PERDÃO

Mês passado fiz mais um tratamento com Cromopuntura, pra ver se alivio mais minha depressão – que tem muito a ver com preocupações, sejam elas familiares ou coisas que abrangem o povo brasileiro como um todo – ao botar o que me incomoda pra fora.

Pedi pra colocar a dose máxima, o que fez das minhas semanas de julho e agosto um inferno onde eu tenho brigado até com a minha própria sombra. Graças a Deus o blog saiu do ar nessa época e vocês não precisaram me aturar. O resultado é que agora tenho me sentido muito mais leve, e estou tomando até um floral de Minas (o “Calmin”) pra relaxar.

Durante minhas semanas de pura ira (somadas ao meu inferno zodiacal) dei de cara com um flanelinha quando tentava relaxar na Praia de Maracaípe. Se tem uma coisa que eu detesto são flanelinhas exploradores. Não os confundo com os flanelinhas que realmente trabalham, ajudando a pessoa a estacionar em locais difíceis, empurrando carros pra caber mais outros, etc. São sim os que ficam em locais movimentados, FINGEM que ajudam a estacionar, quando não é preciso, e cobram (adiantado) valores altíssimos. São verdadeiros marginais disfarçados de trabalhadores, agindo como gangsters. E, se tem uma coisa que detesto mais do que flanelinhas exploradores, são pessoas que me ameaçam… Então, ao estacionar próximo à praia, encontrei a junção das coisas que mais detesto: um flanelinha explorador e ameaçador.

Estacionei num descampado junto a outros carros, num local que contém as placas “ESTACIONAMENTO GRATUITO” espalhadas pelo local. Mas isso não impediu que um cara alto e forte me abordasse querendo me cobrar pra tomar conta. Usei a saída mais política, que foi dizer “na volta a gente combina“, mas ele insistiu, dizendo que tinha “pessoas por aí” que podiam fazer algum mal ao carro. Pronto. Acabou com meu fim de tarde. Eu, que estava com uma pesada raquete de frescobol na mão, me controlei como pude, mas não adiantou. Na volta contei tudo ao dono do bar, que me falou já ter chamado a polícia antes pra coibir esse abuso, mas os policiais preferiram dar ouvidos à conversa do flanelinha de que o segurança do bar é que estava intimidando ele!! Passei algumas horas com uma dor no peito, uma sensação de impotência diante do saber que a violência não é o caminho, e que só o que resta a nós, homens de bem, é o jus esperniandis (ou seja, espernear e só se lascar num país de terceiro mundo de um planeta de expiação!).

A dor e a revolta continuaram no dia seguinte. Não era algo por mim, mas sim pelo cidadão brasileiro ter de aguentar essas coisas calado. E não é que o destino resolveu me lembrar neste mesmo dia da lição do grande Mestre, de perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete?

Começou com um mail que recebi numa lista, e que por pura “coincidência” resolvi abrir (já que a lista tem dezenas de mails por dia, muitos com trechos de livros de Chico, e normalmente não os abro):

ABENÇOA

Por Emmanuel e Chico Xavier

Deixa que a bênção de Deus te ilumine o coração para que saibas abençoar. Ninguém prescinde do amor para viver.

Observa os que marcham, desdenhosos, ignorando-te a presença, habituados à convicção de que o ouro pode comprar a felicidade. Abençoa-os e passa. Ninguém conhece o rochedo em que o barco da ilusão lhes infligirá o derradeiro travo de angústia.

Vês, inquieto, os que se desmandam no poder. Abençoa-os e passa. Muitos deles simplesmente arrastam as paixões que os arrastarão para o gelo do ostracismo ou para a cinza do esquecimento.

Contemplas, espantado, os que são portadores de títulos preciosos, a te exigirem considerações e tributos especiais. Abençoa-os e passa. O tempo cobrar-lhes-á aflitivo imposto da alma pelas distinções que lhes conferiu.

Ouves, triste, os que injuriam e amaldiçoam. Abençoa-os e passa. São eles tão infelizes que ainda não podem assinalar as próprias fraquezas.

Fitas, admirado, os que fazem tábua rasa dos mais altos deveres para desfrutarem prazeres loucos, enquanto a vitalidade lhes robustece o corpo jovem. Abençoa-os e passa. Amanhã, surgirão acordados, em mais elevado nível de entendimento.

Se alguém te fere, abençoa. E se esse mesmo alguém volta a ferir-te, abençoa outra vez. Não te prevaleças da crueldade para mostrar a justiça, porque a justiça integral é de Deus e todos viverão para conhecê-la.

