RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Um dos pilares da fé cristã é a ressurreição de Jesus: O Deus que se fez Homem, e que venceu a carne, a morte, a prova cabal de sua natureza Divina, imaculada. Claro que para quem acompanha o blog esse aspecto de Jesus é tão importante quanto saber se ele foi ou não casado, ou seja: é pura especulação e curiosidade infantil que não acrescenta nada à figura majestosa deste que se tornou imortal pelo que pregou e FEZ, com sua atitude diante da vida e dos seus semelhantes, e não pelos prodígios atribuídos a ele.

MAS, como sou chato e curioso, fico sempre tentado a investigar esses aspectos aparentemente banais do ponto de vista espiritual, mas interessantíssimos do ponto de vista social e mitológico. Fico imaginando como um fato vai ganhando corpo e sendo contado e recontado até chegar à sua forma final, como a lenda do Rei Arthur… Mas cá estou tergiversando… Vamos voltar ao assunto: Jesus Cristo ressuscitou mesmo?

Vamos adentrar o terreno movediço da especulação, mas calcado nas escrituras, o que nos dá pelo menos a sustentação teológica (na falta de alguma estrutura histórica). Curiosamente, o fato que dá mais credibilidade à ressurreição de Jesus é a incredibilidade dos apóstolos! Sim, porque foi através deles que a história foi passada adiante, até serem escritos mais de 40 anos depois na sua forma final, nos evangelhos canônicos. Quando você conta uma história pra convencer alguém, a tendência é enaltecer seu próprio personagem, ou mostrar confiança naquilo que você está pregando. Mas isso não ocorre com os discípulos que, com encantadora simplicidade, deixaram transparecer nos seus relatos (mais tarde transcritos nos diversos evangelhos) todas as suas dúvidas, teimosias, inocência e (por que não dizer) estupidez diante do Deus Vivo. Eles eram provavelmente as últimas pessoas a acreditarem na possibilidade da ressurreição de Jesus, mesmo tendo presenciado todos os “milagres” dele – como o de Lázaro -, mesmo tendo ouvido o próprio Jesus falar que voltaria, e duvidando até mesmo quando as mulheres chegaram até eles contando que Jesus revivera!

Antes de começarmos, por que raios Jesus deu essa demonstração de poder, subvertendo as leis conhecidas da natureza de forma tão radical? Para que se cumprissem as escrituras. Ele veio cumprir tintim por tintim todos os requisitos necessários para ser o Messias do seu povo (o judeu), seguindo os relatos escritos dos profetas de Israel, mesmo os mais bizarros, como aquele negócio do burrinho entrando em Jerusalém. Ele mesmo dizia que estava cumprindo as escrituras, só que os apóstolos eram tão burros, mas tão burros, que quando viram a sepultura vazia não sacaram na hora que aquilo era o preenchimento do último item da “lista”, e acharam que alguém tinha roubado o corpo!

Mas, o que pode ter acontecido de verdade na ressurreição? Trabalharemos com duas hipóteses: uma, que o corpo voltou à vida; outra, que foi uma materialização perfeita do seu perispírito.

O objetivo de Jesus era mostrar-se ressurrecto, e não como uma alma-penada (coisa não muito bem vista no judaísmo). Mas uma característica desse “corpo glorioso” de Jesus era o fato de aparecer e desaparecer em qualquer lugar, coisa que Jesus não fazia antes da crucificação. E, estivesse ele em carne-e-osso desde que levantou da tumba, por que ele disse a Maria Madalena (a primeira a chegar na tumba, no terceiro dia) que não a tocasse? A hipótese da materialização ganha força se pensarmos que, na madrugada do terceiro dia, a materialização (indispensável para o convencimento) não estivesse totalmente concluída. Só que, em Mateus 28:9, está relatado que as discípulas chegaram a tocá-lo: “E eis que Jesus lhes veio ao encontro, dizendo: Salve. E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, e o adoraram.”

Jesus no Tiberíades (ou qualquer outra coisa que o pintor, que no caso sou eu, disser que é)

Em Lucas 24 vemos que, neste mesmo dia, no final da tarde, Cleopas e uma outra pessoa iam a caminho de Emaús quando puxaram conversa com um peregrino, que eles não reconheceram como sendo Jesus. Engraçado que Jesus foi puxando conversa como se não conhecesse a própria história da crucificação e morte de Jesus (hehehe). Os dois ainda reclamaram dizendo que esperavam que Jesus fosse livrar Israel, mas morreu e estavam no terceiro dia e tudo o que sabiam é que algumas mulheres o viram (ou seja, naquela época, o mesmo que ninguém, já que as mulheres gozavam da reputação de mentirosas, ardilosas, vis e encrenqueiras). Nesse momento Jesus aproveitou pra dar um corretivo, dizendo: “Ignorantes e lentos pra compreender tudo o que os profetas disseram! Porventura não importa que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória?” E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. Ainda assim os dois não atinaram que poderia ser Jesus! Estava anoitecendo e os dois chegaram em casa, e por educação os dois convidaram o peregrino a pernoitar ali. Estando com eles à mesa, tomou o pão e o abençoou; e, partindo-o, lhes dava. Era o mesmo ritual que Jesus fazia com seus apóstolos! Só então eles o reconheceram e, nesse momento, Jesus desapareceu diante deles (Puf!).

