O EVANGELHO DE TOMÉ (parte 2)

Continuando a nossa “semana Jesus Cristo”, vamos ver o porque de algumas passagens desse evangelho escandalizarem muitas pessoas:

“Simão Pedro disse: Seja Maria afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida.
Respondeu Jesus: Eis que eu a atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos céus.”

(Evangelho de Tomé v. 114)

Para entender esta frase, é preciso entender não só o contexto da época como também o modo como Jesus se relacionava com quem tentava colocá-lo contra a parede. No Evangelho de Tomé, vemos em algumas passagens como Jesus se utiliza de fina ironia (e humor!) para responder certas questões delicadas (até mesmo nos evangelhos canônicos, quando ele diz “Dai a César o que é de César”). Vejamos:

“Alguém diz a Jesus: Dize a meus irmãos que repartam comigo os bens de meu pai.
Respondeu Jesus: Ó, homem, quem me institui partidor?
E dirigindo-se a seus discípulos, disse-lhes: Será que eu sou um partidor?”

(Evangelho de Tomé v. 72)

Fico até imaginando a cara de Jesus – no melhor estilo Robert de Niro fingindo perplexidade – fazendo essa pergunta retórica aos discípulos. Mas tem também essa, uma verdadeira pérola de ironia:

“Jesus disse: Se a carne foi feita por causa do espírito, é isto maravilhoso. Mas, se o espírito foi feito por causa do corpo, é isto a maravilha das maravilhas. Eu, porém, estou maravilhado diante do seguinte: Como é que tamanha riqueza foi habitar em tanta pobreza?”
(Evangelho de Tomé v. 29)

Esse é o meu Jesus… se querem botar a carroça na frente dos bois, tudo bem… mas onde vocês vão chegar com isso? Será que não estão invertendo as prioridades?

Agora que vocês já pegaram o estilo desse Jesus, vamos ao cerne da questão. Mais especificamente, a questão 114, do topo do artigo: como muitos devem saber, há mais de 2.000 anos a mulher não valia nada. Até os camelos valiam mais do que uma mulher. Hoje a situação é diferente: no oriente médio, por exemplo, uma modelo loira pode valer até mesmo quatro camelos! (puxa, tomara que isso não inflacione o mercado). Mas o papel espiritual da mulher sempre foi desprezado. Ou não eram dignas por serem impuras, ou por serem um subproduto do homem (no gênesis) ou por serem bruxas, ou porque iriam atrair a cobiça e a discórdia nos homens em retiros espirituais… enfim, a mulher só servia pra procriação, e tal mentalidade não mudou muito nas religiões até hoje (pasmem!). Jesus foi um dos únicos Avatares a dar a devida importância às mulheres (shame on you, Buda!), colocando-as não só como iguais, mas até mesmo superiores na capacidade de entendimento espiritual. Então só podemos entender a frase de Jesus da seguinte forma:
“Tá bom, Pedro. Se o problema é ela ser mulher, então eu a disciplinarei para que se transforme em homem, para que ela seja inteligente que nem vocês”; e dá uma piscadela pra Maria.

Mas, em todo caso, é bom vermos o comentário de Huberto Rohden para esta mesma sentença:

Se Pedro propôs que a mulher fosse afastada dos homens, revelou espírito mesquinho, não aprovado pelo Mestre, que nunca revelou anti-feminismo, tanto assim que diversas mulheres, no Evangelho, aparecem como devotadas discípulas de Jesus, sobretudo Maria de Bethânia e Maria de Magdala (talvez idênticas); no Calvário, diversas discípulas dele assistem a morte do Mestre, mas um só dos seus discípulos. Se a mulher e o homem ultrapassarem as suas funções biológicas e conscientizarem a sua realidade superior de seres humanos, ambos serão iguais.
Segundo o Gênesis, o primeiro anthropos (Adão) era macho-fêmea potencial, que, após o sono cósmico dos Elohim, se bifurcou em homem e mulher atuais, como é hoje. Mas, se o ser humano atingir a plenitude da sua evolução, a atual procreação animal culminará em creação hominal, e o atual “filho de mulher” passará a ser “filho do homem”, como Jesus; o amor creador substituirá a libido procreadora; o produto desses amores humanos será um corpo perfeito, sem enfermidades nem morte compulsória, como no caso de Jesus, o “Filho do Homem”.
E então haverá um novo céu e uma nova terra, e o Reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.
Com esta gloriosa visão de uma futura humanidade crística termina Didymos Thomas o seu Evangelho sobre Jesus, o Vivo.

Referência:
O Evangelho de Tomé (Parte 1);
O Evangelho de Tomé (Parte 3);
O Evangelho de Tomé Online (Todos os versículos, numa tradução feita pelo professor e filósofo Huberto Rohden, baseada na versão francesa de Phillipe de Suarez, feita diretamente dos manuscritos em língua copta);
Gospel of Thomas Commentary (Site em inglês com diversas traduções e comentários, inclusive com o texto original copta e grego)

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