O EVANGELHO DE TOMÉ (parte 1)

Evangelho de Tomé

Vou começar a semana de Páscoa trazendo um Jesus diferente daquele ao qual vocês estão acostumados. Durante esses dias trarei os ditos de Jesus de uma outra fonte, escondida do público leigo há muito tempo por ser por demais polêmica e mal compreendida.

O evangelho apócrifo de Tomé foi encontrado em dezembro de 1945 por alguns felás (beduínos egípcios) que deslocavam-se com seus camelos por perto de um rochedo chamado Jabal al-Tarif, que margeia o rio Nilo, no Alto Egito, não muito longe da moderna cidade de Nag Hammadi. Dentro de um jarro selado encontraram 13 papiros encadernados em couro, escritos em copta. Decepcionante, pra quem esperava encontrar algo “valioso”, como ouro. Parte dos documentos foram usados pra acender fogo, parte foi vendida e veio parar no museu copta do Cairo. Ficaram esquecidos por onze anos, até que resolveram estudá-lo e descobriram que, entre os papiros, havia um que começava assim: Estas são as palavras secretas de Jesus, o vivo, que foram escritas por Didymos Tau’ma. Tau’ma é Tomé, ou Tomás, que significa gêmeo em aramaico, e Didymos significa gêmeo, em grego… sim, não é um nome, e sim uma condição (em duas línguas, pra não haver dúvida), o que levou pesquisadores a afirmarem que ele seria o irmão gêmeo de Jesus.

A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas aos outros se fala por parábolas; para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam.

(Lucas 8:10)

Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe em nada narrativas sobre a vida de Jesus de Nazaré, mas atém-se especificamente às sentenças que teriam sido proferidas por Jesus a seus discípulos. Sentenças duras, de caráter puramente espiritual, que aprofundam os mistérios parcialmente revelados nas parábolas que ele contava ao povo.

Um exemplo é que, em Mateus 5, no Monte das Oliveiras, Jesus ensina às multidões como se deve orar, jejuar, como agir em certas circunstâncias… mas no Evangelho de Tomé, quando seus discípulos o questionam “Queres que jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? Que alimentos devemos comer?” Jesus simplesmente diz: “Não mintais a vós mesmos, e não façais aquilo que detestais, pois todas as coisas são desveladas aos olhos do céu. Pois não há nada escondido que não se torne manifesto, e nada oculto que não seja desvelado”. Caramba! Que ensinamento fascinante! Altamente budista! É como se ele dissesse “sejam vocês mesmos! Vocês estão num nível de compreensão em que sabem que rumo devem dar às suas vidas. Eu sou o caminho, o exemplo. Mas não tentem ser eu sem antes serem vocês mesmos”. E mais na frente, numa prova de que a metodologia crística/budista de ensino é aparentemente contraditória, ele diz: “Se jejuardes, gerareis pecado para vós; se orardes, sereis condenados; se derdes esmolas, fareis mal a vossos espíritos. Quando entrardes em qualquer país e caminhardes por qualquer lugar, se fordes recebidos, comei o que vos for oferecido e curai os enfermos entre eles. Pois o que entrar em vossa boca não vos maculará, mas o que sair de vossa boca – é isso que vos maculará”. A contradição é apenas aparente, como Buda diz: “As pessoas possuem naturezas, desejos, comportamentos, pensamentos e julgamentos diferentes. Por essa razão emprego diferentes ensinos, várias parábolas e histórias sobre relações causais para possibilitá-las a criarem boas causas. Esta prática, própria de um Buda, eu a tenho realizado ininterruptamente, sem nunca negligenciá-la por um momento sequer”. Sim, os apóstolos deveriam ser o mais discreto possível, para que não sobressaísse nenhum traço do ego, ou de religião, mas sim serem identificados unicamente pelo conteúdo do espírito. Não deixa de ser um recado pra quem ainda acha que Jesus fundou uma religião…

Obviamente o conteúdo deste evangelho põe em xeque alguns posicionamentos dogmáticos da Igreja, e por isso é malvisto até hoje. Santo Irineu e Hipólito de Roma o atacaram. O Evangelho de São Tomé já foi anunciado pelos Padres da igreja como falso, e cheio de heresias (palavra que em grego significa simplesmente opinião), mas não se pode negar suas origens e dizer que é uma deturpação das palavras de Cristo, pois é provado que a cópia copta deste evangelho se baseia em um texto ainda mais antigo, provavelmente escrito em grego e/ou aramaico, a língua falada por Cristo. Além disso, os textos canônicos, que estão no Novo testamento, não são mais do que interpretações sobre os dizeres do Cristo feitos por discípulos, tendo o primeiro evangelho sinótico – o de Marcos – sido escrito provavelmente por volta do ano 60, ainda que baseado – segundo experts – em um texto anterior, chamado de quelle (fonte, em alemão) e que muitos pensam estar contido em grande parte no Evangelho de Tomé.

