ONDE NÓS VAMOS PARAR COM ESSA VISÃO DE MUNDO?

Estou profundamente triste e decepcionado com o meu país. Não é uma questão política, não tem nada a ver com as urnas. Tem a ver com humanidade. Quem quer que se sagre campeão nas urnas no dia 31 de outubro, já teremos perdido como coletividade. O país nunca mais será o mesmo. Vejo com profundo pesar pessoas que conheço botarem na balança sua vida, liberdade e humanidade em nome de um pragmatismo, em nome de um suposto “bem” para o povo, em nome de um suposto “progresso do país”. Em nome da Matrix. Já vi isso antes. Nos livros de história. Quem tem sabedoria já sabe onde e quando isso ocorreu, e no que resultou.

Árvore morta. Foto: Brian Kerr

Como espiritualista não posso acreditar que exista uma ética e moral dita “espiritual” e outra ética e moral no campo político. Só existe o SER humano. E a coletividade humana. Se não agimos com ética e respeito para com UM ser humano, o que esperar quando essa pessoa dirige o futuro da coletividade?

É exatamente esse o ponto do educador judeu Martin Buber, que fez em 1935, na Alemanha, uma conferência intitulada Formação e Visão de Mundo (Bildung und Weltanschauung). É uma data significativa, pois marca a transição das ações dissimuladas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães para uma fase mais agressiva, onde já conquistava todos os setores da sociedade (alma e mente) e os opositores já podiam ser calados, seja pela escárnio, pela mentira ou pela violência.

Se em 1933 a legislação tinha proibido a permanência de judeus em cargos públicos e dificultou o acesso deles às universidades, em 1935 foi aprovada no Congresso, por unanimidade, a legislação antissemita chamada “Lei para a proteção do sangue e da honra alemã“, que retirava o direito de voto dos judeus e proibia casamento e relações íntimas de judeus com arianos, sob ameaça de punições severas. Como sapos dentro da água que é aquecida lentamente, os judeus não percebiam (ou não acreditavam) que a situação poderia piorar. Mas piorava. Apenas em 1938 se deu a “Noite dos cristais“, com assassinatos à céu aberto, destruição de sinagogas e de lojas judias. Os incêndios chocaram uma parte da população, mas não o fato de que os judeus tivessem sido atacados fisicamente. A população já estava anestesiada, preparada graduamente durante anos para acreditar que um judeu vale menos que um ser humano.

Deus, como eu gostaria de acreditar que estou sendo apenas paranóico. Mas ligo a TV e vejo o atual presidente da república e a mulher que irá sucedê-lo esbravejando com um ódio e indignação ante a reação de um adversário tratado como alguém que vale menos que um humano, e percebo que eu já vi isso antes, nos livros e vídeos de história. E fico apreensivo. E profundamente triste com quem se diz espiritualizado e não percebe isso. Ou percebe, mas está anestesiado, e vota com a razão (ou o bolso). Os de outrora também votaram com a razão. E que razão. Nunca antes na história da Alemanha alguém a erguera tão alto.

Não estou aqui falando de partidos, projetos de governo, e sim de pessoas. Daqui pra baixo usarei apenas trechos do trabalho Formação e Visão de Mundo – Reflexões Pedagógicas de Martin Buber na Presença do Nazismo do prof. Ferdinand Röhr, da UFPE, para que reflitamos a respeito da nossa posição como seres humanos em relação a outros seres humanos, aprendendo com as duras lições do passado (as aspas abaixo são todas de frases de Buber):

O trabalho de formação que Buber tem em mente precisa “saber que para se formar a pessoa e com isso para a construção de uma grande comunidade – que cresce a partir das pessoas e das relações entre elas – tudo depende de até que ponto o homem se envolve de fato com o mundo.” A pergunta é: Como isso é possível? O que temos ao nosso alcance é o “mundo” como ele se apresenta para nós e isso na parcialidade das visões de mundo. Buber não considera possível, nem desejável, educar isento de visão de mundo. “Tudo depende, tanto em relação a quem ensina quanto a quem aprende, se a sua visão de mundo promove ou barra sua relação vivente com o mundo “contemplado”.

Não nos é concedido possuir a verdade; mas, quem acredita nela e serve a ela, edifica o reino dela. A parte ideológica daquilo que cada indivíduo chama de verdade é inseparável, indissolúvel, porém, o que cada um pode fazer é exigir, no próprio espírito, restrição à politização da verdade, à utilização da verdade, à infiel equiparação da verdade com aplicabilidade. A relativização reina em mim da mesma forma como a morte, porém a ela posso, ao contrário da morte, pôr limites: até aqui e nada além disso!

