AS GRANDES GUERRAS

AS GRANDES GUERRAS

1ª GRANDE GUERRA

Hoje visitei o Museu Imperial de Guerra, em Londres, e posso dizer que a parte dedicada a 1ª guerra representa a melhor experiência de museu do mundo até agora.

Sempre fui muito fascinado pela segunda guerra mundial, mas a primeira não me interessava. Agora vi que tudo depende da forma como a informação é apresentada. Enquanto a 2ª guerra me chegou através dos games e filmes como Resgate do Soldado Ryan, a 1ª só me veio através de livros velhos, ilustrações e mapas. Esse museu representou uma aula completa, onde passei mais de 4 horas absorvendo e interagindo com a informação. Telas touchscreen mostram estratégia, política, mapas em movimento, enquanto os objetos contam sua história (inclusive história pessoal do objeto mesmo!), tudo numa sequência perfeita pra entender o momento político, histórico e social. Fotos grandes espalhadas, luzes e cores, sons de guerra se misturando com depoimentos, enfim, um museu para um novo século. Essa sala foi reformada recentemente, e espero que algum dia façam algo assim com os objetos da segunda guerra.

Um porrete usado nas trincheiras pra combate corpo-a-corpo
Um porrete usado nas trincheiras pra combate corpo-a-corpo

O que aprendi foi que a segunda guerra foi ironicamente um grande repeteco de quase tudo o que aconteceu na primeira: Alemanha, Itália e Romênia contra França, Inglaterra e Rússia. Os alemães cometem burradas que permitem que os Estados Unidos, até então neutro, entre na guerra e vire a balança pro lado dos aliados. Itália e Romênia trocam de lado durante a guerra e a Alemanha fica sem meios de transporte e combustível pra continuar lutando. Igualzinho à segunda guerra! A única diferença foi que na primeira a Russia teve de abandonar a guerra no meio, pois estava com alguns “problemas” em casa (ou seja, a revolução interna e o nascimento do Comunismo, devido à escassez de alimentos e recursos que estavam sendo drenados por conta da guerra).

E a ironia continua: como que a Russia comunista – que só subiu ao poder graças à crítica da guerra e do Imperialismo – tenha sido a responsável por exterminar de vez o mal alemão na segunda guerra, mas anexado “imperialisticamente” todos os territórios pelos quais passou até chegar a Berlim. Outra ironia foi que, quem iniciou essa coisa de bloqueio marítimo a um país durante uma guerra foi a Inglaterra, com o objetivo de cortar alimentos pra Alemanha e fazer eles se renderem pela fome. Depois os alemães retribuíram a gentileza fazendo a mesma coisa na segunda guerra, contra os ingleses.

O que mais me chocou foi ver que foi uma guerra de “primeiros”, pois pela pela primeira vez foram quebradas as regras tradicionais de guerra. Por exemplo, foi a primeira onde os civis foram diretamente envolvidos. Antigamente havia um certo cavalheirismo, e as guerras eram travadas longe das cidades e sem envolver (intencionalmente) civis. Foram os alemães que quebraram esse acordo, quando atacaram a Bélgica (que era um país neutro e a Alemanha já começou errando daí) pra poderem chegar mais rapidamente à França, e na confusão a tropa alemã achou que estava sendo atacada pela população da cidade de Louvan. Resultado: 248 habitantes foram mortos com baionetas e tiros, monumentos históricos destruídos e a biblioteca principal, com vários manuscritos medievais, incendiada propositalmente. Por onde passaram na Bélgica ouviam-se relatos de estupros e crueldades com mulheres e crianças. Até então a Inglaterra havia entrado na guerra tão-somente pra honrar o acordo com a Bélgica e ajudar a França, mas a partir de então um dos principais motivos para a população inglesa ir pra guerra veio a ser “proteger a civilização contra a barbárie alemã”. Alemães passaram a ser chamados de Hunos, em memória a Gengis Khan. Para corroborar ainda mais a fama, navios alemães atiraram contra a costa inglesa sem motivo, atingindo civis. Isso só fez aumentar o ânimo dos ingleses de continuar lutando.

