FANTASMAS NO STF

Duas categorias de pessoas são ótimas candidatas a serem fantasmas: as rancorosas (que alimentam o ódio em suas formas diversas, como o ciúme desenfreado, o rancor, a inveja, etc) e as orgulhosas (prepotentes, arrogantes, superiores, etc). O que vem a ser exatamente “fantasma” eu não sei. Procuro manter a mente bem aberta, equidistante dos dogmas e “revelações” das doutrinas esotéricas. Podem ser de fato almas de pessoas que não se deram conta de que morreram, ou impressões no éter (no tempo / espaço) de acontecimentos marcantes e que, por não existir – em essência – o espaço / tempo (fisicoquanticamente falando), interagem ainda hoje conosco. Pode ser uma brecha temporal onde vislumbramos coisas do passado, ou um acesso (por vezes compartilhado) ao inconsciente coletivo. Enfim, não cabe a mim definir, e creio que só a ciência, quando um dia se voltar para o metafísico (a física quântica é só a ponta do iceberg) é que vai fechar a questão.

Mas, como dizia, essas duas características são as que mais se “mantém vivas” – a palavra certa é alimentada – no além-túmulo. Por isso não é a toa que existem os castelos mal-assombrados, ou casas onde ocorreram crimes e que se tornam palco de misteriosos acontecimentos. Ora, a falsa “superioridade”, tão patente na Terra (por conta de títulos, posição social, prestígio, riqueza ou outros fatores) vai por água abaixo quando morremos. A morte nivela o pobre e o rico, o policial e o ladrão. Na vida pós-morte não detemos riqueza, títulos, nobreza, nada… a não ser NA CABEÇA DA PESSOA. Um deputado, por exemplo, é o que é por conta de uma ESTRUTURA montada em torno dele pelo Estado. Carro oficial, regalias, carteira diferenciada, hierarquia, funcionários à disposição, celular, babação de ovo, tudo isso vem no “pacote”, não importando se você era ladrão de banco ou estuprador antes do concurso / voto / indicação. Com a morte, esse “chão” é perdido, abruptamente. É algo que pode ser enlouquecedor, e se um louco vivo quando bota uma coisa na cabeça já apronta, imagine um louco morto?!

Às vezes tenho de conviver com tanta arrogância, tanto desprezo pela alma e trabalho humano que isso têm sido tema da maioria das sessões com minha psicóloga. Tenho uma amiga que deve passar pela mesma coisa, porque a vontade dela é de cumprimentar as pessoas com um soturno “amigo, lembra-te de que vais morrer“. Acho que devia haver, nem que fosse na faculdade, uma cadeira obrigatória de “aprendizado da morte (Tanatologia?)” para a interiorização do fato de que TODOS NÓS, sem exceção, vamos morrer.

Escrevi isso tudo como um preâmbulo pra notícia que vi no O Globo:

Funcionários relatam histórias de fantasmas no STF

BRASÍLIA – O vetusto Supremo Tribunal Federal (STF) guarda, entre os milhares de processos, segredos do outro mundo. É forte o boato de que o prédio é mal-assombrado pelos espíritos dos ex-ministros já mortos. Segundo relatos de funcionários, as entidades se manifestam nos momentos mais inusitados, de preferência à noite, na forma de sussurros e portas que batem repentinamente. Há quem jure ter visto ex-ministros mortos há muito tempo vestidos de beca, descendo as escadas do Tribunal, prontos para a sessão. No entanto, quem mais mete medo é a mulher de branco -uma espécie de guardiã da memória dos ex-ministros que já passaram desta para melhor.

Dizem que a mulher de branco é loira e sorridente. Usa um vestido branco longo e esvoaçante. Costuma aparecer na calada da noite no Salão Branco do Tribunal, ambiente contíguo ao plenário, que ostenta em uma das paredes as fotografias de todos os presidentes da história da corte. Antigamente, o local era destinado ao velório de ministros e ex-ministros. Reza a lenda que a entidade feminina acompanhava essas cerimônias e conduzia os magistrados ao plano espiritual.