Martin Buber

Na biografia de Buber há um episódio ilustrativo dessa posição dele. Ernst Krieck, colega de Buber na Universidade de Frankfurt antes do regime nazista, na função de ministro de cultura na Prússia e principal ideólogo da educação nazista, publicou numa revista um panfleto antissemita com o título “O Deus Judeu“. Buber ofereceu a ele, através de uma terceira pessoa, um comentário em que meramente esclarecia as partes que apresentavam equívocos sobre fatos. O biógrafo relata que: “Krieck respondeu a essa terceira pessoa, que sente um respeito grande por Buber, mas que ele, Buber, ainda permanece ingênuo demais, pois não compreendeu, de forma alguma, que se tratava de um jornal político!”

Podemos, portanto, dizer que a distinção entre os dois tipos de visão de mundo se caracteriza pela busca de um deles em contribuir na edificação da verdade; já o outro, na imposição da própria ideologia, na qual os fins justificam qualquer meio. Óbvio que os líderes de grupos com visão de mundo desse segundo tipo jamais concordariam com os princípios educacionais de Buber. Para os que concordam, Buber faz um convite de colaboração que, na verdade, é mais ainda: a necessidade de um trabalho educacional em conjunto quando se quer levar o olhar em direção ao “mundo” a sério.

A formação que está sendo abordada aqui põe os grupos divididos nas suas visões do mundo diante da face do Todo. Porém, como esse Todo não é um objeto separado, mas a vida em comum que os sustenta, eles não podem estar aí e contemplar em agrupamentos separados – eles têm também que agir, um com o outro, nessa comunidade vivenciada, pois, somente nessa interação vivenciada eles começam a perceber de verdade o impacto do Todo.

Martin Buber

Na questão de como um grupo relaciona-se com o Todo, o mais frequente é ele querer se impor; achar que é ou pretender tornar-se o Todo. Para Buber trata-se de um equívoco. Ninguém pode fazer com que algo se torne o Todo. O Todo “cresce”. “Quem se opõe a ele (o Todo), perde-o, na medida em que parece ganhá-lo; quem se entrega a ele, cresce com ele.” Não se pode esperar um futuro humano e produtivo de uma comunidade ou de um povo em que uma visão de mundo venceu os outros, calando-os violentamente. A meta não é igualar todos, mas ativar um compromisso com a realidade e as verdades possíveis nela. O modelo é criar uma “comunidade grande que não representa uma unificação dos que têm mentalidade político-moral em comum, mas um verdadeiro viver um com o outro, de seres da mesma espécie ou de espécies fundidas entre si, mas com visões de mundo distintas.” Resumido numa frase: “comunidade é dar conta da alteridade numa unidade vivenciada.”

Existem várias formas de equívocos sobre esse tipo de comunidade. Não se trata simplesmente de “exercer tolerância”; de buscar uma base mínima em que se pode compreender o outro que comumente termina em fórmulas que só superficialmente ou aparentemente significam aspectos em comum. Buber não pensa em nenhum tipo de neutralidade diante das diferenças ou formas de camuflar os limites entre os grupos, círculos ou partidos. Ele se utiliza da imagem de uma árvore para explicar sua posição. O que a grande comunidade solicita para sua formação é uma “presentificação da comunhão de raiz e as ramificações. Trata-se de perceber e vivenciar o tronco, de tal forma que se vivencie também onde e como os outros galhos se separaram e crescem tão reais como o meu próprio.” Importa “saber da relação com a verdade do outro lado, qual a real ligação que o outro desenvolve com a realidade”. Só nessa condição a solidariedade pode se expandir entre os grupos. No respeito que adquiro vendo a luta do outro em prol da verdade cria-se uma mutualidade, uma atuação recíproca mesmo pensando diferente.

Gerar relações diretas entre os diferentes grupos de visões de mundo abre a possibilidade de proporcionar uma percepção do “mundo” por trás das visões.