Confesso que não esperava isso dos alemães da 1ª guerra, sem a influência nazista. Ou seja, o germe do mal já estava largamente espalhado pelo exército, talvez com a cumplicidade de seus líderes. Mas a perda de escrúpulos durante a 1ª guerra não foi algo exclusivamente alemão: Navios que não fossem de guerra até então não eram atacados. Acontece que os ingleses disfarçaram navios de guerra como navios civis e, quando avistavam um submarino alemão, abriam fogo. Logo, os alemães passaram a atirar em navios civis, também. Aí afundaram o Lusitânia, com mulheres e crianças (norte-americanas inclusas), e isso gerou uma comoção enorme que obviamente foi explorada para recrutar voluntários pra guerra, inclusive nos EUA. Há evidências inclusive de que os britânicos estavam mesmo procurando um drama nesse nível, numa possível trama para trazer o relutante povo dos Estados Unidos para entrar na Primeira Guerra Mundial.

O mais incrível é que, durante a guerra, se deu uma verdadeira revolução em termos de táticas de combate, enquanto lutavam. Em 1914, quando tudo começou, os exércitos ainda usavam lanças, cavalos e espadas. Assim como no tempo de Napoleão, o exército se enfileirava lado a lado e atacava correndo pra cima um do outro. Só que nessa época já existia a metralhadora. E, apesar disso, os generais achavam que, com base em testes de combates de menor escala, os velhos métodos ainda funcionavam. O que se viu (culminando na Batalha do Marne) foi um massacre tão traumatizante pros dois lados que a guerra em campo aberto acabou nesse dia e ambos se enfiaram na terra (literalmente) durante anos em trincheiras, enquanto pensavam numa solução pra vencer o inimigo.

Soldado na trincheira

O ataque frontal provou ser um desastre na Batalha do Somme, uma das mais sangrentas da história, onde morreram 1 milhão de soldados (60 mil ingleses morreram num só dia). A combinação artilharia, metralhadora e arame farpado se mostrou mortal. Os franceses haviam criado um canhão portátil, o 75, que soltava balas que explodiam no ar, em cima do inimigos, e dentro tinham varias bolinhas de ferro que se espalhavam. Logo os outros exércitos copiaram o design. Ninguém mais podia atacar em campo aberto. Muitas coisas foram criadas pra tentar ganhar: gás, tanques de guerra, lança-chamas, aviões foram usados pela primeira vez em combates, etc. Mas o que resolveu foi repensarem a maneira como usavam as armas: a metralhadora passou a ser usada pra dar cobertura aos avanços, atirando por cima da cabeça dos seus próprios soldados, enquanto as bombas não mais eram projetadas pra fazer buracos no chão, e sim explodir na superfície, destruindo assim uma maior quantidade de arame farpado e possibilitando um melhor avanço dos seus próprios soldados num campo sem buracos e lama. E isso com a artilharia jogando bombas progressivamente ao avanço das tropas, ou seja, a guerra “moderna” como conhecemos.

A 1ª guerra começou com cavalos e espadas, atingiu seu ponto mais baixo no uso de tacos de baseball com pregos na ponta, machados e maças, e acabou com metralhadoras leves de mão e tanques de guerra. Uma evolução enorme na “arte” de matar em poucos anos, mas com pouco ou nenhum benefício pra humanidade.

2ª GRANDE GUERRA

Tanques de guerra alemães enfileirados

A 2ª guerra viu um avanço constante na destruição em massa, culminando com a bomba atômica, mas em compensação mudou a face do mundo e beneficiou a humanidade com tecnologias inestimáveis que utilizamos até hoje e ainda utilizaremos por muito tempo.

A primeira quebra de paradigmas aconteceu com os alemães e seu Blitzkrieg, uma guerra de movimentação rápida com tanques de guerra fazendo as vezes de cavalaria. Ironicamente a Blitzkrieg foi criada pelos franceses, que não só não botaram fé nisso como não desenvolveram o tanque de guerra, que na 1ª guerra era extremamente lento. Acontece que Hitler tinha uma queda por tentar armas e táticas novas no campo de batalha quando o assunto era ataque, e seus generais na época tinham carta branca. Assim, vimos o desenvolvimento de tanques leves que permitiam levar um armamento pesado ao campo de batalha antes que o inimigo tivesse tempo de se defender. E as tropas se movimentavam com bicicletas e motos, facilitando cercos e movimentos de pinça sobre os inimigos. Nascia assim a guerra moderna logo nas primeiras batalhas.

