Quando pensamos no Paraíso, normalmente queremos uma versão melhorada da vida. Retiramos as doenças, a velhice, a pobreza, os boletos, o despertador tocando às seis da manhã e todos os pequenos aborrecimentos que a existência resolveu incluir no nosso pacote. Mantemos o amor, a música, a comida, o sexo, as viagens, as pessoas de quem gostamos e acrescentamos uma cláusula que aparentemente resolve o resto: isso tudo vai durar para sempre.
O problema começa justamente quando tentamos levar a sério esse “para sempre”. Cem anos ainda conseguimos imaginar; mil anos já ficam meio abstratos, mas tudo bem, finalmente daria tempo de aprender japonês, tocar piano, entender Física Quântica e ler aquela pilha de livros que vem aumentando desde 2007. Com dez mil anos já não conseguimos nem imaginar o que seria a vida. Depois viriam cem mil, um milhão, um bilhão de anos — e, diante da eternidade, um bilhão continuaria sendo tão irrelevante quanto um segundo, porque depois dele ainda restaria exatamente a mesma quantidade de tempo que havia no início: todo o tempo do mundo.
É curioso que essa angústia não tenha nascido com a ficção científica (que deu origem a séries como Altered Carbon), a criogenia ou os bilionários do Vale do Silício que investem fortunas tentando negociar com a morte. Muito antes disso, diferentes culturas imaginaram pessoas que escaparam ou chegaram perto de escapar da mortalidade e descobriram que o presente vinha com alguns inconvenientes. Há mitos sobre homens que receberam a vida eterna mas esqueceram de pedir juventude, outros que passaram um tempo em terras paradisíacas e acabaram sentindo falta de casa, reis que tiveram mil anos para satisfazer todos os desejos e descobriram que o desejo não funciona assim, e até criaturas modernas, como os vampiros, que transformaram a imortalidade dos sonhos em crise existencial.
Mas talvez nenhuma dessas histórias seja tão simples e ao mesmo tempo tão desconcertante quanto aquela que o poeta grego Homero contou há quase três mil anos. Na Odisseia, uma deusa oferece a Odisseu (Ulisses) juventude eterna, beleza, segurança e prazer num lugar onde praticamente nada pode ameaçá-lo. O sujeito pensa na esposa mortal, na sua pequena cidade perdida no mapa, olha pra um mar cheio de tempestades e com um deus chamado Poseidon que está esperando qualquer oportunidade para acabar com sua vida — e escolhe ir embora.
ODISSEIA: UM HOMEM CHORANDO NO PARAÍSO
Quando encontramos Odisseu na ilha de Ogígia, ele já está ali há sete anos, retido pela deusa Calipso. E Homero faz questão de deixar claro que não estamos falando de um lugar desagradável. A deusa vive numa grande gruta cercada por ciprestes perfumados, pássaros fazem ninhos nas árvores, videiras carregadas envolvem a entrada, quatro fontes de água correm em diferentes direções e os campos são cobertos por violetas. Quando Hermes chega trazendo a ordem de Zeus para que Calipso liberte o herói, até ele — que é um deus e provavelmente já viu propriedades bastante interessantes — para por um instante para admirar o lugar.
Logo depois Homero mostra o dono da suíte presidencial desse paraíso: Odisseu está sentado na praia, olhando para o mar e chorando.
A imagem é poderosa justamente porque dispensa explicação. O homem possui aquilo que, em teoria, deveria fazê-lo feliz. Calipso é uma deusa belíssima, apaixonada por ele, que o salvou depois do naufrágio, lhe oferece comida, proteção e uma vida sem qualquer preocupação material. Durante muito tempo a pintura e a literatura romantizaram a situação como “Odisseu seduzido pela ninfa”, mas Homero é mais incômodo que isso. Atena afirma que Calipso o mantém contra a vontade, e o poema deixa claro que o desejo entre os dois deixou de ser recíproco: à noite Odisseu continua indo para a cama da deusa, mas durante o dia passa horas na praia consumido pela saudade de casa. Se invertermos os sexos dos personagens, a situação fica bem menos romântica e mais próxima de um caso policial.
Calipso também não é uma vilã simples. Quando Zeus finalmente ordena que liberte Odisseu, ela reage reclamando da hipocrisia dos deuses masculinos, que se relacionam constantemente com mulheres mortais mas se indignam quando uma deusa faz exatamente a mesma coisa. De certa forma, ela tem razão. Calipso salvou Odisseu, cuidou dele e realmente o ama. Por isso, antes de deixá-lo partir, faz sua última tentativa: oferece aquilo que nenhuma mulher mortal poderia oferecer. Se ele ficar, ela lhe dará imortalidade e juventude eterna.