“A verdade de uma visão de mundo não se demonstra nas nuvens, mas na vida vivenciada: verdadeiro é o que se torna confirmado”. Dispensar essa prova foi uma das atitudes do nazismo que mais iludiu as massas. Nesse ponto, Buber arrisca uma crítica mais direta aos nazistas: “No ritmo unificado da marcha de um grupo perde-se hoje a distinção entre aquele cujo passo significa o caminhar de uma existência com direcionamento realizador próprio ou que representa um mero gesto falante

Depositar a responsabilidade última por uma visão de mundo no indivíduo, em cada um, e não só nos líderes, não pode ser, de forma alguma, interpretado como individualismo. Compreendendo essa questão, Buber se opõe tanto ao individualismo quanto ao coletivismo. Poderíamos falar de individualismo, caso Buber atrelasse a decisão do indivíduo por uma visão de mundo, a interesses particulares do mesmo. Fato que era mais do que comum no nazismo. Adesão a ele não foi só atrativo para as massas de desempregados na época e dos humilhados pelas derrotas e consequências derivadas do Tratado de Versalhes. Tornar-se um adepto “fiel” ao nazismo significava garantia de carreira para funcionários públicos sem perspectiva de progressão, portas abertas para intelectuais com ambições de poder dentro ou fora dos meios acadêmicos, negócios prósperos para industriais falidos, cargos garantidos para políticos inescrupulosos. Até intelectuais como Heidegger caíram, temporariamente, nos laços do nazismo e com ele inúmeros anônimos. Até criminosos “limparam a ficha”, dispondo-se a fazer os serviços sujos do partido, como foi o caso de Heydrich, idealizador da máquina exterminadora do holocausto. Para Buber, essas pessoas não enxergaram a “responsabilidade existencial” que está implícita numa decisão por uma visão de mundo. Não se pode negar a importância que essa decisão tem para o indivíduo. Mas não no sentido de vantagem individual e imediata. A responsabilidade não é só para si, mas para a comunidade inteira em que se vive, para o futuro dela, como ele afirma: “Até que ponto uma comunidade futura corresponde à imagem desejada depende decisivamente da atitude essencial das pessoas presentes – não só dos que lideram, mas de cada indivíduo.” Se boa parte de uma comunidade adere, por motivos egoístas, a uma visão de mundo com mentalidade político-moral fictícia, se participa da imposição dela a qualquer custo para manter as vantagens individuais, não se pode esperar outra coisa senão uma catástrofe no futuro. Assim, Buber resume a sua análise do seu tempo:

Estamos vivendo – temos que repetir isso sempre de novo – num tempo, em que, passo a passo, se realizam os grandes sonhos, as grandes esperanças da humanidade: como suas próprias caricaturas. Qual é a causa de toda essa aparência maciça? Não conheço outra senão a mentalidade político-moral fictícia. A esse poder, chamo o não-ser formado do homem desta época. Contra ele se põe a formação verdadeira diante do tempo e contemporânea, que guia o homem para a interligação vivida com seu mundo e que o deixe se elevar para a fidelidade, a provação, a conquista, a comprovação, a responsabilidade, a decisão, a realização.

Martin Buber

Buber sintetiza, a partir desse diagnóstico, o seu programa educativo:

O trabalho formativo que tenho em mente é a condução para a realidade e realização. É para formar o homem que sabe diferenciar entre aparência e realidade, entre realização aparente e realização verdadeira, que rejeita a aparência e escolhe e agarra a realidade, independente da sua escolha de visão de mundo. Esse trabalho formativo educa os membros de todas as visões de mundo para autenticidade e verdade. Ele educa todos para levar a sério a própria visão de mundo, partindo da autenticidade do fundo e indo na direção à verdade do alvo.

Martin Buber

O diagnóstico de que a forma como o próprio nazismo se relacionou com a sua visão de mundo só poderia levar a uma catástrofe, foi completamente verdadeiro. De fato, não se criou nada que pudesse gerar raízes para um futuro duradouro. A fórmula para tal tipo de diagnóstico é a seguinte:

O alvo não é fixo e está esperando; quem toma um caminho que já na sua própria maneira não representa a maneira do alvo, vai perdê-lo, mesmo mantendo-o o mais fixo na sua mira; o alvo que ele alcança não será diferente do caminho no qual ele o alcançou.

Martin Buber

O diagnóstico que teríamos de fazer, nesse caso, não seria, em primeiro lugar, uma análise dos discursos sobre as metas para a formação no nosso tempo, mas a forma como estamos caminhando. A própria maneira como caminhamos pode nos indicar o que podemos esperar ou não dessa caminhada.

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