O NARIZ DE CLEÓPATRA

Por Marcus Accioly; publicado em 09.06.2005 no Jornal do Commercio

No seu interessante O livro dos fatos Isaac Asimov considera que, na infância, Blaise Pascal inventou uma régua e uma máquina de calcular e, com elas, lançou as bases da moderna “teoria das probabilidades”, mas que as suas observações mais conhecidas não são científicas: “Foi ele quem afirmou que, se o nariz de Cleópatra fosse diferente – aquilino, por exemplo – ou se a bexiga de Cromwell não tivesse sido obstruída, provocando-lhe a morte, a história do mundo não seria a mesma”. Asimov ainda obtempera que Cleópatra, em vez de egípcia, era macedônia – filha de Ptolomeu I – e que, além de se ter casado com dois de seus irmãos, foi amante de César e de Marco Antônio. Tal sabedoria, mesmo de almanaque, é um jeito de torcer ou distorcer, apertar e desapertar o nariz de Cleópatra e a bexiga de Cromwell, pois a história do mundo depende às vezes – eis o cálculo das probabilidades – de uma bexiga, ou de um nariz.

Cada indivíduo é um exemplar na terra. Quando um amante declara – “você jamais vai encontrar outro como eu” – profere à amada uma verdade única, como a de Drummond:

Se eu morrer morre comigo
um certo modo de olhar

Logo, com a minha morte, a sua, ou de qualquer pessoa, leitor, o mundo já não será o mesmo, pois perdeu algo que não existia antes e que não mais existirá depois. Uma raridade. Cada um de nós é um ser em extinção. Se o mundo não sabe disso e ainda ignora a vantagem que tem, é porque não pensa como o homem: o “caniço pensante” de Pascal. Tal raciocínio pode ser levado à exaustão quando se verifica que uma folha e um fio de cabelo também são únicos no planeta. “Se houvesse duas coisas iguais – observa Leibniz – ocuparia o mesmo lugar no espaço”. Único é o meu amor e a minha memória – que vêm do coração. Única é aquela onda que se levanta e cai no mar. Única é aquela nuvem que toma forma de ave e voa no céu, ou que se perde dentro dos meus olhos.

Talvez por isso, inconformados com o que estaria mais conforme, lutamos para ser o que não somos. Lutam os tímidos contra a timidez e os fracos contra a fraqueza. Se os primeiros resultam mais desinibidos que os espontâneos e os segundos mais fortes que os vigorosos, é porque seguem uma lei contrária à probabilidade. O maior dos poetas era cego e o maior dos compositores estava surdo ao compor sua Nona sinfonia. Demóstenes – o melhor orador da Grécia antiga – era gago e colocava seixos na boca para gritar diante das vagas e encobrir a vaia do mar. O último grande guerrilheiro da América necessitava de uma mula para subir as montanhas de Cuba e da Bolívia. Lutamos contra nós mesmos, embora sabendo que o nariz de Cleópatra e a bexiga de Cromwell são únicos no mundo. Contudo, tanto Cleópatra quanto Cromwell decerto sonhariam com outro nariz e com outra bexiga. Foi seguindo o seu nariz de águia, sua pirâmide de rapina, que Cleópatra, macedônia como Alexandre – o Grande – modificou o próprio rosto da história. O nariz do ator francês Gerard Depardieu, assim como o de Cyrano de Bergerac, constituem uma personalidade, ou – como diria Kretschmer – “uma individualidade”. Só Pinóquio, com a plástica da mentira, pode aumentar e diminuir e seu nariz.

O veneno da víbora que desfez Cleópatra lançou o seu pó, a sua cartilagem, o seu sopro de vida contra o tempo. Ora, se foi tão importante para a história a curva de um nariz e o saco de uma bexiga, é possível que a minha bexiga e o seu nariz também tenham alguma importância, leitor. Não digo, claro, para o curso ou desvio da história, mas para o desvio ou curso da nossa vida. Atravessamos uma época onde tudo vale menos, vale pouco, vale nada. Na rua, após o portão, balas e lâminas nos esperam. Pois é – não é? – já resolvi faz tempo. Não vou deixar que me torçam facilmente o nariz e, mesmo que não possa impedir algum entupimento na bexiga, vou usá-la, enquanto posso, com a mesma alegria com que o poeta russo, Sierguéi Iassiênin, usou-a no seu poema:

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo,
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela para a Lua.

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