Ninguém inventou tanta tecnologia pro combate quanto os alemães:
– Desenvolvimento no campo óptico, pra fazer miras telescópicas pra rifles e tanques (com grandes avanços pra medicina, astronomia e fotografia).
– Desenvolvimento do primeiro avião a jato, cujos planos e cientistas (pegos pelos ingleses após a guerra) possibilitou o desenvolvimento da turbina, e assim podemos cruzar o mundo hoje em aviões confiáveis.
– Desenvolvimento de Foguetes: Para poder bombardear Londres, Hitler mandou Wernher Von Braun fazer foguetes não-tripulados (V1 e V2), e assim o mundo ganhou toda a tecnologia para o Homem ir à Lua e voltar. Só esse tópico já merecia um próprio post.
– Hitler pede a Ferdinand Porsche pra desenvolver um carro pra guerra no deserto, e os alemães desenvolvem o Fusca, um veículo com refrigeração a ar que recebe o nome de Volkswagen (carro do povo).
– As Autobahns (auto-estradas) eram largas ruas com asfalto de alta qualidade onde você não tinha cruzamentos e podia acelerar. Foram “vendidas” ao povo com o propósito de os alemães passeassem de carro pelas terras conquistadas, mas elas foram pensadas mesmo para uma movimentação rápida de tropas, munição e equipamentos, daí veio toda uma tecnologia no sentido de torná-las resistentes até mesmo à passagem de tanques de guerra (aproveitado por nós para o transporte de mercadorias via caminhões).
– Na área industrial, assistimos a grandes avanços também. Através da concentração de poder, tecnologia e conhecimento (via roubo das fábricas e patentes de judeus e de contratos milionários com o governo) puderam surgir grandes conglomerados industriais, como a BASF, a Bayer, a Thysen-Krupp e a Audi. Até mesmo na moda vimos o nascimento do Império Hugo Boss.
– Em 1939, Konrad Zuse desenvolve o primeiro computador binário digital: uma calculadora programável.

Um dos temas mais controversos e delicados é a experimentação em humanos. Os cientistas alemães praticavam a mais abjeta crueldade com os prisioneiros (judeus, eslavos, ciganos, homossexuais ou simplesmente quem fosse ideologicamente contra o nazismo) na esperança de desenvolver novos medicamentos ou simplesmente testar os limites do corpo humano, e após a guerra isso trouxe debate na comunidade científica se deveriam aproveitar ou não os resultados desses testes. Um dos casos em que os estudos foram aproveitados foi o do desenvolvimento de melhores coletes salva-vidas, que conservam o calor do corpo por mais tempo. Tudo devido à morte cruel de não se sabe quantas pessoas em tanques de água gelada, em ambientes controlados. Quem nos anos 80 nunca ouviu falar no Joseph Mengele?

O motor Merlin, que equipava os caças e Hitler ao fundo.
O motor Merlin, que equipava os caças e ajudou a derrotar Hitler (Museu Imperial de Guerra Britânico).

Percebendo o avanço tecnológico alemão, os Ingleses correram atrás do prejuízo. Winston Churchill (Primeiro-Ministro e o maior adversário de Hitler) era um grande entusiasta de tecnologias e foi o primeiro líder mundial a ter um consultor científico (tipo um ministro da tecnologia). Duas tecnologias em particular literalmente salvaram o país:
– O Radar. O radar foi ironicamente criado pelos alemães, mas como eles estavam atacando e não defendendo, não viram muita aplicação prática e não o desenvolveram tanto quanto os ingleses. Essa tecnologia foi essencial pra detectar aviões e bombardeiros alemães vindo pelo canal da mancha e mandar os pilotos da RAF para o ponto exato de interceptação. Isso evitava ter patrulhas aéreas o dia todo, poupando recursos e pilotos, e com isso podiam deslocar pilotos de bases mais distantes, se preciso fosse. No famoso discurso de Churchill “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” ele se referia aos jovens pilotos de caça britânicos, que eram literalmente poucos. Até hoje a insígnia da RAF é usada com orgulho por toda parte na Inglaterra, do metrô a mapas, camisetas, bandas de rock e propagandas. O radar também servia pra triangulação de bombardeiros, o que acabou se tornando a base pro atual GPS.
– Motor “MerlinRolls Royce. O motor que equipou os caças que defenderam a Inglaterra e também os bombardeiros ingleses e norte-americanos que atacaram a Alemanha. Extremamente resistentes e confiáveis, fizeram frente ao melhor da tecnologia alemã. Nem preciso dizer que todo esse know-how veio parar nos nossos carros e aeronaves.

Em 1936, Alan Turing (que trabalhava decodificando as mensagens encriptadas dos nazistas) define as bases do que hoje é um computador, através da “máquina de Turing”. Ele ajudou o desenvolvimento da ciência da computação, foi pioneiro na inteligência artificial e na formalização do conceito de algoritmo.