Todo mundo tem uma história para contar sobre o fantasma. Nos corredores do Tribunal, fala-se de muitos sustos dados pela mulher holográfica. O GLOBO não encontrou ninguém para relatar, em primeira pessoa, um encontro de fato com ela. Mas é atribuída à entidade toda sorte de evento inexplicável que ocorre no STF.

Um dos mais recentes candidatos a fenômeno sobrenatural foi presenciado há duas semanas pela copeira Celma Basílio, que trabalha no Tribunal há 18 anos. Celma conta que aqueceu no forno a marmita dela e de uma colega na hora do almoço. Misteriosamente, uma das refeições caiu no chão a caminho da mesa. Celma disse que foi buscar uma vassoura e, quando chegou, tudo tinha sumido. Dois dias depois, o recipiente apareceu vazio na copa.
– Foi muito estranho. A minha colega jura que era a mulher de branco. Devia estar com fome, coitada – revela Celma.

A copeira também afirma que, vez ou outra, sente a presença de um vulto ao seu lado. Quando olha, não vê ninguém. Um garçom colega de Celma, que preferiu não dizer o nome, é resoluto ao negar qualquer tipo de medo:
– Ela só aparece à noite. Como eu trabalho de dia, nunca vi. Mas não coloca meu nome aí, não. Sei lá o que pode acontecer…

Ministros do STF conhecem a lenda e não menosprezam a presença da mulher de branco ou de seus ex-colegas enquanto trabalham. Mas garantem que não têm medo dos fantasmas.
– Como eu tenho o corpo fechado, eles (os fantasmas) não se apresentam. Eu tenho medo é dos vivos – diz Marco Aurélio Mello.
– Não tenho medo. Mas depois que vim pra cá, não duvido mais de nada – confessa Eros Grau.

O mito está vivo principalmente entre os seguranças e o pessoal da limpeza, que circulam pelo local durante a noite. A ante-sala da presidência do STF, no andar superior ao plenário, tem uma das paredes tomadas de fotografias e ilustrações em preto e branco de todos os ministros que já integraram o Tribunal. O ambiente é palco de terror. Maria Alves é funcionária da limpeza e conta que a escolha de quem vai espanar os retratos dos ex-ministros costuma dar briga entre os faxineiros. Na sexta-feira, ela não conseguiu escapar da tarefa.
– Sempre sobra pra mim. Eu tenho muita cisma de vir aqui, porque dizem que tem vultos. Ficar sozinha aqui olhando para esses homens é meio assustador. Dá calafrios – reclamou, com os olhos arregalados.
– Meu turno é sempre de dia. Não tenho coragem de trabalhar ali à noite. Aqui tem muito processo, os ministros julgam muitas coisas ruins. Fica uma carga pesada no ambiente. E tem aquelas fotos. Sei lá o que aconteceu na vida daquelas pessoas – diz, ressabiada, a segurança Kátia da Silva.

O fotógrafo Gervásio Baptista, funcionário da Casa há oito anos, conta que costuma ouvir relatos dos colegas:
– Teve um sujeito da limpeza que disse pra mim que uma daquelas fotos fez ‘psiu‘. Ele se urinou todo e saiu correndo. Eu mesmo, nunca vi nada.

Um dos casos mais impressionantes foi confidenciado por um dos Ministros do Tribunal, que preferiu não se identificar. Em setembro do ano passado, foi realizada uma sessão na antiga sede do STF, no Rio de Janeiro, em comemoração aos 178 anos da corte. Quando as fotografias foram reveladas, a imagem da presidente do Tribunal, Ellen Gracie Northfleet, teria sido estampada ao lado do vulto de uma mulher vestida de branco. O Tribunal não divulgou a suposta foto.
– As pessoas inventam muito – comenta o ex-ministro Carlos Velloso, que aposentou-se no ano passado – Nunca vi nada de mais em 16 anos de Tribunal – complementa.

José Francisco de Almeida Júnior, conhecido como Seu Juca, comanda a barbearia do STF há 40 anos e concorda com Velloso. Ele afirma nunca ter visto nenhum espírito arrastando corrente pelo Tribunal:
– Isso é lenda, não tem nada a ver. Nunca vi nada e ninguém nunca viu.

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