Não é o tipo de imortalidade defeituosa que veremos daqui a pouco, na qual a pessoa continua viva enquanto o corpo vai virando uma uva-passa. Calipso oferece o pacote premium da imortalidade: Odisseu permanecerá jovem, ao lado de uma deusa que também permanecerá jovem, numa ilha onde não há guerra, fome, trabalho ou os problemas da passagem do tempo. E então ela faz a comparação inevitável com Penélope: sua esposa é mortal, envelhecerá e morrerá; Calipso é uma deusa e sabe perfeitamente que em beleza não existe competição contra ela. O curioso é que Odisseu não discorda. Admite que Penélope não pode se comparar a ela, que é mortal e está sujeita à idade, enquanto Calipso continuará bela para sempre. Mas mesmo assim quer voltar para Ítaca, sua terra natal.
Esse detalhe é o coração da história. Odisseu não escolhe Penélope porque acredita que sua esposa seja mais bonita que uma deusa. Escolhe uma mulher que envelhece sabendo que ela envelhece; escolhe um lugar imperfeito sabendo que é imperfeito; escolhe o risco, a perda e finalmente a morte em vez de uma perfeição onde nada precisa mudar. E talvez seja justamente essa ausência de mudança que tenha transformado o paraíso (Ogígia) num lugar insuportável.
Nós costumamos pensar na dor como o contrário do prazer, mas talvez exista algo ainda mais destrutivo para o prazer do que a dor: a ausência de contraste. Uma música que você ache perfeita, tocada eternamente não seria a melhor música do mundo; depois de algum tempo provavelmente deixaria até de ser percebida como música. Uma festa que dura uma noite pode virar lembrança para o resto da vida; uma festa que durasse 100 anos seria rotina.
Existe até uma piada que parece até ter sido feita pensando no Odisseu:
Um homem sobrevive a um naufrágio e vai parar em uma ilha deserta, descobrindo que a única outra sobrevivente é a atriz Sharon Stone.
Passados alguns meses juntos na ilha, com direito a todo tipo de coisa que você possa imaginar, a atriz percebe que o homem está triste, calado e distante. Preocupada, ela pergunta o que está acontecendo e como pode ajudá-lo a recuperar a alegria.
Ele então responde:
— Já que você quer me ajudar, vá até a minha mala, coloque uma roupa minha, um chapéu, pinte um bigode no seu rosto com um lápis, vá para longe e depois comece a andar pela praia vindo na minha direção.
Confusa mas querendo agradar, ela faz exatamente isso. Quando ela se aproxima, ele corre até ela, dá um abraço de amigo e diz:
— Cara, você não vai acreditar quem eu estou pegando aqui na ilha!
Em Ítaca existe antes e depois. Existe espera, perda, retorno, nascimento, envelhecimento. As coisas importam porque podem acontecer ou não, porque podemos perdê-las, porque existe um momento certo para algumas delas. Em Ogígia não há urgência. Amanhã será maravilhoso, depois de amanhã também, e daqui a cinquenta milhões de anos Calipso provavelmente estará com a mesma aparência enquanto as mesmas ondas continuam quebrando na mesma praia. Quando nada precisa terminar, talvez nada precise realmente começar.
Séculos mais tarde, o filósofo Bernard Williams formulou uma versão moderna desse problema em seu famoso ensaio sobre “o tédio da imortalidade”. Se alguém permanecesse eternamente com a mesma personalidade, os mesmos interesses e os mesmos desejos, em algum momento poderia simplesmente esgotar aquilo que esses desejos conseguem oferecer. Mas, se essa pessoa mudasse indefinidamente para evitar o tédio, depois de alguns milhares (ou milhões) de anos talvez o ser resultante tivesse tão pouco a ver conosco que ficaria difícil dizer que um eu sobreviveu.
Mas nem sempre os deuses são tão solícitos ao oferecerem a eternidade, como veremos:
GRÉCIA: CUIDADO COM O QUE PEDE
Os gregos possuíam outro mito que parece ter sido criado por alguém particularmente desconfiado de contratos com divindades. Eos, a deusa da Aurora, apaixonou-se pelo mortal Títono e pediu a Zeus que tornasse seu amante imortal. Zeus aceitou o pedido, mas Eos esqueceu um pequeno detalhe: não pediu juventude eterna junto com a imortalidade.
No Hino Homérico a Afrodite, o desastre acontece lentamente. Durante algum tempo Títono continua belo e jovem ao lado da deusa, mas depois aparecem os primeiros cabelos brancos, a força desaparece e o corpo começa a se degradar. Eos continua jovem, porque para ela o tempo não produz o mesmo efeito, enquanto o homem que ela ama envelhece sem poder alcançar aquilo que normalmente encerra a velhice: a morte. Chega um momento em que ela o mantém afastado em um aposento, alimentando aquele corpo cada vez mais frágil enquanto a voz ainda continua existindo. Tradições posteriores transformaram Títono numa cigarra, eternamente vivo e emitindo seu som.