Neles pode-se pegar muito da essência Hindu que Jesus muito provavelmente aprendeu em sua preparação (os tais anos ocultos):

“Jesus viu crianças de peito a mamarem. E ele disse a seus discípulos: Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino?
Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, e o exterior como o interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino – então entrareis no Reino.”

(Evangelho de Tomé, v. 22)

Esta é uma idéia bastante avançada. Quase incompreensível, se pegarmos essa frase dentro de um contexto bíblico. Mas se formos olhar sob o prisma hindu encontraremos o sentido. Somente quando atingirmos o estado Búdico, onde o outro e tudo mais no mundo não é senão uma extensão de você mesmo, é que poderemos estar preparados para o “Reino”. Uma criança de colo não julga, nem se afirma masculino ou feminino, bom ou mal, apenas aceita as coisas como são. O Buda vê uma pedra como um irmão, pois sabe que a essência divina está ali em ascensão para, daqui a não se sabe quanto tempo, se tornar um humano. Assim é com os animais e as plantas. É um estado de respeito com tudo e com todos. É amar ao próximo como a si mesmo. Afinal, você não teria coragem de cortar seu dedo, teria?

“Onde há três deuses, eles são deuses. Onde há dois ou um, estou com ele”
(Evangelho de Tomé, v. 30)

Há um estudo enorme envolvendo este versículo, pois ele parece que estava danificado e por isso foi mal traduzido, e que após uma análise sob luz ultravioleta o pesquisador Harold W. Attridge descobriu que o texto realmente diz “Onde há três, eles estarão sem Deus, e onde há apenas um eu digo que eu estarei com ele”. O que é bastante oposto a Mateus 18:20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Mas isso deve ter uma relação profunda com o versículo 22 do mesmo Evangelho.

“Disse Jesus: O Reino do Pai é semelhante a um homem que quis matar um poderoso. Em sua própria casa ele desembainhou a espada e enfiou-a na parede para saber se sua mão era forte o suficiente para realizar a tarefa. Depois foi matar o poderoso”
(Evangelho de Tomé, v. 98)

Estranho. Chocante. Mas compreendam a mensagem: O que o homem da PARÁBOLA (não esqueçam) fez? Ele testou-se primeiro na segurança de CASA pra saber se teria condições para a empreitada. TREINOU sua força, antes do teste final. Assim é com todo aquele que quer fazer parte do Reino: Precisa provar aqui (pra si mesmo, em seu íntimo, sua “casa”) que está apto a esta empreitada. Apto a “matar o poderoso” (o nosso ego, as nossas paixões inferiores, tudo o que nos domina).

Mais alguns trechos do Evangelho de Tomé, explicados magnificamente por Huberto Rohden, em seu livro “O quinto Evangelho”:

“Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem me pareço eu.
Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo.
Disse Mateus: Tu és semelhante a um homem sábio e compreensivo.
Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante.
Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da Fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.”

(Evangelho de Tomé, v. 13 – parte 1)