Os ingleses também desenvolveram a produção de penicilina, um antibiótico poderosíssimo que salvou e ainda salva milhares de vidas, talvez um dos maiores legados positivos da guerra. Uma versão-teste da penicilina salvou a vida de Churchill quando ele pegou pneumonia na África.

Após a guerra os cientistas ficaram “mal acostumados” aos recursos ilimitados (Bernard Lovell falou “no tempo da guerra as únicas coisas que nos perguntavam era ‘você pode fazer isso?‘ e ‘quando estará pronto?‘”) e ainda mantinham os contatos com as pessoas importantes do governo, então eles sabiam pra quem ligar e financiar suas pesquisas. Foi assim que cientistas conseguiram utilizar os equipamentos derivados do desenvolvimento do radar para pesquisar o sistema nervoso, para então descobrir a forma do DNA e para a exploração do espaço (Astronomia moderna). A história da pesquisa radio-espacial é diretamente derivada da 2ª guerra, já que um dos cientistas pegou os mecanismos de rotação de canhões de navios para adaptar a uma parabólica gigante e fazer o primeiro radiotelescópio. Ele literalmente teve de mendigar fundos pra continuar o projeto, com crianças doando as mesadas, campanhas nos jornais, etc, até que a Rússia iniciou a corrida espacial com o Sputnik e precisou alugar um radiotelescópio pra poder monitorar seu satélite na área européia. A partir daí (ou seja, do medo de ficar pra trás na Guerra Fria) não faltou mais dinheiro do governo para as pesquisas do espaço.

“Os Impérios do Futuro serão os Impérios da Mente”

Winston Churchill; Harvard, 1943

EPÍLOGO

Tanque Tiger em Cologne

E o que isso tem a ver com o Saindo da Matrix? Fiquei matutando no tema pois lembrei imediatamente do que os espíritas dizem sobre nós estarmos em nosso “planeta de provas e expiações”, e que parece bastante “adequado” que numa desgraça dessas a evolução se dê através de muito sofrimento. Até quando? Hoje, no ocidente, parecemos estar em um época melhor, onde podemos evoluir puramente através da tecnologia, sem ter um conflito por trás, mas na África e no Oriente Médio estamos vivendo o inferno na terra, onde populações inteiras vão sendo confrontadas com o lado negro da religião, com os costumes de milênios, com o patriarcado, com as guerras de tribos (em pleno século 21!) e, se o momento atual é de botar a mão na cabeça e dizer “pára o mundo que eu quero descer”, eu imagino que a longo prazo, numa visão desapaixonada, essa época em que vivemos pode representar o momento do início da ruptura do planeta Terra com a barbárie. Com a tecnologia e comunicação que temos hoje, a barbárie vai ganhando contornos tão banais que chocam ainda mais do que se estivéssemos no calor de uma guerra mundial, com as máquinas de propaganda de cada país a todo vapor. E com o choque vem a repulsa e a vontade de mudar através das gerações. Mas isso a longo prazo, porque agora a barbárie está proliferando até no Brasil, com linchamentos em praça pública. Brasil, país do futuro, pátria do Evangelho? Hummm…

Infelizmente a raça humana caminha a passos lentos e sangrentos em direção a uma unidade planetária. Mas, se tal unidade é feita dessa forma, onde fica a diversidade? Quantas e quantas civilizações não desapareceram por conta da intolerância, da ganância de conquistar e dominar? Nesse momento, os malucos do El estão destruindo monumentos históricos porque acham que qualquer coisa de antes do Islamismo não deveria existir! E a nossa cultura indígena, onde está? Que sobrou dos Celtas? Às vezes fico meio desanimado disso aqui. Qual o sentido disso tudo? Não dá pra acreditar que há um “plano diretor” pra nós. Tá mais pra uma prisão onde os prisioneiros fazem suas próprias regras e o diretor só cuida pra que não saltemos o muro.

A Internet (outra ferramenta criada para a guerra) possibilitou muitos avanços na nossa unificação e conflitos evitados ao permitir a comunicação rápida e bidirecional, mas acentuou uma característica humana da qual devíamos nos envergonhar: nós GOSTAMOS de brigar. É tanta confusão por temas idiotas que é surpreendente que não tenhamos ainda mais guerras do que temos. Enfim, o que esperar de um planeta de provas e expiações?

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