A Sibila de Cumas enfrenta uma ironia semelhante. Segundo Ovídio, Apolo promete conceder-lhe um desejo e ela pede tantos anos de vida quanto os grãos de areia que consegue segurar nas mãos. Novamente alguém esquece de incluir juventude no formulário. A tradição se tornou tão famosa que Petrônio preservou uma versão na qual a Sibila já está reduzida a uma existência miserável e, quando algumas crianças lhe perguntam o que deseja, responde apenas que quer morrer — frase que T. S. Eliot colocaria séculos depois na abertura de The Waste Land.
ÍNDIA: MIL ANOS NÃO ERA O SUFICIENTE
Na Índia encontramos uma variação ainda mais interessante, porque aqui o problema não é exatamente viver para sempre, mas acreditar que tempo suficiente permitirá finalmente satisfazer todos os desejos.
No Mahabharata, o rei Yayati é amaldiçoado com uma velhice prematura. O castigo é particularmente cruel porque sua mente continua cheia de desejos enquanto o corpo perde a capacidade de acompanhá-los. Yayati então pergunta aos próprios filhos se algum deles aceitaria receber sua velhice em troca da juventude.
Os primeiros não se mostram muito entusiasmados com a proposta, por razões compreensíveis, mas Puru, o filho mais novo, aceita. Yayati recupera o corpo jovem e resolve aproveitar a segunda oportunidade com bastante dedicação. Não durante alguns meses ou aqueles “cinco minutinhos e eu paro” que já destruíram incontáveis dietas, mas durante mil anos, entregando-se aos prazeres que acreditava terem sido roubados pela maldição. O texto fala de luxo, poder, experiências sensuais e até da companhia de uma apsara, uma dessas figuras celestes femininas que aparecem com frequência na literatura indiana.
Depois de mil anos Yayati descobre uma coisa bastante inconveniente: que não está satisfeito.
O desejo — conclui ele — não diminui quando é alimentado; cresce como o fogo quando recebe manteiga. Essa é uma ideia que atravessa grande parte do pensamento indiano e que encontraremos tanto no Hinduísmo quanto no Budismo. Existe sofrimento quando não conseguimos aquilo que queremos, mas também existe um problema escondido em conseguir aquilo que queremos: a mente se acostuma.
É basicamente o princípio que transforma o celular desejado durante anos em um objeto quase invisível em sua mão meses depois da compra. O restaurante fantástico da viagem perderia boa parte do encanto se você almoçasse nele todo dia. O luxo de hoje vira o padrão mínimo de amanhã, e então precisamos aumentar a dose para recuperar o mesmo efeito.
Yayati precisou de mil anos para perceber isso. Nós criamos Amazon, cartão de crédito, capitalismo e drogas sintéticas para realizar o experimento em velocidade industrial.
ALEMANHA: QUANDO O PRAZER TAMBÉM PRECISA DE FÉRIAS
A Europa medieval chegou a esse mesmo problema através de uma história que acabaria se tornando uma das grandes obras de Richard Wagner.
Tannhäuser provavelmente foi uma pessoa real, um poeta e menestrel alemão do século XIII, mas a história pela qual ficou famoso surgiu depois. Nas tradições dos séculos XV e XVI, ele entra no Venusberg, (Montanha de Vênus), uma espécie de reino subterrâneo onde a antiga deusa pagã continua vivendo depois da cristianização da Europa. A imagem é maravilhosa: o Cristianismo vence, os antigos deuses desaparecem, mas Vênus aparentemente aluga uma cobertura dentro de uma montanha e continua administrando seu resort de pecado em horário integral. Ali existe música, beleza, comida e prazer sexual sem limites. Tannhäuser permanece com Vênus durante um longo período, até começar a sentir uma vontade que a própria deusa não consegue compreender: quer voltar para o mundo dos homens.
Na tradição medieval, a história segue então pelo caminho cristão da culpa. Tannhäuser abandona o Venusberg, vai até Roma e implora ao papa Urbano IV por absolvição. O papa lhe responde que ele teria tanta chance de receber o perdão de Deus quanto o cajado seco que o Papa segura teria de florescer. Tannhäuser, convencido de estar condenado, retorna para Vênus. Três dias depois, o cajado floresce. Quando o Papa percebe o sinal e manda procurá-lo, o sujeito já voltou para a montanha — e provavelmente não estava online no WhatsApp.
Richard Wagner pegou essa tradição, misturou-a com a lenda do concurso de cantores de Wartburg e transformou tudo na ópera Tannhäuser, que estreou em 1845. E é na versão de Wagner que aparece com mais força aquilo que nos interessa aqui: o homem que se cansa do próprio Paraíso.
Quando a ópera começa, Tannhäuser já está saturado do Venusberg. Vênus não entende por quê. Ela continua bela, continua desejando-o e aquele mundo continua oferecendo exatamente os prazeres pelos quais os homens costumam arruinar suas vidas tentando obter. Mas Tannhäuser sente falta do céu, das estrelas, da passagem do tempo com as estações (lembre-se, ele está dentro de uma montanha) e do mundo exterior. Em determinado momento ele diz: “Em meio às alegrias, anseio pelo sofrimento“.
