A VIDA EM TRATAMENTO

Um homem perfeitamente saudável, por motivos de stress, teve de passar uns dias numa clinica de repouso, a melhor do mundo, com acompanhamento 24hrs, regalias e, diferentemente das clínicas que conhecemos, os pacientes são tratados com o melhor que o lugar pode oferecer, com prazeres sensoriais diversos, como piscinas de água quente, saunas, comidas deliciosas, massagens, tudo o que ele não tinha no seu dia-a-dia, e que era necessário para o refazimento do seu organismo falido. Passou poucos dias e saiu de lá outra pessoa, tão bem disposto como nunca lembrara que pudesse ficar. Voltou ao seu mundo, ao seu ritmo de trabalho, mas algo dentro dele, num nível subconsciente, reclamava por aqueles mimos. Seu organismo, então, tratou de falhar, para que pudesse ser recebido novamente na clínica. Após uma semana de ótimas lembranças, ele retornaria em breve ao seu habitat, mas um desejo muito mais forte o dominara: ele se apaixonara por uma das internas. Ao contrário dele, ela não sairia dali tão cedo, e ele (que também queria ficar) não entendia o porquê. Os médicos não o diziam, e ela parecia tão normal, tão perfeita… Os dias ao lado dela eram de encanto absoluto.

Esse homem agora tinha um ideal: lutar por viver ao lado daquela garota, desfrutando dos prazeres daquela clínica. Não teria “alta” tão facilmente. Fingiu uma inocente confusão mental, mas os exames psicológicos eram avançadíssimos, detectando uma perturbação real de uma falsa. Prevendo sua expulsão, desesperou-se: pegou uma vara e começou a bater em si mesmo. Ele ficou na clínica, mas foi transferido para uma ala que ele desconhecia: a dos revoltados. Nada de sauna, ou diversões; estava agora confinado numa sala acolchoada (para seu próprio bem), e o acompanhamento – que antes era feito em conversas esporádicas com os médicos no parque, à luz do sol – agora era intensivo, mas oculto, por trás de câmeras de segurança que não permitiam que ele visse quem e quando estariam olhando para ele. Ele chorava no escuro, arrependido de ter embarcado nesta aventura. Agora só pensava em ir pra casa, onde podia viver em liberdade…

Dois meses se passaram naquele cárcere. Foi liberado para a área aberta, e pôde ver novamente sua amada, o que facilitou o esquecimento de toda a sua tristeza nos meses anteriores. O anseio pelos prazeres voltara com um novo impulso, bem como a idéia de forjar sua permanência. Sabia que não poderia mais alegar insanidade, ou seria confinado. Precisava de uma loucura “branda”. Achou que, batendo com a cabeça na parede repetidas vezes, levemente, perturbaria suas funções neurológicas, e os exames, avançadíssimos, detectariam a “doença”. E assim o fez, mas sua ação infantil e leviana não saiu como planejado, o que acabou por afetar gravemente sua organização psíquica.

Esse homem permaneceu na clínica para sempre, como queria, mas como um cego e retardado, gastando seus dias em severa reabilitação motora e mental, e cuja maior alegria era passear de cadeira de rodas ao lado de sua amada, com um sorriso bobo nos lábios, enquanto um enfermeiro limpava sua baba. Felicidade, enfim… mas a que preço?


Acordei hoje com essa historinha na cabeça (cortesia dos amparadores?). Tive de repassá-la mentalmente pra não esquecer o sonho, acrescentei algumas coisas para dar unidade ao texto, mas a idéia básica é essa: a metáfora do que estamos vivendo aqui na Terra, esse grande planeta Hospital / Prisão. Para alguns, uma necessidade para o refazimento; para outros um inferno; e para muitos, um prazer. O que deveria ser um estágio de uma ou duas vidas acaba se tornando um ciclo incessante de reencarnações.

E o motivo de tudo isso? Paixões, apegos… A vida nos outros planos não é tão “divertida” e intensa como aqui. É aqui que se sente aquele “friozinho na barriga” quando botamos deliberadamente nosso corpo carnal em risco (esportes radicais, parques, etc). É aqui que se sente a “felicidade” de estar empanturrado da comida que você mais gosta, ou a “leveza” proporcionada pela bebida. Claro que nos outros planos os tipos de “prazeres” devem ser muito mais intensos e sublimes, mas de uma OUTRA natureza que não essa a qual estamos condicionados. O quanto realmente nós queremos deixar os prazeres para trás?

Aqueles que buscam a Iluminação devem livrar-se primeiro do fogo de todos os desejos. O desejo é como fogo devastador, e aquele que está trilhando o caminho da Iluminação deve evitar o fogo do desejo, assim como o homem que carrega um fardo de feno evita as chamas. É loucura um homem arrancar seus olhos, pelo temor de ser tentado pelas formas bonitas. A mente é o senhor e se ela estiver sob controle, os menores desejos desaparecerão.

Buda

Quem controla os seus sentidos por praticar os princípios da liberdade regrada recebe misericórdia e então fica liberado da aversão e do desejo.

Krishna; Baghavad Gita
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