NA UNIVERSAL

Como as práticas aprendidas com religiões como a Umbanda, Candomblé e o Espiritismo foram parar nos cultos evangélicos.

Uma coisa que eu adoro na minha família (e arredores) é a diversidade de correntes religiosas. Isso me permite penetrar um pouco nos meandros de cada cultura, e na interpretação que cada um tem da religiosidade. Ultimamente ando empolgado com os ritos da Igreja Universal! Sim, aquela do Edir Macedo, e daquele pastor que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Com o tempo aprendi a separar o que é do Homem do que é de Deus. Os sacos de dinheiro, os templos suntuosos, os escândalos, as críticas a outras religiões, essas são obras humanas. Mas os benefícios para as comunidades carentes, para os desesperados, alcóolatras, bandidos e favelados, esses são definitivamente Divinos.

O que tem me atraído é descobrir no modo de agir deles práticas aprendidas com religiões como a Umbanda, o Candomblé e o Espiritismo, que eles condenam veementemente. No começo do ano, uma pessoa muito próxima da família estava na Universal quando o pastor mandou todos colocarem a mão no coração e pensar forte em alguma pessoa que precisasse de ajuda. Ela pensou então numa pessoa da minha família, e sentiu-se imediatamente tonta. Então o pastor, experiente, disse que quem se sentisse mal levantasse e fosse lá pra frente, que “não voltasse pra casa com aquilo“. Morrendo de vergonha (e medo de voltar pra casa com aquela sensação) ela se levantou. Mais 2 pessoas que passaram mal foram junto. O pastor (muito provavelmente com mediunidade clarividente ou clariaudiente) não falou pra uma pessoa em particular, mas deu a “ficha completa” dos problemas que a pessoa da minha família está passando, inclusive citando uma tentativa de suicídio (que, de fato, ocorreu). Disse que era preciso ela (a amiga) ir nas “sessões de desobsessão”, durante 7 semanas, pra poder ajudar esta pessoa.

Ela foi na primeira sessão esta semana. Curioso, perguntei sobre todos os procedimentos. Ela disse que a pessoa tem de passar por uma espécie de “corredor polonês” feito pelos obreiros (assistentes do pastor), orando com as mãos estendidas na altura da cabeça da pessoa (como um passe), enquanto ela caminha pelo chão coberto de sal grosso. Olhaí a Igreja Universal de um bairro pobre trabalhando com o Princípio Hermético da Vibração e da Polaridade! No alto, uma dose cavalar de boas energias, forçando as energias mais densas a irem para o outro extremo, enquanto embaixo temos os chakras da sola dos pés (que trabalha com energias telúricas, mais densas) em contato direito com cristais que absorvem e desagregam essas energias!

Depois entregam um pouco de sal grosso para a pessoa levar pra casa e uma folhinha de arruda que serve pra tomar banho ou pra proteção. Bem conhecido dos cultos afro-brasileiros… perguntei a ela se na Igreja tinha muita gente vinda de outras religiões, e ela disse que tinha de tudo. O mais interessante é que nos depoimentos (testemunhos) vemos que tinha ex-macumbeiro, ex-satanista, ex-croque, ex-filha-de-santo, ex-espírita, mas que eles trazem para a Igreja todo o know-how de como combater as “forças do mal” justamente porque eles se defrontaram com coisas “pesadas” em suas experiências! Quando alguém diz que tomava banho com sangue de animais, a nossa tendência é achar que TODO mundo de religião de matriz africana faz isso, quando NÃO É! Muitos estavam metidos com o “lado negro” da força, com o lado material, entrou nessa pra conseguir dinheiro, felicidade, sexo, orgulho ou alguma outra coisa. E sempre vai ter gente disposta a ensinar esse caminho, seja com o nome de Umbanda, Candomblé, Espiritismo, Catolicismo, etc. Esse é o Leitmotiv do ser humano quando em certa faixa de compreensão. Então, o que faz a Universal? Pega essas ovelhas extraviadas, oferece a elas a realização de seus desejos, DESDE que essa pessoa se volte para Jesus e para a sua Igreja. Altruísmo deles? Sabemos que não. Mas eles fazem algo para aliviá-los de seus fardos espirituais. E não cobram pelo sal, não cobram pela desobsessão, não cobram pela arruda, apenas criam, através de muita lábia e persuasão, a necessidade de fazer a doação pra mostrar que tem “fé”. E assim, gente que permaneceria esquecida e marginalizada pelas outras religiões se voltam VERDADEIRAMENTE para Jesus, por conta de uma interface que foi projetada para eles!

E não é só a Universal. Dezenas, talvez centenas de denominações surgem atrás desse filão. E engana-se quem pensa que apenas os pobres desesperados (infelizmente muitos associam pobreza à tolice) enveredam por estas igrejas: Basta dar uma olhada nos estacionamentos da Universal e conferir os modelos de carros. Muitos destes pertencentes a mulheres desquitadas, atrás de um novo marido. A doutrina de Jesus pode passar ao largo nesses casos, mas não deixa de ser um avanço.

Certa vez passei em frente a uma igreja de evangélicos e vi o pessoal “manifestado”, aquela gritaria de “sai, demônio!” e várias obreiras segurando pela cabeça pessoas tontas ou histéricas. As assistentes falavam baixinho coisas no ouvido dessas pessoas, e também sopravam dentro do ouvido delas. É o mesmo procedimento que se usa no Catimbó para “controlar” um espírito manifestado num médium (só não sei o porquê). Essa mesma amiga do começo do post conta que estava na Universal com o neto dela (que tem 5 anos e vê gente desencarnada como se fosse a coisa mais normal do mundo) assistindo a uma desobsessão daquelas clássicas, do tipo “sai desse corpo que não te pertence!!” e nada do “demônio” sair da mulher. E o menino vendo a entidade perto dela. Após muita oração e invocação do Senhor, o Pastor, já suado, consegue exorcizar a mulher. Todos dão graças a Deus, felizes, mas o menino fala baixinho pra avó: “o demônio ficou lá na porta, esperando a mulher ir embora, mas não conta pro Pastor não senão ele vai ficar triste”.

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