Não porque tenha descoberto alguma vocação masoquista, mas porque o prazer deixou de possuir contraste. Tannhäuser percebe que a dor também participa da experiência de estar vivo. Se nada ameaça a felicidade, se não existe ausência, espera ou perda, pouco a pouco a própria felicidade deixa de se distinguir do estado normal das coisas. Uma nota musical precisa do silêncio ao redor; talvez o prazer também precise de alguma forma de ausência para continuar sendo percebido como prazer.
O parentesco com Odisseu é enorme. Temos novamente um homem vivendo com uma mulher sobrenatural num lugar onde os desejos podem ser satisfeitos continuamente, e justamente por isso desejando sair. Odisseu sente falta de Ítaca. Tannhäuser sente falta até da possibilidade de sofrer. Ambos parecem perceber que existe alguma coisa na experiência humana que desaparece quando retiramos dela todos os limites.
IRLANDA: O PROBLEMA DE SER IMORTAL SOZINHO
Na tradição irlandesa encontramos outro paraíso do qual alguém acaba querendo voltar. Oisín, grande herói ligado aos Fianna, encontra Niamh Chinn Óir (Niamh dos Cabelos Dourados), uma mulher sobrenatural que chega montada num cavalo branco e o leva para Tír na nÓg, a Terra da Juventude.
Ali ninguém envelhece. Oisín permanece jovem, vive com Niamh, caça, participa de festas e desfruta de uma existência que, em teoria, resolve quase todos os problemas humanos. Até que sente saudade da Irlanda.
A história que conhecemos atualmente está preservada principalmente numa versão do século XVIII atribuída ao poeta Micheál Coimín, embora os personagens e muitos dos motivos pertençam a tradições irlandesas muito anteriores. E aqui encontramos novamente uma situação que começa a parecer piada cósmica: os seres sobrenaturais oferecem aos mortais juventude, prazer e liberdade da morte, e algum tempo depois o sujeito pergunta se não dá para dar uma passadinha em casa.
Niamh deixa Oisín voltar montado em seu cavalo mágico, mas avisa que ele não pode tocar o chão da Irlanda. Quando chega, Oisín descobre que o país que conhecia desapareceu. Seus companheiros morreram, os Fianna pertencem ao passado, os lugares mudaram e trezentos anos transcorreram enquanto para ele parecia ter passado muito menos tempo. Quando finalmente cai do cavalo e toca o solo, todo esse tempo o alcança de uma vez e ele se transforma num homem extremamente velho.
Essa história aponta para uma falha da imortalidade que o Bernard Williams apontou no “Tédio da Imortalidade“: não basta impedir você de envelhecer. Seria necessário preservar também tudo aquilo que permite que você reconheça sua própria vida.
Imagine permanecer com a aparência atual enquanto seus pais envelhecem, seus amigos morrem, seus filhos ficam velhos e os filhos deles também. Depois desaparece a rua onde você cresceu, a cidade muda completamente, o português evolui até sua forma de falar parecer tão arcaica quanto Camões soa para nós. Os países mudam de nome e aquilo que chamamos hoje de cultura vira matéria para arqueólogos.
Depois de tempo suficiente talvez até a própria humanidade mude de forma ou desapareça.
Você continua jovem. Mas a pergunta passa a ser: jovem em relação a quê?
JAPÃO: A MESMA ARMADILHA DO OUTRO LADO DO MUNDO
Uma história japonesa apresenta uma estrutura tão parecida que, quando colocamos as duas lado a lado, dá vontade de imaginar algum marinheiro irlandês perdido no Japão — mas não precisamos inventar conexões históricas onde não existem. Certas histórias podem nascer de forma independente simplesmente porque partem de medos humanos bastante universais.
A lenda de Urashima Tarō possui formas registradas no Japão desde pelo menos o século VIII. A versão moderna sofreu muitas transformações, mas o núcleo permanece reconhecível: Urashima viaja para um reino sobrenatural ligado ao mar, frequentemente identificado nas versões posteriores como Ryūgū-jō, o Palácio do Dragão, onde vive ao lado da princesa Otohime num lugar belíssimo e praticamente fora do tempo humano.
Depois de um período que para ele parece relativamente curto, Urashima resolve voltar para casa.
Quando retorna, ninguém o reconhece.
Sua família desapareceu, sua casa não existe e séculos se passaram. Antes da partida, Otohime havia lhe dado uma caixa com uma instrução simples: não abra. Como todo protagonista de mito que recebe uma caixa acompanhada de um aviso pra não abrir, Urashima naturalmente abre.