Rohden: Pedro e Mateus falam da personalidade humana de Jesus de Nazaré, que um compara com um anjo justo, o outro com um homem sábio. Estes dois apóstolos vêem em Jesus um homem altamente evolvido, muito mais avançado do que outro ser humano aqui na terra; mas nenhum deles visualizou a entidade cósmica dentro da personalidade humana, exatamente como numerosos espiritualistas de nossos dias. Mas, segundo o Evangelho e segundo as próprias palavras de Jesus, o Cristo não é uma personalidade humana, e sim a primeira e mais alta emanação individual da Divindade Universal.
No texto acima citado, Tomé não ousa responder à pergunta de Jesus; prefere calar-se a falar, porque qualquer comparação que ele fizesse seria absurda; pois seria sempre uma comparação entre uma criatura humana e outra criatura humana. Mas, já nesse tempo Tomé vislumbrava algo para além da personalidade de Jesus de Nazaré; adivinhava o Cristo divino invisível para além do invólucro humano visível. E por isto se calou. E Jesus lhe fez ver que ele, o Jesus humano, não era Mestre de Tomé, desde que Tomé havia bebido e se inebriado da borbulhante Fonte da revelação que o Cristo lhe havia oferecido. Quem vislumbra a Realidade espiritual não pode falar, porque entrou na zona dos “ditos indizíveis”.
A ciência analítica, a erudição humana, fala – mas a sapiência intuitiva, a visão espiritual, se cala, porque sabe…
Um dia, como referem os Evangelhos, Tomé quis “ver para crer”; mais tarde, porém, como prova o texto acima, ele preferiu “crer para ver” – ou melhor: ter fé, fidelização, sintonia, para ver o Cristo divino no Jesus humano. E quem vê sabe, e quem sabe não fala – cala-se, porque vê e sabe. Os outros falam porque não sabem nem vêem; Tomé prefere calar-se porque bebeu da taça da suprema sabedoria.

“Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, estes lhe perguntaram: Que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar.”
(Evangelho de Tomé, v. 13 – parte 2)

Rohden: Quais seriam essas três palavras que Jesus disse a Tomé? Palavras tão inauditas e tão revoltantes que levariam os outros discípulos a apedrejar o companheiro como culpado de blasfêmia? Pensam alguns intérpretes que teriam sido as palavras “Eu sou tu”, ou “Tu és eu”. Em sânscrito, os iniciados, quando remontam a mais alta sapiência e vislumbram a essencial identidade entre Atman e Brahman, dizem “Tat twam asi” (Isto és tu). Será que Tomé, depois de beber do cálice da sapiência crística, ouviu do Mestre esta sabedoria suprema? Ele diz que das próprias pedras que seus companheiros lhe atirariam sairia fogo para os incendiar. Deviam, pois, ser palavras de fogo aquilo que o Mestre lhe disse e que ele não pôde dizer a seus companheiros. E como, pouco antes, Tomé havia citado as palavras do Cristo que ele lançara à terra, é possível que esse fogo crístico tenha a tal ponto deflagrado em Tomé que ele se tornasse um verdadeiro Cristóforo ou porta-Crísto. Mas os outros não compreendiam essa identidade do Cristo no homem e do Cristo em Jesus.
Tudo isto deve ter ocorrido entre a ressurreição e a ascensão nos quarenta dias que o ressuscitado dava instruções a seus discípulos. Parece que, depois do Pentecostes, Tomé, que fora sempre meio separatista, se separou definitivamente dos colegas palestinenses e se dirigiu ao Egito, onde foram, em 1945, encontrados os preciosos fragmentos que reproduzem parte do seu Evangelho. Nos primeiros séculos do cristianismo, nos desertos áridos da Tebaida, no Egito, viviam centenas de eremitas, solitários yoguis cristãos, em perpétua meditação. Possivelmente, Tomé, após a grande revelação das três palavras indizíveis sobre o Cristo, se isolou nessa inóspita solidão. Se ele não podia revelar a Pedro e Mateus as três palavras inefáveis, como as poderia revelar a outros homens mais profanos do que eles? E cada um de nós tem de descobrir dentro de si mesmo esse sacro trigrama.

Segundo a tradição cristã posterior, Tomé estendeu seu apostolado à Índia, onde é reconhecido como fundador da Igreja dos Cristãos Sírios Malabares, ou Igreja dos Cristãos de São Tomé. Consta que foi martirizado e morto no ano 53 da era cristã, pelo rei de Milapura, na cidade indiana de Madras, onde ficam o monte São Tomé e a catedral de mesmo nome, supostamente local de seu sepultamento. É festejado pelos católicos no dia 21 de dezembro.

Referência:
O Evangelho de Tomé (Parte 2);
O Evangelho de Tomé (Parte 3);
O Evangelho de Tomé Online (Todos os versículos, numa tradução feita pelo professor e filósofo Huberto Rohden, baseada na versão francesa de Phillipe de Suarez, feita diretamente dos manuscritos em língua copta);
Gospel of Thomas Commentary (Site em inglês com diversas traduções e comentários, inclusive com o texto original copta e grego);
Um Jesus diferente (Pesquisador diz o que foi escondido dos fiéis em séculos de preconceito e medo na Igreja)

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