REINO DIVIDIDO

REINO DIVIDIDO

Morei por 2 anos no Acre. Mais especificamente numa cidadezinha perdida e isolada no meio da Floresta Amazônica. O “centro” da cidade consistia de 2 avenidas que formavam um T e mais algumas ruazinhas em torno disso.

Ali tínhamos o povo original da época da extração da seringa e seus descendentes. Muitos deles nordestinos, mas que já esqueceram suas raízes e tradições (a não ser dormir em rede, que era um passatempo dos mais apreciados).

Só havia uma escola para toda a cidade. Pública. Eu tinha 10 anos de idade e até então eu tinha sido um excelente aluno, que passava com boas notas nas escolas privadas do Recife. Quando cheguei no Acre eu era uma espécie de gênio, somente porque eu tive acesso a mais (e melhores) informações que as próprias professoras de lá. No começo isso foi ótimo, fazia fácil as provas, mas depois começou a criar uma certa animosidade com as professoras porque eu não conseguia me segurar quando ela ensinava errado. Pra terem uma idéia minha mãe, veterinária, se tornou a professora de português da escola por um tempo só pra poder ajudar os alunos. Depois dos dois anos voltei pra Recife e percebi que havia perdido os fundamentos necessários para a compreensão de Química e Física, e desde então passei a ser um aluno medíocre, perdendo assim o interesse pelos estudos acadêmicos na mesma proporção em que aumentou o meu interesse pelos videogames.

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Ou seja, eu sei na pele a importância de uma educação de base. Estive nos dois lados: do lado de uma elite que pôde ter uma educação de ponta, paga, e que se vê diante de uma população parada no tempo por conta da ignorância. E também do lado do ignorante, a pessoa com uma formação de ensino deficiente que tenta alcançar o nível dos outros alunos.

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O povo da cidadezinha vivia em casas onde o banheiro ficava do lado de fora, porque era assim que viviam seus antepassados. Então, numa noite fria, você tinha de abrir a porta dos fundos, pegar uma lanterna, ter cuidado com cobras e ir até a casinha que ficava a uma distância de uns 5 metros. Não era falta de material, nem mão-de-obra, nem de dinheiro (mesmo as casas de alvenaria ainda usavam esse sistema). Minha mãe então resolveu pagar para construir uma casa nos “subúrbios” da cidade (ou seja, mais lá dentro da floresta), com banheiro interno e um sistema de encanamento pros dejetos irem pra dentro da floresta. Fizemos uma horta pra podermos plantar nossas verduras. Isso foi visto como uma idéia bizarra pelos vizinhos, pois não fazia parte da cultura deles PLANTAR PRA COMER (eles criavam galinhas e todo o resto vinha da capital, exceto a carne de boi). Chegava ao ponto da vizinha pedir tomates pra gente, mas não movia uma palha pra fazer uma horta. Só depois entendi essa bizarrice: Por gerações esse povo imigrante viveu exclusivamente pra borracha, pegando a seringa de árvores que já existiam e fazendo da sua vida a extração, nunca o cultivo. Era um trabalho temporário, e viviam pensando em fazer dinheiro e retornar ao seu Estado de origem, por isso não investiam em suas casas. O povo ficou, criou raízes, mas a mentalidade de outrora continuou: eles nascem e morrem ali mas vivem como se ainda fosse um lugar temporário.

Mas algo que aprendi de mais importante no Acre não tem a ver com Educação fundamental, e sim com educação (moral / social). Por uma coincidência qualquer morávamos numa casa em que tínhamos como vizinho a pessoa mais chique e rica da cidade e seu filho (loiro, de olhos verdes). E do outro lado, duas casas depois, a pessoa mais pobre e humilde da rua, e seus 3 filhos negros / caboclos. Como havia uma só escola, todos estudávamos lá, independente de classe social, e vestíamos as mesmas roupas, comíamos a mesma comida (bolacha Maria, Café-com-leite e Sopa) e brincávamos na mesma rua. O filho mais velho da casa mais pobre, já um adolescente, não me passava muita confiança e por isso eu evitava brincar com ele. Já os outros dois eram meus melhores amigos, doces de pessoa, educadíssimos, e eu, filho único na época, me senti acolhido como se irmão fosse. De todas as crianças da cidade – incluindo o vizinho rico – esses dois eram os que tinham maior caráter. Eu partilhava minhas revistas e meu videogame Atari com eles, e eles partilhavam suas brincadeiras, me ensinavam a fazer revólver de madeira, a pegar filhote de jacaré com a mão (é, tinha cobras e jacarés no quintal, por mais clichê que possa parecer) e andar de carrinho de rolimã.

Aprendi que é possível viver numa sociedade onde todos se respeitam e têm a contribuir. Onde todos possam ir à mesma escola. Brincar na mesma rua. Aprendi que investimento em Educação é essencial para melhorar a qualidade de vida de um povo. Para injetar progresso num povo. E que educação independe de classe social ou de escola.

Vejo com tristeza essa separação do meu país entre pobres, classe média e ricos; negros, índios e brancos; vermelhos e azuis; nós e eles; machistas e feministas; comunistas e direitistas; evangélicos e LGBT. E tudo isso alimentado por ninguém menos que aquele que deveria zelar pela união de nossa cultura plural. Pela sua Educação (e educação). Pelo seu progresso. Mas hoje vivemos em um Reino Dividido.

“E todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.”

Mateus 12:25

Referência:
Onde nós vamos parar com essa visão de mundo?
Soldados da borracha: os escravos do século 20 em plena 2.ª Guerra Mundial;
Promessas e chantagens: a esquecida história dos Soldados da Borracha

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