O tempo que parecia ter ficado suspenso finalmente o alcança. A semelhança com Oisín é impressionante, e talvez haja aí uma resposta para uma fantasia muito comum sobre imortalidade. Quando imaginamos viver para sempre, geralmente pensamos em nós mesmos continuando neste mundo. Só que o mundo não permanece o mesmo esperando. A imortalidade não seria apenas continuar vendo coisas novas; seria também assistir à destruição contínua de tudo aquilo que já conhecemos.
Depois de alguns milhares de anos, você teria mais lembranças de coisas inexistentes do que experiências compartilhadas com qualquer pessoa viva.
EUA: NEM O VAMPIRO ESCAPA DA DEPRESSÃO
Se hoje perguntarmos qual criatura melhor representa o fardo da imortalidade, muita gente provavelmente pensará imediatamente no vampiro. Só há um detalhe engraçado: o vampiro tradicional não tinha crise existencial nenhuma.
Nas tradições da Europa Oriental, o vampiro era normalmente um morto que saía da sepultura para atormentar familiares, atacar vizinhos, transmitir doença ou consumir a força vital dos vivos. Não passava as noites numa biblioteca com uma taça de vinho refletindo sobre Kierkegaard e a inutilidade da existência. Em muitas descrições, aliás, nem sequer era elegante: podia aparecer inchado, avermelhado e bastante diferente daquele modelo de aristocrata anêmico que posteriormente virou fantasia de Halloween.
A grande transformação começa na literatura do século XIX. Em 1819, John Polidori publica The Vampyre e apresenta Lord Ruthven, ajudando a trocar o cadáver folclórico pelo vampiro aristocrático, elegante, sedutor e integrado à sociedade. É particularmente divertido lembrar que a história surgiu no mesmo lugar (Villa Diodati) e na mesma semana (3 dias de junho de 1816) onde Mary Shelley começou aquilo que viraria Frankenstein. Algumas noites de escritores entediados conseguiram fornecer material para a cultura pop por mais de duzentos anos.
Depois vieram Carmilla, de Sheridan Le Fanu, e Drácula, de Bram Stoker. Mas mesmo Drácula ainda é visto principalmente de fora: ele é o monstro que invade a vida dos outros. Para o vampiro descobrir de verdade o peso da imortalidade foi preciso se colocar no lugar dele.
É aí que entra a escritora norte-americana Anne Rice.
Em Entrevista com o Vampiro, de 1976, Louis recebe quase tudo aquilo que Calipso oferece a Odisseu: juventude permanente, força, beleza, tempo praticamente ilimitado. Só que agora acompanhamos o sujeito durante esse presente e descobrimos que ele está profundamente infeliz.

Louis atravessa décadas e séculos tentando entender o que é, se Deus existe, se possui alma e qual sentido pode haver numa existência que continua indefinidamente enquanto todos os demais desaparecem. Relacionamentos acabam não apenas porque as pessoas se separam, mas porque uma delas pertence biologicamente ao tempo e a outra não. Cidades mudam, religiões perdem força, valores morais são substituídos e o próprio mundo que formou sua identidade vai ficando para trás. O vampiro moderno ficou muito mais interessante quando deixou de ser simplesmente algo que queremos matar e passou a representar algo que, secretamente, muita gente gostaria de ser.
Jovem para sempre. Bonito. Forte. Sem doenças. Com séculos para estudar, viajar e acumular dinheiro — porque se alguém continua pobre depois de quatrocentos anos de juros compostos, talvez a imortalidade realmente não seja o principal problema. Mas o vampiro traz um dilema fascinante que todos os outros mitos não trazem: você mataria outros em troca de sua juventude eterna?
EUROPA: A IMORTALIDADE COMO CASTIGO
A Europa cristã produziu ainda uma tradição na qual ninguém sequer tenta fingir que viver para sempre seja um prêmio. É a lenda do chamado Judeu Errante, figura cuja história aparece em diferentes formas medievais e depois se espalha pela Europa com nomes como Cartaphilus e Ahasverus.
Segundo uma das tradições, esse homem teria zombado de Cristo durante o caminho para a crucificação e recebido como punição continuar vivendo até a Segunda Vinda de Jesus. A lenda acabou ganhando ao longo dos séculos uma pesada carga antissemita e precisa ser entendida dentro desse contexto, mas o mecanismo da punição é interessante para nosso tema: Deus não o mata, não o tortura fisicamente e não o envia imediatamente ao Inferno.
Ele simplesmente não deixa o homem morrer.
Reinos aparecem e desaparecem; amigos e conhecidos envelhecem; gerações inteiras passam; e ele continua andando.
É praticamente o inverso da nossa obsessão contemporânea. Hoje temos empresários investindo fortunas em terapias antienvelhecimento, pesquisas de longevidade, criogenia e qualquer tecnologia que permita negociar alguns anos extras com a biologia. Na imaginação medieval, uma das piores coisas que poderia acontecer a alguém era justamente conseguir o que estamos tentando comprar.