Se teu filho é rebelde e insensato, abençoa teu filho, porque teu filho viverá.

Se teus pais são irresponsáveis e desumanos, abençoa teus pais, porque teus pais viverão.

Se o companheiro aparece ingrato e desleal, abençoa teu companheiro, porque continuará ele vinculado à existência.

Se há quem te calunia ou persegue, abençoa os que perseguem e caluniam, porque todos eles viverão.

Humilhado, batido, esquecido ou insultado, abençoa sempre.

Basta a vida para retificar os erros da consciência.

Inquirido, certa vez, pelo Apóstolo quanto ao comportamento que lhe cabia perante a ofensa, afirmou Jesus: — “Perdoarás não sete vezes mas setenta vezes sete“.

Com isso o Divino Mestre desejava dizer que ninguém precisa vingar-se, porque o autor de qualquer crueldade tê-la-á como fogo nas próprias mãos.

EMMANUEL; Reunião pública de 21/9/59, Questão nº 752 de “A Religião dos Espíritos”


Ao final, pensei na remota possibilidade de perdoar aquele maldito flanelinha, mas só me deu vontade de pegar novamente a raquete e continuar batendo no chão. Só que a sincronicidade martelou novamente meu cérebro quando, 1 hora depois, ao pegar o livro “O poder do agora“, fui ler o capítulo seguinte ao que eu tinha parado, e era justamente esse:

ANTES DE PENETRAR NO SEU CORPO, PERDOE

“Tive dificuldades quando tentei concentrar minha atenção no corpo interior. Senti uma certa agitação e um pouco de náusea. Não fui capaz de vivenciar o que você está ensinando.”

O que você sentiu foi uma emoção retardada, da qual provavelmente não tinha consciência antes de passar a observar seu corpo. Se não der um pouco de atenção a essa emoção, ela vai impedir que você tenha acesso ao seu corpo interior, que está em um nível mais profundo. Dar atenção não significa pensar nela. Significa, apenas, observá-la, senti-la complemente, conhecê-la e aceitá-la do jeito que é. Algumas emoções são fáceis de identificar, como a raiva, o medo e o desgosto. Outras talvez sejam mais difíceis de rotular. Elas podem se manifestar como um leve desconforto, uma aflição ou um peso, um meio-termo entre uma emoção e uma sensação física. Em qualquer dos casos, o que importa não é se você pode dar um rótulo mental a essas emoções, mas sim se você pode tornar essa sensação consciente. A atenção é a chave para a transformação, e isso também envolve aceitação. A atenção é como um raio de luz: o poder concentrado da consciência que transforma tudo nela própria.

Em um organismo que funcione perfeitamente, uma emoção tem vida curta. É como uma onda ocasional sobre a superfície do Ser. No entanto, se não estamos dentro do nosso corpo, uma emoção pode permanecer dentro de nós por dias ou semanas, ou se juntar a outras emoções de freqüência similar, ou se tornar um sofrimento, um parasita que pode viver dentro de nós durante anos, alimentar-se de nossa energia, nos deixar doentes e tornar nossa vida miserável.

Portanto, dirija sua atenção para a emoção e verifique se a sua mente está alimentando um padrão de mágoa, culpa, autopiedade ou ressentimento, que, por sua vez, está alimentando a emoção. Se esse for o caso, significa que você não perdoou. Quando se fala em perdoar, pensamos logo em perdoar alguém, mas o perdão também pode ser em relação a nós mesmos ou a uma situação do passado, presente ou futuro que a nossa mente se recusa a aceitar. Pois é, pode haver um não-perdoar até em relação ao futuro. É a recusa da mente em aceitar a incerteza, em aceitar que o futuro está além do nosso controle. Perdoar é abrir mão dos nossos ressentimentos e deixar que eles se desprendam de nós. Isso acontecerá naturalmente quando você perceber que os seus ressentimentos não têm outro objetivo, exceto o de fortalecer o falso sentido do eu interior. Perdoar é não oferecer resistência à vida, é permitir que a vida aconteça através de você. As alternativas são as dores e os sofrimentos, um fluxo de energia altamente limitado, e, em muitos casos, doenças físicas.

No momento em que você perdoar, terá retomado o poder que estava na mente. O falso eu interior construído pela mente, o ego, não consegue sobreviver sem discórdias e conflitos. A mente não consegue perdoar. Só você consegue. Você se torna presente, penetra em seu corpo, sente a paz vibrante e a serenidade que emanam do Ser. Essa é a razão pela qual Jesus disse: “Antes de entrar no templo, perdoe”.

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