FESTA DE GANESHA

Hoje comemora-se a Festa de Ganesha, o Deus-Elefante da tradição hindu. Já falei sobre Ganesha aqui, e ele é uma das deidades mais festejadas e respeitadas pelo povo indiano. Ganesha é tido como um organizador hábil, que remove todos os obstáculos e propicia o sucesso e sabedoria a quem o adora.

Hindus de toda Paris (e são muitos) se juntaram para percorrer o bairro 18 (no norte, dominado principalmente por eles) seguindo um cortejo de músicos, dançarinos e altares móveis, trajando suas melhores roupas de festa, num espetáculo vívido e colorido que é organizado pelo Templo Sri Manicka Vinayakar Alayam desde 1996.

O que mais me chamou a atenção logo de cara foram os dançarinos Kavadi. Usando um adereço pesado de madeira nos ombros, ornados com penas de pavão, eles pareciam e agiam como os Caboclos de Lança, do folclore Pernambucano. Uma dança que consiste em pular com um jogo de ombros e mostrar seus ornamentos, ao som de um tambor ritmado e um estalo contínuo de madeira, exatamente como sua contraparte da Zona da Mata Brasileira. E, da mesma forma, ambos os dançarinos precisam se “purificar” dias antes para esta dança sagrada, e alguns deles entram numa espécie de transe enquanto dançam. Os Kavadi são devotos do Deus Murugan (ou Kartikeya), Deus da Guerra, irmão de Ganesha. Eles caminhavam no meio do cortejo, dançando um pouco, mas quando passavam por uma esquina eles faziam uma roda e dançavam mais tempo, com um ritmo mais forte. À minha frente uma africana que assistia a eles parecia que estava recebendo espírito. Ou isso ou eram ataques rápidos de epilepsia. Uma amiga dela a ajudava a se recompor.

E as semelhanças com o carnaval de Pernambuco não terminam por aí: Há também uma batida que lembra o Maracatu de baque virado, um cortejo de estandartes e com sombrinha, um “bonecão de Olinda” (no caso a Parvati, mãe de Ganesha), um “Bumba-meu-boi” (no caso, um Elefante) e dois “vaqueiros” (príncipes). Resta saber se isso é uma simples coincidência, efeito do Inconsciente Coletivo ou influência africana na cultura hindu (ou vice-versa).

Há também toda uma ala de mulheres carregando vasos em chamas na cabeça, onde os maridos ou familiares colocam cânfora pra queimar, tornando o ar perfumado.

Fiz um vídeo com os melhores momentos da festa (melhor visto em tela cheia):


Ganesha andava pra lá e pra cá “like a Boss”, mas sua mãe Parvati é quem manda nessa p0%[email protected] toda

Ao longo do caminho há pequenas mesas com oferendas à Ganesha. Elas têm bananas com incenso, 1 litro de óleo de cozinha (pra que?!) e cinzas perfumadas, para que as pessoas possam fazer uma marca na testa (um terceiro olho) com o dedo. Pessoas trazem pratinhos com cocos e bananas para um dos três altares móveis (tipo umas Pagodas), e um assistente quebra o coco, dá pra um carinha que fica dentro do altar móvel, que consagra a oferenda a uma imagem de Ganesha, pega uma flor e coloca dentro do coco partido e dá de volta à pessoa.

A casca do coco simboliza a ilusão do mundo. A carne, o karma individual. E a água, o ego humano. Ao partir o coco, oferecemos o coração à Ganesha e nos beneficiamos com sua proteção. Por isso há de vez em quando um festival de quebra de cocos no chão. Curioso, fiquei observando e logo percebi que na minha frente uma hindu estava comendo a carne do coco. Ela me ofereceu e saí comendo também. Logo depois percebi que o pessoal sai catando os cocos quebrados no chão pra comer a carne (bem, se não me trouxer sorte, pelo menos me traz mais anticorpos).

Ninguém passa fome neste festival. Há pessoas benevolentes distribuindo no percurso bebidas (quem souber o nome pelas fotos, me diga), pedrinhas laminadas de açúcar pras crianças e caixinhas de arroz com legumes e pimenta, muita pimenta.


Havia todo tipo de bebiba (não-alcólica): rosa-choque, verde-limão e até mesmo leite de soja com legumes e pimenta!

Como pra provar que há idiotas em todas as religiões, um jovem árabe resolveu ficar gritando sozinho LA ILAHA – ILLA LLAHNão há outro deus senão ALLAH” ao lado da representação do Ganesha. Felizmente ignoraram o tapado e não houve confusão.


Cada país tem o Abbey Road que merece

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