Talvez porque sociedades acostumadas a guerras, epidemias e mortalidade infantil percebessem com particular clareza algo que nós conseguimos esconder melhor: uma vida longa não significa apenas acumular experiências. Significa também acumular despedidas.
MESOPOTÂMIA: PROCURANDO A ETERNIDADE
Há ainda um personagem que não se encaixa exatamente entre aqueles que ficaram entediados com a eternidade, mas é impossível falar sobre o desejo humano de não morrer sem passar pela Mesopotâmia.
Na Epopeia de Gilgamesh, uma das obras literárias mais antigas que conhecemos, o rei de Uruk vê seu amigo Enkidu morrer e entra em pânico. Pela primeira vez compreende que aquilo também acontecerá com ele. Gilgamesh então abandona praticamente tudo e parte em busca de Utnapishtim, sobrevivente do grande dilúvio a quem os deuses concederam uma forma de imortalidade.
Gilgamesh quer o segredo da Vida eterna, mas não consegue. Há inclusive uma planta capaz de restaurar a juventude, mas uma serpente a rouba enquanto ele se banha — porque aparentemente a tradição de animais atrapalhando os planos humanos começou cedo.
Gilgamesh volta para Uruk ainda mortal.
O interessante é que a epopeia não termina simplesmente com “que pena, ele fracassou”. A resposta que encontra é outra: aquilo que pode permanecer não é seu corpo, mas aquilo que construiu, as relações que teve e a cidade cuja muralha contempla ao retornar.
É quase a outra metade de Odisseu. Gilgamesh procura a eternidade e acaba voltando para casa. Odisseu recusa a eternidade e também acaba voltando para casa.
Talvez os dois tenham descoberto por caminhos opostos que o problema nunca foi apenas quanto tempo uma vida dura, mas as experiências e pessoas que deixamos para trás.
ISRAEL: A IMORTALIDADE NEGADA
Há uma história que normalmente lembramos quando pensamos na perda do Paraíso, mas raramente pelo ângulo que interessa aqui. No Gênesis, Adão e Eva são expulsos do Éden depois de comerem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, e o próprio texto explica o motivo de uma forma um tanto inquietante: agora que o homem conhece o bem e o mal, é preciso impedir que ele alcance também a Árvore da Vida (sim, é outra árvore) e “viva para sempre”; por isso querubins são colocados para guardar o caminho de volta ao Paraíso.
À primeira vista parece apenas a punição clássica pela desobediência, mas a tradição mística judaica acabou vendo algo muito mais profundo nessa passagem. No Zohar, o pecado de Adão não apenas recebe a morte como castigo: ele traz a morte para dentro do mundo, e a Árvore do Conhecimento aparece ligada justamente a essa nova condição em que bem e mal passam a coexistir. No século XVI, Isaac Luria levaria a ideia muito além. Segundo a Cabala luriana, a própria Criação já carregava uma espécie de fratura primordial: os “vasos” destinados a conter a luz divina se quebraram e centelhas dessa luz ficaram presas entre as klipots, as “cascas” associadas às forças de impureza. Adão teria sido criado quase no final desse processo para ajudar a separar essas centelhas e concluir o reparo, mas sua queda fez justamente o contrário: aquilo que estava sendo separado voltou a se misturar, bem e mal ficaram novamente embaralhados e a tarefa humana passou a ser o birur, o discernimento que separa uma coisa da outra, dentro de um processo maior de tikkun, reparação.
O problema na leitura cabalística não é simplesmente que Adão comeu a maçã e descobriu intelectualmente: “Ah, existe uma coisa chamada mal.” Não. A ideia é muito mais próxima de uma integração do bem e do mal. O homem passa de uma realidade em que essas forças poderiam ser discernidas de forma muito mais clara para outra em que elas se encontram embaralhadas. Em vez de imaginar Adão ganhando algo parecido com inteligência moral, podemos pensar que ele passou a habitar uma realidade moralmente ambígua.
Vista por esse ângulo, aquela estranha preocupação divina em impedir que Adão coma também da Árvore da Vida começa a fazer um sentido quase assustador: torná-lo imortal naquele momento seria tornar eterna também uma condição ainda quebrada. A existência humana deixa então de ser apenas a história de criaturas expulsas de um jardim e passa a ser a história de seres conscientes lançados num mundo onde o bem pode parecer mal, o mal pode se vestir de bem e cada escolha participa, em algum grau, desse trabalho de separar aquilo que chegou misturado. Talvez o preço / fardo da consciência seja justamente esse: Antes do fruto, Adão podia permanecer no Paraíso; depois de conhecer bem e mal, escolha e consequência, já não podia simplesmente viver para sempre dentro dele. E é difícil não lembrar de Odisseu: Adão está num Paraíso e, ao adquirir o conhecimento do bem e do mal, não pode mais permanecer eternamente ali. Odisseu está num Paraíso e, por já possuir toda a consciência, memória, desejo, saudade e identidade que fazem dele humano, não quer permanecer eternamente ali… Em ambos os casos, existe uma incompatibilidade entre uma espécie de consciência humana plenamente desenvolvida e um Paraíso congelado.
