são essencialmente hierarquizantes, verticalizantes, servindo-se de grandes multidões para realizar uma pequenina elite. Não interessa às leis cósmicas a massa quantitativa, mas sim a elite qualitativa. A elite conduz, a massa é conduzida. A elite é alma, a massa é corpo.
Todos vieram do Reino; todos fizeram o seu egresso, poucos realizarão o seu regresso, porque poucos conscientizam o ingresso. Quem não conscientiza o seu ingresso não realiza o seu regresso ao Reino. O egresso do Reino é obra de Deus, o ingresso em si e o regresso ao Reino são obra do homem. Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível.
A auto-creação do homem pelo ingresso místico é a suprema razão de ser do homem aqui na terra. Esse ingresso em si só é possível graças à resistência que o espírito encontra em face da matéria e sua vitória sobre a matéria.

Onde não há resistência não há sofrimento.
Onde não há sofrimento não há evolução.
Onde não há auto-realização não há regresso ao Reino.

“Bendito o leão comido pelo homem, porque o leão se torna homem! Maldito o homem comido pelo leão, porque esse homem se torna leão!”
(Evangelho de Tomé v. 7)

Rohden: O leão simboliza o ego humano, que o apóstolo Pedro, na sua primeira epístola, identifica com o diabo. Segundo as palavras de Jesus, satanás ou diabo é o ego mental do homem, quando se opõe ao Eu espiritual.

“Jesus disse: Eu estava no meio do mundo e me revelei a ele corporalmente. Encontrei todos ébrios, e não encontrei nenhum deles sedento. E minha alma sofria dores pelos filhos dos homens, porque eles são cegos no seu coração e nada enxergam. Assim como entraram no mundo vazios, querem sair do mundo vazios. Agora estão bêbados, e só se converterão se abandonarem o seu vinho.”
(Evangelho de Tomé v. 28)

Rohden: O homem profano vive numa permanente embriaguez das coisas do ego material-mental-emocional. E por isto não tem sede das coisas espirituais do Eu. São cegos para a Verdade, porque só enxergam as ilusões.
Todo o homem entra neste mundo sem nada, mas não deve sair do mundo sem nada. A razão-de-ser da nossa encarnação terrestre é adquirirmos algo que não nos foi dado, crearmo-nos mais do que Deus nos creou. De Deus recebemos a nossa alma como carta branca; mas não lhe podemos devolver como carta branca. Se devolvermos a Deus o que de Deus recebemos, seremos iguais àquele “servo mau e preguiçoso” da parábola dos talentos, que devolveu o mesmo talento que recebera.

A nossa missão terrestre é realizarmos pelo poder creativo do livre arbítrio valores que Deus não nos deu, mas para cuja creação nos deu potencialidade creativa. O homem deve atualizar as suas potencialidades creadoras; isto é ser “servo bom e fiel e entrar no gozo do seu Senhor”. Quanto ao corpo, sim, sairemos do mundo assim como no mundo entramos, sem nada. O corpo nos foi emprestado como embalagem pêlos nossos pais e pela natureza. Devolveremos à natureza o que da natureza recebemos. Mas temos de restituir a Deus o que de Deus recebemos mais aquilo que creamos com o nosso livre arbítrio, porque o homem não é apenas uma creatura creada, como os animais, mas uma creatura creadora. Quem pode, deve; e quem pode e deve e não faz, crea débito – e todo débito gera sofrimento. O homem é uma creatura potencialmente creadora, e seu dever é fazer-se uma creatura atualmente creadora. É esta a grande Verdade insinuada pelas palavras de Jesus acima citadas.

“Disse ele: Senhor, muitos rodeiam a fonte, mas ninguém entra na fonte.”
(Evangelho de Tomé v. 74)

Rohden: Já no início da Era Cristã, lamentava o grande Orígenes, de Alexandria, que muitos falassem do Cristo e poucos se cristificam. Muitos sabem que existe uma fonte de águas vivas, poucos bebem dessa água. Este mesmo fenômeno, aliás, se repete no mundo inteiro: quase toda a Ásia conhece a sabedoria de Buda, de Krishna, de Lao-Tse: muitos admiram as “quatro verdades nobres”, a Bhagavad Gita, o Tao Te King – e poucos descem à profundeza dessas fontes de sabedoria vivenciando-a. Quase todo o ocidente, europeu e americano, se diz cristão: muitos lêem os Evangelhos, fazem sermões, conferências e escrevem poesias sobre os ensinamentos de Jesus – mas quantos orientam a sua vida pelas grandes verdades do Cristo?