Na mesma hora os dois correram de volta pra Jerusalém pra avisar aos apóstolos. Enquanto ainda falavam nisso, o próprio Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: “Paz seja convosco”. Mas eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. Ele, porém, lhes disse: “Por que estais perturbados? E por que surgem dúvidas em vossos corações? Olhai as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede; porque um espírito não tem carne nem ossos, como percebeis que eu tenho”. E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Não acreditando eles ainda por causa da alegria, e estando admirados, perguntou-lhes Jesus: “Tendes aqui alguma coisa que comer?” Então lhe deram um pedaço de peixe assado, o qual ele tomou e comeu diante deles.

O chato do Tomé (que perdeu a aparição) ficou achando que eles viram algum espírito, alucinação coletiva ou algo assim, e eis que 8 dias depois Jesus aparece novamente, do nada, no meio de uma sala fechada:

“Chegou Jesus, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: Paz seja convosco. Depois disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas crente (seu bosta!). Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: (Só) Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.”

João 20:26-29

Por tudo isso vemos que a hipótese segundo a qual a ressurreição teria sido um “produto” da fé (ou da credulidade) dos apóstolos carece de consistência. Muito pelo contrário, a fé que tinham na Ressurreição nasceu da experiência direta da realidade de Jesus ressuscitado.

Depois disto Jesus manifestou-se outra vez aos discípulos junto ao mar de Tiberíades (João 21) e continuou aparecendo por 40 dias, inclusive na frente de 500 pessoas (segundo Paulo de Tarso, em 1Co 15:6).

Como poderia um corpo físico aparecer e desaparecer? Estaria ele entrando e saindo de “portais” para outro espaço ou tempo? Esse fenômeno mais se assemelha ao teleporte. Temos o Sai Baba, que faz objetos reais (que de fato existem em algum lugar) aparecerem do nada em suas mãos. Também há casos de poltergeist onde objetos de uma casa aparecem espalhados, mesmo os que estavam trancados com chave. Mas a hipótese de um corpo físico que entra e sai da nossa “dimensão” perde força quando vemos Atos de João 93, onde ele narra seu encontro com Jesus ressuscitado: “E conto mais uma glória, irmãos; algumas vezes, quando o tocava, sua substância era imaterial e incorpórea… como se não existisse de forma alguma”. Na mesma passagem, João procurou por pegadas de Jesus, mas não as encontrou. Ora, essas características mais se assemelham ao de um espírito semimaterializado, que pode (alocando energia suficiente) se materializar por completo, com carne, ossos e sangue, mas não por muito tempo. No espiritismo temos relatos de casos de materialização, onde objetos aparecem com todas as suas características físicas (inclusive com a tentativa de um espírito explicar o processo nesse artigo). Há na literatura espírita o relato de uma mulher desencarnada que aparecia totalmente materializada para um pesquisador, valendo-se da energia de uma médium. O pesquisador conseguiu que o espírito o acompanhasse até um consultório médico e, enquanto andavam na rua, foi até mesmo cortejada por alguns homens. O mais impressionante é que, no consultório, ela foi analisada por uma ginecologista (que não sabia da “condição” desta “paciente”) e não havia nada de diferente nela.

Algumas das materializações mais surpreendentes da época foram produzidas pelas médiuns Eva Carrière e Eusapia Palladino. Mesmo com um histórico polêmico quanto à autenticidade de suas manifestações, a produção de ectoplasmia das médiuns foi fotografada e analisada. Um evento notável em sua extensão e nas consequências científico-espirituais foi o ocorrido em 1913, durante uma convenção espírita em Moscou. Nela, um grupo de investigadores perguntou a um espírito materializado se havia algum problema em se realizar uma intervenção cirúrgica em seus antebraços ectoplasmáticos, para que pudessem ver a substância da qual eram compostos. Ele aceitou, impondo como condição que ele iria se preparar para que o médium nada sofresse no processo. Após cinco meses, os investigadores e o médium voltaram a se reunir, e a operação foi realizada. Em um dos antebraços os pesquisadores encontraram uma constituição perfeitamente humana (ossos, nervos, sangue, etc), enquanto o outro era formado por uma substância gelatinosa, clássica nos casos de ectoplasmia, e sem definição de partes constituintes.

Paulo de Tarso compreendeu essa natureza especial do corpo glorioso de Jesus quando escreveu:

“Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que qualidade de corpo vêm? Insensato! O que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como o de trigo, ou o de outra qualquer semente. Mas Deus lhe dá um corpo como lhe aprouve, e a cada uma das sementes um corpo próprio. Nem toda carne é uma mesma carne; mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos animais domésticos, outra a das aves e outra a dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, outra a glória da lua e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela. Assim também é a ressurreição, é semeado em corrupção, e é ressuscitado em incorrupção. Semeia-se em desonra, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder. Semeado corpo natural, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, sendo da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Qual o terreno, tais também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial. Mas digo isto, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção.”

1Coríntios 15:35-50

Referência:
Rompendo a fronteira física (explicando a ectoplasmia);
A aparição de Jesus depois da morte (texto espírita);
Ressurreição de Jesus (texto católico);
Materialização completa (segundo Padre Quevedo)

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