POR QUE SAIR DO PARAÍSO?
Depois de olhar essas histórias em conjunto, uma coisa fica clara: elas não estão dizendo exatamente a mesma coisa.
Títono e a Sibila sofrem porque receberam a imortalidade sem juventude. Oisín e Urashima permanecem jovens, mas o mundo não permanece junto com eles. O Judeu Errante recebe a longevidade já na forma de punição. Os vampiros modernos percebem o desgaste de atravessar sucessivas gerações sem pertencer inteiramente a nenhuma delas. Yayati descobre que o prazer não extingue o desejo e Tannhäuser percebe que até o prazer pode perder o sentido quando deixa de ter contraste, e o próprio sofrimento pode passar a ser desejável.
Odisseu continua sendo o caso mais incômodo porque Calipso aparentemente já resolveu quase todos esses problemas. Odisseu seria jovem, teria companhia, prazer, estaria seguro e não precisaria assistir Penélope morrer porque não iria saber nada do mundo “imperfeito”. Mas mesmo assim ele escolhe partir.
Talvez porque exista uma coisa que Calipso não consegue oferecer: uma vida humana, justamente porque toda experiência humana é construída em torno de limites.
Não podemos conhecer todas as pessoas, ler todos os livros, visitar todos os lugares ou viver todas as possibilidades que existem diante de nós. Escolher uma profissão significa deixar centenas de outras vidas profissionais sem viver. Escolher uma pessoa significa abandonar outras histórias possíveis. Passar uma tarde com alguém é gastar uma tarde que nunca voltará exatamente daquela maneira.
É terrível quando pensamos nisso por um lado. Mas talvez seja justamente por isso que aquela tarde importa.
Se tivéssemos tempo infinito, tudo poderia ser adiado. Não apenas até amanhã, mas por cem anos, dez mil anos ou um milhão. O livro poderia ser lido depois. A viagem poderia ser feita depois. A conversa poderia acontecer depois. Se não existe prazo algum, a própria ideia de “agora” perde parte de sua importância.
Quase três mil anos depois, continuamos procurando aquilo que Odisseu recusou. Alquimistas buscaram o elixir da longa vida, imperadores ingeriram substâncias que deveriam torná-los imortais — às vezes conseguindo apenas morrer mais rápido —, religiões prometeram eternidade e hoje laboratórios tentam descobrir quais interruptores genéticos controlam nosso envelhecimento. Talvez algum dia consigamos prolongar radicalmente a existência humana e então talvez a gente descubra que Homero estava fazendo uma pergunta muito mais séria do que parecia: Não se uma vida eterna seria possível. Mas se, depois de tempo suficiente, continuaríamos querendo viver a mesma vida.
POSFÁCIO: BLADE RUNNER
Uma fotografia antiga às vezes dói mais do que qualquer filosofia sobre a morte. Não porque mostre algo terrível, mas porque mostra alguma coisa perfeitamente comum que não existe mais. Uma mesa, pessoas sorrindo, alguém que ainda tinha cabelo, outro que ainda estava vivo, um cachorro deitado no chão, uma parede que depois foi derrubada. Naquele instante ninguém sabia que estava vivendo uma coisa irrepetível. Provavelmente alguém estava com pressa, alguém reclamou da comida, outro queria ir embora mais cedo. Só muitos anos depois percebemos que aquela foi a última foto naquele lugar, com aquelas pessoas. E que esse era o lugar do tempo onde você foi mais feliz.
Talvez seja esse o presente e a crueldade da consciência: quase nunca sabemos quando estamos vivendo uma última vez.
A última vez que sua mãe o pegou no colo provavelmente aconteceu sem nenhuma cerimônia. Em algum momento você brincou pela última vez com um amigo de infância e os dois foram embora acreditando que haveria outra tarde. Houve uma última conversa com alguém que morreu, uma última vez em que você entrou numa casa que fazia parte da sua vida, uma última noite em que uma determinada formação de pessoas esteve reunida no mesmo lugar. A vida não costuma colocar créditos na tela avisando que aquela cena não se repetirá. Nós simplesmente seguimos adiante e, anos depois, descobrimos que uma porta se fechou atrás de nós.
É justamente por isso que o filme Blade Runner apresenta um contraste tão bonito com todos esses mitos.
Roy Batty não recebeu a maldição da eternidade. Recebeu o problema oposto.
Ele é um replicante construído para viver apenas quatro anos. É mais forte que um ser humano, mais rápido, extraordinariamente inteligente e capaz de experiências que poucas pessoas jamais terão. Viu coisas que praticamente nenhum homem viu. Mas nada disso resolve o pequeno detalhe de que alguém decidiu, antes mesmo de seu nascimento, quando ele deveria morrer. Por isso Roy passa o filme fazendo aquilo que Odisseu se recusa a fazer: lutando desesperadamente por mais tempo.