É fácil andar ao redor da fonte, espelhar-se em suas águas; contemplar a sua limpidez – sem beber uma gotinha das suas águas vivas. Difícil é descer às profundezas da fonte, beber da sua vida e vitalizar com ela todos os setores da vida. No colóquio com a samaritana, disse Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e aquele que te fala, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva, e essa água se tornaria em ti uma fonte de águas vivas, jorrando para a vida eterna”.
No princípio, as águas parecem fluir de fora para dentro de nós; no fim, porém, verificamos que se formou dentro de nós mesmos uma fonte de águas vivas, que nós mesmos somos uma nascente – e então essas águas jorram de dentro para fora, beneficiando também os outros. Ninguém pode ser beneficente antes de ser benevolente. Ninguém pode fazer bem aos outros se não for bom em si mesmo. Ninguém pode fazer transbordar as suas águas, se não tiver plenitude delas. Somente a plenitude interna é que pode transbordar externamente. Somente a consciência mística pode transbordar em vivência ética.

Quem não descer à profundeza da fonte, perde o seu tempo em rodear a fonte.

“Disse Jesus: Quem conhece o universo, mas não se possui a si mesmo, esse não possui nada.”
(Evangelho de Tomé v. 67)

Rohden: O Evangelho, como se vê, é puro auto-conhecimento, que culmina em auto-realização. Todos os grandes Mestres da humanidade, do Oriente e do Ocidente, são unânimes em pôr o auto-conhecimento acima de qualquer alo-conhecimento.

As teologias antigas giram em torno do conceito “salvação”. O conceito salvação sugere uma conotação de escapismo futurista, póstumo, ao passo que o conceito auto-realização é decididamente presentista, compreendendo a vida total do homem, terrestre e celeste; o homem deve iniciar a sua verdadeira realização, o Reino de Deus. interno e externo, aqui e agora, harmonizando a sua consciência mística e sua vivência ética com a Divindade. Quem só conhece o Universo, mas ignora a si mesmo, conhece muitos nadas: mas quem se conhece a si mesmo, conhece sua alma, que é também a alma do Universo. O homem e o cosmos são concêntricos – o centro de ambos é Deus. Realizar-se é conscientizar Deus em si mesmo e conscientizar Deus no Universo. Realizar-se é Universificar-se.
O homem intelectual – escreve Einstein – descobre aquilo que é (das was ist), mas o homem espiritual realiza em si aquilo que deve ser (das was sein soll)’, aquele é um descobridor de fatos, este é um creador de valores. Valor é Realidade eterna, fatos são reflexos passageiros. Do substantivo latino factum veio o adjetivo facticium, que mais tarde deu ficticium; quer dizer que os fatos são fictícios e não reais.

Quem conhece o Universo todo conhece mil coisas fictícias, como quem se apoderou de um grande número de zeros: 000000. Mas se conhece a si mesmo possui um valor real, como o “1”. Nenhum zero se pode auto-valorizar, porque representa uma nulidade, uma vacuidade, uma ficção; mas, quando a nulidade do zero se coloca ao lado direito da Realidade “1”, deixa de ser nulidade e adquire quantidade: 1000000. Todos os zeros foram valorizados pelo valor “1”; todas essas nulidades foram desnulificadas e quantificadas pela qualidade.
O homem que crea valores metafísicos em si mesmo pelo auto-conhecimento pode desnulificar as nulidades físicas e valorizá-las.
O homem profano joga só com zeros, é milionário de zeros: 00000000.
O místico isolacionista descobriu o valor “1” e rejeitou os zeros.
O homem-cósmico depois de abandonar os zeros para realizar o “1” e depois revogou do exílio os zeros, construiu a grande síntese: 1000000.

Nesse sentido escreveu Albert Schweitzer: “O cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo”.

Referência:
O Evangelho de Tomé (Parte 1);
O Evangelho de Tomé (Parte 2);
O Evangelho de Tomé Online (Todos os versículos, numa tradução feita pelo professor e filósofo Huberto Rohden, baseada na versão francesa de Phillipe de Suarez, feita diretamente dos manuscritos em língua copta);
Gospel of Thomas Commentary (Site em inglês com diversas traduções e comentários, inclusive com o texto original copta e grego)

5 1 vote
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
164 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.