Ele procura seu criador, exige respostas, tenta prolongar a própria existência. Não quer transcendência, não quer um paraíso, não quer compreender o Universo. Quer aquilo que qualquer animal encurralado quer quando percebe que está acabando: continuar aqui.
E então chega aquela cena final.
Depois de perseguir Deckard e ter literalmente sua vida escapando pelos dedos, Roy poderia simplesmente deixá-lo cair do prédio. Em vez disso, salva o homem que estava tentando matá-lo. Senta-se sob a chuva e, sabendo que não existe mais negociação possível, começa a recordar.
Ele não fala dos grandes conceitos, nem dinheiro, poder ou status. Fala do que viu. Lugares, luzes… acontecimentos impossíveis de serem testemunhados por pessoas normais e que, quando ele morrer, desaparecerão com ele. É aí que surge aquela imagem que atravessou o cinema: todas aquelas experiências serão perdidas no tempo, “como lágrimas na chuva”.
O que torna a cena tão triste não é simplesmente Roy morrer. É perceber que um universo inteiro morre com ele.
Toda pessoa leva consigo uma versão do mundo que jamais existirá novamente. Ninguém viu exatamente as mesmas coisas que você viu, da mesma posição, carregando as mesmas lembranças e sentindo exatamente o que você sentiu naquele instante. Mesmo duas pessoas que passaram a vida juntas não viveram a mesma vida. Cada consciência é uma espécie de arquivo secreto do Universo que começa a ser gravado quando nasce e é destruído quando morre.
Talvez seja justamente isso que Roy compreenda naquele telhado. Ele passou sua curta existência fugindo da morte porque acreditava que mais tempo resolveria o problema. Nos últimos segundos, porém, parece fazer as pazes com o fato de que não conseguirá guardar nada. Nem as batalhas que testemunhou, nem as estrelas, nem as pessoas, nem a própria memória de ter existido. Tudo desaparecerá com ele. Mas desaparecer não significa que não aconteceu.
Passamos boa parte dela tentando prolongar os momentos agradáveis e fugir daqueles que desejamos que terminem logo. Queremos que determinadas pessoas permaneçam, que determinados corpos não envelheçam, que determinadas fases nunca acabem. É absolutamente humano. Roy Batty queria mais vida. Gilgamesh também. Nós também queremos.
O problema talvez esteja em imaginar que mais e melhor sejam sempre a mesma coisa.
Se Odisseu permanecesse eternamente com Calipso, jamais haveria uma última noite em Ogígia. Mas também não haveria retorno a Ítaca. Não existiria o abraço de Telêmaco depois de vinte anos, porque não existiria a distância que tornou aquele abraço necessário. Não existiria Penélope envelhecendo, mas também não existiria a história de duas pessoas tentando reencontrar aquilo que o tempo quase lhes tirou. No fim, Calipso oferece a Odisseu uma existência onde nenhuma dessas coisas precisaria acabar. Ele olha para o mar e prefere voltar para um mundo onde tudo mudará e ele próprio desaparecerá algum dia.
Roy Batty, séculos depois, olha para a chuva e gostaria apenas de alguns momentos a mais.
Talvez entre os dois esteja a medida possível para nós: não desejar tanto a eternidade a ponto de esquecer de viver, nem temer tanto o fim a ponto de deixar de perceber aquilo que está acontecendo agora. A vida ganha peso porque existe o tempo, e o tempo ganha peso porque termina.
Porque um dia todas as nossas memórias também serão lágrimas na chuva. Mas hoje ainda estamos aqui.
Essa talvez seja a resposta que Blade Runner oferece às histórias de Calipso, Tannhäuser e Yayati. Não precisamos de uma experiência infinita para que ela seja real. Uma música não perde seu valor porque termina; talvez justamente o contrário. O último acorde não apaga aquilo que ouvimos antes. É ele que transforma uma sucessão de sons numa obra completa.
Nós provavelmente nunca faremos as pazes completamente com isso. Continuaremos tentando guardar fotografias, restaurar filmes antigos, gravar vozes, escrever livros, construir monumentos e salvar centenas de fotos do cachorrinho ou do filho na nuvem ou HDs, como se estivéssemos tentando convencer o Universo a não esquecer que estivemos aqui. Talvez seja uma das coisas mais humanas que fazemos.
E talvez não haja nada de errado nisso.
A consciência da morte não precisa transformar a vida numa contagem regressiva. Pode fazer exatamente o contrário: lembrar que certas coisas não são ensaios.
Uma conversa pode ser a conversa.
Uma viagem pode ser a viagem.
Uma tarde qualquer, aparentemente banal, pode estar se tornando naquele instante uma das lembranças que você carregará pelo resto da vida sem saber.










Sim, eu lembrei de Highlander, mas o post já estava grande demais 😛